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sábado, 27 de julho de 2024

Respigos de Primavera #3: Equívocos e lacunas no debate sobre imigração

Quem for contra a imigração é contra o desenvolvimento do país. Álvaro Mendonça e Moura (presidente da CAP)

Sem imigrantes a economia entrava em colapso. Francisco Assis (deputado do PS e ex-presidente do Conselho Económico e Social)

Em Portugal não há imigrantes a mais, há um problema de regularização de imigrantes e de acolhimento de imigrantes. Mariana Mortágua (dirigente do BE)


Tenho-me cruzado com vários escritos e tomadas de posição recentes sobre o tema da imigração em Portugal e lido muitas afirmações peremptórias que me deixaram incomodado ou perplexo. Sei que o assunto é complexo e que este tipo de afirmações já vem de há uns anos a esta parte – ver p.ex. aqui. Mas parece-me que existem vários mal-entendidos, contradições e mesmo alguma hipocrisia, com vieses ideológicos à mistura, nas abordagens ao tema. Uma daquelas afirmações, repetida por pessoas de diferentes sectores e cores políticas, é a de que ‘Portugal precisa de imigrantes’ ou, na sua versão ainda mais discutível, de que ‘a economia nacional colapsaria sem imigrantes’. A nuance entre os afiliados com a esquerda ou com a direita é que os primeiros defendem de forma mais veemente a legalização dos imigrantes, assim como salários justos e condições de trabalho e de vida dignos. No entanto, nem sempre apontam o dedo ao contexto económico e político que, não só não previne, como até promove, o oportunismo dos empregadores que se aproveitam da precariedade e fragilidade dos trabalhadores estrangeiros, pagando-lhes salários de miséria e não lhes oferecendo condições de trabalho dignas. Mas mais do que isso, não tenho encontrado reflexões mais aprofundadas sobre as consequências socioeconómicas e culturais da imigração precária a médio-longo prazo, ou sobre as suas causas profundas, nem análises que ponham em causa explicitamente o modelo de negócio dos empregadores, frequentemente mercantilista e neoliberal. Também não tenho encontrado nos debates sobre imigração quem questione a (in)sustentabilidade ambiental e socioeconómica dos sectores de actividade que empregam maioritariamente imigrantes, como a agricultura, a construção ou o turismo, e que necessitariam de profundas transformações. Em contraponto, tenho ouvido as crescentes investidas de sectores da chamada ‘extrema-direita’ que usam os imigrantes como bode expiatório para todos os males sociais ou económicos de que a sociedade portuguesa padece, recusando explicações menos simplistas, como o oportunismo económico e a incompetência ou desfaçatez política, nomeadamente dos governantes do centrão que se revezam no poder há décadas e que são cúmplices ou fantoches do poder económico que beneficia da mão-de-obra precária.


Como exemplo do primeiro tipo de afirmações, recorro a artigos ou entrevistas recentes no jornal Público. Um deles (aqui) cita declarações do presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Álvaro Mendonça e Moura, que afirmou taxativamente que “É muito importante percebermos todos que quem for contra a imigração é contra o desenvolvimento do país. Isto precisa de ser interiorizado”, tendo destacado a importância dos trabalhadores estrangeiros para sectores como a agricultura, turismo ou construção, que dependem desta mão-de-obra “para a sua sobrevivência”. O presidente da CAP defendeu ainda que se evitem populismos, nomeadamente a ideia de que Portugal poderia prescindir destes trabalhadores, o que disse ser “um disparate com gravíssimas implicações económicas”. Sobre as condições de trabalho e de vida dos imigrantes a laborar no sector agrícola, Mendonça e Moura defendeu que sejam contratados “em boa e devida forma”, com contratos de trabalho, e que os trabalhadores estrangeiros sejam “devidamente integrados, com condições de vida dignas e com respeito pelos seus direitos”. Já sobre o oportunismo e a falta de ética dos empregadores (e sub-contratadores) que exploram a mão-de-obra barata para maximizar os lucros, nada disse! O mesmo artigo refere ainda que Mendonça e Moura criticou aquilo que afirma (demagogicamente) “ser um «extremismo ambiental» que não aceita a agricultura e que gostaria que toda a paisagem fosse «um sítio de lazer para o citadino ir uma vez por ano», vincando que não se pode fazer uma dissociação entre sustentabilidade ambiental, social e económica.” Claro que em relação ao modelo de agricultura praticado por muitos empregadores, em particular no Alentejo, esse sim verdadeiramente extremista, quer ambiental- quer socialmente, o presidente da CAP nada diz – escrevi sobre este tema aqui.


Curiosamente, no mesmo dia, o redator principal do Público, Manuel Carvalho, escreveu um artigo de opinião onde denuncia a hipocrisia e indiferença no debate sobre a imigração, afirmando: “A imigração tornou-se assim objecto de reacções a quente, emocionais, por vezes sectárias. Não devia ser preciso um incêndio, um dislate de um político ou uma agressão bárbara para que nos obrigássemos a reflectir sobre as condições em que vive uma parte importante dos que nos procuram para viver e trabalhar. (…) Se essas pessoas são vítimas de racismo, a prova está na indiferença com que a sociedade portuguesa assiste à sua exclusão. Pode ser por causa de um sentimento de impotência, pelo egoísmo de dispor de serviços baratos ou por simples alheamento, mas a imigração recente deu lugar à banalização do abuso e à instituição da ilegalidade.” Estranhamente, não se refere às declarações do presidente da CAP, publicadas nesse mesmo dia… Carvalho defende ainda que: “Se a indiferença é pecado dos cidadãos, a responsabilidade do que está a acontecer é principalmente do Estado. A ideia onírica de abrir as portas a imigrantes sem acautelar as condições para os legalizar, acolher, encaminhar e proteger foi um crime contra o país e contra as pessoas.” Concordo com a denúncia da indiferença dos cidadãos e da negligência de entidades públicas e decisores políticos, mas faltou claramente apontar o dedo à falta de escrúpulos e ao oportunismo dos empregadores. O autor conclui assim: “Ficámos reféns do extremismo racista da direita ou do relativismo hipócrita da esquerda. O primeiro, um instrumento ideológico, o segundo, uma falácia porque, como escreveu Francisco Mendes da Silva [advogado e comentador], «a imigração é mesmo a única matéria em que a esquerda portuguesa é a favor da desregulação ultraliberal dos mercados».” Concordo em parte com esta última afirmação, como desenvolverei mais à frente, mas, mais uma vez, isentam-se os empregadores oportunistas e sem escrúpulos de culpas no cartório. Também não senti um questionamento do sistema económico que supostamente depende da mão-de-obra imigrante para a sua sobrevivência. Lamentavelmente, a afinidade de Manuel Carvalho pelo modelo agrícola industrial desenvolvido por grandes sociedades, multinacionais ou fundos de investimento internacionais, ‘baseado em tecnologia e ciência’ e que alega ser sustentável, mas que se alimenta da mão-de-obra barata e da devastação ambiental, tinha ficado patente em anteriores artigos seus, onde defende (sem um laivo de espírito crítico!) aquelas práticas agrícolas, apelidando-as de ‘revolução silenciosa’ (aqui) e de serem o ‘lado sexy’ da agricultura nacional (aqui)!


Numa entrevista recente, Francisco Assis, actual deputado (e ex-eurodeputado) do PS, e ex-presidente do Conselho Económico e Social, assume uma postura semelhante à de Mendonça e Moura: “A Europa precisa de imigrantes e Portugal precisa de imigrantes. Fui presidente do Conselho Económico e Social durante os últimos três anos e meio. E vi, variadíssimas vezes, os representantes nas reuniões da concertação social, os presidentes das confederações empresariais, da indústria, do turismo, do comércio e serviços da agricultura, apelar ao governo para que o governo fosse tomando providências no sentido de garantir a vinda mais fácil de imigrantes para Portugal, sob pena de alguns sectores da nossa actividade económica, pura e simplesmente entrarem em colapso.” Para além da sustentabilidade dos sectores de actividade nomeados, Assis menciona ainda a necessidade de compensar o que apelida de ‘recuo demográfico’, como justificação para a imprescindibilidade da imigração. Mais adiante afirma: “a ideia de que nós vamos agora aqui escolher os imigrantes é completamente absurda. A ideia de que nós precisamos de imigrantes altamente qualificados… é bom que venham pessoas altamente qualificadas, mas a verdade é que não é essa a preocupação fundamental dos nossos agentes económicos. Eles precisam de pessoas para trabalhar na indústria, pessoas para trabalhar nos restaurantes, nos cafés, nos hotéis, para trabalhar nas explorações agrícolas.” Assis não põe assim em causa a conduta oportunista dos ‘agentes económicos’ daqueles sectores de actividade, referindo-se antes à necessidade de legalizar e de proporcionar condições dignas para os trabalhadores estrangeiros, além de criticar os argumentos falaciosos da extrema-direita sobre os imigrantes.


Num artigo de opinião, a economista Susana Peralta, invocou igualmente os argumentos do colapso de sectores-chave da economia e da reversão do declínio populacional para justificar a necessidade de acolher trabalhadores imigrantes, citando dados de um relatório do Observatório das Migrações do final de 2023. Mas a sua análise foca-se principalmente na denúncia das várias debilidades do apoio social aos imigrantes que não lhes garante as condições dignas para viverem e trabalharem, destacando a precariedade das associações de apoio aos imigrantes e a burocracia das entidades públicas, assim como as redes de tráfico de mão-de-obra e a falta de habitações dignas e acessíveis. Peralta afirma: “A falta de meios das organizações causa-me bastante perplexidade porque a dignidade dos imigrantes devia ser uma prioridade absoluta das nossas políticas públicas… (…) os imigrantes estão expostos a maior precariedade, relações laborais mais instáveis, salários mais baixos e maior sinistralidade em setores como a construção civil, hotelaria e restauração, serviço doméstico: outra ótima razão para deixar as organizações de apoio continuarem o seu trabalho.” A validade destes argumentos é confirmada por notícias mais recentes - ver p.ex. aqui. A autora denuncia ainda as bandeiras típicas do discurso xenófobo e anti-imigração, exemplificadas pela moção “Portugal precisa de mais portugueses” apresentada na convenção nacional do Chega. No entanto, Peralta não faz menção ao carácter mercantilista e oportunista dos empregadores dos sectores que empregam mão-de-obra pouco qualificada, nem questiona a nossa aposta e consequente dependência daqueles sectores de actividade económica ou a ineficácia (ou inexistência) da sua regulação ou fiscalização. Talvez não seja de espantar a ausência de um questionamento mais explícito do modelo económico neoliberal por parte da autora, docente numa instituição de ensino (a NOVA School of Business and Economics) que é subserviente daquele mesmo modelo económico – ver p.ex. aqui.


