 |
| © Juliette de Montvallon / Reporterre |
Nota prévia:
este é um post longo que requererá
tempo para ser desfrutado em pleno; a sua extensão resulta do processo de
investigação e de digestão que lhe dediquei; trata-se assim de um convite à
demora, em linha com a rejeição da voragem consumista, apanágio da sociedade
industrial produtivista que é rejeitada pelos movimentos de deserção que aqui
tentei descrever.
“A deserção é o sinal dos nossos tempos, o
derradeiro gesto de resistência numa época onde reina a devastação e onde a
violência policial se abate sobre os movimentos sociais. A deserção é uma ética
individual, uma nova forma de objecção de consciência.” Gaspard d’Allens
“A recusa de singrar [‘refus de
parvenir’] faz provavelmente hoje parte
da longa linha de acção directa e de não-cooperação com o sistema.” Corinne
Morel Darleux
“Não suporto os falsos deuses do Ocidente,
sempre à espreita como aranhas, que comem os nossos fígados, sugam a nossa
medula. E faço um protesto contra o mundo moderno, é ele o Monstro. Destrói a
nossa terra, espezinha as almas dos homens.” Bernard Moitessier (navegador
solitário, autor do livro ‘La Longue Route’)
“On arrête tout,
on réfléchit et ce n’est pas triste” Slogan do filme ‘L’An 01’ (1970)
“Unemployment
for all, not just the rich” Slogan da comunidade r/Antiwork do Reddit
Este post foi inspirado por uma investigação
de fundo do jornalista francês Gaspard
d’Allens para a publicação online
sobre temas ambientais Reporterre, intitulada “La grande démission” e da
qual irei transcrever vários trechos (que traduzi para português) – é possível
ler cada uma das três partes do artigo original em francês, publicado em Julho
de 2022, aqui,
aqui
e aqui (ver P.S. no final do post). O tema da deserção como insubmissão,
objecção de consciência ou recusa de status (e do statu quo), tinha sido aflorado no meu primeiro
post do ano onde citei os textos
de d’Allens. Noutros dois posts (aqui
e aqui)
destaquei a relevância das acções de resistência e de não-colaboração, nas
quais incluo também a deserção. Já este ano, o mesmo tema foi retomado pelo
investigador independente espanhol Amador
Fernández-Savater (autor do site
filosofiapirata.net) num artigo para a publicação semanal CTXT (aqui),
onde estabelece paralelos entre a ‘Grande Recusa’ dos anos 60 e a ‘Grande
Demissão’ contemporânea que apelida de ‘revolução involuntária’, e ainda pelo
filósofo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi
(citado por Savater), na sua passagem recente por Lisboa onde fez algumas
intervenções públicas, nomeadamente no Teatro do Bairro Alto, tendo ligado a
deserção com outro fenómeno das sociedades ‘desenvolvidas’: a depressão/exaustão
(ver aqui).

O texto
de d’Allens ancora-se no apelo à deserção lançado em Maio de 2022 por um grupo de jovens agrónomos recém-licenciados
pela escola de engenharia AgroParisTech (autodenominados ‘Des agros qui bifurquent’) durante a cerimónia de entrega de diplomas (ao qual me referi num post anterior). O vídeo da leitura do seu manifesto
(com milhões de visualizações), onde apelam à recusa de “perpetuar o sistema” não
aceitando “empregos destrutivos”, revelou, segundo d’Allens, um movimento fundamental que desafia
diretamente os modelos de sucesso social e representa uma rotura na ordem
estabelecida. Sintomaticamente, uma campanha de difamação foi lançada pelos
círculos empresariais e pelos principais meios de comunicação em França, que
reagiram com uma onda de críticas e insultos para culpar a “cobardia” e as
incoerências dos jovens, alegando que desertar seria sinónimo de rendição,
abandono ou passividade, uma “admissão de fracasso”, “uma forma de desistência”
(d’Allens dá vários exemplos dessas críticas na 2ª parte do seu artigo). Já em
2018, estudantes da ‘École polytechnique’ tinham divulgado um manifesto que
apelava a um “despertar ecológico” (vídeo
e site do projecto) mas
que não teve igual projeção mediática. Em 2021, Arthur Gosset, ex-estudante de
engenharia, realizou o documentário ‘Ruptures’
onde relata os processos de rotura de seis colegas seus que recusaram seguir
carreira, escolhendo um caminho que consideram mais compatível com os actuais
desafios ambientais e societais (ver também esta entrevista a Gosset). D’Allens defende
que as iniciativas dos jovens universitários não são eventos isolados e se
integram numa tendência mais generalizada que tem surgido em diversos países e que
envolve pessoas que abandonam as suas carreiras em diferentes fases do seu
percurso profissional. O autor dá como exemplos os fenómenos que foram
designados por ‘great resignation’
(trabalhadores de diversos sectores profissionais que recusaram retomar os seus
empregos após a “normalização” pós-pandemia) e por ‘quiet quitting’ (trabalhadores que recusam jornadas de trabalho
longas, intensas e mal remuneradas, enquadradas por contratos de curtíssima
duração, e que não deixam espaço para mais nada, abandonando eventualmente os
seus empregos precários) nos países anglófonos (EUA e RU), mas que se estenderam já a
outros países, incluindo a França ou Portugal (ver p.ex. aqui
e aqui).
