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domingo, 21 de junho de 2026

Os 'acordos de paz' e o Mundial: a realidade invertida do nosso descontentamento

Evan Vucci (c) The Associated Press
Neste post recorro aos recentes ‘acordos de paz’ para o Médio Oriente mediados pelos EUA (Gaza em 2025 e Irão em 2026) como exemplos de realidade invertida, ou seja, para tentar demonstrar como as narrativas dominantes sobre os respectivos conflitos invertem as responsabilidades na sua génese e prossecução, dissimulando um teatro geopolítico ditado pelos poderosos, que violam o direito internacional e para quem a última preocupação são os interesses e bem-estar das populações afectadas. A estes exemplos adiciono o Mundial de Futebol na medida em que a promoção de um evento desportivo alegadamente acima da política e que pretende celebrar a união dos povos é, na verdade, um enorme embuste que mascara, não apenas a mercantilização e os interesses económicos, mas também os jogos políticos, que lhe estão associados.

De facto e como já tinha desenvolvido anteriormente noutros escritos sobre os conflitos no Médio Oriente (p.ex. aqui ou aqui), temos assistido a uma clara e sistemática manipulação da perceção pública mundial por parte dos media ocidentais dominantes no sentido da desresponsabilização dos agressores, em particular o governo israelita e os próprios EUA, e de ocultar o conluio, declarado ou dissimulado, de muitos outros países ocidentais na sua concretização. Portanto, não se trata meramente de usar a mentira para manipular e fabricar o consentimento, como defendi nos meus posts anteriores, mas de criar narrativas completamente invertidas. A flagrante impunidade com que Israel tem imposto a sua agenda agressiva de expansão territorial e de chacina étnica é uma amarga demonstração não só da impotência e do falhanço das instituições e do direito internacionais, mas também dos efeitos da cobertura mediática enviesada, aliada a uma apatia da opinião pública mundial. A distorção da realidade alastra-se ao campo económico na medida em que os discursos políticos e mediáticos tendem a encobrir ou a escamotear os interesses financeiros por detrás dos conflitos – ver p.ex. aqui.


Já no caso do Mundial de Futebol, é penoso assistir a uma cobertura e adesão (quase) acríticas, quer por parte dos media, quer por parte dos ‘fãs’, que acaba por legitimar simbolicamente a administração Trump e a direção da FIFA, tendo ambas revelado uma flagrante falta de ética e de respeito pelas regras internacionais, além de explorarem financeiramente de forma revoltante os adeptos do desporto, sem que haja um boicote claro ao evento – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. Se o campeonato anterior no Qatar já era apelidado de Mundial da Vergonha (ver aqui), este não lhe fica atrás.


Realidade invertida e o “plano de paz” para Gaza

A noção de realidade invertida foi invocada pela autora e activista palestiniana Rima Najjar num seu ensaio de 2025 sobre o ‘plano de paz’ para Gaza promovido por Donald Trump, intitulado “Inverting Reality: The Optics of Trump’s “Peace” Plan”. Nesse ensaio, Najjar recorre ao conceito de realidade invertida para descrever uma estratégia deliberada de manipulação narrativa e visual. Segundo ela, esta estratégia visa distorcer a perceção pública do conflito, apresentando os colonizadores como pacificadores e a resistência palestiniana como terrorismo, enquanto suprime o sofrimento e a agência do povo palestiniano. A autora enfatiza assim o processo sistemático através do qual a ocupação militar e a violência estrutural são reencenadas mediaticamente como actos de governação legítima ou esforços de paz. Najjar argumenta que as ópticas (a forma como os eventos são mostrados ou ocultados) não são incidentais, mas estratégicas, desenhadas para moldar a legitimidade moral e obscurecer os mecanismos de poder, apoiando-se no uso de terminologia falaciosa. O ensaio foca-se especificamente nas estratégias performáticas e retóricas em torno da troca de prisioneiros de Outubro de 2025, no discurso de Donald Trump no Knesset e na cimeira de Sharm al-Shaikh. Para a autora, estes eventos foram coreografados para transmitir uma falsa sensação de ‘resolução’, ocultando a realidade de que servem para consolidar a impunidade e aprofundar o controlo sobre os palestinianos. Najjar denuncia igualmente a encenação política e mediática com a exaltação de figuras como Trump e Netanyahu nos palcos diplomáticos, criando um espetáculo que legitima a ocupação sob o disfarce de diplomacia. A bajulação de Trump por alguns dos líderes presentes na cimeira no Egipto roçou o grotesco (ver p.ex. aqui). No contexto específico do “Plano de Paz” de Trump, a realidade invertida manifesta-se ao rotular uma imposição colonial como uma iniciativa de paz. Najjar descreve o plano de 20 pontos não como uma novidade estratégica, mas como uma “arquitetura de controlo reciclada”, embalada em jargão diplomático. Para Najjar, desmantelar a realidade invertida exige reconhecer que a agressão e a ocupação não são disputas entre duas partes iguais, mas um sistema de dominação onde a terminologia e as ópticas são armas usadas para manter a opressão invisível ou justificável aos olhos do mundo ocidental.


Vários outros comentadores e analistas se insurgiram, não só contra o conteúdo do ‘plano de paz’, como criticaram a sua aprovação tácita pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) em Novembro de 2025 – ver p.ex. aqui, aqui e aqui. A resolução do CSNU foi acolhida pela autoridade palestiniana, mas rejeitada pelo Hamas. Outro aspecto que gerou profunda consternação em certos sectores foi a constituição do chamado Conselho da Paz (Board of Peace), proposto e presidido vitaliciamente por Trump, que constitui não só uma afronta ao mandato da ONU, como uma normalização de uma agenda plutocrática que olha para a destruição de Gaza e a limpeza étnica do povo palestiniano como oportunidades de negócio, e onde se inclui o chamado “Gaza Reconstitution, Economic Acceleration and Transformation (GREAT) Trust” – ver p.ex. aqui, aqui e aqui. Num artigo de opinião para o Arab Center Washington DC, o ex-diplomata e especialista no Médio Oriente, Charles W. Dunne, afirma: “A actual composição do Conselho dificilmente inspira confiança na sua capacidade ou vontade de ajudar Gaza a desenvolver uma “governação moderna e eficiente que sirva o povo de Gaza”, como afirma o plano original, muito menos a promover eleições ou a um autogoverno democrático (embora, de facto, o plano nunca mencione democracia ou eleições). (...) A presença de Israel num Conselho ostensivamente destinado a reconstruir e ajudar a governar Gaza — que o próprio Israel destruiu em grande parte durante uma campanha militar que as Nações Unidas classificaram de “genocídio” — só vem aprofundar o cepticismo generalizado.” Em relação às aspirações do Conselho, Dunne escreve: “Para além dos ambiciosos planos para a paz mundial — e para sabotar a ONU — podem existir motivações mais egoístas em jogo, nomeadamente o lucro. Trump já não fala em despovoar e reconstruir Gaza como a “Riviera do Médio Oriente” (o plano dos 20 pontos exclui especificamente a transferência de população). Mas espera claramente reconstruir Gaza nos moldes das “prósperas cidades modernas e milagrosas do Médio Oriente”, como sugere o ponto 10 do plano de paz, o que pode equivaler praticamente à mesma coisa. Um “plano director” para a reconstrução de Gaza apresentado em Davos por Jared Kushner — uma visão de 30 mil milhões de dólares que inclui uma zona turística costeira com 180 arranha-céus, 100.000 unidades habitacionais em Rafah e um novo centro industrial — está certamente em consonância com o conceito anterior de Trump.

