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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Respigos de Verão (1) - crise climática: sintomas, causas e negacionismo económico

The Cleaners (2019), Julie Nahon

Retomo o formato que ensaiei neste blog na Primavera deste ano (aqui) para partilhar algumas leituras ou visionamentos dos últimos meses, tentando ao mesmo tempo contrariar a habitual tendência para os ‘fait-divers’ da época estival – também apelidada de ‘silly season’. Esta é a 1ª mão-cheia de respigos - a 2ª pode ser lida aqui.

Começo com o tema da crise ambiental e, em particular, a mudança climática, que continua a ser o tópico dominante da atenção mediática, muitas vezes em detrimento de outras componentes daquela crise igualmente relevantes (escrevi sobre isso aqui e aqui). Aquela cobertura mediática tem gerado, ora uma ansiedade paralisante (‘eco-ansiedade’) nalgumas pessoas (ver p.ex. artigos recentes nas revistas The Lancet e Nature), ora apatia, frustração ou mesmo rejeição, noutras. Estas reacções devem-se em grande medida, por um lado, ao constante (e aparentemente imparável) agravamento da crise climática – quase sempre noticiado de forma dramática (ver mais adiante) - e, por outro, à inacção política ou à ineficácia das acções levadas a cabo por governos e outras instituições nacionais ou internacionais (ver p.ex. aqui ou aqui). Já a minha maior frustração tem sido a constatação da desvalorização ou da quase ausência de menção, na maioria das notícias sobre alterações climáticas, da ligação entre a crise ambiental e o modelo económico dominante (e os modos de vida a ele associados), que é sem dúvida a sua causa profunda, como tenho defendido aqui ou aqui. Denomino esta atitude dominante por negacionismo económico, que considero mais grave do que o chamado ‘negacionismo climático’, por aquele estar ainda mais disseminado e enraizado (como bem sabem os decrescentistas – ver p.ex. aqui ou aqui).


O jornal Público fez um destaque especial de 12 páginas na sua edição de 19 de Agosto sobre o estado do planeta – “A Terra em estado crítico” (edição impressa) ou “O ano de todos os avisos da Terra” (edição online). O enfoque foi essencialmente sobre a crise climática e os seus impactos catastróficos - ondas de calor, incêndios, inundações e outros eventos extremos. O artigo central faz uma listagem desses eventos mais recentes e junta-lhe os diagnósticos alarmantes do IPCC e da Organização Meteorológica Mundial, assim como alguns depoimentos de climatólogos e outros investigadores. Entre os vários artigos adicionais (sobre impactos na saúde ou sobre prioridades políticas nacionais e europeias) e os testemunhos de 11 personalidades nacionais e internacionais, tecem-se considerações sobre o caos climático - como se a catástrofe ecológica se limitasse ao clima -, atribuindo as suas causas à queima de combustíveis fósseis, às políticas dos governos populistas de (extrema-)direita ou às tendências negacionistas ou ecocidas de parte da humanidade. Mas (quase) nem uma palavra sobre o sistema económico que está na sua génese! Na verdade, num dos testemunhos, a escritora/jornalista brasileira Eliane Brun afirma que “o capitalismo destruiu não só a casa-planeta como o instinto de sobrevivência da espécie humana” e o filósofo Viriato Soromenho-Marques refere-se à civilização industrial da modernidade como responsável pelo ecocídio em curso, além de acusar a política e a economia de analfabetismo científico, e os políticos nacionais e europeus de falta de proactividade. E sobre saídas do imbróglio, fala-se sobre ‘soluções’ essencialmente técnicas/tecnológicas para atingir a neutralidade carbónica, sobre a necessidade de adaptação, sobre a importância da ciência, do conhecimento e da educação (Luisa Schmidt), e sobre a esperança depositada nos mais jovens. Este é aliás um tema do editorial desta edição, onde transparece uma desresponsabilização dos ‘adultos na sala’ (a geração que teve/tem poder de influência ou de decisão) e uma delegação da responsabilidade por eventuais acções consequentes nas novas gerações – que, alegadamente, só têm de crescer para nos salvar! Curiosamente, o Bartoon desse mesmo dia denuncia a hipocrisia desta atitude. O grande 'elefante na sala' que o Público não teve a coragem de nomear e a causa profunda do actual estado de calamidade é - como vários autores, pensadores, cientistas, etc. têm defendido, alguns há décadas! - o sistema económico dominante e os interesses instalados que o mantêm, assim como a visão de mundo que lhe está associada, que, por sua vez, promovem modos de vida que têm conduzido ao consumo insustentável de recursos não renováveis e à destruição ambiental (incluindo, mas não se limitando, às alterações climáticas), assim como a brutais injustiças sociais. Escrevi sobre isto várias vezes: aqui, aqui, aqui ou aqui. Alguns dias mais tarde (21 Ago) o Bartoon acerta na mouche com o dilema: optar pela economia ou pelo planeta? Nesse mês, o cartoon de Luís Afonso pôs o dedo na ferida mais duas vezes, denunciando as evidentes contradições das preocupações políticas nacionais ou internacionais: aqui (aeroporto Lisboa) e aqui (procura global de petróleo). 
No final de Julho, a Comissão Europeia divulgou um relatório do Joint Research Center sobre o impacto das mudanças climáticas na procura turística nas diversas regiões da Europa, que introduz mesmo um novo parâmetro criado para o efeito – o 'Tourism Climatic Index' (um indicador do conforto humano relativo ao clima)! Segundo uma nota de imprensa, prevê-se que as regiões costeiras do sul percam turistas durante o verão, especialmente em cenários de aquecimento de 3°C e 4°C, enquanto as regiões costeiras do norte da Europa registarão um aumento da procura. Em todo o continente, a procura turística cairá em Julho e crescerá em Abril, mas o relatório prevê que o turismo continuará a crescer(!) apesar das mudanças sazonais previstas. Sobre os impactos negativos do próprio turismo no clima e no ambiente, nem uma palavra... As projecções do relatório e outros dados recentes do European Travel Commission originaram notícias com títulos a condizer – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. Constata-se portanto que para a indústria do turismo os interesses económicos também se sobrepõem às preocupações ambientais. Ainda a propósito de hipocrisia e contradições, não posso deixar de destacar o contraste entre o dramatismo da edição especial do Público de 19 de Agosto e o registo fútil e despreocupado do suplemento Fugas dessa mesma edição!

Previsões da evolução da procura turística em diferentes cenários climáticos

Mas não sou o único a comentar esta edição do Público, embora destacando aspectos distintos. Uma semana depois, nas páginas do próprio jornal, António Marujo (editor da publicação online Sete Margens) elogiou a iniciativa do destaque mas aponta-lhe duas falhas: a omissão das mensagens do Papa Francisco sobre o tema, em particular na encíclica Laudato Si’ (onde fez aliás a ligação entre a crise ecológica e o modelo económico – ver p.ex. aqui), e a ausência de referência à guerra Ucrânia e aos contributos da indústria militar para as emissões de carbono. Marujo afirma: “Só um mundo desarmado (quer dizer isso mesmo: sem armas) e com mais democracia permitirá eficácia no combate à tragédia climática”; e conclui: “
estamos a viver a consciência do abismo e a absoluta inconsciência de continuar a caminhar para ele, porque quem manda no mundo quer saber apenas de si e do seu dinheiro”.


