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| Líquenes (Castº de Vide) |
“Todo o bios é symbios.” Vincent Zonca
“Somos
simbiontes num planeta simbiótico. A simbiose é omnipresente.” Lynn Margulis
“Organismos
são holobiontes e a vida é simpoiética.” Scott F. Gilbert
“Tal como as
células se especificam reciprocamente num embrião, os organismos são os
ambientes uns dos outros.” Scott F. Gilbert
“Sou produto
de comunidades de células cognitivas e simbiontes que constituem o meu corpo, e
produto das comunidades sociais e ecológicas de que faço parte. E juntos somos
Gaia, uma Terra simbiótica.” John Feldman (realizador do documentário
‘Symbiotic Earth’)
“…a
fronteira entre nós e o ‘não-nós’ é profundamente permeável — tornamo-nos nós
mesmos através da comunhão e da convivência com aquilo que não somos. Isto é
tão verdade existencialmente como evolutivamente, pois a simbiose — e não a
competição — é a força propulsora mais poderosa da evolução.” Maria Popova (daqui)
Já tinha trazido aqui em 2022 (neste
post) o conceito de simpoiese (fazer/criar em conjunto ou
em colaboração), tendo então reflectido sobre a sua relevância para
caracterizar e pensar os sistemas biológicos, ou seja, o conjunto dos seres
vivos e dos ecossistemas onde se inserem e que constituem, a nível planetário, aquilo
que se designa por biosfera – ver
p.ex. aqui. Continuando no
âmbito da biologia (onde já mergulhei no post
anterior), voltarei a abordar a simpoiese neste post, enfatizando o carácter relacional e co-criativo daqueles
sistemas, na medida em que nenhum ser vivo existe isoladamente, sendo a
manutenção e evolução da vida fruto de complexos processos de interação e retroação.
Invocarei e desenvolverei também conceitos relacionados, como os de simbiose e de holobionte (ver adiante), no sentido de continuar não só a
promover uma visão (e narrativa) mais ampla, integrativa e ecocêntrica sobre o
mundo mais-do-que-humano, mas também de contribuir para abandonar de vez o viés
antropocêntrico e mecanicista que continua a dominar o pensamento e a prática
nas ciências biológicas, assim como na sociedade contemporânea em geral (ver
também posts anteriores: aqui
e aqui).
Porque, como defendia a bióloga norteamericana Lynn Margulis (que mencionei no meu post anterior), vivemos na verdade num planeta simbiótico – ver o seu livro Symbiotic Planet (1999) ou o documentário sobre as suas ideias Symbiotic Earth (2018),
realizado por John Feldman. Ou, talvez mais propriamente, num planeta simpoiético (como veremos
adiante).

Quando pensamos nos seres vivos e nos sistemas biológicos
surgem-nos imagens de diferentes tipos de organismos que interagem entre si e
com os factores físico-químicos do território onde se inserem, constituindo
aquilo que se designa por um ecossistema
(ver p.ex. aqui). É comum
atribuir aos organismos (animais, plantas ou micróbios) propriedades genéricas
como autonomia, independência ou individualidade, e aos sistemas biológicos as
características de autopoiese (aqui) e de homeostase (aqui). No entanto, sabemos
pela ecologia que o que caracteriza
um ecossistema e lhe confere resiliência são as relações e as interdependências
que se estabelecem entre os seus componentes (biológicos ou não), nomeadamente
através dos fluxos de energia e nutrientes. Ainda assim, tendemos a olhar para
os seres vivos que o compõem como conjuntos de indivíduos ou populações que
competem ou colaboram entre si, desconsiderando um contexto ambiental e
relacional (i.e. ecológico) bem mais rico e diverso. A forma como encaramos as
interações ecológicas tem, por sua vez, um forte impacto na conceptualização do
processo evolutivo. Charles Darwin e Alfred Wallace propuseram que o surgimento
de novas espécies decorre de um processo de seleção em que as variações mais
vantajosas (num determinado contexto), e que surgem espontaneamente, se tornam
dominantes ao serem transmitidas aos seus descendentes, cujas populações acabam
por substituir, num processo competitivo, as que não estão igualmente adaptadas.