Num registo não muito diferente, mas muito focadas na questão da necessidade de legalização dos imigrantes presentes no território nacional ou a nível europeu, foram as declarações e opiniões expressas por dirigentes do BE (Mariana Mortágua, Graça M. Pinto, Fabian Figueiredo) em artigos no site esquerda.net ou no Público, dirigindo críticas a documentos como o Pacto Europeu das Migrações (aqui) ou o Plano de Ação para as Migrações (PAM) proposto pelo actual governo (aqui e aqui), ou à actuação da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA, ex-SEF)(aqui). As falhas sucessivas da AIMA são evidentes e têm vindo a ser devidamente denunciadas – ver p.ex. aqui ou aqui. No entanto, reduzir o problema à questão da legalização dos imigrantes e à inoperância das entidades públicas, parece-me claramente insuficiente para o caracterizar adequadamente. No artigo em que alerta para os perigos da imigração ilegal, Mariana Mortágua afirma: “«Imigração ilegal» é o que acontece quando o Estado recusa acolher as pessoas que a economia convocou.” Por seu lado, em declarações sobre o PAM, Fabian Figueiredo afirma: “[a AIMA] não responde às necessidades dos imigrantes em Portugal, que são tão importantes, nomeadamente, para a economia do país, tal como já reconheceu o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, e para a sustentabilidade da Segurança Social.” Quer a primeira, quer o segundo, reforçam a ideia da indispensabilidade dos imigrantes para ‘a economia’ sem no entanto referir explicitamente ou questionar o tipo de economia em que os imigrantes se integrariam após a legalização. Pior esteve Fabian Figueiredo ao invocar a argumentação do presidente da CAP (cujas declarações comentei acima) ou a sustentabilidade da Segurança Social.


É evidente que o modelo económico e os poderes políticos dominantes promovem ou permitem as situações de grande injustiça e precariedade que têm sido denunciadas, mas infelizmente (e convenientemente) muito rapidamente esquecidas, como as que resultam da actuação de máfias do tráfico de mão-de-obra de imigrantes, muitas vezes com o conluio dos empregadores ou dos sub-contratadores – ver exemplos referentes ao sector agrícola relatados aqui, aqui, aqui ou aqui. No entanto, acho que é fundamental rebater frontalmente a afirmação de que 'a economia' precisa de imigrantes, pois é a natureza dessa mesma economia que terá de ser questionada. Aquilo de que precisávamos seria de uma economia que servisse as pessoas -
 imigrantes ou não - nos seus territórios e que as fixasse nesses mesmos territórios, promovendo a justiça social e a sustentabilidade ambiental.


Embora esteja mais ou menos de acordo com algumas das diferentes opiniões que detalhei acima, sinto falta de uma maior abertura e abrangência nos debates sobre o tema obviamente complexo da imigração, que incluam questões de fundo como: as consequências para todos os trabalhadores assalariados, imigrantes ou não, da prática oportunista dos agentes económicos que provocam a redução de salários e das regalias sociais, desencadeando descontentamento social generalizado; a natureza mercantilista e predatória do modelo socioeconómico dominante que promove práticas económicas que tiram proveito e fomentam a precariedade laboral, sem que os governos locais tenham capacidade ou vontade política para as regular; as causas profundas dos movimentos migratórios, que incluem nomeadamente o modelo socioeconómico dominante globalmente e a dinâmica geopolítica resultante, que conduzem a profundas desigualdades e injustiças sociais ou ao desencadear de conflitos nos países de origem - que são, por sua vez e em muitos casos, consequência das políticas financeiras e económicas dos países ocidentais de destino dos imigrantes; os impactos sociais e culturais da presença de pessoas com valores e práticas culturais muito diversas das dos países de acolhimento e como conciliá-las com o respeito pela diversidade, pela coexistência e pela identidade cultural de cada região. Sei que este último ponto é particulamente delicado e controverso, mas considero especialmente relevante que se abram discussões sobre os impactos da presença de muitos imigrantes cuja presença no nosso país é temporária, porque serve apenas como trampolim para países europeus com melhor nível de vida ou porque se destina meramente a fazer o dinheiro suficiente para regressar ao país de origem, não havendo assim uma ligação duradoura ao território ou à cultura, tendo como consequência uma progressiva descaracterização ou até degradação desses mesmos territórios, como acontece p.ex. em certas regiões urbanas do Algarve ou em zonas suburbanas dos arredores de Lisboa. É evidente que cuidar do território e das suas comunidades locais deve ser uma tarefa colectiva de todos os que o habitam, imigrantes ou não, assim como das instituições aí sedeadas, mas se não existir uma ligação forte ou afinidade cultural com esse território existem fortes probabilidades de que ele se descaracterize ou se degrade. Poderia invocar vários exemplos de países europeus com uma história de imigração mais antiga (como a França, a Holanda ou a Suécia) e que se debatem com várias destas questões e com níveis de descontentamento social que têm favorecido a ascenção de partidos políticos populistas e xenófobos. Para concluir, transcrevo o excerto final do artigo de Manuel Carvalho que citei acima: "[há que] 
discutir sem medo a imigração tal como ela está a acontecer e as suas consequências. Ter medo do debate aberto é dar trunfos à extrema-direita."

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Preguiça, ócio e atenção: antídotos para superar a sociedade da exaustão (2)

Félix Vallotton (1896)
Nota: É possível ler a 1ª parte deste post aqui.

“(…) o direito à preguiça, o direito a esquivar-se ao trabalho, o direito a não nos sujeitarmos à mobilização cega, à exigência de nos tornarmos activos, seguem a tradição da luta que no passado resultou na invenção do nosso mundo e que será essencial no futuro, se este futuro vê como crucial abordar o problema do trabalho e da produção.” Isabelle Stengers

I want to say, in all seriousness, that a great deal of harm is being done in the modern world by the belief in the virtuousness of work, and that the road to happiness and prosperity lies in an organized diminution of work.” Bertrand Russell (Quero dizer, com toda a seriedade, que um grande mal está a ser causado ao mundo moderno pela crença na virtude do trabalho, e que o caminho para a felicidade e a prosperidade está numa redução organizada do trabalho)

“[La atención] Es la cualidad, para Simone Weil, de todo aprendizaje y de toda relación no instrumental con los otros. Lo único que debe enseñarse en la escuela, recomienda provocadoramente Weil, es justamente a prestar atención.Amador Fernández-Savater

Para introduzir a segunda parte deste post, retomo L.M. Sacasas e as interrogações que lança no artigo citado na primeira parte: “(...) que experiências poderiam realmente oferecer algo como descanso, renovação ou uma modesta medida de satisfação? Que práticas podem prosperar fora dos limites da racionalidade económica, optimização e consumo? Existe uma maneira de recalibrar os ritmos dos nossos dias, semanas, meses e anos para que gerem significado e uma medida de harmonia interna e comunitária?”

Na verdade, as tentativas de responder a estas perguntas foram já ensaiadas por diferentes autores e em diferentes épocas: p.ex. por Paul Lafargue no seu ensaio “Le droit à la paresse - Réfutation du Droit au travail” publicado em 1880 (edição portuguesa aqui); por Bertrand Russell no ensaio “In Praise of Idleness” publicado em 1932; ou por Simone Weil numa carta escrita em 1942 e intitulada “Réflexions sur le bon usage des études scolaires en vue de l'amour de Dieu” (tradução inglesa aqui) e incluída na compilação ‘Attente de Dieu’ publicada em 1950. Estes três textos invocam, respectivamente, os conceitos da preguiça, do ócio e da atenção.


No seu ensaio, escrito no auge dos movimentos de luta dos trabalhadores por condições dignas de meados do séc. XIX, Lafargue põe em causa o lema do ‘direito ao trabalho’ da revolução de 1848 e denuncia a ‘santificação’ do trabalho por considerá-la um “dogma desastroso” do moralismo burguês que seduziu o proletariado, mas legitima a exploração capitalista e promove a escravização voluntária. Em contraste com a exigência dos sindicatos de “oito horas para trabalhar por um salário digno, oito para descansar e oito para o ócio criativo”, Lafargue reivindica uma jornada diária de trabalho de três horas! Passo a citar: “Uma estranha loucura tomou posse das classes trabalhadoras das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta consigo as misérias individuais e sociais que, há séculos, torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor ao trabalho, a moribunda paixão pelo trabalho, levada ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e de sua prole. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas ‘sacrossantificaram’ o trabalho. (...) A nossa época é, diz-se, o século do trabalho; é de facto o século da dor, da miséria e da corrupção. E, no entanto, os filósofos, os economistas burgueses, (…) homens de letras burgueses, (…) todos entoaram canções nauseantes em homenagem ao deus Progresso, o filho mais velho do trabalho.” E mais adiante: “Se, arrancando do seu seio o vício que a domina e avilta a sua natureza, a classe operária se sublevasse na sua incrível força, não para exigir os Direitos do Homem, que são apenas os direitos da exploração capitalista, nem para reivindicar o direito ao trabalho, que é apenas o direito à miséria, mas para forjar uma lei de ferro, proibindo qualquer homem de trabalhar mais de três horas por dia, a Terra, a velha Terra, estremecendo de alegria, sentiria um novo universo brotando dentro dela... Mas como pedir a um proletariado corrompido pela moral capitalista uma resolução viril?