Patrick Chappatte

Para cúmulo (ou ‘juntar o insulto à injúria’), Israel não cumpriu os termos do plano de paz e tem continuado a chacina e destruição em Gaza, além de impedir a acção das agências de ajuda humanitária, com o conluio dos EUA e de grande parte da comunidade internacional, aliados a um desviar de olhar dos media – ver p.ex. aqui ou aqui.

Acordo de paz EUA-Irão

A realidade invertida volta a manifestar-se no recente acordo (memorando de entendimento) entre EUA e Irão, pelo apagamento sistemático de Israel como actor central do conflito, apesar de ter sido o principal executor da agressão e que teria muito a ganhar geopoliticamente com o seu eventual sucesso (ver p.ex. aqui). Note-se que Israel não é signatário do acordo, nem participou nas negociações directas, apesar de ter participado nos ataques aéreos iniciados a 28 de Fevereiro deste ano (e nos de Julho de 2025), que destruíram diversas infrastruturas militares e civis iranianas, além de ter assassinado líderes políticos e científicos. Ao excluir Israel do acordo, evita-se qualquer discussão sobre a legalidade dos ataques conjuntos EUA/Israel, a responsabilidade pelas baixas civis ou a destruição de infraestrutura civil. Israel mantém a sua narrativa de “segurança existencial” sem ter de se sentar à mesa de negociações como parte responsável pelo conflito. O acordo é apresentado como uma resolução bilateral EUA-Irão, ocultando que a guerra foi, na prática, travada por procuração e directamente por Israel.


O acordo foca-se nas restrições ao programa nuclear e ao comportamento regional do Irão (Hezbollah, etc.), reforçando a narrativa de que o Irão é o destabilizador, enquanto a acção militar dos EUA e Israel é enquadrada como uma “resposta necessária” ou um “mal menor” para atingir a estabilidade na região. A narrativa dominante enquadra os EUA como o mediador que “trouxe a paz” e o Irão como a parte que cedeu (ao concordar com a diluição do urânio enriquecido e a reabertura do Estreito de Ormuz). Inverte-se a realidade de que foram os EUA e Israel que iniciaram a escalada militar após o alegado colapso das negociações, bombardeando o Irão, com os objectivos declarados de desmantelar o seu programa nuclear e provocar uma mudança de regime – agora, mais do que nunca, ainda mais difíceis de atingir. Israel aproveitou entretanto para abrir outra frente de agressão no sul do Líbano, à revelia dos EUA. O Irão não tardou em exigir a vinculação de Israel ao novo acordo, que abrange o Líbano nos termos do cessar-fogo (ver p.ex. aqui). Não é de espantar que o acordo tenha sido tão mal acolhido quer por Israel, quer pelas fações neo-conservadoras e belicistas norte-americanas. Todos estes factores, bem como os ataques continuados de Israel no sul do Líbano, terão levado ao cancelamento do encontro entre as delegações americana e iraniana previsto para o dia 19 de Junho na Suíça, onde seria assinado formalmente (ver p.ex. aqui).


O acordo ilustra igualmente a inversão da realidade ao transformar as consequências de uma guerra ilegal e não provocada numa alegada vitória diplomática. O que é vendido como uma conquista diplomática dos EUA (a diluição do urânio dentro do Irão sob supervisão da AIEA) era, na verdade, uma proposta que o Irão já tinha colocado sobre a mesa em 2025, antes do início dos bombardeamentos, fazendo parecer que a guerra foi necessária para alcançar um resultado que era viável diplomaticamente antes da violência. A paz é ainda celebrada como o restabelecimento do statu quo (reabertura do Estreito de Ormuz, fim das hostilidades), mas escamoteia-se que foi a própria guerra que fechou o Estreito e destabilizou a região. A “paz” surge, portanto, como a resolução de um problema criado pela própria agressão militar, sendo apresentada como um acto de habilidade política e diplomática. Na verdade, e como vários analistas e comentadores têm destacado, o acordo é uma derrota política e diplomática para os EUA, na medida em o Irão sai fortalecido com o levantamento das sanções económicas e das restrições ao investimento – ver p.ex. aqui. A terminologia de “memorando de entendimento” e “cessar-fogo” mascara a realidade de uma rendição diplomática dos EUA e da sua subjugação aos ditames de Israel, uma vez que não conseguiram impor as suas condições máximas através da guerra, mas vendem o resultado como uma vitória estratégica.


Um aspecto que quero ainda destacar é o do oportunismo económico associado a este conflito em particular. Os efeitos quase imediatos nos preços de bens essenciais (combustíveis e alimentos) foram notórios logo desde o início das hostilidades (ver p.ex. aqui ou aqui) e traduziram-se em lucros chorudos para muitas empresas – ver p.ex. aqui ou aqui. No entanto, a constatação de que o prolongar do conflito estava a produzir fortes impactos na economia mundial e que estes se repercutiam negativamente nos países ocidentais, mas até estavam a beneficiar o próprio Irão, fez aumentar a pressão para suspender os ataques militares e para encontrar uma saída airosa para os EUA – ver p.ex. aqui. Faço notar que a Reuters divulgou que o novo acordo EUA/Irão prevê um fundo de investimento privado de 300 mil milhões de dólares, segundo noticiou o Público (aqui). Nessa notícia pode ler-se: “O novo fundo [que deverá chamar-se Fundo de Reconstrução e Desenvolvimento] é um mecanismo de investimento privado — não um programa de reconstrução ou de indemnizações — e não incluirá quaisquer verbas públicas ou subvenções, adiantou [fonte conhecedora do acordo à Reuters], acrescentando que empresas sediadas nos EUA, nos Estados árabes do Golfo, na Ásia, na América do Sul e em África comprometeram-se a financiar o projecto. Os investimentos prometidos abrangem os sectores da energia, logística, indústria transformadora e transportes.” Torna-se uma vez mais evidente que os conflitos armados fazem parte de um teatro político que se destina a dissimular os interesses económicos que beneficiam com a sua perpetuação.


Mundial da Vergonha 2

O Mundial de Futebol, co-organizado este ano pelos Estados Unidos, México e Canadá, consolidou-se como um caso paradigmático da interseção entre geopolítica, soft power e a mercantilização do desporto. Sob a sombra do segundo mandato de Donald Trump e da liderança de Gianni Infantino na FIFA, o evento transcendeu a esfera desportiva para se tornar um palco de disputas ideológicas e reafirmação da hegemonia norte-americana – ver ensaio de Marco Alves, aqui. Em contraste com edições anteriores, em que tentava manter uma neutralidade diplomática, em 2026 a FIFA adoptou uma postura de aberto alinhamento com os interesses dos EUA – ver ensaio de Camila Valente, aqui. O momento simbólico mais marcante ocorreu durante o sorteio da fase final em Washington, quando Infantino entregou a Trump o inédito ‘Prémio da Paz da FIFA’ (ver aqui). Esta condecoração foi amplamente interpretada por críticos e organizações de direitos civis como uma tentativa de legitimação política de um governo marcado por políticas migratórias restritivas e isolacionismo diplomático -ver artigo de Camila Valente citado acima. A criação do prémio quebrou o protocolo histórico da FIFA de não misturar liderança política de países-sede com honrarias oficiais durante o certame, sinalizando que a estabilidade dos contratos e o acesso ao mercado consumidor americano prevalecem sobre a independência institucional – ver artigo de Elvis da Silva, aqui. Neste texto, o autor aponta que o ‘FIFA Gate’, despoletado em 2015 pelo Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como um mecanismo disciplinador que desmantelou redes de poder antigas na FIFA e impôs uma governança alinhada com os interesses norte-americanos. De facto, com a ascensão de Infantino, o Mundial de 2026 recupera a centralidade dos EUA no futebol mundial, corrigindo o deslocamento de poder para o Médio Oriente e a Eurásia ocorrido nas décadas anteriores. A presença de Trump, que criou uma task force específica na Casa Branca para o evento, reforça a narrativa de que o torneio é uma extensão da política externa americana, utilizando o futebol como instrumento de projeção de poder – ver artigos de Elvis da Silva e de Marco Alves citados acima.