Daí que a seleção natural seja
muitas vezes equacionada com a expressão “sobrevivência do mais apto” – ver
p.ex. aqui.

Esta perspectiva estreita da evolução tem vindo a ser
progressivamente questionada, embora predomine ainda no seio do pensamento
biológico aquilo que se designa por paradigma neodarwinista ou síntese
evolutiva moderna (ver p.ex. aqui).
Lynn Margulis foi uma das biólogas que mais fortemente contestou o neodarwinismo, que propunha que as
mutações aleatórias no genoma, transmitidas verticalmente por hereditariedade,
são a principal fonte de variação nos indivíduos de uma população, sobre a qual
actua o processo de seleção natural proposto por Darwin e Wallace. Margulis
concordava com a relevância evolutiva da seleção natural, mas discordava da
premissa de que a acumulação gradual de mutações genéticas aleatórias fosse o
principal motor da evolução. Enquanto o neodarwinismo se foca na competição e
na “luta pela sobrevivência”, Margulis advogava que a cooperação e a simbiose
são os motores primordiais da evolução. Para ela, as formas de vida mais
complexas (os eucariontes – ver post
anterior) surgiram com base em associações simbióticas - Margulis desenvolveu a
Teoria da Endossimbiose Sequencial (ou
simbiogénese), que propõe que as células eucarióticas surgiram da fusão de
organismos procariontes diferentes (bactérias), formando novas entidades por
integração dos seus genomas – ver p.ex. aqui.
Ela considerava que o neodarwinismo se baseava em evidência proveniente da
biologia animal, desconsiderando muitas observações provenientes do mundo
microbiano, que ela conhecia bem, onde transferências genéticas horizontais e
simbioses são comuns. Num texto em coautoria com o seu filho (Dorion Sagan) e
outros dois autores (ver aqui)
pode ler-se: “Inúmeras formas e variações
aparecem, não apenas gradual e aleatoriamente, mas também de maneira súbita e
vigorosa, por meio da sedução de estranhos, do envolvimento e da internalização
do outro em si, e da incorporação de corpos virais, bacterianos ou eucarióticos
em genomas cada vez mais complexos. A aquisição do outro, do micróbio com seu
genoma, não é meramente uma exibição lateral. Atração, união, fusão,
incorporação, coabitação, recombinação permanentes ou cíclicas - e outros tipos
de acoplamentos proibidos são as principais fontes da variação que escapou a
Darwin. Sensibilidade, sedução, união, aquisição, fusão, responsividade,
perseverança e outras capacidades microbianas não são de forma alguma
irrelevantes para o processo evolutivo. Na verdade, o oposto é verdadeiro. A
incorporação e integração de genomas "externos" - bacterianos ou
outros - levaram a variações hereditárias significativas. A aquisição de
genomas tem sido crucial para o processo evolutivo ao longo da longa e complexa
história da vida.”
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| Líquenes (Castº de Vide) |
Mas voltemos à simbiose.
Na sua definição original no século XIX, a partir do estudo dos líquenes, a
simbiose era a associação entre seres vivos distintos – no caso do líquen, um
fungo (micobionte) e uma alga unicelular ou uma cianobactéria (fotobionte).
Essa associação envolvia um contacto físico íntimo e prolongado entre os
parceiros (de tal modo que se tornam eventualmente inseparáveis), bem como uma
complementaridade fisiológica ou metabólica (ver p.ex. aqui). No caso dos líquenes,
o fotobionte produz o principal alimento do fungo (açúcares que provêm do
processo de fotossíntese*) e o micobionte fornece proteção contra a secura e
nutrientes minerais indispensáveis ao fotobionte. Para um mergulho profundo no
mundo dos líquenes ver este livro do autor francês Vincent Zonca,
onde ele aborda e cruza os aspectos biológicos, culturais, políticos, poéticos
e artísticos que estes organismos suscitam (e que conto desfiar num post futuro). Aquela complementaridade
levou a que se passasse a ligar a simbiose ao mutualismo (i.e. benefício mútuo
dos dois parceiros); no entanto, diversos autores (onde se inclui Lynn
Margulis) defendem que a simbiose é de facto a vida em comum de espécies
diferentes durante longos períodos de tempo, mas independentemente da relação
ser mutualista, comensalista ou parasitária – ver p.ex. aqui.