Paul Lafague e Laura Marx

Escritas há mais de 150 anos, as palavras de Lafargue, que na época suscitaram perplexidade e reprovação da parte de muitos dos seus camaradas socialistas, permanecem relevantes ainda hoje. No colóquio internacional “Le droit à la paresse, nécessaire, urgent?!” realizado em 2011 na Universidade de Bruxelas para assinalar o centenário da morte de Lafargue e de Laura Marx, a filósofa belga Isabelle Stengers invocou e actualizou o texto de Lafargue numa palestra com o título ‘Le droit à la paresse, une revendication cruciale’ (O direito à preguiça, uma reivindicação crucial). No seu texto, Stengers faz uma crítica da recriminação dos chamados ‘maus desempregados’, e do veneno do ressentimento e da mobilização permanente incutidos pelo produtivismo trabalhista. Passo a citar: “Vivemos num tempo e época em que a competitividade é o imperativo categórico em nome do qual empresas, cidades, regiões, países e continentes se viram uns contra os outros. Um tempo e época onde os homens e mulheres de negócios são proclamados anjos da guarda pelos trabalhos que criam ou salvam. Em tal tempo e época reivindicar o direito à preguiça parece ser uma traição, um apelo à apatia, quase uma blasfémia! (…) Nos dias de hoje, a redução das horas de trabalho já não constitui uma reivindicação ‘reformista’, é quase um ponto de vista revolucionário. (…) A competitividade é, sem dúvida, o doce e consensual eufemismo para uma guerra que destrói toda a solidariedade, a possibilidade de pensar e de imaginar. A canção do escravo com a qual estamos todos tão familiarizados pretende incitar as pessoas a auto reciclarem-se de forma contínua, incitá-las a preservar o capital que as torna atractivas, ou de colher os seus frutos, incentivá-las a enviar o sinal correcto, por exemplo, um pedido desesperado por um ‘emprego’, não importando que tipo de emprego. E claro, como em qualquer guerra, também ouvimos o clamor: “abaixo os desertores”; ou seja, os ‘maus’ desempregados, aqueles que não tentam ‘verdadeiramente’ encontrar um trabalho. (…) aceitámos a legitimidade da acusação que os ‘maus’ desempregados «tiravam partido do sistema». E, por conseguinte, também aceitámos que os desempregados eram uma categoria de gente que tinha de ser posta sob vigilância; eram suspeitos, pessoas que eram potencialmente culpadas. (…) o ressentimento prevaleceu sobre a imaginação, sobre o poder de pensar, o poder de criar. Lutar contra o conflito entre o ‘bom’ e o ‘mau’ desempregado significa lutar contra a força predominante do ressentimento que, se não tomamos cuidado, nos esmaga e infecta. Temos de encontrar uma forma de nos protegermos contra este ressentimento, caso contrário seremos forçados à posição defensiva e lutaremos de costas contra a parede. Não passaremos de uma multidão de dóceis trabalhadores, sempre prontos a entoar a canção do escravo assim que os nossos patrões anunciarem que «os empregos estão ameaçados» – salvem os nossos trabalhos, por favor, mesmo que isso mate o planeta. (…) Lutar contra o sagrado dever de arranjar um trabalho - não interessa que tipo de trabalho, ou melhor, contra a necessidade de fingir que «aqueles que realmente quiserem» poderão efectivamente encontrar um emprego se se esforçarem o suficiente – não tem nada a ver com aceitar o desemprego organizado. Tal luta cria imaginação colectiva, mesmo naqueles que realmente e desesperadamente procuram um emprego. É uma luta que, tal como todas as lutas não reformistas, testa os nossos vínculos com a ordem estabelecida.


Também o notável pensador britânico Bertrand Russell em “In Praise of Idleness” (Elogio ao ócio) argumentou que o trabalho era uma virtude sobre-estimada e que uma vida civilizada exigia tempo de lazer em que os interesses pessoais pudessem ser realizados. Russell considerava que o legado explorador da sociedade pré-industrial tinha corrompido o tecido social moderno e distorcido o sistema de valores vigente: “Um sistema que durou tanto tempo e terminou tão recentemente deixou naturalmente uma profunda impressão nos pensamentos e opiniões dos homens. Muito do que tomamos como certo sobre a desejabilidade do trabalho é derivado desse sistema e, sendo pré-industrial, não está adaptado ao mundo moderno. A técnica moderna permitiu que o lazer, dentro de certos limites, não fosse uma prerrogativa de pequenas classes privilegiadas, mas um direito igualmente distribuído por toda a comunidade. A moral do trabalho é a moral dos escravos, e o mundo moderno não precisa da escravidão.” O autor considerava também que a mecanização da produção havia chegado a tal ponto que ninguém precisaria de trabalhar mais de vinte horas por semana para dar uma contribuição justa à sociedade. No entanto, ele via uma sociedade em que um grande número de pessoas estava desempregada, enquanto a maioria dos demais estava sobrecarregada de trabalho (muitas vezes fornecendo produtos e serviços de valor questionável). Russell via a crença no dever de trabalhar como parte da “moralidade dos escravos”, um artifício usado pelos detentores do poder para induzir outros a viver para os interesses dos seus senhores: “Eu penso que há demasiado trabalho feito no mundo, que um imenso dano foi causado pela crença de que o trabalho é virtuoso, e que o que precisa ser preconizado nos países industriais modernos é bem diferente daquilo que tem sido pregado.” Russell apercebeu-se também de que a já distorcida relação com o trabalho estava a ser exacerbada pela confusão entre necessidades e desejos no cerne do materialismo capitalista: “O que acontecerá quando for alcançado o ponto em que todos possam sentir-se confortáveis sem trabalhar longas horas? No Ocidente, temos várias maneiras de lidar com esse problema. Não temos nenhuma tentativa de justiça económica, de modo que uma grande proporção da produção total vai para uma pequena minoria da população, muitos dos quais não trabalham. Devido à ausência de qualquer controlo central sobre a produção, produzimos inúmeras coisas que não são desejadas. Mantemos uma grande percentagem da população trabalhadora ociosa, porque podemos dispensar do seu trabalho fazendo com que os outros trabalhem demais. Quando todos esses métodos se mostram inadequados, temos uma guerra; fazemos com que várias pessoas fabriquem explosivos de alta potência e outras tantas os explodam, como se fôssemos crianças que acabaram de descobrir fogos de artifício. Por meio de uma combinação de todos esses artifícios, conseguimos, embora com dificuldade, manter viva a noção de que uma grande quantidade de trabalho braçal severo deve ser o destino do homem comum.” Impressiona constatar que passados quase 100 anos desde que foram escritas estas linhas quase nada mudou… Finalmente, Russell defendeu ainda que a desvalorização ou demonização do ócio estava ligada às injustiças e desigualdades sociais e que apenas a sua revalorização poderia superá-las. O seu argumento mais convincente é também o mais contra-intuitivo – a ideia de que reivindicar o direito ao ócio não é um reforço do elitismo, mas o antídoto para o próprio elitismo e uma forma de resistência à opressão, pois exigiria o desmantelamento das estruturas de poder da sociedade moderna, desfazendo o feitiço que elas lançaram sobre nós para manter os pobres pobres e os ricos ricos. Calibrar corretamente a vida moderna em torno da suficiência - isto é, em torno de atender à necessidade de conforto em vez de satisfazer o desejo interminável de ganância consumista - seria lançar as bases para a justiça social: “Num mundo onde ninguém é obrigado a trabalhar mais de quatro horas por dia, qualquer pessoa possuidora de curiosidade científica poderá satisfazê-la, e todo o pintor poderá pintar sem passar fome, por mais excelentes que sejam os seus quadros. Os jovens escritores não serão obrigados a chamar a atenção para si mesmos através de novelas sensacionalistas, a fim de adquirir a independência económica necessária para obras monumentais, para as quais, quando finalmente chegar a hora, terão perdido o gosto e a capacidade. (…) Acima de tudo, haverá felicidade e alegria de viver, em vez de nervos em franja, cansaço e dispepsia. O trabalho exigido será suficiente para tornar o lazer agradável, mas não o suficiente para produzir exaustão. Dado que as pessoas não estarão cansadas no seu tempo livre, elas não exigirão apenas diversões passivas e insípidas.


As ideias expressas por Simone Weil na carta de 1942 citada acima, foram invocadas por Amador Fernández-Savater num livro que co-editou e foi publicado já este ano com o título “El eclipse de la atención” (que inclui o texto integral da carta de Weil, entre textos de outr@s autor@s), assim como num artigo para o jornal digital CTXT, intitulado “Por un ‘comunismo’ de la atención”. Segundo Savater, para Weil “a atenção é a capacidade de esperar. Uma espera não resignada, mas activa, intensa, alerta. (…) não é um esforço laborioso da vontade, mas um estado de abertura e disponibilidade. Ao mundo, aos outros e à situação que vivemos. Não requer trabalho árduo ou disciplina, mas antes um relacionamento com desejo e alegria. Se há desejo há atenção, prestamos atenção ao que desejamos. Não consiste tanto em ‘enfocar’ ou ‘centrar’, mas em esvaziar-se de preconceitos para poder acolher algo desconhecido e não previsto de antemão. Para Simone Weil, é a qualidade de toda a aprendizagem e de todas as relações não instrumentais com os outros. A única coisa que deve ser ensinada na escola, recomenda Weil provocadoramente, é justamente prestar atenção.”