Por outro lado, sob a égide da administração Trump e da gestão da FIFA, este Mundial estabeleceu novos recordes de mercantilização. A adoção dos chamados modelos de ‘preços dinâmicos’ inflacionou o custo dos bilhetes, tornando o evento inacessível para grande parte das claques tradicionais, especialmente as da América Latina e de comunidades locais nos EUA. A crítica central reside na transformação do evento num produto de luxo, onde a lógica de mercado se sobrepõe à função social do desporto. Relatos de bilhetes com valores exorbitantes no mercado secundário, com taxas de comissão de 15% para a FIFA, tanto na venda como na compra, evidenciam a promoção do lucro em detrimento da inclusão. Essa abordagem gerou denúncias de que o torneio se tornou um “circo dominado por Trump”, onde a celebração universal do futebol é restringida por barreiras económicas elitistas – ver aqui ou aqui.


Quanto às promessas feitas na candidatura conjunta de 2018 sobre inclusão e direitos humanos, a realidade de 2026 apresentou fortes contradições – ver p.ex. aqui. A manutenção e o endurecimento de políticas de controlo fronteiriço restritivas pela administração Trump dificultaram ou impediram a entrada de adeptos de diversas nacionalidades e até de jogadores e árbitros, ferindo o princípio de universalidade do torneio – ver aqui. Organizações de direitos civis exigiram uma postura mais firme da FIFA perante as políticas da administração Trump, especialmente quanto à actuação de agências de imigração como o ICE durante os jogos. No entanto, a entidade manteve-se em silêncio, privilegiando a segurança dos contratos de patrocínio e transmissão. A participação de seleções de países sob tensão diplomática com os EUA, como o Irão, concomitante com acordos de cessar-fogo provisórios, amplificou a dimensão política do evento, demonstrando que o desporto não se conseguiu isolar dos conflitos internacionais, sendo absorvido por eles. Como afirma Marco Alves no artigo já citado: o Mundial de 2026 demonstra que “o futebol contemporâneo já não pode ser compreendido apenas como desporto ou entretenimento. Ele tornou-se um território central da competição geopolítica global, onde Estados, corporações, organizações internacionais e actores privados disputam influência, legitimidade e poder simbólico. No fim de contas, o verdadeiro significado político do Mundial talvez resida precisamente nessa transformação: o futebol converteu-se num espelho da ordem internacional contemporânea — com todas as suas contradições, conflitos e batalhas pelo controlo do imaginário global.” Seja como for, assim que se iniciou a competição, as críticas foram esquecidas e as atenções voltaram-se para os jogos e as seleções. Como diz a velha máxima americana: The $how must go on.

Em jeito de súmula: as estratégias de normalização do poder

A noção de realidade invertida, que pedi emprestada a Rima Najjar, descreve um fenómeno ilustrado pelos recentes ‘acordos de paz’ promovidos pelos Estados Unidos no Médio Oriente, em que os efeitos são apresentados como causas, os responsáveis surgem como salvadores e os beneficiários da destruição reaparecem como agentes da reconstrução. Nesta lógica, a guerra deixa de ser vista como um fracasso da ordem internacional para ser reinterpretada como uma etapa necessária de um processo cujo desfecho será a paz. A destruição de infraestruturas, a chacina e deslocação de populações ou a devastação económica dos territórios afectados são progressivamente retiradas do centro da narrativa pública. O foco desloca-se para os acordos diplomáticos, para os líderes que os patrocinam e para as oportunidades económicas que emergem da reconstrução. Passa assim para segundo plano a discussão sobre as decisões políticas e militares que contribuíram para a escalada dos conflitos, bem como o papel desempenhado pelos Estados Unidos e pelos seus aliados ocidentais no apoio material, diplomático e estratégico a Israel. A realidade invertida torna-se particularmente evidente quando empresas que lucraram directa ou indirectamente com a economia de guerra surgem posteriormente como parceiras privilegiadas dos programas de reconstrução. O sofrimento colectivo transforma-se numa oportunidade de investimento. As cidades destruídas convertem-se em mercados. Os territórios devastados passam a ser apresentados como espaços de desenvolvimento e modernização. O resultado é uma paz apresentada como um bem em si mesmo, desligada das condições em que foi alcançada e das relações de poder que a moldaram. As populações directamente afectadas pelos conflitos são invisibilizadas, raramente participam na definição dos seus termos e vêem os seus interesses subordinados aos objectivos estratégicos das grandes potências.


Esta lógica não se limita à geopolítica. Também se manifesta na esfera do entretenimento global. O Campeonato do Mundo de Futebol surge como um exemplo da capacidade das grandes instituições e estruturas de poder para normalizarem contextos politicamente controversos. Apesar das críticas dirigidas à administração Trump, das acusações de desrespeito por normas internacionais e das crescentes denúncias sobre a mercantilização extrema do futebol por parte da FIFA, o evento continua a ser apresentado sobretudo como uma celebração universal do desporto. Tal como acontece com os acordos de paz, a dimensão festiva tende a obscurecer debates mais incómodos sobre poder, responsabilidade e interesses económicos. Os adeptos são incentivados a participar no espectáculo, mesmo quando os custos financeiros se tornam proibitivos e quando persistem questões éticas relevantes sobre as instituições que o promovem.