De qualquer maneira, na origem da simbiose encontra-se sempre alguma
complementaridade ou interdependência energética ou nutricional. Outros
exemplos paradigmáticos de simbiose incluem os corais (associação entre um
animal invertebrado – pólipos de coral – e algas unicelulares), as micorrizas
(associação entre um fungo e as raízes de uma planta) ou as associações entre
as microbiotas intestinais e os seus hospedeiros animais (humanos, ruminantes,
térmitas, etc.). Mas existem muito mais! Deste último caso, decorre o conceito
de holobionte**, que designa o
conjunto do animal hospedeiro e das populações microbianas que vivem
permanentemente dentro do seu sistema digestivo – ver p.ex. aqui. Este conceito estende-se
na verdade a todos os animais e plantas, na medida em que têm sido encontradas,
em inúmeras espécies, populações microbianas (especialmente, bactérias) mais ou
menos estáveis, que vivem no seu interior (endossimbiontes) ou na sua
superfície (ectossimbiontes). Em alguns casos, como muitos insectos e moluscos,
as bactérias simbiontes podem estar alojadas em órgãos específicos (p.ex. os
bacteriócitos de certos afídeos/pulgões ou os órgãos luminosos de algumas
lulas), enquanto noutros, elas encontram-se no interior das células animais ou
vegetais (endossimbiontes intracelulares ou endocitobiontes). Mas as relações
simbióticas também podem existir entre microrganismos, como aquelas que se
estabelecem entre protozoários e microalgas ou bactérias, que vivem no interior
(endocitobiontes) ou à superfície (ectossimbiontes) das suas células – ver
p.ex. aqui. As
endocitobioses implicam geralmente a migração de material genético para o
núcleo da célula hospedeira e estão implicadas na origem de dois organelos dos
eucariontes: as mitocôndrias e os cloroplastos (segundo a hipótese simbiogénica
de Margulis). É importante reter que o holobionte não é meramente a soma das
partes que o constituem, mas é um consórcio biológico com características e
propriedades próprias, representando pois uma novidade evolutiva sobre a qual a
seleção natural pode actuar (ver adiante).

O que estas constatações mostram é que, por um lado, a
simbiose é um fenómeno bem mais recorrente e generalizado do que se pensava,
não estando restrito apenas a alguns casos particulares ou a curiosidades
biológicas. Como afirmava Lynn Margulis, “Nós
somos simbiontes num planeta simbiótico. A simbiose está por todo o lado”,
ou, como afirma Vincent Zonca, “Todo o bios
é symbios” – toda a vida é
vida-em-conjunto, nenhum ser vivo existe isolado. Mas a implicação é mais
profunda: dado que todos os seres vivos existem em relação entre si e com o
ambiente físico-químico, todos são agentes co-criadores do mundo e o ambiente é
afinal é uma co-criação conjunta- ou seja, simpoiética
- da vida***. Daqui resulta uma profunda integração entre biosfera, hidrosfera,
litosfera e atmosfera, que se encontram em permanente mutação como consequência
das actividades das sucessivas gerações de formas de vida que habitam o mundo
há milhares de milhões de anos. Como se pode ler no texto já citado, do qual
Margulis é co-autora, “A vida não «se
adapta» a um ambiente passivo do ponto de vista da física e da química. Em vez
disso, ela produz ativamente seu ambiente e o modifica”, ou ainda, “O meio ambiente e o organismo não fazem uma
casa mas sim um corpo”. Esta perspectiva tinha sido avançada pelo cientista
russo Vladimir Vernadsky, pouco
conhecido no Ocidente, mas que foi promotor da geoquímica e criador do conceito
de biosfera – ver p.ex. aqui.