Regressando ao tempo presente, Savater (bem como outr@s dos autor@s que contribuíram para o livro citado) constata que a nossa capacidade de atenção está afinal a ser ameaçada por um sistema económico que a capturou e mercadorizou. No prólogo daquele livro escreve: “O colapso atencional está na encruzilhada de algumas tendências-chave do mundo atual: a economia que transforma a visibilidade na mercadoria mais valorizada, formas de trabalho precárias e multitarefa, zapping e scrolling como formas de se relacionar com as coisas, o horror vacui contemporâneo. A crise de atenção é, certamente, aquela que pode revelar com maior precisão a essência da sociedade em que vivemos. (…) Em todas as situações da vida quotidiana, uma estranha guerra está a ser travada entre as forças que exploram a nossa atenção - eletrocutando-a e esgotando-a - e as forças capazes de revitalizá-la, de renová-la, de reativá-la.” No artigo mais recente, Savater diagnostica: “No atual colapso da atenção, entendida como capacidade de esperar e escutar singularmente o outro, quem ou o que se encarrega do mundo por nós? Os automatismos. Todos os tipos de normas, protocolos e algoritmos organizam a vida individual e colectiva hoje. O automatismo não espera: ele sabe de antemão. O automatismo não escuta: pressupõe e calcula. O problema actual não é estarmos demasiado distraídos, mas sim a delegação massiva da nossa atenção a mecanismos que vêem, entendem e decidem por nós. (…) A vitória da lógica do lucro sobre qualquer outro valor social provoca este ‘transbordamento’ em que vivemos. Vidas individuais, centros de cuidados primários, escolas e o próprio planeta são explorados, precarizados e não conseguem dar resposta. Os automatismos aparecem como o único mecanismo capaz de atender às exigências contemporâneas de imediatismo e eficácia. Transbordamento, crise assistencial e automatismos como única resposta: como sair deste aparente círculo vicioso catastrófico?” Para Savater, a resposta será o resgate da atenção – como a entendia Weil, mas ampliada como bem comum para conseguir responder aos desafios das sociedades contemporâneas: “A batalha pela atenção é inseparável da luta pelo desejo e pelo tempo, pela reapropriação da nossa capacidade de fazer e desfazer o mundo. É, portanto, mais uma dimensão da política emancipatória, da política como prática de transformação do mundo, como questão coletiva para o comum. A atenção é também uma potência que rompe o estabelecido, o domínio dos automatismos, em busca de algo diferente, mais aberto e mais livre. (…) Entre o íntimo e o colectivo, entre o social e o político, entre o psíquico e o ecológico, surge hoje a linha transversal da atenção. O cuidado como prática e como exigência, como um novo bem comum. O que imaginamos com a expressão ‘comunismo da atenção’? Não um regime ou uma instituição, mas práticas de comunização do cuidado. De exercício e proteção da atenção. (...) A terapia individual permanece estreita sem preocupação com o mundo comum. A luta colectiva não vai muito longe sem abordar a dimensão pessoal e subjetiva. A atenção é a interface entre o meu sistema nervoso e a crosta terrestre. A arte de se mover na reciprocidade, na relação, no ‘entre’ que sustenta o mundo.


Tentando ligar os fios de reflexão crítica trazidos pelos pensadores que citei, parece-me que só uma ampliação da atenção e da sensibilidade - individuais e colectivas, e apenas possíveis com uma revalorização do ócio e uma libertação do trabalho (encarado como compulsão ou obrigação) - poderão fornecer os antídotos essenciais para quebrar o feitiço e as amarras geradas pela voragem produtivista, utilitarista e consumista que domina e intoxica as sociedades contemporâneas. Termino com duas citações dos textos que citei:

Amador Savater: “«Viver intensamente é viver atento» tem sido dito, de diversas formas, por sábias vozes ao longo dos tempos. Viver atento significa estar dentro das situações que vivemos, viver envolvido. A atenção é uma arte da presença, de estar presente naquilo que temos para viver. É a única plenitude que podem escolher existências sempre abertas e inacabadas como a humana.

L.M. Sacasas: “(…) há adentramentos que vale a pena descobrir pela aplicação da nossa atenção paciente e cuidadosa (…) esses adentramentos podem ser gratificantes e renovadores. (…) Portanto, uma maneira de abordar a questão é simplesmente nos perguntarmos o que ganhamos com as nossas diligências se aprendermos a cuidar do mundo com atenção. O que conseguimos, simplesmente, é nada menos que o próprio mundo.” 


Preguiça, ócio e atenção: antídotos para superar a sociedade da exaustão (1)

Nota prévia: Este é um post longo que dividi em duas partes para facilitar a leitura (a 2ª parte está aqui).

Paressons en toutes choses, hormis en aimant et en buvant, hormis en paressant.Gotthold E. Lessing (citação que abre o 1º capítulo do ensaio de Paul Lafargue: “Le droit à la paresse”) (Sejamos preguiçosos em tudo, excepto em amar e em beber, excepto no preguiçar)

We are depleted by a techno-economic system that is bent on treating the human and the non-human alike as raw material, as sites of extraction.L.M. Sacasas (Estamos esgotados por um sistema tecnoeconómico que tende a tratar o humano e o não-humano igualmente como matérias-primas, como locais de extração)

Este texto surge na sequência do meu post de Fevereiro deste ano sobre a deserção e retoma um dos temas que aí aflorei, nomeadamente o do cansaço e da exaustão (‘burnout’) como sintomas ou consequências das actuais sociedades trabalhistas e produtivistas. Já tinha aludido a esta questão ao invocar nesse post as reflexões de 'Bifo' Berardi, que estabeleceu uma ligação entre a natureza extractivista do modelo socioeconómico dominante e a dupla exaustão que gera: ecológica (dos recursos materiais e energéticos) e psicológica (dos seres humanos subjugados pelo trabalho e pelo consumismo). Esta conexão tem vindo aliás a ser invocada por outros autores, incluindo naturalmente defensores do decrescimento: p.ex. num artigo de 2019 liderado pelo investigador finlandês Pasi Heikkurinen, intitulado “Leaving Productivism behind: Towards a Holistic and Processual Philosophy of Ecological Management”, num texto do colectivo holandês The EmboDegrowth Lab com o título “Embodying degrowth and turning the movement inside out” publicado em 2021, ou num texto do final de 2022 pelo investigador independente norte-americano L. Michael Sacasas, intitulado “What you get is the world”.


No primeiro artigo, os autores, que se inspiraram nas ideias de Gregory Bateson, de Felix Guattari ou da filosofia marxista, escrevem: “Defendemos que o princípio produtivista, de produzir cada vez mais, está na origem do esgotamento e do excesso no contexto organizacional, pois a filosofia produtivista negligencia os recursos limitados da psique humana e ignora os limites do meio ambiente. (…) O que liga a globalização, a expansão e acumulação capitalista e as atuais práticas de gestão empresarial é a ideia produtivista de extrair os recursos infinitos do mundo, sejam eles mentais, sociais ou ambientais. A filosofia de gestão produtivista e as suas práticas podem, portanto, ser consideradas o elo de conexão entre os problemas da ecologia mental e da ecologia ambiental.

No segundo artigo, os autores defendem: “Muitos de nós vivemos na ‘sociedade do esgotamento’, uma sociedade alimentada por combustíveis fósseis que nos aliena uns dos outros e de conexões mais profundas com a ‘natureza’ e o cosmos. Muitos de nós também internalizamos inconscientemente essa ideologia de crescimento que nos diz que ‘mais é melhor’. Somos moldados por instituições capitalistas como trabalho assalariado e escolaridade industrial que subvertem os nossos desejos e nos tornam ‘sujeitos de realização’. (…) A linguagem de uma ‘transição decrescentista’ é útil para mobilizar as pessoas e os seus coletivos em torno de objetivos políticos, mas retém uma imagem de actores políticos especializados que farão a ‘transição’ de um estado para outro. Oferecemos uma teoria alternativa de mudança que visa uma ‘transformação decrescentista’, ou mudanças mais profundas na ideologia e nas práticas quotidianas. Não será suficiente focar apenas na mudança de políticas e instituições; é essencial incorporar a transição e os seus significados mais profundos também de maneira pessoal. Com isso, queremos dizer que as ideias transformacionais começam e são executadas por meio dos nossos corpos nas suas múltiplas camadas e relacionamentos com os outros.

No terceiro artigo, L.M. Sacasas afirma: “Estamos esgotados pelo ritmo e pela estrutura da vida contemporânea, particularmente pela forma como os limites espaciais e temporais, que forneciam pausas modestas das exigências que outros nos poderiam impor, foram corroídos pelas capacidades da tecnologia digital. Agora estamos sempre ligados e sempre disponíveis, o nosso frenesi como disfarce de flexibilidade. Estamos ainda esgotados pelo nosso ecossistema mediático, que, se o deixarmos, nos sobrecarregará com estímulos cognitivos e emocionais. Estamos também esgotados por um sistema tecnoeconómico que tende a tratar o humano e o não-humano igualmente como matérias-primas, como lugares de extração.


Um outro autor que tem também abordado esta questão é o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, em particular no seu livro ‘
A Sociedade do Cansaço’ (2010), que citei num post de 2018. Han defende que a sociedade contemporânea é caracterizada pelo produtivismo neoliberal e que os ‘sujeitos de obediência’ da sociedade disciplinar descrita por Michel Foucault se converteram em ‘sujeitos de produção’, empresários de si próprios. Segundo Han, a sociedade disciplinar era caracterizada pela negatividade e pelo verbo ‘dever’, enquanto a sociedade produtivista é caracterizada pela positividade e pelo verbo ‘poder’. Estas características terão desencadeado não só expectativas de desempenho e de sucesso difíceis de atingir, como também um empenho egocêntrico (e narcisista) que tende a eclipsar a consciência social dos indivíduos. Um dos principais sintomas desta transformação seria a predominância das patologias de hiperactividade, de depressão e de esgotamento (burnout), em particular nos meios urbanos dos países ricos e industrializados. Citando o autor: “O novo tipo humano, que indefesamente se encontra entregue ao excesso de positividade, não comporta qualquer marca de soberania. O homem depressivo é o animal laborans que se explora a si mesmo, de forma voluntária, sem necessitar de pressão ou coação alheias. Ele é agente e vítima ao mesmo tempo.” E, mais adiante: “A queixa que se ouve dos lábios do indivíduo deprimido – nada é possível – só pode existir numa sociedade que elevou o ‘nada é impossível’ a máxima. (…) A depressão é a doença de uma sociedade que sofre de excesso de positividade e reflete uma humanidade em guerra consigo própria.” Embora considere que Han menospreza certas facetas opressivas das sociedades trabalhistas e produtivistas subjugadas pelo poder económico, como a precariedade nos países do norte global ou a exploração do trabalho subremunerado nos países do sul global, achei interessante o facto de o autor considerar que o cansaço não tem apenas um aspecto desmobilizador e desempoderador (que ele apelida de ‘cansaço alienante’, expressão emprestada do escritor Peter Handke), mas pode também gerar uma diluição do ego (resultante do que Handke chama ‘cansaço fundamental’, um cansaço inspirador ou clarividente), que abre um espaço de simpatia e de religação ao outro e ao mundo, recuperando a empatia social e uma propensão para um não-fazer sereno. Ou seja, o cansaço pode afinal ser um ensejo para superar a pressão social produtivista e trabalhista.