Ao invocar a noção de realidade invertida não pretendi negar os benefícios da paz ou do desporto. O meu intuito foi antes o de revelar como determinadas estruturas de poder conseguem redefinir a narrativa pública de modo a que os responsáveis pela criação de conflitos ou de situações de injustiça apareçam simultaneamente como os seus solucionadores, enquanto ocultam os verdadeiros beneficiários e os custos humanos e sociais permanecem em grande parte invisíveis. Trata-se no fundo de denunciar a normalização do poder, ou seja, a capacidade das elites políticas, económicas e institucionais para converter situações potencialmente geradoras de escrutínio e de condenação internacional em narrativas de sucesso, paz, reconstrução, crescimento ou celebração.

sábado, 28 de junho de 2025

Pseudoceno: a Era da Mentira - Como Israel e os EUA fabricaram uma nova Guerra Justa

“Ao nível mais vasto das sociedades, ou melhor, de segmentos dessas sociedades, aquelas que lideram pela agressão a outros, culminando em guerras, estão frequentemente envolvidas na disseminação de falsidades e auto-enganos, sendo os meios de comunicação e os sistemas educativos dois canais comummente utilizados.” (“At the level of wider societies or rather wider society segments, those which lead by aggression towards others, culminating in wars, are often involved in spreading falsehoods and self-delusions, media and education systems being two commonly used channels.”) Bharat Dogra (daqui)

“Existem inúmeros mitos comuns que sustentam a guerra. Desmascarar esses mitos e, assim, mudar as crenças fundamentais das pessoas sobre a guerra e a paz é uma forma poderosa de eliminar o potencial para a guerra.” (“There are numerous commonly believed myths underpinning war. Debunking these myths, and in so doing changing peoples’ fundamental beliefs about war and peace is a powerful way to remove the potential for war.”) Taylor O’Connor (daqui)

Vivemos um tempo perigoso, em que a mentira já não precisa de se esconder. Já não se mascara de meias-verdades, nem se esforça por parecer plausível. Ela ocupa agora o centro da cena, altiva, amplificada pelos media e tolerada – ou pior, legitimada – por uma cidadania entorpecida pela sobrecarga informativa e pelo descrédito acumulado das instituições governativas. Bem vindos ao Pseudoceno* – a era da mentira. Tal como o Antropoceno enfatiza o impacto humano sobre a Terra, o Pseudoceno marca a colonização da realidade pela falsidade. É uma época em que a mentira já não é desvio ou acidente, mas fundação e estratégia. Já tinha anteriormente denunciado o recurso à mentira no contexto de diversos conflitos e invasões protagonizadas pelos EUA e os seus aliados ocidentais, enfatizando o papel dos media na fabricação do consentimento para a guerra - aqui e aqui. Elogiei também quem se atreve a revelar e a denunciar as verdades que os poderosos querem escamotear ou esconder - aqui e aqui. O meu foco vira-se agora para a nova escalada militar no Médio Oriente, instigada por Israel e os EUA, com o conluio dos seus ‘Aliados’ europeus, e para as narrativas falaciosas que validam o belicismo e a geopolítica militarista em detrimento da diplomacia, da coexistência pacífica e da paz.

Mentiras descaradas, falácias e logros, desonestidade intelectual, hipocrisia – tem sido este o espectáculo diário proporcionado por muitos media, que reproduzem as sucessivas declarações dos ‘líderes’ políticos de Israel, dos EUA, da União Europeia ou de diversos países europeus, sobre os acontecimentos recentes no Médio Oriente, em particular o ataque militar não provocado de Israel ao Irão, iniciado a 13 de Junho. À parte algumas análises de comentadores ou artigos de opinião (ver p.ex. aqui, aqui ou aqui), as narrativas que surgem nos media convencionais parecem saídas de um guião onde se repetem as mesmas palavras de ordem – “conter a iminente ameaça nuclear iraniana”, “Israel tem direito à auto-defesa”, “é preciso contenção e diplomacia” – ver p.ex. aqui ou aqui. Caricaturando o Irão como o mal absoluto no contexto da ‘guerra justa’ contra a ameaça islâmica, aquelas narrativas escamoteiam a ilegalidade da agressão israelita e viram a lógica do avesso tentando legitimá-la como ataque preventivo (ver p.ex. artigos de opinião em media nacionais: aqui ou aqui). Mais gritante ainda é a hipocrisia e a duplicidade de critérios (‘double standards’) dos países ocidentais que, como se lembrarão, se apressaram a condenar veementemente a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e o ataque do Hamas a Israel em 2023, classificando-os de agressões militares não provocadas (‘unprovoked’) e como violações do direito internacional, mas abstêm-se despudoradamente de aplicar a mesma argumentação à recente ofensiva não provocada de Israel contra um país soberano – ver p.ex. aqui. Para cúmulo, apelam agora à diplomacia e à contenção de Israel e do Irão, o que têm recusado sistematicamente em relação ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia – ver p.ex. aqui.


A ofensiva militar de Israel contra o Irão, agora secundada abertamente pelos Estados Unidos, é apenas o mais recente episódio de uma política internacional que se divorciou da verdade factual e nos empurra para um conflito mais alargado e para a barbárie, onde a diplomacia foi eclipsada por um belicismo sem freios. As justificações apresentadas pelos dirigentes israelitas e americanos para esta acção – sustentadas em alegações de “defesa legítima”, “prevenção estratégica” ou “resposta proporcional” – constituem um exercício de manipulação retórica que desafia frontalmente a lógica, o direito internacional e a ética. Estas falácias foram devidamente denunciadas e desmontadas por outros – ver aqui, aqui ou aqui e ainda dossier do esquerda.net.

Resumidamente, o ataque ocorreu dois dias antes da ronda final de negociações diplomáticas entre os EUA e o Irão, constituindo uma tentativa clara de sabotar a via diplomática; nenhum relatório da AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) confirmou a existência de um plano iraniano para fabricar armas nucleares a curto prazo; Netanyahu utiliza o argumento do “perigo nuclear iminente” há mais de uma década, em particular no célebre discurso na ONU em 2012, já então sem apresentar provas concretas; um ataque preventivo, sem existir uma ameaça iminente, é ilegal à luz do direito internacional. Mais grave ainda é o facto, frequentemente escamoteado, de que Israel é, muito provavelmente, uma potência nuclear. Possuirá um arsenal estimado entre 80 e 200 ogivas, mantém uma política de “ambiguidade deliberada” e nunca assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). O Irão, por outro lado, é signatário do TNP e sujeito a inspecções regulares. Esta assimetria brutal é sistematicamente omitida do debate público.


Uma questão central é que a mentira e as narrativas falsas ou parciais são também uma forma de ocultar a verdade – neste caso, as reais intenções ou interesses geoestratégicos do envolvimento dos EUA na ofensiva contra o Irão, cujo objectivo (não explicitado ou dissimulado) é afinal manter a todo o custo a sua hegemonia mundial – ver aqui ou aqui.

Igualmente inquietante, porém, não é apenas a agressividade das acções ou a duplicidade das palavras. É o facto das narrativas falaciosas serem imediatamente recicladas por grande parte dos meios de comunicação ocidentais como verdades operacionais – ver p.ex. aqui. As manchetes não interrogam; reproduzem. Os comentadores não contextualizam; repetem. A opinião pública, exausta e desorientada, assiste a esta encenação com uma mistura de cepticismo e impotência (ver p.ex. este Bartoon). E a verdade permanece oculta.

Estamos a assistir à normalização da desinformação como instrumento de governação e de geopolítica, feita pelos mesmos que afirmam opor-se à desinformação – mas apenas quando é usada pelos seus adversários. Quando um líder afirma sem pudor que um ataque preventivo é “um acto de paz”, ou que o apoio militar a um bombardeamento em larga escala é “um compromisso com a estabilidade regional”, já não estamos apenas diante de uma divergência política (ver aqui). Estamos perante a corrosão deliberada da linguagem e da consciência coletiva – como uma Novilíngua orwelliana.


Este fenómeno não é novo (ver p.ex. aqui), mas o que mudou é o grau de aceitação. A mentira institucionalizada passou a ser tolerada como parte do jogo geopolítico – bastaria lembrar as alegadas ‘armas de destruição massiça’ que serviram de pretexto à invasão do Iraque em 2003 (ver p.ex. aqui) ou a ‘Guerra ao Terror’ como justificação para a invasão do Afeganistão em 2001, então apelidada de ‘Guerra Justa’ (ver p.ex. aqui). O que é ainda pior é que a mentira é celebrada por alguns como demonstração de “realismo” ou “coragem estratégica”. Como se o cinismo fosse a única bússola possível num mundo em declínio.

