No caso do clima, nós
não somos os dinossauros. Nós somos o meteoro. Não estamos apenas em perigo -
nós somos o perigo. António Guterres
O Dia Mundial do Ambiente (DMA), assinalado no dia 5 de
Junho, teve este ano como lema “Our Land, Our Future. We are #GenerationRestoration”,
com apelos a 'acelerar' o restauro dos territórios, a resiliência à seca e à
desertificação (todo um programa…) – ver p.ex. aqui
ou aqui.
Na ocasião, o secretário-geral da ONU fez mais um dos seus discursos em registo
dramático – ver aqui,
aqui
ou aqui. Como já
aconteceu em várias outras ocasiões (de que dei nota aqui
ou aqui),
Guterres voltou a avisar que o mundo caminha para um “inferno climático” e que a humanidade está num “momento decisivo” na luta contra as
mudanças climáticas, enfatizando que a acção global deve ser “sem precedentes” e recomendando o que as
empresas e os países — especialmente do G7 e do G20 — deverão fazer durante os
próximos 18 meses para garantir um “futuro
habitável para a humanidade”. Talvez por ter feito estas declarações no
Museu de História Natural em Nova Iorque, Guterres recorreu a uma analogia com
o meteoro que levou à extinção dos dinossauros: “Nós somos o meteoro. (…) Nós
somos o perigo” (ver citação no início do post). Como referi anteriormente (p.ex. aqui),
fazer esta afirmação sem a contextualizar acarreta o risco de dar a entender que
aquele “nós” é toda a humanidade, quando, na verdade, os verdadeiros responsáveis
são uma minoria dos seres humanos que se vêm comportando como agentes do
ecocídio global. Só que ao contrário do que afirmou Guterres, ‘nós’ também somos
os dinossauros, pois faremos igualmente parte da lista de vítimas do ecocídio
em curso – ver p.ex. aqui.

Como realçado no artigo do Público
citado acima, Guterres indignou-se desta vez contra os que apelidou de “padrinhos do caos climático”, ou seja,
as indústrias de combustíveis fósseis (CFs) que fazem greenwashing, lobbying e publicidade
quando e onde bem lhes apetece, ao mesmo tempo que arrecadam lucros recorde e recebem
milhões em subsídios financiados pelos governos. A autora do artigo (Andréia A. Soares) destaca a
comparação feita por Guterres entre a ‘normalização’ da publicidade ao tabaco
no passado e a da publicidade actual às petrolíferas, e afirma: “Achávamos normal. Hoje ficaríamos
escandalizados ao ver um desportista a promover algo que vicia, provoca doenças
e pode matar. Ainda que muitos carreguem nos ombros, nas suas camisolas, nomes
de casas de apostas ou marcas de bebidas.” A jornalista parece esquecer-se que
p.ex. a companhia aérea Emirates (estampada nas camisetas de jogadores e adeptos) patrocina o
Benfica, para além do Real Madrid, o AC Milan ou o Arsenal, entre outros. E o transporte
aéreo é dos que mais contribuem para as emissões globais!... Ou seja, alinha
com a proibição da publicidade a CFs, mas nada diz sobre estendê-la às
companhias aéreas e outras indústrias poluentes... Mais à frente escreve: “O paralelo que Guterres estabelece entre o
tabaco e os combustíveis fósseis faz sentido. E o mesmo se pode dizer da
proibição de anúncios ou patrocínios vindos de empresas ligadas ao petróleo,
gás ou carvão. Um grupo internacional de médicos publicava nas nossas páginas,
esta semana, um artigo de opinião reivindicando exactamente isso: a urgência de
mobilizar a União Europeia para proibir a publicidade a combustíveis fósseis, a
exemplo do que se fez há mais de duas décadas relativamente ao tabaco.” Estranhamente
(ou nem tanto), quando é para boicotar a pérfida Rússia e o seu líder demoníaco,
podem reabrir-se centrais a carvão e continuar a extraí-lo da terra, como fez a
Alemanha... Também já percebemos que o Pacto Ecológico Europeu é sacrificado face
às contingências políticas e económicas do momento – como testemunham Jannick Janssen
(analista do Centro Jacques Delors) e Viriato S. Marques (VSM), citados neste outro artigo. Janssen defende: “O que
temos visto na campanha para as eleições europeias, no entanto, é «um recuo
substancial» dos compromissos ambientais, notou. «Partidos liberais e
conservadores defendem muitas vezes a reversão de medidas importantes do Pacto
Ecológico Europeu, como a eliminação gradual das vendas de veículos com motor
de combustão até 2035»”. Por seu lado, VSM afirma sem rodeios: “Os projectos que o Governo do PS aceitou com
aplausos, e que o Governo do PSD vai também aceitar, de mirtilo intensivo,
olival intensivo, amendoal intensivo, abacate, em terrenos semidesérticos, no
Algarve e no Alentejo, são financiados por capitais privados de fundos de
investimento — dinheiro que é feito para se reproduzir o mais rápido possível —
e por financiamento europeu. (…) Tornar
os populistas os responsáveis por isto seria uma caricatura, não é? (…) Não foram os populistas que impediram a
aprovação no PE da legislação para controlar os produtos químicos que causam a
morte das abelhas. Foi a indústria química, que produz esses produtos. O PE e a
Comissão Europeia são permanentemente alvos de pressões, seduções e de
recompensas por parte dos sectores económicos mais significativos”.
Resumindo as afirmações de VSM, o artigo destaca que “É preciso pedir responsabilidades aos partidos do centro, aqueles que
têm governado — Portugal e a Europa. «Custa-me que as pessoas que tinham a
obrigação de ter uma visão mais aberta dos riscos que corremos venham, em nome
dos galões democráticos, fazer dos populistas o bode expiatório da sua própria
incompetência»”.

O artigo do Público citado no início deste post remata assim: “Ofereço um exemplo: há um quarto de século, a selecção portuguesa de
futebol tem como patrocinadora oficial uma petrolífera. Hoje achamos normal. Quando
ficaremos escandalizados?” A minha resposta a esta última pergunta é que, pela
forma como as pessoas foram condicionadas a aceitar as falácias do marketing sem se questionarem, fazendo mesmo
de si próprias veículos de publicidade (e pagando para isso!), talvez não tão
cedo... Principalmente, se os media
dominantes não passarem a assumir uma posição crítica perante os poderes instalados,
proporcionando uma efectiva elucidação dos seus públicos.

Voltando ao seu discurso por ocasião do DMA, o líder da ONU
agradeceu aos jovens activistas climáticos que pressionam os decisores
políticos para agir: “Vocês estão do lado
certo da história. Vocês falam pela maioria. Continuem assim; não percam a
coragem, não percam a esperança”. Se as palavras (ou os protestos) dos jovens tiverem
tanto efeito como as de Guterres, não vamos longe!... Quanto à possibilidade de
mitigar de facto a catástrofe ambiental em curso, a inconsequência dos
sucessivos discursos dramáticos de António Guterres e o completo desdém por parte do poder
político e económico em relação às suas mensagens e apelos (ver também o que escrevi aqui), levam-me a questionar
se o próprio Secretário Geral da ONU não será já olhado por muitos como um dinossauro
em vias de extinção…
P.S. Num artigo de opinião recente, Ana Cristina Leonardo listou, em tom irónico, as múltiplas
e profundas preocupações que Guterres tem expressado publicamente de forma pungente
ao longo da sua carreira na ONU.