O outro aspecto menos positivo do destaque do Público do dia 19 de Agosto foi o recurso ao sensacionalismo (basta ver as fotos escolhidas para a capa e que se estendem para a contracapa - ver acima) e ao alarmismo - em contradição com as intenções expressas no editorial (já citado acima). Não concordo que se escamoteie a gravidade da calamidade ambiental, mas defendo que se usem formas de comunicar que não agravem a tendência para o sensacionalismo em que os media se deixaram enredar e que, no caso da mudança climática, são contraproducentes. Numa das suas crónicas no próprio Público em Julho, António Guerreiro tinha escrito sobre aquilo que apelidou sarcasticamente de ‘
olimpíadas da catástrofe’: “todos os dias havia recordes de temperatura a serem atingidos, na terra e no mar, aqui e nos antípodas. O efeito deste desporto fatídico é o de criar um desejo inconfessável de superação, um amor pelo destino trágico, um amor fati.” E deixa a pergunta: “Alguém consegue ver hoje no objectivo da ‘descarbonização’ o esboço de uma vontade de interromper a lógica de extracção dos recursos como se eles fossem infinitos?No mês seguinte volta ao tema, comentando um outro artigo, da autoria de Carlos Antunes, no mesmo jornal, onde defende que é necessário aprender a resistir à vertigem do alarmismo climático sem, no entanto, negar a realidade. Por sua vez, o engenheiro geógrafo Carlos Antunes tenta responder à pergunta: como fugir ao alarmismo climático sem perder a credibilidade? Por um lado, perante o registo usado em vários artigos sobre os impactos das alterações climáticas – p.ex. sobre a quantificação de mortes provocadas por ondas de calor (aqui ou aqui), ou sobre o colapso da corrente atlântica AMOC (aqui) -, confessa-se perplexo perante a “falta de rigor científico nas afirmações, nas conclusões ou na sua interpretação por parte da comunicação social em geral”. E acrescenta: “Fico também preocupado com quem comunica ciência e traz estas notícias sem as enquadrar devidamente, sem explicar os pressupostos, as limitações da sua investigação e, sobretudo, a incerteza das conclusões. (…) Não sendo falsa, a notícia conduz à perceção errada da verdade científica e, consequentemente, aumenta a iliteracia e as narrativas que alimentam fake news”. Por outro lado, refere-se ao alarmismo climático resultante da divulgação de estudos científicos baseados em métodos com muitas incertezas – modelações matemáticas e análises estatísticas -, que geram dúvidas ou mesmo descrédito. Conclui afirmando: “Face às ameaças das notícias falsas, do jornalismo sensacionalista, da desinformação, da iliteracia científica e da falta de boa comunicação em ciências, é urgente um maior investimento do país no jornalismo científico, em programas educativos, programas de debate ambiental e climático na comunicação social, bem como na boa comunicação de ciências.


Ainda a propósito de alarmismo climático, no mês de Julho, os media nacionais (ver p.ex. aqui ou aqui) e internacionais (ver p.ex. aqui ou aqui) noticiaram novas declarações dramáticas do secretário-geral da ONU António Guterres (aqui), na sequência da divulgação de mais um relatório de cientistas climáticos que confirma a ligação entre os recentes eventos meteorológicos extremos e a mudança climática induzida pela acção humana. Nessa conferência de imprensa, Guterres afirmou: “As alterações climáticas chegaram, são assustadoras e isto é só o início. A era do aquecimento global acabou, chegou a era da ebulição global”. Quase todas as notícias deram destaque à expressão ‘ebulição global’, mas a sua utilização não foi bem acolhida por alguns cientistas climáticos – ver p.ex. aqui ou aqui. Guterres voltou a apelar aos líderes políticos que parem com as hesitações e desculpas: “deixem de esperar que os outros ajam primeiro. Simplesmente já não há tempo para isso… (…) o nível dos lucros dos combustíveis fósseis e da inação climática é inaceitável”. Já me tinha referido anteriormente (aqui) aos potenciais efeitos contraproducentes de dessensibilização, indiferença, descrédito ou apatia provocados pelo uso reiterado deste tipo de apelos dramáticos e da manifesta hipocrisia política a nível global – alguém ainda se lembra das diversas declarações de “emergência climática” durante o ano 2019? (ver p.ex. aqui ou aqui)
Antes de prosseguir, deixo uma interrogação que é, ao mesmo tempo, uma dúvida lícita e uma provocação: será que este alarmismo ou sensacionalismo das narrativas mediáticas e políticas é genuíno? Ou terá por detrás uma intencionalidade dissimulada de provocar uma sensação de frustração e de impotência que desmobiliza os cidadãos em vez de os motivar a ser pro-activos? Sim, porque só uma pessoa muito ingénua ou equivocada poderá pensar que os decisores políticos, comprometidos com os poderes económicos e financeiros, vão realmente fazer o que seria necessário para mitigar a crise ambiental global - mesmo que prometam investimentos em tecnologias alegadamente salvíficas.

Num artigo de opinião sobre os vários sintomas da catástrofe climática em curso, o jornalista Patrick Mazza (aqui) recordou os avisos que o climatólogo James Hansen tinha deixado 35 anos antes aos governantes em Washington e que terão caído em saco roto. Perante a ineficácia das políticas de mitigação das últimas décadas, Mazza acaba por fazer a apologia do decrescimento como alternativa incontornável ao modelo económico dominante: “I confess, as someone who has been writing about climate disruption almost since Jim Hansen went up on Capitol Hill, and who has worked to bring on climate solutions much of recent decades, I have been skeptical of degrowth. It has been hard to see how it can be reached through the practical politics of the day. But decades of seeing the problem only become worse while actions to address it have hardly made a dent drive me to believe the only practical solutions are radical. We need to change course as a world, and quickly, or leave a legacy of chaos to our children. We have to consider degrowth.”


Num artigo ainda mais contundente, o jornalista
Jonathan Cook traça um retrato arrasador da dissonância cognitiva e da desfaçatez por detrás da inacção climática. Transcrevo alguns excertos: “So how did we reach this point of abject failure: where the greater the scientific consensus, and real-world evidence, the smaller the impact that consensus has on decision making? The astonishing disjunct between threat and response is possible only because the oil lobby has historically shaped, and continues to shape, popular understanding of the gravity of what lies ahead. Cognitive dissonance reigns. (…) Throughout the 1990s, Big Oil successfully sabotaged meaningful climate action by pressuring western states to sign an energy treaty tying their hands on cuts to fossil-fuel use. That was for a good reason. Under the capitalist system, the primary duty of oil corporations – like other corporations – is to maintain profitability and guarantee value for investors and stockholders. Ethics never got a look-in.” Cook critica também o enfoque na mudança individual devido às suas evidentes limitações. Destaca, por outro lado, os poderosos interesses instalados que não mostram qualquer interesse em mudar o sistema económico: “Corporate money in politics meant the political class was in no mood to take on the oil industry, whatever the scientists were saying. In any case, politicians, desperate for re-election, were not about to start questioning the precepts of capitalism in a two-party system in which both parties were expected to worship the model of endless economic growth. The establishment media was embedded in the same network of interconnected corporations that profited from an oil-based economy. Their own short-termist goals depended on shoring up an irrational faith among the public in eternal economic growth on a finite planet.” Denuncia ainda a falácia dos chamados ‘Pactos Verdes’ e das metas de descarbonização: “Recent reports show that ethical and green investment funds have poured money into fossil-fuel companies after those firms rebranded themselves. The oil giants’ profits have again hit record levels. Under the so-called Green New Deals, nothing fundamentally changes. We still drive our own cars in pretty, individualised colours. We still holiday abroad. We still shop in large supermarkets with everything – including year-round exotic fruit flown in from abroad – wrapped and protected in oil-based plastics. We are still encouraged through advertising to consume as much as possible and throw away items of new technology – from personal computers to phones – every few years through planned obsolescence. But this individualised, competitive, wasteful way of life is being given a makeover. Cars are now hybrids or electric. Holidays are “carbon offset” somehow. Plastic on our food is described as recyclable. Advertising now explains to us how all the stuff we buy is saving the planet. (…) The new watchword is “net zero”. But in truth, it is a giant psychological operation (psyop), as climate scientists have gradually started to appreciate. In 2021 a group of three leading academics admitted that for years they had been duped into championing the promises of the Green New Deal. Technological fixes, such as carbon capture, offsetting and geoengineering, were «no more than fairy tales», they warned. Net zero policies «were and still are driven by a need to protect business as usual, not the climate».” Critica ainda os movimentos de luta contra a crise climática por apoiarem os ‘Pactos Verdes’ e por não se oporem frontalmente ao ‘investimento’ ocidental na guerra da Ucrânia: “Significant sections of the protest movement itself have been hoodwinked into believing the Green New Deal offers good-faith solutions – despite the fact that it has been hijacked to disguise business as normal. As a result, the elephant in the room – the inherent, self-destructive tendencies of capitalism – is pushed by protesters to the sidelines or out of sight completely. Protests are invariably restricted to policy failures or government U-turns. (…) In recent months [Greta Thunberg] has become an increasingly high-profile partisan in the Ukraine war, effectively greenwashing the West’s cynical proxy fight against Russia on behalf of its war and energy industries. The Ukraine war, provoked all too predictably by Nato expansion to Russia’s borders, has offered enormous profiteering opportunities for the West’s military, weapons and oil industries.” Finalmente identifica as grandes corporações industriais e financeiras multinacionais como principais responsáveis pela actual policrise, que alia à emergência climática as crises económica, social e democrática, e por um eventual colapso societal: “Western publics are confused, embittered and divided – the ideal conditions in which inertia reigns and Big Oil can carry on as normal. With no one in the mainstream grappling with the reality of what lies ahead, leading financial institutions have been free to pretend that capitalism’s relentless growth paradigm can be squared with sustainability. (…) The climate emergency, and the wider ecological crisis, will put this kind of neoliberal orthodoxy under ever greater strain. Without a meaningful response, something will have to give. Already, the twin pillars of the West’s liberal democratic order are starting to crumble: the commitment to free speech and the right to protest. Ahead lie ever more unaffordable energy bills, empty supermarket shelves, floods and heatwaves, wasted expenditure on resource wars, and the more general symptoms of ecological collapse. Burying our heads in the sand a little longer won’t make the coming battle go away. It will just make survival even less likely.”