Mas a minha revolta não se dirige apenas a Washington ou Telavive. Ela dirige-se também a Bruxelas, Berlim, Paris, Lisboa — aos dirigentes da UE e governos europeus que, em vez de questionarem a escalada, se limitaram a alinhar o seu discurso com as justificações falaciosas de Israel e dos EUA, prolongando assim a sua cumplicidade com a violência e destruição promovidas pelo governo fundamentalista e criminoso de Netanyahu, incluindo o genocídio em Gaza – ver p.ex. aqui ou aqui. É igualmente chocante constatar como os dirigentes europeus se alinham mecanicamente com os ditames da máquina militar e discursiva da Aliança Atlântica, como aconteceu na recente cimeira da NATO em Haia – ver p.ex. aqui ou aqui. Aderiram cobardemente às chantagens do presidente americano – que ainda há poucos meses apelidavam de ameaça para a democracia! – cedendo ao aumento de gastos militares, que irá beneficiar a indústria de armamento do outro lado do Atlântico. O tom de submissão e bajulação perante Trump foi vergonhosamente notório numa mensagem pessoal que o actual SG da NATO, Mark Rutte, lhe enviou na véspera da cimeira em Haia, onde afirmou (ver p.ex. aqui): “Felicitações e agradecimentos pela sua acção decisiva no Irão, foi algo verdadeiramente extraordinário e algo que ninguém jamais ousaria fazer. Fez com que estejamos todos mais seguros.” Perante garantias de comprometimento com gastos militares equivalentes a 5% do PIB, Rutte acrescentou: “Conseguirá o que NENHUM outro presidente conseguiu fazer em décadas. A Europa vai pagar-lhe em GRANDE, como deve, e essa será a sua vitória”. É o nível mais baixo da vassalagem ao poder imperial americano por parte de um dirigente europeu. É caso para perguntar onde está a dignidade das elites políticas europeias? Onde estão afinal os valores humanistas da Europa? Onde ficou a memória histórica que deveria vacinar-nos contra o belicismo e a repetição dos erros do século XX? Onde estão os estadistas capazes de dizer “não” perante a chantagem política e económica e que recusam o caminho para o abismo da guerra?

Inesperadamente, uma outra verdade sórdida acabou por sair da boca do novo chanceler alemão, Friedrich Merz, que admitiu, sem rodeios, que “Israel está a fazer o nosso ‘trabalho sujo’” (ver aqui). Uma admissão que, apesar da sua crueza, acaba por revelar uma intenção não assumida: os governos ocidentais, incapazes de conter a alegada ameaça do fundamentalismo islâmico personificada pelo Irão, preferem externalizar a agressão, garantindo que os seus interesses são protegidos sem envolvimento militar directo. É uma confissão involuntária — mas reveladora — de um cálculo moral arrepiantemente frio. Não se trata de defesa, nem de segurança internacional. Trata-se de manter a hegemonia a qualquer custo, desde que o sangue derramado não seja “nosso”.


Como português e europeu, inserido numa cultura que promove alegadamente os ideais da concórdia, da justiça, do primado da paz e do direito internacional, recuso-me a aceitar esta adesão tácita ao discurso bélico como se fosse inevitável. Se o caminho escolhido pelos ‘líderes’ for o da guerra, que o digam com clareza — mas saibam que não será em meu nome. E que assumam também o custo ético e humano de cada uma das decisões que tomam em surdina, mascaradas de necessidade ou de realismo.

Só que esta nova era do Pseudoceno não é apenas um fenómeno discursivo. As consequências são concretas e devastadoras. Milhões de vidas estão em risco, comunidades inteiras são condenadas ao exílio ou à destruição, o tecido social global é corroído pela desinformação e pela polarização. E, sobretudo, estamos à beira de um retrocesso civilizacional sem precedentes: o colapso da ideia de que o diálogo, a diplomacia e o direito podem prevalecer sobre a força bruta e a destruição.

A retórica belicista encoraja novas mortes, destruição cultural, inúmeros famintos e deslocados. Um mundo que se vangloriava de caminhar para a diplomacia e os direitos humanos, arrisca-se hoje a retroceder para a barbárie global, onde os interesses geopolíticos e da luta pela hegemonia se sobrepõem ao bem estar das populações e ao bem comum.


A par do sofrimento humano e da destruição ambiental e cultural, o que está em risco é o próprio legado de um projecto civilizacional em declínio: o direito internacional, a diplomacia multilateral, a ética da responsabilidade. Aquilo que o mundo ocidental dizia defender — e que agora abandona, de forma cobarde ou calculada. Para que não prevaleça o primado da mentira, tenhamos a coragem e o discernimento de “desconstruir as mentiras que justificam a guerra para nos ajudar a passar da mentira de uma guerra justa para a criação de uma paz justa”, como defende Taylor O’Connor neste artigo cuja leitura recomendo.

* Termo que criei a partir do grego pseudos (mentira, falsidade) e o sufixo -ceno (novo, recente), tal como é usado na terminologia da geologia como Holoceno ou Antropoceno.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Rejeitar a guerra para defender a paz

A paz constrói-se com a paz, eliminando a guerra da história da humanidade. Ser a favor da paz é fundamental, mas não é suficiente. (…) Acima de tudo, temos de ser contra a guerra”. Carta aberta ‘Pela rejeição total da guerra’ (Agora des Habitants de la Terre)

a paz hoje não tem acolhimento, porque os ventos sopram no sentido da guerra”. Manuel Pinto

A publicação recente de uma missiva que apela ao repúdio cabal da guerra (ver adiante) levou-me a regressar ao tema que me tem atormentado o espírito desde há meses, aliado a uma necessidade de exorcizar os sentimentos de angústia e de frustração que tantas vezes ameaçam paralisar-me. O espectro da(s) guerra(s) continua a empestar o ar – e ainda mais intensamente do que quando escrevi o post sobre as guerras perpétuas em Março deste ano (onde denunciei a hipocrisia e a desfaçatez das elites que as promovem, bem como as suas manobras de propaganda). Soam de novo os tambores da guerra: anuncia-se a Terceira Guerra Mundial, a Guerra Total, o Apocalipse e o Armagedão – ver p.ex. aqui ou aqui!... Como se não tivéssemos já ameaças existenciais suficientes para nos desassossegar e tirar o sono... A funesta e insistente narrativa mediática sobre as guerras eminentes ou em curso (NATO vs. Rússia, Médio Oriente, EUA vs. China) ameaça não só normalizar a sua perpetuação, como procura legitimar despudoradamente a sua alegada inevitabilidade e a crescente militarização (como já tinha denunciado no meu post de Março). Por outro lado, oculta outras que passam quase desapercebidas aos olhares do mundo, como a guerra mortífera no Sudão – ver p.ex. aqui. Mesmo aquilo que eu achava que era um linha vermelha que a humanidade do século XX tinha decidido que nunca voltaria a ultrapassar – um conflito nuclear – voltou a ser invocado por políticos de diferentes quadrantes ideológicos e geografias, assim como por jornalistas dos media dominantes (mas não só) – ver aqui, aqui ou aqui. Um dos componentes da narrativa deplorável de alguns governantes ocidentais para legitimar o seu belicismo e os gastos militares tem sido a repetição do axioma (ou seus derivados), com origem num autor do Império Romano, Si vis pacem, para bellum – “se queres a paz, prepara-te para a guerra” – ver p.ex. aqui ou aqui –, habilmente desconstruído por Manuel Pinto num artigo com o título “Se queres a guerra, despreza a paz” (mas também na carta aberta que analiso mais abaixo), onde o autor associa aquela retórica à tentativa de justificar a canalização de fundos públicos para os orçamentos militares e para as empresas de armamento.