Vernadsky recusava a separação dos seres vivos (a biota) do seu ambiente e
considerava a vida como a maior força geológica do planeta. Esta visão foi
traduzida na hipótese de Gaia
proposta por James Lovelock e
elaborada em conjunto com Lynn Margulis – ver aqui ou aqui.
Recorrendo novamente ao mesmo texto: “A
ciência de Gaia vai além da metáfora que afirma que o planeta não é apenas uma
casa. A Terra também é um corpo. E um corpo é diferente de um lugar sem vida,
porque sente, sente e reage. Embora a diferença entre chamar a Terra de
«planeta vivo» ou um planeta que «está vivo» pareça trivial, o debate sobre a
formulação tem causado discórdia entre biólogos e geólogos.” Devo realçar
que enquanto Lovelock via Gaia como um organismo vivo que se auto-regula,
Margulis discordava e considerava Gaia como um sistema fisiológico composto por
ecossistemas, por sua vez compostos por comunidades, sendo a unidade mínima a
célula. Sistemas complexos dentro de sistemas complexos, todos eles
constituídos por múltiplos componentes que interagem, se auto-regulam, se
co-criam e se transformam reciprocamente. Essa era também a visão do médico e
ensaísta norteamericano Lewis Thomas,
que transmitiu numa série de textos curtos intitulada “The Lives of a Cell” (1974), em particular no ensaio que dá nome à colectânea e
no ensaio final (The world’s biggest
membrane). Retomando o texto anterior: “O
reconhecimento de que a Terra está viva significa deslizar em direção a uma
área proibida para a ciência: o animismo… Gaia reduziu a distância entre o que
é orgânico e inorgânico, animado e inanimado. Na teoria de Gaia, por exemplo, a
atmosfera torna-se parte da biosfera, uma espécie de sistema circulatório
planetário. O solo, onde abundam os microrganismos, não é mais um substrato sem
vida, mas sim um tecido vivo na superfície do planeta. (…) Esse novo tipo de atenção a tudo que nos
cerca traz consigo uma mudança de valores e oferece à nossa civilização
tecnológica a chance de reconhecer, mudar e até desfazer o impacto humano no
meio ambiente.” É aqui patente a projeção de um entendimento sobre os
sistemas naturais para os sistemas sociais, traduzindo-o para uma ética
ecológica e política.

Mas regressemos às implicações da ubiquidade da simbiose e
ao conceito de holobionte. Um outro biólogo norteamericano que o abraçou foi Scott F. Gilbert, usando-o para
questionar as noções de individualidade e de identidade, centrais para diversas
subdisciplinas da biologia, num artigo em coautoria com Jan Sapp e Albert
Tauber “A Symbiotic View of Life: We Have Never Been Individuals” (2012). As suas
asserções basearam-se em diversos estudos sobre diferentes animais que
demonstravam a presença de populações de simbiontes microbianos persistentes
(maioritariamente, bactérias, mas também fungos, protozoários, vírus e até
alguns invertebrados microscópicos), com papéis relevantes no desenvolvimento e
fisiologia dos hospedeiros. Nesse artigo, os autores afirmam: “Os animais não podem ser considerados
indivíduos por critérios anatómicos ou fisiológicos, pois uma diversidade de
simbiontes está presente e funcional, completando vias metabólicas e
desempenhando outras funções fisiológicas. Da mesma forma, estes novos estudos
demonstraram que o desenvolvimento animal é incompleto sem simbiontes. Os
simbiontes constituem também um segundo modo de herança genética, fornecendo
variação genética selecionável para a seleção natural.” E concluem: “Todo o genoma é um produto histórico e, tal
como a célula, é o resultado de antigas simbioses e transferências horizontais
de genes. Somos quimeras genómicas: quase 50% do genoma humano consiste em
sequências de ADN transponíveis adquiridas exogenamente. (...) Assim, os animais já não podem ser
considerados indivíduos em qualquer sentido da biologia clássica: anatómico, de
desenvolvimento, fisiológico, imunitário, genético ou evolutivo.”