Regresso ao jornal Público para repor alguma justiça na minha avaliação dos seus conteúdos e elogiar a publicação da entrevista a
o pensador indígena Ailton Krenak, que esteve no início de Julho na Culturgest, onde deu uma conferência (é possível aceder ao audio da sessão aqui). As respostas de Krenak constituem uma boa introdução às suas ideias sobre temas como o tempo (e a urgência), a comunicação, os refugiados ou a ligação corpo-território (já tinha escrito aqui sobre o pensamento de Krenak). Nunca usa a palavra decrescimento, mas o seu pensamento é profundamente decrescentista e sinto-me pessoalmente muito alinhado com as suas posições sobre o papel da visão de mundo hegemónica na actual crise socio-ambiental e a necessidade absoluta de questionar o paradigma dominante. Transcrevo alguns excertos: “A realidade global que possibilita que algumas regiões do planeta estejam em permanente situação de guerra vai mudar quando as pessoas não fugirem de lá e perguntarem porque é que aquele lugar foi escolhido para ser um campo de guerra. (...) Os refugiados do mundo inteiro têm de descobrir o endereço de quem está destruindo o mundo deles. (…) A gente deveria se perguntar por que é que continuamos produzindo o desastre que acaba com os mundos e produz gente sem mundo, movendo-se por aí. Temos de fazer essa pergunta, senão vamos estar naturalizando a situação de milhões de pessoas. (…) Nós estamos vivendo num planeta-pirata? Onde as grandes companhias actuam como se fossem saqueadores de pedaços do planeta até que não sobre nada? Todos vamos ser refugiados, nós todos. A tal da humanidade vai ser só refugiados. Será que a gente não tem a opção de nos transformarmos em pessoas activas, corpo-território, que de repente podem dizer uma insanidade: «Vocês querem destruir esse lugar onde eu estou? Podem destruir, mas a gente vai ficar aqui.» Qual é que seria o efeito disso?


Encontramo-nos perante o desafio imenso de superar uma crise global sem precedentes, que só um forte envolvimento dos cidadãos e da chamada sociedade civil poderia efetivar, experimentando uma diversidade de abordagens. As propostas decrescentistas abrem caminhos para mudanças socio-económicas e culturais, que muitos consideram ainda demasiado radicais e utópicas – ver p.ex. aqui. Termino com a referência ao relatório
Welcome to the Great Unraveling: Navigating the Polycrisis of Environmental and Social Breakdown” publicado em Junho no site do Post Carbon Institute (PCI). Richard Heinberg, um dos coautores do relatório e apoiante do decrescimento, escreveu um curto resumo para o site Resilience, onde defende a necessidade incontornável de mudar o paradigma económico e do qual transcrevo alguns excertos: “[The PCI report] seeks to build a coherent narrative about the roots of the polycrisis, the signs of its arrival and evolution, and why we should be thinking differently about the future. When confronted with evidence that our collective path is unsustainable, many of us tend to jump to “all-or-nothing” ways of thinking, sometimes framing our future in simplistic terms as “the end of the world” or “apocalypse.” But according to the report’s authors, this tendency is unhelpful. While a complete and sudden end of humanity is theoretically possible via nuclear war, our more likely future will consist of decades of social, economic, political, and ecological turmoil punctuated by periods of rescue and recovery. There is still considerable divergence between best- and worst-case scenarios, and we still have agency to affect outcomes. According to the PCI report, we should be spending far less effort building upon expectations of a future that looks much like today only with more technology, mobility, and wealth; instead, we should devote our collective brainpower to questions like, How does a civilization downsize gracefully? Or, What have we achieved that our distant descendants would like us to preserve for them? (…) Strategies that seemed to make sense before the polycrisis, such as efforts to grow national economies, will need to be replaced by different ones, such as efforts to build resilience. (…) if we work together now to build a truly sustainable way of life, maybe future generations will have at least some reasons to thank us.”

Continua... Segunda parte dos Respigos de Verão, aqui.

Deixo hiperligações para alguns artigos que advogam o decrescimento económico como via para a mitigação da crise climática (ou da crise ecológica mais abrangente):

Beth Roberts, The 'degrowth' economic model is key to fight climate change (2023): https://www.devex.com/news/opinion-the-degrowth-economic-model-is-key-to-fight-climate-change-105308

Tiomthée Parrique, Economic growth is fuelling climate change – a new book proposes ‘degrowth communism’ as the solution (2023): https://theconversation.com/economic-growth-is-fuelling-climate-change-a-new-book-proposes-degrowth-communism-as-the-solution-199572

J. Hickel, G. Kallis, T. Jackson, et al. Degrowth can work — here’s how science can help. Nature. 612, 400-403 (2022). https://www.nature.com/articles/d41586-022-04412-x (resumo aqui)

John Hobby, Degrowth as a solution to the climate crisis (2021): https://www.if.org.uk/2021/11/09/cop26-degrowth-as-a-solution-to-the-climate-crisis/

Lorenz T. Keyßer & Manfred Lenzen, 1.5 °C degrowth scenarios suggest the need for new mitigation pathways (2021): https://www.nature.com/articles/s41467-021-22884-9 (resumo aqui)


domingo, 28 de maio de 2023

Quando renegaremos o mito do crescimento (económico)?

mais menos
(Casa da Esquina, Coimbra)
We must look beyond GDP and growth to something that really matters: life.Philippe Lamberts

The word ‘currency’ never meant money before colonialism. The word ‘currency’ means flow (…) We have to degrow the currency of money that is extinguishing life, biodiversity and the flow of life.Vandana Shiva

Já tinha abordado o tema do crescimento económico em escritos anteriores (p.ex. aqui ou aqui), onde apresentei alguns dos argumentos invocados pelos decrescentistas (e outros críticos do paradigma dominante) para rejeitar a sua validade como via preferencial para garantir o bem-estar e a prosperidade, e como objectivo primordial das políticas preconizadas por governantes de diferentes geografias ou cores políticas – em particular, quando é medido com base num indicador reconhecidamente inadequado como o PIB (ver p.ex. aqui ou aqui). Retomo-o agora a propósito da conferência “Beyond Growth 2023” que decorreu de 15 a 17 de Maio no Parlamento Europeu (PE) em Bruxelas e onde a palavra decrescimento e as ideias e propostas decrescentistas (ou pós-crescentistas) foram discutidas durante três dias, com uma audiência estimada em 2000 pessoas ao vivo e pelo menos mais outras tantas online. A conferência foi co-organizada por 20 eurodeputados (de cinco grupos parlamentares e um MPE não inscrito), liderados por Philippe Lamberts, onde se incluía a portuguesa Marisa Matias - representante de um partido (BE) que nem sequer tem afinidade pelo decrescimento, como a própria aliás destacou durante uma sessão em que foi moderadora. É possível aceder aos vídeos de todas as sessões da conferência (7 plenárias e 20 painéis temáticos, além de eventos paralelos, como uma sessão especial que teve Vandana Shiva como convidada) a partir desta ligação (selecionando o dia e clicando sucessivamente no nome da sessão, em ‘Info & Livestream’ e finalmente em ‘Livestream’). Também é possível aceder a uma seleção de vídeos das sessões no canal Youtube do grupo parlamentar dos Verdes (Greens/EFA), nesta ligação. O contraste entre as propostas de muitos dos intervenientes na conferência e a narrativa dominante das instituições europeias ficou desde logo evidente na plenária inaugural com as intervenções da presidente do PE (que, sem aparentar qualquer sensibilidade para o contexto, só falou de crescimento!) e da presidente da Comissão Europeia, que tinha estudado a lição e referiu-se ao relatório ‘The Limits to Growth’, assim como ao famoso discurso de Robert Kennedy sobre a inadequação do PIB como indicador de prosperidade económica, mas não deixou de defender o ‘European Green Deal’ e o ‘crescimento verde’.