D’Allens escreve: “Por todo o lado, jovens
e menos jovens questionam o trabalho, a sua finalidade e o seu significado.
Alguns, inclusive, recusam-no, para inventar, noutro lugar, uma vida que eles e
elas consideram mais rica. Poucos meses depois dos confinamentos, que
paralisaram diversos sectores da actividade económica, parte da população ainda
hesita em voltar à labuta, terminar os estudos ou regressar às fábricas ou
negócios. Nos Estados Unidos, os sociólogos batizaram este fenómeno como ‘Great
Resignation’ ou ‘Big Quit’: “a grande demissão”. Em 2021, mais de 38
milhões de americanos deixaram os seus empregos. 40% ainda não retomaram o
trabalho. Um tsunami que atinge todas as idades, todas as profissões. E que
inverte o equilíbrio de poder entre empregados e empresas. (…) Também em França o êxodo começou. Centenas
de milhares de cargos não são preenchidos, por falta de candidatos, na
hotelaria ou na restauração, enquanto nas ‘grandes écoles’, entre as classes
médias altas, a renúncia está em gestação. Além dos discursos estrondosos na
imprensa, uma revolta mais silenciosa está a propagar-se. Em todas as áreas e
categorias profissionais, e mesmo onde menos se espera, em empresas de
combustíveis fósseis ou na alta administração pública. A dúvida espalha-se. A
crise ecológica veio contrariar os sonhos de outrora movidos a petróleo. Quanto
vale uma progressão diante da ameaça climática? Porquê lutar por uma posição
quando todo o sistema vacila? Qual é o sentido de se instruir quando tudo se
desmorona?”

D’Allens considera
que o fenómeno está a provocar alguma consternação entre os defensores do
sistema socioeconómico hegemónico (neoliberal) e a pôr em causa as suas
fundações (como o demonstram aliás as reacções referidas acima), em particular
a centralidade do trabalho, mostrando através de diversas citações que não está
sozinho nas suas conjecturas. Transcrevo mais alguns excertos do seu texto: “Para além dos dados estatísticos sobre as
demissões em França [ver p.ex. aqui],
houve uma bolha mediática que rebentou. «O
eco que os apelos à deserção podem ter tido diz muito sobre as questões que
agitam a sociedade», sublinha a socióloga Geneviève Pruvost. «Hoje, a deserção
chega a atingir profissões essenciais ao funcionamento do modelo capitalista.
Isso compromete a sustentabilidade do sistema», acrescenta. «Se uma centena de
engenheiros ou pesquisadores da região de Toulouse decidisse parar de fazer
algoritmos e robôs, faria desmoronar tudo», confirma Olivier Lefebvre. Este
homem de 40 anos deixou o seu emprego. Ele trabalhava numa ‘start-up’ de carros
autónomos antes de se demitir. (…) «O
nosso discurso sobre a renúncia ao trabalho é muito mais audível hoje», nota Romain
Boucher. Este ex-cientista de dados formado pela Escola de Minas deixou o
emprego em 2018. No seu escritório próximo aos Champs-Élysées, os protestos dos
Coletes Amarelos foram a ‘onda sísmica’ que o levou a romper com aquele mundo. Desde
então, ele criou a associação ‘Vous n’êtes pas seuls’ para encorajar os seus ex-colegas a demitirem-se. «Ao
subverter a pequena burguesia empresarial e educada, pretendemos deter a
correia de transmissão que ela representa. Queremos corroer essa classe social
que sustém o sistema», afirma. (…) A
deserção abala os fundamentos ideológicos da economia, destrói a adesão a esses
fundamentos e faz estalar o seu verniz tingido de verde. A escritora Corinne
Morel Darleux vê nela «uma forma de sabotagem simbólica». «A recusa de singrar [‘refus
de parvenir’; ver adiante] provavelmente
faz hoje parte da longa linha de ação direta e de não-cooperação com o sistema»,
escreve no seu ensaio ‘Prefiro afundar em beleza do que flutuar sem
graciosidade’ [Plutôt couler en beauté que flotter sans grâce]. «A deserção é uma arma formidável que liberta o futuro.»” Também em
Portugal o fenómeno está a ter algum impacto e o mundo empresarial já está a
sentir necessidade de desenhar estratégias para “reter e fidelizar o talento” –
ver p.ex. aqui.