Para conhecer melhor o pensamento de Han sobre este tema, recomendo o documentário-ensaio ‘Fatigue Society: Byung-Chul Han in Seoul/Berlin’ (2015) da realizadora alemã Isabella Gresser. Recomendo também o vídeo-documentário ‘The Burnout Society: Hustle Culture, Self Help, and Social Control’ (2021) de 1Dime, que cita Han entre outros, fazendo uma crítica contundente à sociedade trabalhista que tomou proporções teológicas e que, alimentada pela ética protestante, pela ‘CEO-mentality’ e pela indústria da autoajuda, fomenta a compulsão do trabalho (‘workaholism’), os ‘bulshit jobs’, o esgotamento geral e a perda de sentido.

(continua)


quinta-feira, 30 de março de 2023

Respigos de Março (1)

Orchis italica (Fanhões)
Since one cannot know a radically better world is not possible, are we not betraying everyone by insisting on continuing to justify and reproduce the mess we have today?” [Já que não se pode saber se um mundo radicalmente melhor não é possível, não estaremos a atraiçoar todos ao insistir em continuar a justificar e a reproduzir a trapalhada que temos hoje?] David Graeber (Fragments of an Anarchist Anthropology)

Inauguro uma nova secção de apontamentos das pesquisas deste Respigador - que designei por Respigos - com chamadas para acontecimentos, artigos, entrevistas, livros ou vídeos com que me vou cruzando e que me pareceram merecedores de destaque e partilha. Na verdade, no primeiro post deste ano já tinha ensaiado este formato. Dividi o presente post em três partes para facilitar a leitura (a 2ª parte está aqui e a 3ª aqui) e complementei as ilustrações dos temas com fotografias de diversas orquídeas silvestres que respiguei neste mês de Março em Lisboa e arredores.


Ainda no rescaldo do meu post anterior sobre a deserção como reacção e resistência às actuais sociedades trabalhistas e produtivistas, encontrei uma entrevista a Corinne Morel Darleux (ensaista e militante ecossocialista francesa, autora do ensaio «Plutôt couler en beauté que flotter sans grâce», que citei naquele post), além de um artigo seu no jornal Libération (ambos publicados em 2022), onde apela à construção de deserções fecundas como actos políticos capazes de se tornarem verdadeiras secessões, refreando os desejos (legítimos) de evasão desorientada. Transcrevo excertos da entrevista (traduzidos do francês): “(…) Bifurcar, se eu tivesse que resumir, é para mim vivenciar com sinceridade, mas sem rigidez, esse momento singular em que o cérebro encontra os punhos. Seja como for que se manifeste depois, nas escolhas individuais - ou infelizmente, porque nem todos temos as mesmas condições de existência, na ausência de escolha -, é nesse momento de discernimento, de lucidez, onde no fundo sentimos que não podemos continuar a viver como se não soubéssemos. (…) o apelo à raiva [devenir “furieux”] não é necessariamente sensato dado o barril de pólvora em que nos encontramos. É uma preocupação sincera: não vejo nenhuma explosão revolucionária, nenhum movimento social de grande porte, poucos coletivos organizados para politizar e canalizar essa raiva. A maioria das pessoas não sabe o que fazer com essas vontades de destruir tudo, essas indignações legítimas, nem como se proteger da escassez que se aproxima; por falta de saída, corre-se o risco de escolher o inimigo errado e colocar uns contra os outros. Desconfio do ressentimento que se instala, dos fenómenos de retração e de expiação de culpa [‘boucs-émissaires’/bodes expiatórios], um cenário muito perigoso no momento.”


As palavras de Darleux remeteram-me para o documentário ‘Une fois que tu sais’/‘Once you know’ escrito e realizado por um compatriota seu, o cineasta Emmanuel Cappelin, e estreado em 2022. Nesta obra autobiográfica, Cappelin, que escolheu um caminho particular de bifurcação por via do activismo ambiental, descreve o seu próprio processo de tomada de consciência, quer sobre a ligação entre a crise ecológica e o sistema socioeconómico dominante (crescentista, produtivista, extractivista, consumista), quer sobre o modo como este sistema nos levará ao colapso. O autor parte do relatório ‘The Limits to Growth’ e recorre ao testemunho de um conjunto restrito de intervenientes – o activista Pablo Servigne, a investigadora Susanne Moser, o autor Richard Heinberg, e os académicos e consultores Jean-Marc Jancovici e Saleemul Huq - não só para entender as diferentes dimensões inter-relacionadas da situação presente, como também para dar a conhecer algumas das propostas e projectos que estão ser experimentados. Perante a visão lúcida e desencantada do estado do mundo, Cappelin escolhe enumerar algumas das alternativas que se oferecem (ver o siteRoots of Resilience’ que complementa o filme), relatando o seu próprio percurso pessoal, mas deixando a cada um/uma a decisão de escolher o seu próprio caminho. Vale a pena consultar a ‘Árvore de Acções’ (na sua versão inglesa ou francesa), dividida em seis secções (Resistência, Regulação, Cooperação, Adaptação, Autonomia, Sobriedade), que transmite uma imagem inspiradora da extraordinária diversidade de propostas e de níveis de envolvimento que realmente existem, em contraste flagrante com o lema falacioso e estafado ‘Não há alternativa' (ao capitalismo neoliberal global) ou TINA (na sigla inglesa).


Antes de publicar um post que prometi sobre o tema da exaustão, remeto para uma entrevista recente dada pelo jornalista britânico Oliver Burkeman ao jornal Público, a propósito da publicação da tradução portuguesa do seu livro ‘4000 semanas – gestão de tempo para mortais’ (a que aludi no meu post anterior). Achei particularmente relevante o questionamento que o autor faz da chamada ’armadilha da eficiência’, assim como das técnicas de gestão de tempo – ferramentas das sociedades produtivistas e trabalhistas, das quais o próprio Burkeman foi, sucessivamente, agente e vítima. 
Excertos: “Cheguei a este assunto por uma espécie de obsessão com a gestão de tempo mais estreita: tentar encontrar técnicas e truques para organizar o dia de forma a conseguir fazer mais coisas. Uma grande razão para escrever este livro foi ter chegado aos limites dessa forma de pensar, ter esgotado as suas possibilidades e querer descobrir o que podia existir no seu lugar. (…) Muitas pessoas que usam estas técnicas fazem-no para chegarem a uma situação em que são capazes de fazer todas as coisas que sentem que têm de fazer, todas as coisas que querem fazer, todas as solicitações. Na verdade, o que estão a fazer é usá-las como uma forma de esquivamento psicológico: utilizam-nas para não serem confrontadas com o que significa ter uma quantidade de tempo limitada e um controlo limitado desse tempo. (…) E depois há as pressões económicas e a natureza do sistema económico em que vivemos que levam a que tenhamos de fazer uma quantidade impossível de coisas só para mantermos a cabeça acima da água. (…) Com frequência, no trabalho e fora dele, fazemos coisas que não nos preenchem acreditando que isso nos conduzirá a um momento, no futuro, em que tudo valerá a pena porque estaremos no controlo, teremos tudo o que precisamos — e aí poderemos viver realmente. Isso não é uma boa forma de pensar na vida porque não é possível controlar o que vai acontecer no futuro. (…) se apreciássemos mais o pouco tempo de que o nosso ser finito dispõe, seríamos muito menos tentados a procurar fazer tudo — e muitas coisas que não devíamos estar a fazer.” O autor demonstrou, quanto a mim, uma capacidade pouco habitual de humildade e de auto-crítica, compreendendo os limites das capacidades humanas de realização e de atenção. Ainda assim, o autor não conseguiu resistir a voltar a organizar as suas tarefas quotidianas em duas listas – aquelas que tem para fazer e as que se compromete a fazer!...

(continua...)

Cephalanthera longifolia (P.F. Monsanto)



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

A grande demissão: a revolução involuntária da deserção

© Juliette de Montvallon / Reporterre
Nota prévia: este é um post longo que requererá tempo para ser desfrutado em pleno; a sua extensão resulta do processo de investigação e de digestão que lhe dediquei; trata-se assim de um convite à demora, em linha com a rejeição da voragem consumista, apanágio da sociedade industrial produtivista que é rejeitada pelos movimentos de deserção que aqui tentei descrever.