O lema radical “Decrescimento ou barbárie”, que usei como título de um post em 2019, não foi abertamente adoptado pelos proponentes da conferência (que preferiram aliás usar expressões mais ‘fofinhas’ como 'pós-crescimento' ou 'para além do crescimento'), mas o espírito da sua declaração de intenções (ver versão EN ou versão ES) não está muito distante. Segue um excerto elucidativo: “o atual modelo económico, baseado no crescimento infinito, atingiu os seus limites. Primeiro, o crescimento económico contínuo, fortemente baseado no consumo de combustíveis fósseis, é a principal causa do aquecimento global catastrófico. Em segundo lugar, a busca incessante do crescimento conduz ao esgotamento dos recursos naturais, à destruição da biodiversidade e à acumulação de lixo e poluição. O que também representa riscos para a nossa saúde, as nossas economias e as sociedades em geral. Em terceiro lugar, o actual modelo económico contribui para a desigualdade e exclusão social. A ênfase no crescimento económico não se traduziu numa distribuição equitativa de riqueza ou de oportunidade. Pelo contrário, resultou na concentração de riqueza e poder nas mãos de poucos, deixando muitos para trás. Quarto, o modelo económico actual é inerentemente instável e propenso a crises, como se viu, por exemplo, durante a crise financeira de 2008 e a pandemia de COVID-19. A busca pelo crescimento a todo custo criou um sistema económico mundial frágil e vulnerável a crises.” Na mesma missiva, os eurodeputados defenderam ainda: “Partilhamos da opinião de que precisamos de um sistema económico que dê prioridade ao bem-estar humano e à sustentabilidade ecológica acima do crescimento do PIB, que reconhecemos que o crescimento infinito num planeta finito é impossível, e que precisamos de encontrar novas formas de organizar as nossas economias sem depender da exploração contínua dos recursos e do aumento constante da produção e do consumo.” Pediram maior pluralismo no pensamento e acção económicas dentro da UE e das suas instituições, e propuseram acções concretas nesse sentido, nomeadamente: 1) elaborar políticas europeias que integrem efectivamente os objectivos sociais, ambientais e económicos; 2) promover uma abordagem pluralista aos indicadores e modelos macroeconómicos utilizados pela UE e seus Estados membros; e 3) desenhar uma arquitetura institucional que melhor sirva uma estratégia de pós-crescimento.


Alinhada com aquela missiva mas com um enfoque mais claramente decrescentista, foi divulgada nas vésperas da conferência uma carta aberta promovida por Timothée Parrique, Kate Raworth e Vincent Liegey, pelas organizações Friends of the Earth, European Environmental Bureau, European Youth Forum e Wellbeing Economy Alliance, e subscrita por mais de 150 colectivos/organizações (entre os quais a Rede para o Decrescimento, da qual sou membro) e mais de 250 académicos e activistas, – ver p.ex. aqui (versão PT) ou aqui (versão EN). Para além dos aspectos e propostas constantes na declaração dos eurodeputados, a carta aberta especifica os quatros eixos principais das políticas pós-crescentistas, a saber: a biocapacidade, a equidade, o bem-estar para todos e a democracia activa.


Não houve grandes destaques ou notícias sobre a conferência nos principais media nacionais ou internacionais – como seria de esperar – mas a presença de Ursula von der Leyen na sessão de abertura e o interesse que o evento despertou, sugerem que os dias do crescimento a qualquer preço podem estar contados (ver lista de artigos no final deste post). De referir, no entanto, que a Euronews dedicou-lhe dois destaques de cerca de meia hora na sua edição online, promovendo debates com alguns dos intervenientes na própria conferência, antes e depois da sua realização – ver aqui e aqui.


Ao atribuir ao crescimento a designação de mito no título deste post, quis enfatizar a determinação (ou obsessão) dos actuais políticos, à direita ou à esquerda, na narrativa do crescimento, mesmo na posse dos dados que demonstram claramente a sua ineficácia e os seus efeitos destrutivos (ver p.ex. aqui ou aqui). E já houve muitos a desmontar ou a desconstruir este mito (para além dos próprios decrescentistas) – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. Mas então porque é que o mito persiste? A meu ver, existem duas razões principais. A primeira é que aqueles que mais beneficiam da sua persistência – a minoria de detentores do poder económico e financeiro, mas também os decisores políticos, já que dependem e protejem os primeiros – fazem tudo o que podem para que o mito persista e para que nada de essencial mude. A segunda é que uma grande maioria da população – que tem mais a perder mas que se deixou iludir pelo ‘canto das sereias’ que lhes garante que a prosperidade está ao virar da esquina, que não existem alternativas ao sistema dominante e que mudar só iria piorar a sua situação – não quer, ou tem medo, da mudança. A máquina de persuasão montada pelas elites e interesses instalados – através do marketing, dos media ou das redes sociais - está muito bem oleada e exerce o seu encantamento (ou alienação ou intoxicação) há várias décadas (ver p.ex. aqui). Não admira pois que o crescimento se tenha tornado uma crença quase religiosa, justificando que muitos decrescentistas defendam a necessidade de desintoxicar e descolonizar o imaginário (ver p.ex. aqui). A omnipresença da referência ao crescimento nos discursos de políticos, economistas, jornalistas ou ‘marketeers’ é aliás evidente para qualquer pessoa minimamente atenta – basta acompanhar as notícias que surgem em diversos OCS para o constatar. Segue-se uma lista de títulos recentes, meramente ilustrativa: “Economia cresce e as pessoas não sentem? A culpa é da inflação, dos juros e dos salários” (aqui); “PIB cresceu 6,7%, mas o cenário agora é de quase estagnação” (aqui); “Economia portuguesa cresceu quatro vezes acima da média da OCDE” (aqui); “Economia da China cresce ao ritmo mais lento em quase 50 anos” (aqui).


Esperemos que a penetração no debate público das críticas e propostas económicas alternativas, como o decrescimento, conduzam à desmitificação do crescimento como panaceia universal - e à concomitante desmistificação das narrativas crescentistas e produtivistas dominantes – desconstruindo em simultâneo muitos dos mal-entendidos e das falácias sobre o decrescimento (ver p.ex. aqui). Esperemos também que o conhecimento e as propostas políticas veiculadas pelos vários investigadores e activistas durante a conferência possam ser democraticamente consensualizados e postos em prática. Esperemos ainda que o resultado seja de facto uma melhoria da qualidade de vida, com uma redistribuição equitativa de recursos (e não meramente de riqueza), e que essas melhorias sejam (realmente) sustentáveis. E que conduzam a um verdadeiro bem-estar e bem-ser para todos (humanos e não-humanos). Não existe evidentemente vontade política para isso entre as actuais elites do poder, nem parece haver (ainda?) um despertar de consciências generalizado, mas a esperança é a última a morrer. A realização da conferência Beyond Growth no PE deu-me algum alento, embora a quase total ausência de cobertura mediática seja sintomática do poder da narrativa dominante e dos interesses instalados. Rejeitar o crescimento (como paradigma económico e sócio-cultural) é, acima de tudo, uma questão de bom senso para que possamos alcançar uma prosperidade equitativa, mas também para garantir não só a nossa sobrevivência, como a de tantos outros seres vivos e dos ecossistemas dos quais dependemos!...