No caso das incursões militares em curso na Palestina e no Líbano (e que ameaçam alastrar ainda mais), perpetradas pelo governo sionista de Bibi Netanyahu e com o conluio dos EUA e de diversos países europeus, o consenso no apoio (quase) incondicional à actuação impune de Israel foi conseguido nos EUA por pressões vindas de sectores religiosos conservadores (evangélicos ou cristãos sionistas), como a CUFI (‘Christians United for Israel’) – ver p.ex. aqui –, ou de grupos de lóbi israelitas, como o AIPAC (‘American Israel Public Affairs Committee’) – ver p.ex. aqui – ou a ‘Voices of Israel’ – ver p.ex. aqui. O primeiro caso é especialmente revelador e foi denunciado no documentário “Praying for Armageddon” da realizadora norueguesa Tonje Hessen Schei, em colaboração com o norte-americano Michael Rowley – é possível assistir às duas partes do documentário que foi exibido pela Al Jazeera: aqui e aqui. As revelações mais significativas são, por um lado, a marcada influência da corrente evangélica mais fundamentalista na política externa norte-americana, em particular, por parte dos Republicanos (incluindo o ex-presidente Donald Trump), e, por outro, a sua argumentação no apoio incondicional a Israel baseada numa leitura literal da Bíblia que alega que nos aproximamos do Armagedão e da 2ª vinda de Jesus, eventos nos quais Israel e a presença dos judeus na cidade de Jerusalém teriam um papel central. O fundamentalismo religioso que o Ocidente atribui aos países muçulmanos, e em particular ao Irão, e que usa como pretexto para apoiar o belicismo mortífero de Israel e do seu governo radical, está afinal profundamente enraizado na sociedade americana e reflecte-se de forma evidente e chocante na política externa dos EUA para o Médio Oriente, independentemente da filiação política da administração vigente. A irracionalidade do fundamentalismo religioso está portanto também a desvirtuar por dentro os “valores ocidentais” do direito à paz, à auto-determinação e à liberdade.


Esta tese é igualmente invocada pelo jornalista argentino Alberto López Girondo no seu artigo “Apocalipsis (Bíblico) Now”. O autor começa por citar o livro “The Age of Extremes” (1994) do historiador (marxista) britânico Eric Hobsbawm, onde este analisa os conflitos militares entre 1914 e 1991 como espelhos das pretensões incontroladas de poder e dominação das nações beligerantes, estimuladas pelos modelos económicos antagónicos, mas igualmente expansionistas, do capitalismo e do socialismo de Estado: “Por que razão, então, as principais potências de ambos as facções consideraram a Primeira Guerra Mundial como um conflito no qual só se podia contemplar a vitória ou a derrota total? A razão é que, ao contrário de outras guerras anteriores, impulsionadas por motivos limitados e concretos, a Primeira Guerra Mundial, perseguia objectivos ilimitados. Na era imperialista, produziu-se a fusão da política e da economia. A rivalidade política internacional estabeleceu-se em função do crescimento e da competitividade da economia, mas o elemento característico era precisamente o de não ter limites”. Para López Girondo (com base nas teses de Hobsbawn), é a situação actual de tensão crescente de domínio imperialista (e económico) entre o bloco EUA/Europa (NATO) e o bloco Rússia/China que está na origem dos conflitos militares em curso, onde a submissão e a violência se sobrepõem a qualquer possibilidade de conciliação. O autor questiona-se então: “Quão loucos são os líderes do primeiro quartel do século XXI? Até que ponto estariam dispostos ao ‘tudo ou nada’ para manter a supremacia? Quão racionalmente poderiam agir quando na sociedade da nação mais poderosa – embora em declínio – existem grupos cada vez mais numerosos e influentes que não temem o Armagedão, mas muito pelo contrário: procuram-no com uma fé religiosa, desesperada por começar um novo mundo melhor, para acabar com o Mal na Terra?” López Girondo invoca, sucessivamente, o plano clandestino chamado “The Armageddon Plan” desenhado por Dick Cheney e Donald Rumsfeld durante a administração Reagan para garantir a continuidade da governação na eventualidade de uma ataque militar de grande dimensão (p.ex. um ataque nuclear), o ressurgimento da ameaça nuclear após o início da guerra na Ucrânia em 2022 (e o discurso de Joe Biden onde este afirmou que o mundo está no nível mais próximo do Armagedão desde a Crise dos mísseis de Cuba) e ainda a tese fundamentalista evangélica do Armagedão e da ‘guerra justa’ para justificar o apoio dos EUA ao estado de Israel na sua fúria vingativa e genocida contra os palestinos em Gaza (a que me referi acima). López Girondo cita o crítico de cinema Matthew Carey que comenta o documentário “Praying for Armageddon” (aqui): “Imaginem não só acreditar que o mundo está a chegar ao fim, mas também querer que isso aconteça. Ardentemente. Então, dêem um passo mais e imaginem pessoas com esta mentalidade a projetar a política e as relações externas americanas para alcançar exatamente aquilo que procuram: o apocalipse”. O jornalista argentino relembra então as acusações de fundamentalismo religioso usadas no Ocidente para condenar as acções militares terroristas, em especial de grupos ou países muçulmanos, e confronta-as com o fundamentalismo dos evangélicos americanos que invocam leituras literais da Bíblia para justificar ‘guerras santas’ apocalípticas, mas também com a lei aprovada pelo Knesset em 2018 que designa Israel como “o Estado-nação do povo judeu, no qual exercem o seu direito natural, religioso e histórico à autodeterminação”, acrescentando que este direito à autodeterminação é “exclusivo do povo judeu”. Finalmente, López Girondo refere-se aos sucessivos avanços e recuos nas negociações dos tratados de não proliferação nuclear ou de redução de armas estratégicas, assim como ao belicismo expresso por dirigentes ocidentais que invocam o axioma romano (que citei acima) para justificar a guerra por procuração contra a Rússia, culminando com a impensável ameaça dos preparativos para um conflito nuclear entre os eixos EUA-Europa e Rússia-China num futuro próximo.