A deserção é o sinal dos nossos tempos, o derradeiro gesto de resistência numa época onde reina a devastação e onde a violência policial se abate sobre os movimentos sociais. A deserção é uma ética individual, uma nova forma de objecção de consciência.Gaspard d’Allens

A recusa de singrar [‘refus de parvenir’] faz provavelmente hoje parte da longa linha de acção directa e de não-cooperação com o sistema.Corinne Morel Darleux

Não suporto os falsos deuses do Ocidente, sempre à espreita como aranhas, que comem os nossos fígados, sugam a nossa medula. E faço um protesto contra o mundo moderno, é ele o Monstro. Destrói a nossa terra, espezinha as almas dos homens.Bernard Moitessier (navegador solitário, autor do livro ‘La Longue Route’)

On arrête tout, on réfléchit et ce n’est pas triste” Slogan do filme ‘L’An 01’ (1970)

Unemployment for all, not just the rich” Slogan da comunidade r/Antiwork do Reddit

Este post foi inspirado por uma investigação de fundo do jornalista francês Gaspard d’Allens para a publicação online sobre temas ambientais Reporterre, intitulada “La grande démission” e da qual irei transcrever vários trechos (que traduzi para português) – é possível ler cada uma das três partes do artigo original em francês, publicado em Julho de 2022, aqui, aqui e aqui (ver P.S. no final do post). O tema da deserção como insubmissão, objecção de consciência ou recusa de status (e do statu quo), tinha sido aflorado no meu primeiro post do ano onde citei os textos de d’Allens. Noutros dois posts (aqui e aqui) destaquei a relevância das acções de resistência e de não-colaboração, nas quais incluo também a deserção. Já este ano, o mesmo tema foi retomado pelo investigador independente espanhol Amador Fernández-Savater (autor do site filosofiapirata.net) num artigo para a publicação semanal CTXT (aqui), onde estabelece paralelos entre a ‘Grande Recusa’ dos anos 60 e a ‘Grande Demissão’ contemporânea que apelida de ‘revolução involuntária’, e ainda pelo filósofo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi (citado por Savater), na sua passagem recente por Lisboa onde fez algumas intervenções públicas, nomeadamente no Teatro do Bairro Alto, tendo ligado a deserção com outro fenómeno das sociedades ‘desenvolvidas’: a depressão/exaustão (ver aqui).

O texto de d’Allens ancora-se no apelo à deserção lançado em Maio de 2022 por um grupo de jovens agrónomos recém-licenciados pela escola de engenharia AgroParisTech (autodenominados ‘Des agros qui bifurquent’) durante a cerimónia de entrega de diplomas (ao qual me referi num post anterior). O vídeo da leitura do seu manifesto (com milhões de visualizações), onde apelam à recusa de “perpetuar o sistema” não aceitando “empregos destrutivos”, revelou, segundo d’Allens, um movimento fundamental que desafia diretamente os modelos de sucesso social e representa uma rotura na ordem estabelecida. Sintomaticamente, uma campanha de difamação foi lançada pelos círculos empresariais e pelos principais meios de comunicação em França, que reagiram com uma onda de críticas e insultos para culpar a “cobardia” e as incoerências dos jovens, alegando que desertar seria sinónimo de rendição, abandono ou passividade, uma “admissão de fracasso”, “uma forma de desistência” (d’Allens dá vários exemplos dessas críticas na 2ª parte do seu artigo). Já em 2018, estudantes da ‘École polytechnique’ tinham divulgado um manifesto que apelava a um “despertar ecológico” (vídeo e site do projecto) mas que não teve igual projeção mediática. Em 2021, Arthur Gosset, ex-estudante de engenharia, realizou o documentário ‘Ruptures’ onde relata os processos de rotura de seis colegas seus que recusaram seguir carreira, escolhendo um caminho que consideram mais compatível com os actuais desafios ambientais e societais (ver também esta entrevista a Gosset). D’Allens defende que as iniciativas dos jovens universitários não são eventos isolados e se integram numa tendência mais generalizada que tem surgido em diversos países e que envolve pessoas que abandonam as suas carreiras em diferentes fases do seu percurso profissional. O autor dá como exemplos os fenómenos que foram designados por ‘great resignation’ (trabalhadores de diversos sectores profissionais que recusaram retomar os seus empregos após a “normalização” pós-pandemia) e por ‘quiet quitting’ (trabalhadores que recusam jornadas de trabalho longas, intensas e mal remuneradas, enquadradas por contratos de curtíssima duração, e que não deixam espaço para mais nada, abandonando eventualmente os seus empregos precários) nos países anglófonos (EUA e RU), mas que se estenderam já a outros países, incluindo a França ou Portugal (ver p.ex. aqui e aqui). D’Allens escreve: “Por todo o lado, jovens e menos jovens questionam o trabalho, a sua finalidade e o seu significado. Alguns, inclusive, recusam-no, para inventar, noutro lugar, uma vida que eles e elas consideram mais rica. Poucos meses depois dos confinamentos, que paralisaram diversos sectores da actividade económica, parte da população ainda hesita em voltar à labuta, terminar os estudos ou regressar às fábricas ou negócios. Nos Estados Unidos, os sociólogos batizaram este fenómeno como ‘Great Resignation’ ou ‘Big Quit’: “a grande demissão”. Em 2021, mais de 38 milhões de americanos deixaram os seus empregos. 40% ainda não retomaram o trabalho. Um tsunami que atinge todas as idades, todas as profissões. E que inverte o equilíbrio de poder entre empregados e empresas. (…) Também em França o êxodo começou. Centenas de milhares de cargos não são preenchidos, por falta de candidatos, na hotelaria ou na restauração, enquanto nas ‘grandes écoles’, entre as classes médias altas, a renúncia está em gestação. Além dos discursos estrondosos na imprensa, uma revolta mais silenciosa está a propagar-se. Em todas as áreas e categorias profissionais, e mesmo onde menos se espera, em empresas de combustíveis fósseis ou na alta administração pública. A dúvida espalha-se. A crise ecológica veio contrariar os sonhos de outrora movidos a petróleo. Quanto vale uma progressão diante da ameaça climática? Porquê lutar por uma posição quando todo o sistema vacila? Qual é o sentido de se instruir quando tudo se desmorona?

D’Allens considera que o fenómeno está a provocar alguma consternação entre os defensores do sistema socioeconómico hegemónico (neoliberal) e a pôr em causa as suas fundações (como o demonstram aliás as reacções referidas acima), em particular a centralidade do trabalho, mostrando através de diversas citações que não está sozinho nas suas conjecturas. Transcrevo mais alguns excertos do seu texto: Para além dos dados estatísticos sobre as demissões em França [ver p.ex. aqui], houve uma bolha mediática que rebentou. «O eco que os apelos à deserção podem ter tido diz muito sobre as questões que agitam a sociedade», sublinha a socióloga Geneviève Pruvost. «Hoje, a deserção chega a atingir profissões essenciais ao funcionamento do modelo capitalista. Isso compromete a sustentabilidade do sistema», acrescenta. «Se uma centena de engenheiros ou pesquisadores da região de Toulouse decidisse parar de fazer algoritmos e robôs, faria desmoronar tudo», confirma Olivier Lefebvre. Este homem de 40 anos deixou o seu emprego. Ele trabalhava numa ‘start-up’ de carros autónomos antes de se demitir. (…) «O nosso discurso sobre a renúncia ao trabalho é muito mais audível hoje», nota Romain Boucher. Este ex-cientista de dados formado pela Escola de Minas deixou o emprego em 2018. No seu escritório próximo aos Champs-Élysées, os protestos dos Coletes Amarelos foram a ‘onda sísmica’ que o levou a romper com aquele mundo. Desde então, ele criou a associação ‘Vous n’êtes pas seuls’ para encorajar os seus ex-colegas a demitirem-se. «Ao subverter a pequena burguesia empresarial e educada, pretendemos deter a correia de transmissão que ela representa. Queremos corroer essa classe social que sustém o sistema», afirma. (…) A deserção abala os fundamentos ideológicos da economia, destrói a adesão a esses fundamentos e faz estalar o seu verniz tingido de verde. A escritora Corinne Morel Darleux vê nela «uma forma de sabotagem simbólica». «A recusa de singrar [‘refus de parvenir’; ver adiante] provavelmente faz hoje parte da longa linha de ação direta e de não-cooperação com o sistema», escreve no seu ensaio ‘Prefiro afundar em beleza do que flutuar sem graciosidade’ [Plutôt couler en beauté que flotter sans grâce]. «A deserção é uma arma formidável que liberta o futuro.»” Também em Portugal o fenómeno está a ter algum impacto e o mundo empresarial já está a sentir necessidade de desenhar estratégias para “reter e fidelizar o talento” – ver p.ex. aqui.

© Juliette de Montvallon / Reporterre

Na 2ª parte do seu texto, d’Allens responde às críticas que atribuem ao fenómeno da deserção uma conotação negativa, quer como acto de desistência ou resignação (na língua inglesa a palavra ‘resignation’ tem uma dupla acepção: como demissão ou como resignação), quer como prerrogativa de uma pequena elite de privilegiados ou burgueses. O autor defende que se trata, pelo contrário, do germinar de uma contra-sociedade. E recorre mais uma vez a múltiplas vozes: “A aceitação social em que se baseia o sistema económico está a desmoronar-se. Apesar das promessas de renovação, com a utopia cibernética ou a fantasia de Silicon Valley, o capitalismo vive atualmente “uma fase de desencanto radical”. «As pessoas já não encontram sentido, nem se revêem nele. Ainda não é uma revolta completa, mas é uma desfiliação profunda», diz a jornalista e autora Celia Izoard [autora de ‘Merci de changer de métier: lettres aux humains qui robotisent le monde’]. A deserção é um assunto antigo, ao qual o sistema em vigor foi obrigado a responder. (…) é o sinal dos nossos tempos, o derradeiro gesto de resistência numa época onde reina a devastação e onde a violência policial se abate sobre os movimentos sociais. A deserção é uma ética individual, uma nova forma de objeção de consciência. «Hoje em dia trata-se de parar de prejudicar. Isso passa por deixar de cooperar com o sistema», afirma Corinne Morel Darleux no seu ensaio [supracitado]. «Devemos recuperar a nossa capacidade de fazer escolhas autónomas, de reinvestir a nossa soberania como indivíduos. É o primeiro passo de uma emancipação coletiva em relação às normas que nos são impostas pela sociedade». Os desertores evadem-se como recrutas fugindo do exército. «A deserção não é tanto uma derrota, mas uma forma de nos livrarmos do elemento gregário em nós», escreve o escritor Dénetem Touam Bona, em ‘La Sagesse des lianes’. Diante da miséria do mundo, não buscamos construir oásis ou nichos abrigados da fúria, mas sim reposicionar-nos para melhor lutar contra a megamáquina e escapar das suas garras. «Fugir, mas ao fugir, procurar uma arma», escreveu o filósofo Gilles Deleuze. Esta deserção nada tem a ver com passividade. Para o colectivo ‘désert’heureuses [felizes desertoras] – um grupo de engenheiras dissidentes – não se trata de abandonar o campo de batalha, mas sim de mudar de lado. A fuga já não se impõe como simples deserção, mas como uma nova estratégia de luta. «A deserção é um treino mental para ficar o mais longe possível do sistema, longe o suficiente para poder observá-lo de diferentes ângulos e, assim, poder atacá-lo melhor», escrevem num panfleto. Johanna, membro daquele coletivo, afirma: «Hoje, é a guerra contra o mundo vivo que nos recusamos a travar. A produção industrial na qual somos chamadas a participar como engenheiras é indissociavelmente civil e militar. É um mundo estruturado pela guerra e pelo comércio, que destrói ecossistemas e desestabiliza o clima.»