Artigos/notícias sobre a conferência (PT)

- Notícia da Lusa, reproduzida em alguns OCS: ver p.ex. aqui;

- Artigo de opinião de João Wengorovius Meneses (secretário-geral do BCSD Portugal): aqui;

- Notícia no site Empregos para o Clima: aqui;

- Notícia no site WElectric: aqui;

- Notícia no site 'La Politica online' (ES): aqui.

Vídeos sobre o mito do crescimento (ver também vídeos citados neste post)

You can’t have infinite growth on a finite planet (Paul Guilding): https://sustainablehuman.org/stories/you-cant-have-infinite-growth-on-a-finite-planet/ (6’)

How economic growth has become anti-life (Vandana Shiva): https://sustainablehuman.org/stories/how-economic-growth-has-become-anti-life/ (2’)

Conventional Economics is a form of brain damage (David Suzuki): https://chrisagnos.com/conventional-economic-is-a-form-of-brain-damage/ (4’)

Our obsession with economic growth is deadly (Al Jazeera, Dez 2022): https://youtu.be/KLiXmteCvUI (25’)

Can the economy grow forever? (TED-Ed, Ago 2022): https://youtu.be/mT3P0YSNonE (6’) (a call for post-growth economy sponsored by WEF!)


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

A grande demissão: a revolução involuntária da deserção

© Juliette de Montvallon / Reporterre
Nota prévia: este é um post longo que requererá tempo para ser desfrutado em pleno; a sua extensão resulta do processo de investigação e de digestão que lhe dediquei; trata-se assim de um convite à demora, em linha com a rejeição da voragem consumista, apanágio da sociedade industrial produtivista que é rejeitada pelos movimentos de deserção que aqui tentei descrever.

A deserção é o sinal dos nossos tempos, o derradeiro gesto de resistência numa época onde reina a devastação e onde a violência policial se abate sobre os movimentos sociais. A deserção é uma ética individual, uma nova forma de objecção de consciência.Gaspard d’Allens

A recusa de singrar [‘refus de parvenir’] faz provavelmente hoje parte da longa linha de acção directa e de não-cooperação com o sistema.Corinne Morel Darleux

Não suporto os falsos deuses do Ocidente, sempre à espreita como aranhas, que comem os nossos fígados, sugam a nossa medula. E faço um protesto contra o mundo moderno, é ele o Monstro. Destrói a nossa terra, espezinha as almas dos homens.Bernard Moitessier (navegador solitário, autor do livro ‘La Longue Route’)

On arrête tout, on réfléchit et ce n’est pas triste” Slogan do filme ‘L’An 01’ (1970)

Unemployment for all, not just the rich” Slogan da comunidade r/Antiwork do Reddit

Este post foi inspirado por uma investigação de fundo do jornalista francês Gaspard d’Allens para a publicação online sobre temas ambientais Reporterre, intitulada “La grande démission” e da qual irei transcrever vários trechos (que traduzi para português) – é possível ler cada uma das três partes do artigo original em francês, publicado em Julho de 2022, aqui, aqui e aqui (ver P.S. no final do post). O tema da deserção como insubmissão, objecção de consciência ou recusa de status (e do statu quo), tinha sido aflorado no meu primeiro post do ano onde citei os textos de d’Allens. Noutros dois posts (aqui e aqui) destaquei a relevância das acções de resistência e de não-colaboração, nas quais incluo também a deserção. Já este ano, o mesmo tema foi retomado pelo investigador independente espanhol Amador Fernández-Savater (autor do site filosofiapirata.net) num artigo para a publicação semanal CTXT (aqui), onde estabelece paralelos entre a ‘Grande Recusa’ dos anos 60 e a ‘Grande Demissão’ contemporânea que apelida de ‘revolução involuntária’, e ainda pelo filósofo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi (citado por Savater), na sua passagem recente por Lisboa onde fez algumas intervenções públicas, nomeadamente no Teatro do Bairro Alto, tendo ligado a deserção com outro fenómeno das sociedades ‘desenvolvidas’: a depressão/exaustão (ver aqui).

O texto de d’Allens ancora-se no apelo à deserção lançado em Maio de 2022 por um grupo de jovens agrónomos recém-licenciados pela escola de engenharia AgroParisTech (autodenominados ‘Des agros qui bifurquent’) durante a cerimónia de entrega de diplomas (ao qual me referi num post anterior). O vídeo da leitura do seu manifesto (com milhões de visualizações), onde apelam à recusa de “perpetuar o sistema” não aceitando “empregos destrutivos”, revelou, segundo d’Allens, um movimento fundamental que desafia diretamente os modelos de sucesso social e representa uma rotura na ordem estabelecida. Sintomaticamente, uma campanha de difamação foi lançada pelos círculos empresariais e pelos principais meios de comunicação em França, que reagiram com uma onda de críticas e insultos para culpar a “cobardia” e as incoerências dos jovens, alegando que desertar seria sinónimo de rendição, abandono ou passividade, uma “admissão de fracasso”, “uma forma de desistência” (d’Allens dá vários exemplos dessas críticas na 2ª parte do seu artigo). Já em 2018, estudantes da ‘École polytechnique’ tinham divulgado um manifesto que apelava a um “despertar ecológico” (vídeo e site do projecto) mas que não teve igual projeção mediática. Em 2021, Arthur Gosset, ex-estudante de engenharia, realizou o documentário ‘Ruptures’ onde relata os processos de rotura de seis colegas seus que recusaram seguir carreira, escolhendo um caminho que consideram mais compatível com os actuais desafios ambientais e societais (ver também esta entrevista a Gosset). D’Allens defende que as iniciativas dos jovens universitários não são eventos isolados e se integram numa tendência mais generalizada que tem surgido em diversos países e que envolve pessoas que abandonam as suas carreiras em diferentes fases do seu percurso profissional. O autor dá como exemplos os fenómenos que foram designados por ‘great resignation’ (trabalhadores de diversos sectores profissionais que recusaram retomar os seus empregos após a “normalização” pós-pandemia) e por ‘quiet quitting’ (trabalhadores que recusam jornadas de trabalho longas, intensas e mal remuneradas, enquadradas por contratos de curtíssima duração, e que não deixam espaço para mais nada, abandonando eventualmente os seus empregos precários) nos países anglófonos (EUA e RU), mas que se estenderam já a outros países, incluindo a França ou Portugal (ver p.ex. aqui e aqui). D’Allens escreve: “Por todo o lado, jovens e menos jovens questionam o trabalho, a sua finalidade e o seu significado. Alguns, inclusive, recusam-no, para inventar, noutro lugar, uma vida que eles e elas consideram mais rica. Poucos meses depois dos confinamentos, que paralisaram diversos sectores da actividade económica, parte da população ainda hesita em voltar à labuta, terminar os estudos ou regressar às fábricas ou negócios. Nos Estados Unidos, os sociólogos batizaram este fenómeno como ‘Great Resignation’ ou ‘Big Quit’: “a grande demissão”. Em 2021, mais de 38 milhões de americanos deixaram os seus empregos. 40% ainda não retomaram o trabalho. Um tsunami que atinge todas as idades, todas as profissões. E que inverte o equilíbrio de poder entre empregados e empresas. (…) Também em França o êxodo começou. Centenas de milhares de cargos não são preenchidos, por falta de candidatos, na hotelaria ou na restauração, enquanto nas ‘grandes écoles’, entre as classes médias altas, a renúncia está em gestação. Além dos discursos estrondosos na imprensa, uma revolta mais silenciosa está a propagar-se. Em todas as áreas e categorias profissionais, e mesmo onde menos se espera, em empresas de combustíveis fósseis ou na alta administração pública. A dúvida espalha-se. A crise ecológica veio contrariar os sonhos de outrora movidos a petróleo. Quanto vale uma progressão diante da ameaça climática? Porquê lutar por uma posição quando todo o sistema vacila? Qual é o sentido de se instruir quando tudo se desmorona?