Felizmente, ainda vão surgindo vozes sensatas que se revoltam contra estas posturas belicistas, doentias e distópicas, e que me dão algum alento. Aconteceu recentemente quando me cruzei com uma carta aberta intitulada “Pour le refus intégral de la guerre” (“Pela rejeição total da guerra”, versão PT aqui), publicada pela associação internacional “Agora des Habitants de la Terre” (colectivo que se pugna pela justiça social, pela defesa dos direitos humanos, pela democracia participativa, por um outro desenvolvimento sustentável e pela cidadania global) e subscrita por um conjunto de cidadãos europeus. Recomendo, pelo menos, a leitura do texto introdutório, de onde destaco o seguinte excerto: “Toda a gente diz que é a favor da paz, mas nem toda a gente é contra a guerra. Acima de tudo, temos de ser contra a guerra. Porque é que temos de ser contra a guerra? Porque temos de abandonar a ideia de que, se queremos a paz, temos de nos preparar para a guerra, que sempre foi inventada e imposta pelos detentores do poder para justificar e manter o seu poder e o seu domínio. A guerra é destruição, morte e ódio. Não existe uma «guerra justa» em nome de Deus, da nação, da civilização ou da segurança. Por detrás da invocação destes nomes, está sobretudo a lógica assassina da dominação e os interesses económicos de poder e riqueza dos mais fortes.” Achei particularmente relevante a visão sistémica que lhe está subjacente, patente em parte da argumentação que traça paralelos entre as posturas bélicas do Ocidente e a defesa do modelo socioeconómico dominante, como por exemplo neste trecho: “Como é que se pode eliminar a guerra? Através da audácia e da fraternidade. (...) É uma ilusão pensar que é possível construir a paz sem abolir as patentes de apropriação privada para fins lucrativos, sem proibir as licenças de comércio de armas, sem [abolir] os paraísos fiscais, sem eliminar a independência dos mercados financeiros, sem regular as grandes oligarquias planetárias em guerra permanente pelo domínio. Os cidadãos devem libertar-se desta ilusão.” A carta prossegue com a enunciação de quatro reflexões sobre o futuro, que aprofundam a argumentação a favor da mobilização contra a guerra. A primeira defende que a principal narrativa que importa combater é a da instrumentalização da guerra ao serviço da paz, em particular a da “guerra defensiva”: dos ‘valores ocidentais’, do ‘mundo livre’, da ‘economia de mercado livre’. É com esta narrativa que se tentam legitimar a corrida aos armamentos, o comércio internacional de armas e a inflação dos orçamentos militares, mas também as atrocidades sobre populações inteiras. Para inverter esta realidade, a carta propõe ilegalizar os tratados internacionais de alianças militares e reformar as Nações Unidas, em particular o Conselho de Segurança para torná-lo eficaz – algo que foi reafirmado agora com a aprovação do Pacto para o Futuro, na semana passada na sede da ONU (ver p.ex. aqui ou aqui).


A segunda reflexão é, a meu ver, especialmente relevante pois sustenta que a mobilização contra a guerra deve ser claramente conduzida com o objetivo de fazer compreender a absoluta inutilidade da guerra e, no contexto actual, a irreparabilidade das destruições provocadas pela guerra, nomeadamente no domínio da vida. Defende que a luta “contra a guerra” deve ter dois objectivos prioritários interdependentes, que são hoje desvalorizados ou desprezados: a efectivação do direito universal à vida para todos e da vida como tal; a salvaguarda e a promoção dos bens comuns mundiais, materiais e imateriais, essenciais à vida. Nesta reflexão relembram-se os diversos tratados internacionais firmados desde a 2ª Guerra Mundial no âmbito das Nações Unidas (como o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, do Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas à Autodeterminação e ao Autogoverno ou da Declaração sobre a Biodiversidade) que, apesar de não terem conseguido impedir as piores violações, permitiram, até aos anos 80, o funcionamento e o desenvolvimento do sistema mundial, apesar das suas limitações, insuficiências e contradições, da Guerra Fria e de numerosas guerras locais (ligadas ao processo de demolição dos impérios coloniais europeus), mas sem uma terceira guerra mundial. De facto, o mundo assistiu a uma redução do ritmo de crescimento das desigualdades entre países ricos e pobres, o que contribuiu para reduzir o impacto das forças geradoras de conflitos estruturais e, consequentemente, de guerras destrutivas. No entanto, a partir daí, com o desmoronar da União Soviética e os processos de multinacionalização e globalização da economia e das finanças, de acordo com os princípios, objectivos e mecanismos violentos da economia de mercado e do neoliberalismo, o sistema mundial viu explodir as suas contradições, insuficiências e fragilidades, com o recrudescimento de novos conflitos armados entre, ou promovidos por, superpotências imperialistas.


A terceira reflexão sustenta que, uma vez que a mobilização contra a guerra envolve lutas pela reconstrução planetária dos dois pilares já enunciados (direito à vida e bens comuns mundiais), esta deve centrar-se em dois objectivos: a abolição das patentes para fins privados e lucrativos; e a ilegalização da finança predatória. Defende que, em condições marcadas por uma profunda crise do sistema de suporte de vida da Terra, será necessário agir globalmente para “desarmar a tecnologia da conquista da vida” (ou seja, as patentes) e, ao mesmo tempo, “ilegalizar as finanças predatórias” (que se traduzem na transformação de todas as formas de vida em activos financeiros).

A quarta reflexão é dedicada em particular ao genocídio dos palestinianos em Gaza por Israel e defende a condenação cabal e a cessação de qualquer acto de genocídio, encarado como negação total da vida e da justiça. O texto sustenta que pôr cobro ao genocídio não é apenas uma questão de fazer cumprir o direito internacional; “é, acima de tudo, uma questão de responsabilidade humana e ética planetária que incumbe a todos os sujeitos da Humanidade, incluindo as comunidades sociais, culturais e morais do mundo.

Em forma de conclusão, a carta enfatiza que não serão as corporações industriais, tecnológicas e financeiras internacionais ou instituições como o Banco Mundial, o FMI, a União Europeia ou a NATO, que poderão evitar ou impedir uma “Terceira Guerra Mundial”. Isso só será possível numa acção conjunta dos cidadãos indignados de todo o mundo – ver apelo do cientista político italiano Ricardo Petrella a propósito desta carta aberta. São ainda apresentados alguns exemplos de soluções concretas, em complemento ou para reforçar as propostas já formuladas, a aplicar nos domínios da vida, da sua salvaguarda, promoção/proteção, dos direitos e bens comuns, e na promoção das condições necessárias e indispensáveis à construção da paz. É possível subscrever a carta aberta através deste link.


Quanto a mobilizações e manifestações internacionais, destaco a “Terceira Marcha Mundial pela Paz e a Não-Violência”, que partirá de São José da Costa Rica já no dia 2 de Outubro de 2024 para lá regressar no dia 5 de janeiro de 2025, após dar a volta ao mundo. O roteiro passará pela Europa no mês de Novembro. O manifesto pode ser lido aqui. Por outro lado, este fim-de-semana (28-29 Set) houve dois eventos anti-guerra nos EUA, um em Washington DC (“Rage against the war machine”) e outro em Kingston NY (“Peace & Freedom Rally”). Recomendo esta entrevista ao jornalista do The Grayzone e activista anti-guerra Max Blumenthal onde ele realça a importância de dar voz aos protestos contra a guerra num contexto de grande tensão internacional e de ameaça de um conflito nuclear, assim como de descredibilização das contestações e repressão contra a liberdade de expressão.