Um outro aspecto particularmente relevante foi a constatação
de que o sistema imunitário do animal (incluindo o humano) se desenvolve, em
parte, em diálogo com os simbiontes e, por isso, funciona como um mecanismo
para integrar os microrganismos na comunidade celular animal. Assim, os
simbiontes para além de poderem participar reciprocamente no desenvolvimento e
nos processos fisiológicos, podem ajudar a mediar a resposta do holobionte a
outros organismos, tornando-se efetivamente “o eu” [self]: “Deste ponto de vista,
não existe uma entidade circunscrita e autónoma que seja designada a priori
como «o eu». O que conta como «o eu» é dinâmico e dependente do contexto.”
Gilbert e coautores concluem: “Reconhecer
o «holobionte» — o eucarionte multicelular com o seu séquito de simbiontes
persistentes — como uma unidade de importância crítica para a anatomia, o
desenvolvimento, a fisiologia, a imunologia e a evolução abre novas vias de
investigação e desafia conceptualmente os modos como as subdisciplinas
biológicas têm caracterizado as entidades vivas até à data”. Defendem ainda
que “Estas descobertas conduzem-nos a
direcções que transcendem as dicotomias eu/não-eu, sujeito/objecto que
caracterizaram o pensamento ocidental.” Gilbert passaria a usar a expressão "We are all lichens" como título das suas palestras (ver p.ex. aqui ou aqui).
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| Líquenes (Pq. Florestal de Monsanto) |
Subsequentemente, Gilbert ampliou a sua proposta de
releitura da biologia à luz dos novos conhecimentos, incorporando o conceito de
simpoiese e expandindo a hipótese de
Gaia, que ele considera como um (macro)holobionte simpoiético – ver aqui
ou aqui. Neste último
artigo, intitulado “A Sympoietic View of
Life: Gaia as a Holobiont Community”, Gilbert reconhece dois outros
aspectos fundamentais para um novo entendimento da vida e de Gaia, para além da
centralidade da simbiose e dos holobiontes (entidades que são consórcios
simbióticos integrados): o metabolismo (conjunto das reações bioquímicas que
permitem a manutenção e reprodução dos organismos e dos ecossistemas) como actividade
comunitária; e o papel da 2ª lei da termodinâmica (que traduz a assimetria dos
processos energéticos no universo, de modo a que as interações ocorram na
direção que produz a maior entropia, e rege quer os processos biológicos, quer
os abióticos), não como uma restrição à vida, mas como um constrangimento que
estimula a criatividade.
Gilbert reconhece que, em qualquer dos diferentes níveis - do
desenvolvimento, metabólico, fisiológico, ecológico ou evolutivo -, os
processos vitais são sempre realizados em conjunto e em relação, ou melhor,
simpoieticamente, uma vez que implicam também uma faceta co-criativa. O autor
escreve: “A simpoiese deve ser destacada
como um parâmetro crucial para a concepção da vida. Em primeiro lugar, a
simpoiese significa o fim da nossa concepção de nós próprios e dos outros
organismos como indivíduos monogenómicos, auto-suficientes e capazes de se
auto-construir. Como observou Donna Haraway, nós literalmente «tornamo-nos um
com o outro».” E prossegue: “Em
segundo lugar, para quase todos os animais (e provavelmente também para as
plantas e fungos) não existe autonomia, e a autopoiese limita-se à auto-manutenção
celular. Em vez disso, os animais são criados por simpoiese, que é uma
integração complexa da embriologia e da ecologia. Os co-simbiontes apoiam-se
mutuamente e proporcionam condições para a existência uns dos outros. Os
simbiontes no rúmen permitem a existência e a propagação das vacas; as vacas
permitem a existência e a propagação das suas bactérias ruminais. Não há «hospedeiro»
na relação simbiótica. Os animais constituem o meio das bactérias, tal como as
bactérias constituem o meio dos animais. (…) Em terceiro lugar, a especiação evolutiva ocorre frequentemente, como
anunciaram Lynn Margulis e Dorian Sagan, através da «aquisição de genomas». De
facto, o que é seleccionado na evolução pode ser a «equipa» de organismos, e
não os indivíduos. A nível microevolutivo, novas combinações de simbiontes
deram origem a novos fenótipos. (...) as
grandes inovações evolutivas feitas através de novas vias simpoiéticas podem
incluir a multicelularidade, a meiose, a herbivoria e o útero dos mamíferos.