D’Allens considera que o fenómeno está a provocar alguma consternação entre os defensores do sistema socioeconómico hegemónico (neoliberal) e a pôr em causa as suas fundações (como o demonstram aliás as reacções referidas acima), em particular a centralidade do trabalho, mostrando através de diversas citações que não está sozinho nas suas conjecturas. Transcrevo mais alguns excertos do seu texto: Para além dos dados estatísticos sobre as demissões em França [ver p.ex. aqui], houve uma bolha mediática que rebentou. «O eco que os apelos à deserção podem ter tido diz muito sobre as questões que agitam a sociedade», sublinha a socióloga Geneviève Pruvost. «Hoje, a deserção chega a atingir profissões essenciais ao funcionamento do modelo capitalista. Isso compromete a sustentabilidade do sistema», acrescenta. «Se uma centena de engenheiros ou pesquisadores da região de Toulouse decidisse parar de fazer algoritmos e robôs, faria desmoronar tudo», confirma Olivier Lefebvre. Este homem de 40 anos deixou o seu emprego. Ele trabalhava numa ‘start-up’ de carros autónomos antes de se demitir. (…) «O nosso discurso sobre a renúncia ao trabalho é muito mais audível hoje», nota Romain Boucher. Este ex-cientista de dados formado pela Escola de Minas deixou o emprego em 2018. No seu escritório próximo aos Champs-Élysées, os protestos dos Coletes Amarelos foram a ‘onda sísmica’ que o levou a romper com aquele mundo. Desde então, ele criou a associação ‘Vous n’êtes pas seuls’ para encorajar os seus ex-colegas a demitirem-se. «Ao subverter a pequena burguesia empresarial e educada, pretendemos deter a correia de transmissão que ela representa. Queremos corroer essa classe social que sustém o sistema», afirma. (…) A deserção abala os fundamentos ideológicos da economia, destrói a adesão a esses fundamentos e faz estalar o seu verniz tingido de verde. A escritora Corinne Morel Darleux vê nela «uma forma de sabotagem simbólica». «A recusa de singrar [‘refus de parvenir’; ver adiante] provavelmente faz hoje parte da longa linha de ação direta e de não-cooperação com o sistema», escreve no seu ensaio ‘Prefiro afundar em beleza do que flutuar sem graciosidade’ [Plutôt couler en beauté que flotter sans grâce]. «A deserção é uma arma formidável que liberta o futuro.»” Também em Portugal o fenómeno está a ter algum impacto e o mundo empresarial já está a sentir necessidade de desenhar estratégias para “reter e fidelizar o talento” – ver p.ex. aqui.

© Juliette de Montvallon / Reporterre

Na 2ª parte do seu texto, d’Allens responde às críticas que atribuem ao fenómeno da deserção uma conotação negativa, quer como acto de desistência ou resignação (na língua inglesa a palavra ‘resignation’ tem uma dupla acepção: como demissão ou como resignação), quer como prerrogativa de uma pequena elite de privilegiados ou burgueses. O autor defende que se trata, pelo contrário, do germinar de uma contra-sociedade. E recorre mais uma vez a múltiplas vozes: “A aceitação social em que se baseia o sistema económico está a desmoronar-se. Apesar das promessas de renovação, com a utopia cibernética ou a fantasia de Silicon Valley, o capitalismo vive atualmente “uma fase de desencanto radical”. «As pessoas já não encontram sentido, nem se revêem nele. Ainda não é uma revolta completa, mas é uma desfiliação profunda», diz a jornalista e autora Celia Izoard [autora de ‘Merci de changer de métier: lettres aux humains qui robotisent le monde’]. A deserção é um assunto antigo, ao qual o sistema em vigor foi obrigado a responder. (…) é o sinal dos nossos tempos, o derradeiro gesto de resistência numa época onde reina a devastação e onde a violência policial se abate sobre os movimentos sociais. A deserção é uma ética individual, uma nova forma de objeção de consciência. «Hoje em dia trata-se de parar de prejudicar. Isso passa por deixar de cooperar com o sistema», afirma Corinne Morel Darleux no seu ensaio [supracitado]. «Devemos recuperar a nossa capacidade de fazer escolhas autónomas, de reinvestir a nossa soberania como indivíduos. É o primeiro passo de uma emancipação coletiva em relação às normas que nos são impostas pela sociedade». Os desertores evadem-se como recrutas fugindo do exército. «A deserção não é tanto uma derrota, mas uma forma de nos livrarmos do elemento gregário em nós», escreve o escritor Dénetem Touam Bona, em ‘La Sagesse des lianes’. Diante da miséria do mundo, não buscamos construir oásis ou nichos abrigados da fúria, mas sim reposicionar-nos para melhor lutar contra a megamáquina e escapar das suas garras. «Fugir, mas ao fugir, procurar uma arma», escreveu o filósofo Gilles Deleuze. Esta deserção nada tem a ver com passividade. Para o colectivo ‘désert’heureuses [felizes desertoras] – um grupo de engenheiras dissidentes – não se trata de abandonar o campo de batalha, mas sim de mudar de lado. A fuga já não se impõe como simples deserção, mas como uma nova estratégia de luta. «A deserção é um treino mental para ficar o mais longe possível do sistema, longe o suficiente para poder observá-lo de diferentes ângulos e, assim, poder atacá-lo melhor», escrevem num panfleto. Johanna, membro daquele coletivo, afirma: «Hoje, é a guerra contra o mundo vivo que nos recusamos a travar. A produção industrial na qual somos chamadas a participar como engenheiras é indissociavelmente civil e militar. É um mundo estruturado pela guerra e pelo comércio, que destrói ecossistemas e desestabiliza o clima.»

D’Allens defende ainda que a contestação e recusa do statu quo nem sempre é possível quando se está dentro do sistema e que a deserção pode ser uma estratégia mais adequada para o combater a partir do exterior: “Nos testemunhos recolhidos para o Reporterre, muitos ex-assalariados recusam agora ‘a política do entrismo’: «Desde a infância, dizem-nos que temos de mudar as coisas por dentro, que temos de assumir a direção e o poder de transformar o mundo, de sermos um bom aluno, responsável e paciente», diz o engenheiro demissionário Olivier Lefebvre. «Mas, na realidade, mentimos a nós próprios. Estamos a desperdiçar tempo e a desgastarmo-nos. Somos confrontados com bloqueios estruturais e, afinal de contas, perdemo-nos. Contamos histórias para justificar o nosso modo de vida confortável.» Uma acção também pode ser eficaz no exterior. É nas margens que se desenvolvem as promessas do futuro. Várias alternativas mostram isso mesmo, como a ZAD de Notre-Dame-des-Landes.” D’Allens invoca ainda um dos pioneiros da ecologia, Bernard Charbonneau, que afirmava já na década de 1930 que “só lutamos contra uma sociedade a partir do exterior”. “Enquanto houver governos bem organizados, os ministros da polícia farão bem em desconfiar dos jovens que partem sozinhos para perambular pelas estradas esburacadas. O seu amor genuíno pela natureza é um sentimento revolucionário”, escreveu ele em ‘Nous sommes des révolutionnaires malgré nous’. O próprio Bernard Charbonneau decidira estabelecer-se como um simples professor na região dos Pirenéus, em vez de seguir uma carreira académica.

© Juliette de Montvallon / Reporterre
Na 3ªparte do artigo, d’Allens reforça a sua tese sobre a relevância do movimento contemporâneo de deserção, traçando uma linha de continuidade com lutas históricas, que vão desde as revoltas e lutas de libertação dos escravos e dos povos indígenas do séc. XVIII, às reivindicações dos movimentos libertários (anarquistas) do final do séc. XIX e início do séc. XX, assim como às dos movimentos estudantis de emancipação dos anos 60. Nas palavras de d’Allens: “A fuga das garras do sistema sempre fez parte do repertório de acção das classes populares. Hoje, essas histórias são tanto uma fonte de inspiração quanto um farol para o movimento de deserção: elas ancoram a ecologia política numa filiação revolucionária e reacendem a chama da revolta social. «A deserção» não é apenas um discurso de executivos refratários, engenheiros demissionários ou jovens estudantes em busca de sentido, anteriormente bem inseridos na sociedade. Antes que a ideia da «recusa de singrar» [‘refus de parvenir’] fosse retomada pelos ecologistas para marcar a crescente contestação dessas elites, a deserção era uma atitude da classe trabalhadora ao recusar-se a pactuar com o inimigo - o patrão, o burguês, o capataz.