D’Allens defende ainda que a contestação e recusa do statu quo nem sempre é possível quando se está dentro do sistema e que a deserção pode ser uma estratégia mais adequada para o combater a partir do exterior: “Nos testemunhos recolhidos para o Reporterre, muitos ex-assalariados recusam agora ‘a política do entrismo’: «Desde a infância, dizem-nos que temos de mudar as coisas por dentro, que temos de assumir a direção e o poder de transformar o mundo, de sermos um bom aluno, responsável e paciente», diz o engenheiro demissionário Olivier Lefebvre. «Mas, na realidade, mentimos a nós próprios. Estamos a desperdiçar tempo e a desgastarmo-nos. Somos confrontados com bloqueios estruturais e, afinal de contas, perdemo-nos. Contamos histórias para justificar o nosso modo de vida confortável.» Uma acção também pode ser eficaz no exterior. É nas margens que se desenvolvem as promessas do futuro. Várias alternativas mostram isso mesmo, como a ZAD de Notre-Dame-des-Landes.” D’Allens invoca ainda um dos pioneiros da ecologia, Bernard Charbonneau, que afirmava já na década de 1930 que “só lutamos contra uma sociedade a partir do exterior”. “Enquanto houver governos bem organizados, os ministros da polícia farão bem em desconfiar dos jovens que partem sozinhos para perambular pelas estradas esburacadas. O seu amor genuíno pela natureza é um sentimento revolucionário”, escreveu ele em ‘Nous sommes des révolutionnaires malgré nous’. O próprio Bernard Charbonneau decidira estabelecer-se como um simples professor na região dos Pirenéus, em vez de seguir uma carreira académica.

© Juliette de Montvallon / Reporterre
Na 3ªparte do artigo, d’Allens reforça a sua tese sobre a relevância do movimento contemporâneo de deserção, traçando uma linha de continuidade com lutas históricas, que vão desde as revoltas e lutas de libertação dos escravos e dos povos indígenas do séc. XVIII, às reivindicações dos movimentos libertários (anarquistas) do final do séc. XIX e início do séc. XX, assim como às dos movimentos estudantis de emancipação dos anos 60. Nas palavras de d’Allens: “A fuga das garras do sistema sempre fez parte do repertório de acção das classes populares. Hoje, essas histórias são tanto uma fonte de inspiração quanto um farol para o movimento de deserção: elas ancoram a ecologia política numa filiação revolucionária e reacendem a chama da revolta social. «A deserção» não é apenas um discurso de executivos refratários, engenheiros demissionários ou jovens estudantes em busca de sentido, anteriormente bem inseridos na sociedade. Antes que a ideia da «recusa de singrar» [‘refus de parvenir’] fosse retomada pelos ecologistas para marcar a crescente contestação dessas elites, a deserção era uma atitude da classe trabalhadora ao recusar-se a pactuar com o inimigo - o patrão, o burguês, o capataz.

A expressão ‘refus de parvenir’ foi cunhada há mais de um século pelo intelectual libertário Albert Thierry no seu ‘Ensaio sobre a moral revolucionária’ (1916), onde a descreve como uma exigência ética: “Consiste em recusar-se a viver e a agir para si e para fins próprios”. D’Allens acrescenta: “Isso não era, no entanto, uma aceitação da miséria, mas sim uma rejeição das honras e privilégios individuais. Era também uma forma de lucidez, enquanto as elites burguesas, sob a Terceira República, buscavam captar os elementos mais brilhantes da população trabalhadora para pô-los ao seu serviço.” A recusa de singrar, que terá ecos na ‘Grande Recusa’ dos anos 60 e ressurge agora nas palavras e actos dos desertores contemporâneos, assim como em diversas publicações académicas (ver aqui ou aqui), rejeita a ascensão ou promoção social pela busca de interesse pessoal numa perspectiva de carreira, poder ou prestígio, em favor de ideais de emancipação colectiva e solidariedade, já que a emancipação individual só se pode atingir numa sociedade emancipada.


D’Allens invoca também o trabalho dos filósofos Malcom Ferdinand e Dénetem Touam Bona que permitiram redescobrir outras genealogias do movimento de deserção: “actores do passado, esquecidos, que, através da sua resistência, nas profundezas da floresta, souberam lutar tanto contra o servilismo como por uma outra concepção de mundo que se opõe, ponto por ponto, aos valores do sistema capitalista (propriedade privada, busca do lucro, etc.). Durante séculos, no Caribe e na América, muitos escravos fugiram das plantações, essas vastas monoculturas desenvolvidas pelos colonos sobre antigas florestas. (…) eles reconstruíram sociedades inteiras, com as suas canções, os seus ritos, a sua cultura, a sua autonomia. «O ‘marronnage’ foi uma prática de resistência ecológica», afirma Malcolm Ferdinand no seu livro ‘Une écologie décolonial’ [tradução PT-BR aqui]. Algumas comunidades ultrapassavam dezenas de milhares de indivíduos com várias aldeias e cidadelas, praticavam caça, coleta e formas de agroecologia. Essas micro-sociedades por vezes até forçavam os colonos a negociar tratados de paz… (…) Os ‘negros quilombolas’ (‘nègres marrons’) cultivavam a ‘arte da fuga’. Para usar a bela expressão de Dénétem Touam Bona, «eles assumiam a sombra estriada da folhagem», eles eram unos com o seu território, habitavam-no plenamente. Uma comunidade de destino foi fundada entre os quilombolas, a terra e a natureza. Quanto mais densa a floresta, mais eles poderiam se esconder e criar a sua sociedade amotinada. (…) Ainda hoje subsistem vestígios dessas resistências. (…) Por exemplo, os Saramaka, uma sociedade quilombola criada no século XVIII entre o Suriname e a Guiana, continuam a lutar contra a desflorestação. Dois dos seus representantes ganharam mesmo o prémio ambiental Goldman em 2009. «Assim como a figura dos quilombolas, eles têm sido reconhecidos internacionalmente como notáveis ambientalistas», afirma Malcom Ferdinand.

Quanto aos movimentos de contestação da década de 1960, d’Allens escreve: “Dezenas de milhares de jovens fugiram na época e deixaram os cargos para os quais estavam destinados. Criticavam a sociedade de consumo e a alienação comercial. Alguns ativistas decidiram até instalar-se nas fábricas para provocar a ira social. Outros estabeleceram-se em áreas rurais para criar comunidades. No ambiente universitário, o grupo ‘Survivre et vivre’ e o matemático Alexandre Grothendieck também levaram jovens investigadores à deserção.” Destaca a cooperativa Longo Mai (fundada nos anos 1970 em França mas que se replicou noutros países europeus e na Costa Rica, perdurando até ao presente – ver p.ex. aqui) como exemplo de comunidade autónoma: “O objetivo era fundar uma nova sociedade, permanecendo ofensiva e revolucionária. Mas os seus membros não queriam, ao contrário da RAF [Facção do Exército Vermelho/Grupo Baader-Meinhof] ou das Brigadas Vermelhas em Itália, engajar-se na luta armada contra o Estado. Era uma posição estratégica para não ser esmagada e manter-se ao longo do tempo. (…) Essas experiências alimentam as deserções de hoje. Muitos desertores redescobrem-nas por meio de leituras e encontros e entendem que são os herdeiros de uma longa epopeia subversiva. «É um exercício de humildade ver o que nossos antecessores fizeram. Os riscos que correram e o seu sacrifício.», diz o engenheiro demissionário Olivier Lefebvre.

Também Savater invoca no seu texto este último movimento, destacando a sua teorização por Herbert Marcuse que, em ‘O Homem unidimensional’ (1964), apelidou de ‘Grande Recusa’ (‘great refusal’) a indispensável rejeição das sociedades industriais modernas que submetem os indivíduos ao sistema de produção e consumo através da repressão social e do positivismo progressista, e fazendo a ponte com a ‘Grande Demissão’ contemporânea. Escreve Savater: “A Grande Recusa é uma energia de contradição, um espírito que diz não à sociedade existente, em nome de uma libertação que não é abstrata, mas possível, autorizada e permitida pelo progresso da abundância material. A negação da repressão e da exploração, da pobreza e da miséria, do entretenimento padronizado e da beleza comercializada, é acompanhada pela afirmação da criatividade e do prazer, do jogo e da emancipação dos sentidos, da cooperação e da riqueza das faculdades do corpo humano. É um gesto político profundamente estético…” O autor defende que a ‘velha esquerda’ foi “incapaz de ler politicamente os fenómenos da sensibilidade, considerada como algo ‘burguês’”, entendendo a mudança como “uma questão meramente quantitativa: uma melhor distribuição da mesma produtividade, uma melhor distribuição dos mesmos bens.” Savater relembra que, para Marcuse, a sensibilidade não é um assunto privado, mas sim político, e afirma: “A transformação deve atingir as camadas profundas do ser humano, mesmo nas suas dimensões biológicas e orgânicas.” Savater defende que somente a libertação de Eros, entendida como “capacidade humana de estabelecer vínculos sensíveis com tudo: o mundo, os outros e consigo mesmo”, pode conter a “instrumentalização capitalista dos impulsos destrutivos – competitividade e agressividade, dominação e conquista – que ameaçavam ontem, como hoje, tomar o mundo de assalto.