Cada uma parece ter surgido através de novas combinações de animais e micróbios
simbióticos. (…) Em quarto lugar, não
há um fecho nem um limite auto-definido para a equipa simbiótica. (…) O encerramento e a autopoiese já não podem
caracterizar os organismos eucarióticos. A autopoiese não forma novos
organismos, sustenta-os e repara-os. Em vez disso, diferentes espécies actuam
em conjunto simpoieticamente para se construírem continuamente. (...) O corpo holobionte pode aparecer e funcionar
como um indivíduo, mesmo enquanto muda e desenvolve as suas partes. No entanto,
não há autonomia, excepto como equipa. Os organismos são holobiontes,
desenvolvendo-se continuamente através da simpoiese.” Convém realçar que
nos consórcios simpoiéticos não existe
criador (externo), nem maestro:
todos os parceiros colaboram no desenvolvimento e manutenção da parceria e
todos são co-autores da criação colaborativa!

Gilbert reforça assim a sua visão central do metabolismo e
da simpoiese: “Aqui, adoptamos uma
perspectiva em que «a vida não tende para a autopreservação, como quase sempre
pensamos, mas para a manifestação do mundo» (Renaud Barbaras, 2008). A vida
manifesta-se no mundo como metabolismo. Como Hans Jonas percebeu, «a troca de
matéria com o meio ambiente não é uma actividade periférica realizada por um
núcleo persistente: é o modo total de continuidade (autocontinuidade) do
sujeito da própria vida». Para Jonas, a vida é o conjunto de relações em que a
única forma de manter a individualidade é alterando as próprias partes. Este é
o significado de metabolismo. Um organismo «nunca é o mesmo materialmente e, no
entanto, persiste como o mesmo eu, por não permanecer a mesma matéria».
(...) Esta dialética é fundamental para
perceber os holobiontes e Gaia como totalidades que se metabolizam em conjunto.”
Gilbert reinterpreta a visão de Gaia de Lynn Margulis à luz
do conceito de simpoiese, que só surgiu já depois de ela ter falecido. O
entendimento de Gaia como holobionte simpoiético é enfatizado neste trecho: “Gaia é também um holobionte no sentido em
que possui um «exossimbionte», a Lua, que contribuiu significativamente para a
evolução da vida na Terra. Em primeiro lugar, a gravidade da Lua pôs em marcha
os ecossistemas de maré (possibilitando recifes de coral, zonas costeiras e
pântanos) que abrangem alguns dos locais mais críticos para a evolução e a
biodiversidade. Em segundo lugar, a luz lunar periódica serve como um marcador
temporal crucial para muitos eventos fisiológicos, especialmente a sincronia
reprodutiva e as mudanças no ciclo de vida. E em terceiro lugar, a Lua fornece
pistas e desafios de localização como parte do ambiente. A Lua mudou e continua
a mudar o caminho evolutivo da Terra. Assim, o holobionte Gaia é definido,
simpoieticamente, pelos seus componentes endossimbióticos e pelo seu principal
parceiro, a Lua.”