A expressão ‘refus de parvenir’ foi cunhada há mais de um século pelo intelectual libertário Albert Thierry no seu ‘Ensaio sobre a moral revolucionária’ (1916), onde a descreve como uma exigência ética: “Consiste em recusar-se a viver e a agir para si e para fins próprios”. D’Allens acrescenta: “Isso não era, no entanto, uma aceitação da miséria, mas sim uma rejeição das honras e privilégios individuais. Era também uma forma de lucidez, enquanto as elites burguesas, sob a Terceira República, buscavam captar os elementos mais brilhantes da população trabalhadora para pô-los ao seu serviço.” A recusa de singrar, que terá ecos na ‘Grande Recusa’ dos anos 60 e ressurge agora nas palavras e actos dos desertores contemporâneos, assim como em diversas publicações académicas (ver aqui ou aqui), rejeita a ascensão ou promoção social pela busca de interesse pessoal numa perspectiva de carreira, poder ou prestígio, em favor de ideais de emancipação colectiva e solidariedade, já que a emancipação individual só se pode atingir numa sociedade emancipada.


D’Allens invoca também o trabalho dos filósofos Malcom Ferdinand e Dénetem Touam Bona que permitiram redescobrir outras genealogias do movimento de deserção: “actores do passado, esquecidos, que, através da sua resistência, nas profundezas da floresta, souberam lutar tanto contra o servilismo como por uma outra concepção de mundo que se opõe, ponto por ponto, aos valores do sistema capitalista (propriedade privada, busca do lucro, etc.). Durante séculos, no Caribe e na América, muitos escravos fugiram das plantações, essas vastas monoculturas desenvolvidas pelos colonos sobre antigas florestas. (…) eles reconstruíram sociedades inteiras, com as suas canções, os seus ritos, a sua cultura, a sua autonomia. «O ‘marronnage’ foi uma prática de resistência ecológica», afirma Malcolm Ferdinand no seu livro ‘Une écologie décolonial’ [tradução PT-BR aqui]. Algumas comunidades ultrapassavam dezenas de milhares de indivíduos com várias aldeias e cidadelas, praticavam caça, coleta e formas de agroecologia. Essas micro-sociedades por vezes até forçavam os colonos a negociar tratados de paz… (…) Os ‘negros quilombolas’ (‘nègres marrons’) cultivavam a ‘arte da fuga’. Para usar a bela expressão de Dénétem Touam Bona, «eles assumiam a sombra estriada da folhagem», eles eram unos com o seu território, habitavam-no plenamente. Uma comunidade de destino foi fundada entre os quilombolas, a terra e a natureza. Quanto mais densa a floresta, mais eles poderiam se esconder e criar a sua sociedade amotinada. (…) Ainda hoje subsistem vestígios dessas resistências. (…) Por exemplo, os Saramaka, uma sociedade quilombola criada no século XVIII entre o Suriname e a Guiana, continuam a lutar contra a desflorestação. Dois dos seus representantes ganharam mesmo o prémio ambiental Goldman em 2009. «Assim como a figura dos quilombolas, eles têm sido reconhecidos internacionalmente como notáveis ambientalistas», afirma Malcom Ferdinand.

Quanto aos movimentos de contestação da década de 1960, d’Allens escreve: “Dezenas de milhares de jovens fugiram na época e deixaram os cargos para os quais estavam destinados. Criticavam a sociedade de consumo e a alienação comercial. Alguns ativistas decidiram até instalar-se nas fábricas para provocar a ira social. Outros estabeleceram-se em áreas rurais para criar comunidades. No ambiente universitário, o grupo ‘Survivre et vivre’ e o matemático Alexandre Grothendieck também levaram jovens investigadores à deserção.” Destaca a cooperativa Longo Mai (fundada nos anos 1970 em França mas que se replicou noutros países europeus e na Costa Rica, perdurando até ao presente – ver p.ex. aqui) como exemplo de comunidade autónoma: “O objetivo era fundar uma nova sociedade, permanecendo ofensiva e revolucionária. Mas os seus membros não queriam, ao contrário da RAF [Facção do Exército Vermelho/Grupo Baader-Meinhof] ou das Brigadas Vermelhas em Itália, engajar-se na luta armada contra o Estado. Era uma posição estratégica para não ser esmagada e manter-se ao longo do tempo. (…) Essas experiências alimentam as deserções de hoje. Muitos desertores redescobrem-nas por meio de leituras e encontros e entendem que são os herdeiros de uma longa epopeia subversiva. «É um exercício de humildade ver o que nossos antecessores fizeram. Os riscos que correram e o seu sacrifício.», diz o engenheiro demissionário Olivier Lefebvre.

Também Savater invoca no seu texto este último movimento, destacando a sua teorização por Herbert Marcuse que, em ‘O Homem unidimensional’ (1964), apelidou de ‘Grande Recusa’ (‘great refusal’) a indispensável rejeição das sociedades industriais modernas que submetem os indivíduos ao sistema de produção e consumo através da repressão social e do positivismo progressista, e fazendo a ponte com a ‘Grande Demissão’ contemporânea. Escreve Savater: “A Grande Recusa é uma energia de contradição, um espírito que diz não à sociedade existente, em nome de uma libertação que não é abstrata, mas possível, autorizada e permitida pelo progresso da abundância material. A negação da repressão e da exploração, da pobreza e da miséria, do entretenimento padronizado e da beleza comercializada, é acompanhada pela afirmação da criatividade e do prazer, do jogo e da emancipação dos sentidos, da cooperação e da riqueza das faculdades do corpo humano. É um gesto político profundamente estético…” O autor defende que a ‘velha esquerda’ foi “incapaz de ler politicamente os fenómenos da sensibilidade, considerada como algo ‘burguês’”, entendendo a mudança como “uma questão meramente quantitativa: uma melhor distribuição da mesma produtividade, uma melhor distribuição dos mesmos bens.” Savater relembra que, para Marcuse, a sensibilidade não é um assunto privado, mas sim político, e afirma: “A transformação deve atingir as camadas profundas do ser humano, mesmo nas suas dimensões biológicas e orgânicas.” Savater defende que somente a libertação de Eros, entendida como “capacidade humana de estabelecer vínculos sensíveis com tudo: o mundo, os outros e consigo mesmo”, pode conter a “instrumentalização capitalista dos impulsos destrutivos – competitividade e agressividade, dominação e conquista – que ameaçavam ontem, como hoje, tomar o mundo de assalto.