Sobre a Grande Demissão contemporânea, Savater escreve: “Nesta sociedade que neutraliza qualquer acontecimento pela força da super-interpretação, a Grande Demissão mantém o seu mistério e, portanto, a sua provocação ao pensamento.” Invoca as reflexões de Bifo Berardi sobre o fenómeno: “Tudo começa para ele com o abandono maciço de empregos nos EUA (também na China e na Europa) após a normalização da pandemia. Por outras palavras, o tempo da pandemia, um tempo aparentemente suspenso onde nada acontecia, era na verdade o momento de uma repriorização geral de necessidades e desejos, ao final da qual muitos decidiram parar de sacrificar as suas vidas pelo trabalho (e não apenas por ‘trabalhos de merda’).” Savater caracteriza a Grande Demissão como fenómeno geral de deserção da política, da economia e dos média, que representam o actual tripé do statu quo: “deserção da visão política do mundo: o real entendido como poder e cálculo do poder, manipulação do público, intrigas palacianas, lógica de facções sem preocupação com o bem comum, militância militarizada - abandono por enfado [‘salida por hastío’]; deserção da visão económica do mundo: o real entendido como mercado, trabalho precário e ultraexplorado, pressão para realizar, cada um tornando-se empresário de si próprio, gerindo o seu capital simbólico de projetos, visibilidade e contactos - abandono por exaustão; deserção da visão mediática do mundo: o real como objeto de propaganda, captação de atenção em espetáculos pré-fabricados, distante da vida comum, evanescente; personagens-marca, polémicas-armadilha, notícias tendenciosas sobre questões sobre as quais não temos poder de decisão - afastamento por saturação.” Para Savater “a Grande Demissão surge, ao contrário da Grande Recusa, como um fenómeno sem utopia, pós-utópico. Não preconiza um outro mundo possível. Nem algum fora.” E prossegue: “Bifo interpreta isto como uma remoção do desejo: um apagão libidinal, uma quebra da vontade, uma certa apatia, mas também uma fuga dos lugares onde a energia desejante tem vindo a ser capturada: competitividade, consumo, sucesso, auto-realização. Antes, contra a repressão, libertação. Agora, contra a pressão, deserção. O cansaço surge como sintoma e limite da expansão, tendência sempre privilegiada pelo Ocidente, nas suas guerras, conquistas, aceleração progressiva e desejo de sempre-mais.” Mais uma vez, Savater destaca a perplexidade da esquerda convencional que interpreta a deserção como uma questão meramente quantitativa que se pode resolver com mais medidas progressistas (como aumentar salários), não podendo nem querendo vê-la como uma diferença qualitativa, ou seja, como algo impossível de entender e resolver dentro do pensamento estabelecido. Mas Savater realça ainda que: “Os movimentos sociais, além da política partidária convencional, também estão perplexos. A Grande Demissão não expressa um novo activismo, mas sim um des-activismo: um relaxamento e uma desaceleração da vida, que busca a sua reconciliação com outros tempos e outros ritmos, outros espaços e lugares, outras necessidades e desejos.” Para o vaticínio recorre a Berardi: “o que está a morrer lentamente é a própria política moderna; e também, é claro, as suas manifestações esquerdistas, um mero fantasma do que eram.” Mas clarifica que o fim da política moderna não implica o fim da ideia de transformação social, mas sim “o necessário abandono da sua principal faculdade: a vontade. A vontade que força os acontecimentos e os submete aos ditames da razão.” E conclui: “O que pode substituir a vontade como principal faculdade política? Tanto Marcuse quanto Bifo apontam no mesmo sentido: a sensibilidade. Uma qualidade essencialmente receptiva, que não busca dominar, forçar e conquistar o mundo, mas antes acolher, ouvir e ser afetado por ele. Não uma receptividade passiva, mas sim activa e criativa. (…) Marcuse disse que o desafio da Grande Recusa era deixar de ser uma força política para ser uma força revolucionária. O desafio da Grande Demissão pode ser passar da deserção individual a uma força política sem horizonte revolucionário. Não sem um desejo de transformação social, mas sem a ideia clássica de revolução: tomada do poder e controlo racional da realidade. Ainda assim, uma revolução involuntária.


Não podia ainda deixar de me referir ao decrescimento no âmbito do tema de deserção, já que a rejeição do produtivismo e da centralidade do trabalho, apanágio das sociedades industriais neoliberais, sempre fizeram parte das reivindicações críticas dos decrescentistas, que defendem, por sua vez, a desaceleração, a suficiência e a redução dos consumos insustentáveis e das horas de trabalho, como vias para reconstruir comunidades prósperas. Recorro a um artigo de Tom Smith para o site ‘degrowth.info’ (aqui) onde o autor caracteriza a ‘Grande Demissão’ como fenómeno global de descontentamento profundo e de sublevação social contra o trabalho tal-como-o-conhecíamos. O autor cita os exemplos da comunidade ‘r/Antiwork’ da plataforma online Reddit, que tem como slogan ‘Desemprego para todos, não apenas para os ricos’ e onde são publicados testemunhos sobre casos de exploração laboral e de deserção, bem como o do movimento ‘tang ping’ (literalmente, ficar deitado), que surgiu na China como reacção à pressão social para trabalhar longas horas (padrão ‘996’: das 9 da manhã às 9 da noite, 6 dias por semana). Este movimento preconiza um estilo de vida que inclui não casar, não ter filhos, não comprar uma casa ou um carro, e a recusa de trabalhar horas extraordinárias ou de ter sequer um emprego, e está a suscitar natural consternação nas autoridades chinesas que o acusam de derrotismo (ver p.ex. aqui ou aqui). Smith analisa no seu texto dois livros recentes cujas ideias-chave considera alinhadas com a crítica decrescentista: ‘Four Thousand Weeks – Time and How to Use It’ de Oliver Burkeman (2022) e ‘Breaking Things at Work, The Luddites Are Right About Why You Hate Your Job’ de Gavin Mueller (2021). O primeiro advoga uma nova relação com o tempo e a adopção de ritmos de vida e de trabalho mais consentâneos com o bem-estar individual e colectivo, enquanto o segundo desenvolve uma crítica marxista das sociedades capitalistas industriais e da tecnologia, reiterando a crítica do Ludismo e preconizando uma política de desaceleração da mudança capaz de minar o progresso tecnológico e limitar a avidez do capital, desenvolvendo ao mesmo um certo nível de organização e cultivando a militância.


Finalmente, retomo o nexo entre a exaustão e a deserção invocado por Savater para lembrar que Berardi tem também defendido que o produtivismo, o positivismo, a competição e a aceleração, promovidos pelo modelo socioeconómico dominante, estão a ter, para além dos reconhecidos impactos ambientais e sociais nefastos, efeitos psicológicos profundos em diversos países assolados por casos crescentes de depressão e de esgotamento (‘burnout’) – ver p.ex. a sua conferência recente no TBA (aqui) e também aqui ou aqui. Para lá dos casos do foro clínico, Berardi considera que os sintomas depressivos e de colapso psíquico resultam não só da pressão laboral e social, mas também de uma insatisfação profunda com o sistema – político, laboral, económico – incapaz de cumprir as suas promessas de bem-estar e de felicidade, além de um sentimento de desesperança em relação ao futuro. Tal como tem vindo a exaurir os recursos materiais do planeta, o capitalismo produtivista está a exaurir os recursos nervosos do corpo humano. Para Berardi, a deserção, embora sendo um fenómeno heterogéneo e não-organizado, é a manifestação de uma sensibilidade que está (ainda) viva e que explora as potencialidades da rejeição e da resistência ao sistema, recusando aceitar o que é impingido como necessário ou inevitável e lançando um convite a uma mudança colectiva de modos de vida.

Tenciono voltar aos temas do cansaço, da sensibilidade e dos ritmos e estilos de vida num próximo post, recorrendo às vozes/palavras de autores como Byung-Chul Han, Isabelle Stengers ou Bertrand Russell.


Finalizo com uma nota autobiográfica. Há 9 anos atrás interrompi definitivamente a minha actividade profissional como docente universitário (ver a minha carta de demissão). Na altura não interpretei a minha decisão como um acto de deserção mas, retrospectivamente, verifico que reúne muitas das características do fenómeno global que tentei descrever neste post.

Deixo para encerrar duas citações do texto de Gaspard d’Allens:

À medida que o mundo vacila, oferecem-se-nos escolhas decisivas. Elas ressoam como pequenas vozes interiores. É hora de vivermos a nossa própria vida, parar de nos renegarmos, sair da dissonância. «É preciso encontrar forças para dizer não», escreveu Albert Camus em ‘L’homme révolté’.

«O sistema liga-nos e prende-nos. Devemos quebrar os cadeados que nos aprisionam para não limitar a deserção a uma elite que teria os meios», defende o filósofo jardineiro Aurélien Berlan. Devemos reflectir coletivamente sobre os meios de subsistência, rearticular o nosso status entre projectos pontuais, uma profissão mais ética ou o minimalismo social. «Há toda uma imaginação e uma educação a ser desconstruída», avança o ex-engenheiro Olivier Lefebvre. «Devemos romper com o medo do rebaixamento social, desconstruir o mito da carreira. Também é preciso mostrar a existência de um outro mundo, a possibilidade de um fora.»

P.S. Posso adiantar que uma tradução portuguesa do artigo completo de Gaspard d’Allens será publicada no próximo número da revista Flauta de Luz.