Gilbert conclui o seu texto analisando uma série de
propostas para uma ética ecológica planetária e para um novo vocabulário informados
pelas perspectivas inter-relacionais e simpoiéticas sobre a natureza dos
organismos e dos ecossistemas, que sejam capazes de transcender os vieses e
limitações da etnociência ocidental, inspirando-se nas ontologias e cosmovisões
não-ocidentais (do Budismo às diferentes culturas indígenas). Recordo que para
muitas dessas culturas não existe separação entre o mundo humano e não-humano –
pelo contrário, estão ontologicamente entrelaçados –, algo que a ciência
ocidental só passou a incorporar com o desenvolvimento da ecologia (mas ainda
com grandes resistências). Citando diversos autores (de Kant a Hans Jonas, de
Haraway a Latour), Gilbert desafia-nos a ir além da ética da responsabilidade e
do cuidado, propondo integrá-las com as noções de reciprocidade e de devir contextual
das culturas orientais e indígenas. Escreve em conclusão: “A biologia mudou e tornou-se uma ciência de relações dependentes do
contexto, que integram a nossa capacidade de agir com a de outros organismos e
até com a matéria não viva, regida por princípios termodinâmicos. Uma
perspetiva gaiana deveria ser capaz de integrar os ecossistemas locais e
globais de uma forma que valorizasse as culturas naturais locais, sem promover
o fascismo ecológico que frequentemente acompanha esse tipo de ambientalismo.
Além disso, podemos estar no ponto em que a manutenção da actual encarnação de
Gaia, com todas as suas vias metabólicas interligadas, águas subterrâneas,
oceanos, predadores e presas, micróbios, couves e reis, exige mudanças
sociopolíticas radicais para evitar a reorganização radical da vida neste
planeta.”
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| Líquenes (Serra da Estrela) |
Termino referindo que este post, tal como o anterior, surgiram na sequência da minha
participação em residências de investigação artística do projecto Câncer em
Saturno, da performer e encenadora Joana Levi, onde explorámos os cruzamentos das
noções de simbiose e simpoiese provindas da biologia com a filosofia, a
antropologia, a astrofísica ou as práticas artísticas, e como podem ajudar a repensar
visões e a imaginar outras formas de estar no mundo. Deixo aqui alguns exemplos
de outros projectos artísticos que foram também beber nos mesmos temas e
conceitos da biologia: Ilhas Flutuantes/Sea Creatures (2008-2012)
de Beatriz Chachamovits (ver artigo ‘História da Ilha’
de Carolina Correia dos Santos); Holobionte
de Constanza Givone (Fogo Lento); Sympoiesis
(2024) de Eunice Luk (ver também ensaio de Darian
Razdar); We are all holobionts! (2025), exposição colectiva no Radius-CCA (Holanda).Notas
* Na
verdade, a fotossíntese é um processo de produção de energia química (sob a
forma de ATP) a partir da luz solar, por via de pigmentos fotossintéticos (como
as clorofilas), análogo à respiração, em que a energia química provém de
reações de oxidação-redução. Nas plantas, algas e muitas bactérias
fotossintéticas (como as cianobactérias), a fotossíntese está emparelhada com a
fixação de CO2, que consiste, por sua vez, num conjunto distinto de reações (ciclo
de Calvin) que usa o ATP gerado pela fotossíntese para produzir açúcares. Daí
que se afirme comumente por simplicidade que a fotossíntese consiste na produção de açúcares a
partir da luz solar e do CO2. No entanto, a fotossíntese e a fixação de CO2 são
processos metabólicos distintos, que podem ou não estar acoplados – p.ex., há
bactérias fotossintéticas que não fixam CO2, assim como bactérias que fazem
respiração e são capazes de fixar CO2.
**
Simbiocosmo é uma designação alternativa proposta pelo entomólogo francês Paul
Nardon para nomear a nova unidade biológica formada pelo hospedeiro e o seu séquito
microbiano - ver aqui.
*** Faço notar
que simbiose (na sua definição mais estrita) e simpoiese descrevem processos
biológicos da vida em comum, mas não são sinónimos: todas as simbioses são
simpoieses, na medida em que resultam na criação conjunta de algo novo, mas nem
todas as simpoieses são simbioses. P.ex., a co-evolução entre plantas com flores
e os seus insectos polinizadores é simpoiese (há modificação e criação
resultante da interação entre espécies), mas não é simbiose (quer a planta, quer o insecto têm
ciclos de vida separados e podem viver um sem o outro, embora exista alguma interdependência
resultante da sua interação).