Sobre a Grande Demissão contemporânea, Savater escreve: “Nesta sociedade que neutraliza qualquer acontecimento pela força da super-interpretação, a Grande Demissão mantém o seu mistério e, portanto, a sua provocação ao pensamento.” Invoca as reflexões de Bifo Berardi sobre o fenómeno: “Tudo começa para ele com o abandono maciço de empregos nos EUA (também na China e na Europa) após a normalização da pandemia. Por outras palavras, o tempo da pandemia, um tempo aparentemente suspenso onde nada acontecia, era na verdade o momento de uma repriorização geral de necessidades e desejos, ao final da qual muitos decidiram parar de sacrificar as suas vidas pelo trabalho (e não apenas por ‘trabalhos de merda’).” Savater caracteriza a Grande Demissão como fenómeno geral de deserção da política, da economia e dos média, que representam o actual tripé do statu quo: “deserção da visão política do mundo: o real entendido como poder e cálculo do poder, manipulação do público, intrigas palacianas, lógica de facções sem preocupação com o bem comum, militância militarizada - abandono por enfado [‘salida por hastío’]; deserção da visão económica do mundo: o real entendido como mercado, trabalho precário e ultraexplorado, pressão para realizar, cada um tornando-se empresário de si próprio, gerindo o seu capital simbólico de projetos, visibilidade e contactos - abandono por exaustão; deserção da visão mediática do mundo: o real como objeto de propaganda, captação de atenção em espetáculos pré-fabricados, distante da vida comum, evanescente; personagens-marca, polémicas-armadilha, notícias tendenciosas sobre questões sobre as quais não temos poder de decisão - afastamento por saturação.” Para Savater “a Grande Demissão surge, ao contrário da Grande Recusa, como um fenómeno sem utopia, pós-utópico. Não preconiza um outro mundo possível. Nem algum fora.” E prossegue: “Bifo interpreta isto como uma remoção do desejo: um apagão libidinal, uma quebra da vontade, uma certa apatia, mas também uma fuga dos lugares onde a energia desejante tem vindo a ser capturada: competitividade, consumo, sucesso, auto-realização. Antes, contra a repressão, libertação. Agora, contra a pressão, deserção. O cansaço surge como sintoma e limite da expansão, tendência sempre privilegiada pelo Ocidente, nas suas guerras, conquistas, aceleração progressiva e desejo de sempre-mais.” Mais uma vez, Savater destaca a perplexidade da esquerda convencional que interpreta a deserção como uma questão meramente quantitativa que se pode resolver com mais medidas progressistas (como aumentar salários), não podendo nem querendo vê-la como uma diferença qualitativa, ou seja, como algo impossível de entender e resolver dentro do pensamento estabelecido. Mas Savater realça ainda que: “Os movimentos sociais, além da política partidária convencional, também estão perplexos. A Grande Demissão não expressa um novo activismo, mas sim um des-activismo: um relaxamento e uma desaceleração da vida, que busca a sua reconciliação com outros tempos e outros ritmos, outros espaços e lugares, outras necessidades e desejos.” Para o vaticínio recorre a Berardi: “o que está a morrer lentamente é a própria política moderna; e também, é claro, as suas manifestações esquerdistas, um mero fantasma do que eram.” Mas clarifica que o fim da política moderna não implica o fim da ideia de transformação social, mas sim “o necessário abandono da sua principal faculdade: a vontade. A vontade que força os acontecimentos e os submete aos ditames da razão.” E conclui: “O que pode substituir a vontade como principal faculdade política? Tanto Marcuse quanto Bifo apontam no mesmo sentido: a sensibilidade. Uma qualidade essencialmente receptiva, que não busca dominar, forçar e conquistar o mundo, mas antes acolher, ouvir e ser afetado por ele. Não uma receptividade passiva, mas sim activa e criativa. (…) Marcuse disse que o desafio da Grande Recusa era deixar de ser uma força política para ser uma força revolucionária. O desafio da Grande Demissão pode ser passar da deserção individual a uma força política sem horizonte revolucionário. Não sem um desejo de transformação social, mas sem a ideia clássica de revolução: tomada do poder e controlo racional da realidade. Ainda assim, uma revolução involuntária.


Não podia ainda deixar de me referir ao decrescimento no âmbito do tema de deserção, já que a rejeição do produtivismo e da centralidade do trabalho, apanágio das sociedades industriais neoliberais, sempre fizeram parte das reivindicações críticas dos decrescentistas, que defendem, por sua vez, a desaceleração, a suficiência e a redução dos consumos insustentáveis e das horas de trabalho, como vias para reconstruir comunidades prósperas. Recorro a um artigo de Tom Smith para o site ‘degrowth.info’ (aqui) onde o autor caracteriza a ‘Grande Demissão’ como fenómeno global de descontentamento profundo e de sublevação social contra o trabalho tal-como-o-conhecíamos. O autor cita os exemplos da comunidade ‘r/Antiwork’ da plataforma online Reddit, que tem como slogan ‘Desemprego para todos, não apenas para os ricos’ e onde são publicados testemunhos sobre casos de exploração laboral e de deserção, bem como o do movimento ‘tang ping’ (literalmente, ficar deitado), que surgiu na China como reacção à pressão social para trabalhar longas horas (padrão ‘996’: das 9 da manhã às 9 da noite, 6 dias por semana). Este movimento preconiza um estilo de vida que inclui não casar, não ter filhos, não comprar uma casa ou um carro, e a recusa de trabalhar horas extraordinárias ou de ter sequer um emprego, e está a suscitar natural consternação nas autoridades chinesas que o acusam de derrotismo (ver p.ex. aqui ou aqui). Smith analisa no seu texto dois livros recentes cujas ideias-chave considera alinhadas com a crítica decrescentista: ‘Four Thousand Weeks – Time and How to Use It’ de Oliver Burkeman (2022) e ‘Breaking Things at Work, The Luddites Are Right About Why You Hate Your Job’ de Gavin Mueller (2021). O primeiro advoga uma nova relação com o tempo e a adopção de ritmos de vida e de trabalho mais consentâneos com o bem-estar individual e colectivo, enquanto o segundo desenvolve uma crítica marxista das sociedades capitalistas industriais e da tecnologia, reiterando a crítica do Ludismo e preconizando uma política de desaceleração da mudança capaz de minar o progresso tecnológico e limitar a avidez do capital, desenvolvendo ao mesmo um certo nível de organização e cultivando a militância.


Finalmente, retomo o nexo entre a exaustão e a deserção invocado por Savater para lembrar que Berardi tem também defendido que o produtivismo, o positivismo, a competição e a aceleração, promovidos pelo modelo socioeconómico dominante, estão a ter, para além dos reconhecidos impactos ambientais e sociais nefastos, efeitos psicológicos profundos em diversos países assolados por casos crescentes de depressão e de esgotamento (‘burnout’) – ver p.ex. a sua conferência recente no TBA (aqui) e também aqui ou aqui. Para lá dos casos do foro clínico, Berardi considera que os sintomas depressivos e de colapso psíquico resultam não só da pressão laboral e social, mas também de uma insatisfação profunda com o sistema – político, laboral, económico – incapaz de cumprir as suas promessas de bem-estar e de felicidade, além de um sentimento de desesperança em relação ao futuro. Tal como tem vindo a exaurir os recursos materiais do planeta, o capitalismo produtivista está a exaurir os recursos nervosos do corpo humano. Para Berardi, a deserção, embora sendo um fenómeno heterogéneo e não-organizado, é a manifestação de uma sensibilidade que está (ainda) viva e que explora as potencialidades da rejeição e da resistência ao sistema, recusando aceitar o que é impingido como necessário ou inevitável e lançando um convite a uma mudança colectiva de modos de vida.

Tenciono voltar aos temas do cansaço, da sensibilidade e dos ritmos e estilos de vida num próximo post, recorrendo às vozes/palavras de autores como Byung-Chul Han, Isabelle Stengers ou Bertrand Russell.


Finalizo com uma nota autobiográfica. Há 9 anos atrás interrompi definitivamente a minha actividade profissional como docente universitário (ver a minha carta de demissão). Na altura não interpretei a minha decisão como um acto de deserção mas, retrospectivamente, verifico que reúne muitas das características do fenómeno global que tentei descrever neste post.

Deixo para encerrar duas citações do texto de Gaspard d’Allens:

À medida que o mundo vacila, oferecem-se-nos escolhas decisivas. Elas ressoam como pequenas vozes interiores. É hora de vivermos a nossa própria vida, parar de nos renegarmos, sair da dissonância. «É preciso encontrar forças para dizer não», escreveu Albert Camus em ‘L’homme révolté’.

«O sistema liga-nos e prende-nos. Devemos quebrar os cadeados que nos aprisionam para não limitar a deserção a uma elite que teria os meios», defende o filósofo jardineiro Aurélien Berlan. Devemos reflectir coletivamente sobre os meios de subsistência, rearticular o nosso status entre projectos pontuais, uma profissão mais ética ou o minimalismo social. «Há toda uma imaginação e uma educação a ser desconstruída», avança o ex-engenheiro Olivier Lefebvre. «Devemos romper com o medo do rebaixamento social, desconstruir o mito da carreira. Também é preciso mostrar a existência de um outro mundo, a possibilidade de um fora.»

P.S. Posso adiantar que uma tradução portuguesa do artigo completo de Gaspard d’Allens será publicada no próximo número da revista Flauta de Luz.