 |
| (C) Maximilien Lamy/AFP |
A “época de incêndios” tem estado ao rubro na Europa nestas
últimas semanas, mas este ano (até agora…) não é Portugal que está na ribalta
mas sim, principalmente, a Espanha e a França, com mega-incêndios a assolarem os
dois países – ver p.ex.
aqui
ou aqui. As notícias e reportagens das cadeias internacionais focam-se essencialmente
no dramatismo dos impactos humanos: pessoas afectadas directamente ou deslocadas,
campos agrícolas e negócios destruídos, a proximidade de grandes cidades, os
esforços heroicos dos bombeiros no combate às chamas. O adjectivo ‘unprecedented’ (sem precedentes) é usado
ad nauseam para nomear aquelas calamidades,
como foi também usado para caracterizar as recentes ondas calor naqueles países
– para além de não corresponder à verdade, só vai alimentar os ‘negacionistas
climáticos’, que vão alegar que se trata de exageros dos ‘ecologistas fanáticos’…
- ver p.ex. este
meu post de 2023. Admito que estas abordagens
sejam lícitas e até expectáveis, mas, como escrevi anteriormente (post de 2022), naquelas reportagens lamenta-se
muito menos os milhares de árvores e outras plantas ardidos, os solos
destruídos e as paisagens devastadas. Há um vilão que surge reiteradamente em
muitas narrativas noticiosas: a mudança climática (antropogénica) e as ondas de
calor associadas - ver p.ex. aqui. É inegavelmente um factor potenciador, mas como escrevi no post de 2022 já citado, não é a causa
profunda do descalabro que se repete ano após ano. A sua identificação requereria
uma análise sistémica que os media (na
sua maioria) não se dispõem, ou não se atrevem, a fazer (mas ver no final deste post). Como
defendi, aquela causa prende-se com uma conjugação de factores: o desastre da
gestão e ordenamento do território (com erros acumulados semelhantes nos
diferentes países), poderosos interesses económicos instalados e o modelo económico
dominante que privilegia o curto-prazismo do lucro fácil e a ganância sem
freios. Estes dois últimos factores estão também na raíz da incapacidade ou da
inércia política na mitigação da crise climática e da crise ambiental – ver p.ex.
o meu
post de 2023 citado acima. Mesmo
um projecto jornalístico dedicado às questões ecológicas como o francês Reporterre,
tem insistido agora muito mais nos impactos humanos directos e no papel da mudança
climática (apoiando-se em dados históricos sobre a evolução dos incêndios), do
que no ordenamento do território – ver p.ex. aqui.
No entanto, em 2025, tinha entrevistado a filósofa francesa Joëlle Zask (aqui),
que deu destaque ao papel central da gestão florestal desastrosa em França (e
noutros países), para além do efeito intensificador da mudança climática. De
notar que muitos media insistem em
chamar ‘florestas’ às monoculturas de pinheiro (ou de outras árvores de
produção), que surgem por exemplo nas imagens das reportagens do mega-incêndio
na Gironda, uma designação enganosa e perniciosa que também é usada
recorrentemente nas notícias dos OCS nacionais sobre os incêndios dos últimos
anos.
Recomendo a leitura (ou releitura) dos meus posts de 2022 (já citado) e de 2023 (aqui)
sobre o tema dos incêndios estivais - neste último desenvolvo o conceito de
Piroceno (a Era do Fogo) proposto pelo historiador norte-americano Stephen J.
Pyne. Joëlle Zask também usa a mesma designação (ver aqui) mas,
enquanto Pyne se foca na evolução histórica e ecológica, Zask centra-se mais
nas causas político-económicas (modelo económico capitalista e mercantilista,
abandono do interior, mentalidade tecnocrática) e na filosofia cívica (passividade,
alienação).
Sugiro também a leitura de um artigo de opinião de Nuno M. Santos (especialista em planeamento regenerativo)
escrito a propósito das tempestades de Fevereiro, mas que versa também o
flagelo estival dos incêndios, defendendo que ambos estão estreitamente ligados
e que a sua mitigação requer uma mesma estratégia: uma gestão sensata dos
ecossistemas agroflorestais e das paisagens rurais.
Sobre os recentes mega-incêndios em Espanha e França,
recomendo dois vídeos curtos dos canais internacionais France24 (aqui) e DW (aqui), que
destoam do registo mais comum (sensacionalista ou simplista), recorrendo a entrevistas
com convidados que transmitem visões sistémicas sobre o tema: Alexander Held (Senior
Expert of the Resilience Programme for Integrated Fire Management) e Stephen J. Pyne, respectivamente.
Sem comentários:
Enviar um comentário