Não posso ainda deixar de referir-me às diligências internacionais mediadas pelas Nações Unidas no sentido de denunciar e procurar travar os conflitos em curso, em particular nos recentes eventos da Cimeira do Futuro* e da 79ª Assembleia Geral (UNGA79)**, que tiveram lugar na sede da ONU – ver aqui. Lamentavelmente, várias resoluções do Conselho de Segurança (bem como as condenações do Tribunal Penal Internacional) não tiveram impacto na contenção dos conflitos na Ucrânia, no Médio Oriente ou no Sudão, em parte pela recusa das partes beligerantes (ou dos países que as apoiam militarmente) de acordar num cessar-fogo ou numa solução negociada. A maioria dos discursos dos governantes presentes na UNGA79** incluiu pois, quase invariavelmente, referências aos conflitos em curso, em alguns casos com condenações veementes da incapacidade ou ausência de vontade dos beligerantes de cessar as hostilidades e as matanças – ver p.ex. aqui ou aqui. Já o analista de política internacional William Patton defendeu, num recente artigo de opinião, que o Pacto para o Futuro que resultou da Cimeira do Futuro deve ser analisado criticamente, mas que as reacções de cinismo ou de apatia perante a sua antecipada inconsequência são contraproducentes. Em vez disso, Patton defende que: “devemos responsabilizar os nossos líderes pelas suas promessas, especialmente no que diz respeito à reforma há muito esperada do Conselho de Segurança da ONU, que poderá pôr fim a muitas das nossas guerras e fazer avançar a humanidade.


Embora tenha criticado anteriormente neste blogue os discursos do Secretário-geral da ONU, António Guterres, pelo seu tom dramático que contrasta com a sua flagrante inconsequência, não posso deixar de louvar a sua perseverança em não se deixar vencer pelos sucessivos desaires com que se têm deparado as causas que tem defendido, bem como pela forma corajosa com que tem defendido os princípios e as pessoas da instituição que lidera. No discurso de abertura da UNGA79 (24 Set), Guterres criticou o nível de impunidade “politicamente indefensável e moralmente intolerável” praticado por “um número crescente de Governos” em todo o mundo, desde o Médio Oriente até ao “coração da Europa” ou no Corno de África, tendo traçado um cenário sombrio do mundo actual, que está “num estado insustentável”, onde “guerras acontecem sem nenhum vislumbre de como terminarão” e a “postura nuclear e novas armas lançam uma sombra escura” sobre o planeta. Guterres criticou com veemência a impunidade dos dirigentes que violam os direitos humanos e as normas do direito internacional: “Eles podem atropelar o direito internacional. Podem violar a Carta das Nações Unidas. Podem fechar os olhos a convenções internacionais de direitos humanos ou decisões de tribunais internacionais. Podem fazer pouco caso do direito internacional humanitário. Podem invadir outro país, devastar sociedades inteiras ou desconsiderar completamente o bem-estar do seu próprio povo. E nada vai acontecer”. Sobre Gaza, afirmou, “é um pesadelo ininterrupto que ameaça levar toda a região com ele”; e sobre os ataques recentes de Israel: “Deveríamos todos ficar alarmados com a escalada. O Líbano está à beira do abismo. O povo do Líbano – o povo de Israel – e o povo do mundo – não se podem dar ao luxo de que o Líbano se torne outra Gaza”. Já na sessão comemorativa do Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares, Guterres afirmou que “Desde o auge da Guerra Fria que o espectro das armas nucleares não lançava uma sombra tão negra. A belicosidade nuclear atingiu um nível febril. Ouvimos até ameaças de usar uma arma nuclear” e que os Estados “devem parar de jogar com o futuro da humanidade”. Embora tenha admitido que “as normas estabelecidas sobre a disseminação de armas nucleares estão a ser desgastadas”, Guterres salientou que a Cimeira do Futuro e o resultante Pacto para o Futuro produziram um novo compromisso global para revitalizar o regime de desarmamento global. Para o bem das gerações futuras, reforçou: “O momento para a eliminação total das armas nucleares é agora”.


Seja como for, parece-me que temos de deixar de apelidar parte da elite do poder internacional de ‘líderes mundiais’ e passar a chamar-lhes o que realmente são, ou seja, um bando de belicistas e sociopatas totalmente desprovidos de empatia em relação à restante humanidade, presente e futura – motivados por desejos de poder ou por ganhos financeiros de curto prazo! Esta minoria demencial, que deveria ser desmascarada (de forma não enviesada!) por uma imprensa realmente livre e com sentido ético (por ora, diversos media digitais independentes, alguns dos quais listei no meu post de Março, ainda vão fazendo esse trabalho), parece achar que sobreviverá a uma guerra generalizada ou a um holocausto nuclear. Isto não é mera ficção científica ou teoria de conspiração: alguns CEOs, bilionários e ‘celebridades’ têm comprado propriedades em lugares remotos ou ilhas isoladas, enquanto outros pretendem refugiar-se nos bunkers que têm mandado construir para esse efeito – ver p.ex. aqui ou aqui! A perspectiva de ser apenas esta gente a sobreviver a um holocausto nuclear ou outro evento apocalíptico é verdadeiramente deprimente. Melhor seria que algum bilionário igualmente desvairado os convencesse a todos a embarcarem na primeira nave espacial para Marte e que ficassem lá para sempre!


Como afirmou Tom Engelhardt num artigo que citei no meu post de Março: “a humanidade está agora em guerra contra si própria… (…) [conseguimos] criar uma forma devastadoramente rápida [guerra nuclear] e outra espetacularmente lenta [alterações climáticas] de nos auto-destruirmos (e a tantas outras coisas).(…) graças em parte à nossa incapacidade de travar as guerras entre nós, parece estarmos a querer assegurar que as alterações climáticas não serão o foco total da nossa atenção como deveriam ser.” No entanto, ao usar “a humanidade” como sujeito abstracto e universal o autor está a incorrer numa grave imprecisão que oculta o facto fulcral de que os principais responsáveis por essa dupla guerra são na verdade uma pequena minoria sociopata e extremista dessa mesma humanidade.


Como se interroga Viriato Soromenho Marques num artigo de opinião recente: “A maioria esmagadora dos cidadãos no Ocidente recusam o suicídio. Como é possível que os nossos Governos e Parlamentos deixem a questão da vida ou morte dos povos do Ocidente entregue a incendiários aprendizes de Dr. Strangelove, como Stoltenberg? As portas do inferno já estão abertas. Vamos em frente?” A este convite só podemos responder com um liminar NÃO! E para além de uma postura de resistência e de rejeição firme da guerra e da militarização, devemos pugnar por uma sociedade e uma visão de mundo que não criem as condições para o recurso aos conflitos armados para resolver disputas por territórios e pelos bens comuns, tal como defende o texto da carta aberta que citei acima. Reproduzo o excerto final: “A luta anti-guerra é a luta dos justos, é a luta ética pela vida. É a reafirmação do primado do espiritual e da luta para regenerar a Terra, para tornar os desertos mais verdes, para devolver o oxigénio aos oceanos, para praticar a fraternidade, para viver a amizade; numa palavra, para devolver a alegria e o amor à vida.

Notas:
É possível assistir aos vídeos das sessões na sede da ONU através das seguintes playlists:
* Cimeira do Futuro (Summit of the Future): aqui 
** 79ª Assembleia Geral da ONU (UNGA79): aqui
Da primeira, seleccionei a intervenção de Niria Alicia Garcia (Youth Native American Representative): aqui.
Da segunda, seleccionei duas intervenções: a da primeira-ministra de Barbados, Mia Amor Mottley (aqui) e a do presidente da Colômbia, Gustavo Petro (aqui).