 |
| © Juliette de Montvallon / Reporterre |
Na 2ª parte
do seu texto, d’Allens responde às críticas que atribuem ao fenómeno da deserção
uma conotação negativa, quer como acto de desistência ou resignação (na língua
inglesa a palavra ‘resignation’ tem uma dupla acepção: como demissão ou como
resignação), quer como prerrogativa de uma pequena elite de privilegiados ou
burgueses. O autor defende que se trata, pelo contrário, do germinar de uma
contra-sociedade. E recorre mais uma vez a múltiplas vozes: “A aceitação social em que se baseia o
sistema económico está a desmoronar-se. Apesar das promessas de renovação, com
a utopia cibernética ou a fantasia de Silicon Valley, o capitalismo vive
atualmente “uma fase de desencanto radical”. «As pessoas já não encontram
sentido, nem se revêem nele. Ainda não é uma revolta completa, mas é uma
desfiliação profunda», diz a jornalista e autora Celia Izoard [autora de ‘Merci de changer de métier: lettres aux humains qui robotisent le monde’]. A deserção é um assunto antigo, ao qual o
sistema em vigor foi obrigado a responder. (…) é o sinal dos nossos tempos, o derradeiro gesto de resistência numa
época onde reina a devastação e onde a violência policial se abate sobre os
movimentos sociais. A deserção é uma ética individual, uma nova forma de
objeção de consciência. «Hoje em dia trata-se de parar de prejudicar. Isso
passa por deixar de cooperar com o sistema», afirma Corinne Morel Darleux no
seu ensaio [supracitado]. «Devemos
recuperar a nossa capacidade de fazer escolhas autónomas, de reinvestir a nossa
soberania como indivíduos. É o primeiro passo de uma emancipação coletiva em
relação às normas que nos são impostas pela sociedade». Os desertores evadem-se
como recrutas fugindo do exército. «A deserção não é tanto uma derrota, mas uma
forma de nos livrarmos do elemento gregário em nós», escreve o escritor Dénetem
Touam Bona, em ‘La Sagesse des lianes’. Diante da miséria do mundo, não buscamos construir
oásis ou nichos abrigados da fúria, mas sim reposicionar-nos para melhor lutar
contra a megamáquina e escapar das suas garras. «Fugir, mas ao fugir, procurar
uma arma», escreveu o filósofo Gilles Deleuze. Esta deserção nada tem a ver com
passividade. Para o colectivo ‘désert’heureuses’
[felizes desertoras] – um grupo de
engenheiras dissidentes – não se trata de abandonar o campo de batalha, mas sim
de mudar de lado. A fuga já não se impõe como simples deserção, mas como uma
nova estratégia de luta. «A deserção é um treino mental para ficar o mais longe
possível do sistema, longe o suficiente para poder observá-lo de diferentes
ângulos e, assim, poder atacá-lo melhor», escrevem num panfleto. Johanna, membro
daquele coletivo, afirma: «Hoje, é a guerra contra o mundo vivo que nos
recusamos a travar. A produção industrial na qual somos chamadas a participar
como engenheiras é indissociavelmente civil e militar. É um mundo estruturado
pela guerra e pelo comércio, que destrói ecossistemas e desestabiliza o clima.»”
D’Allens defende
ainda que a contestação e recusa do statu
quo nem sempre é possível quando se está dentro do sistema e que a deserção
pode ser uma estratégia mais adequada para o combater a partir do exterior: “Nos testemunhos recolhidos para o
Reporterre, muitos ex-assalariados recusam agora ‘a política do entrismo’: «Desde
a infância, dizem-nos que temos de mudar as coisas por dentro, que temos de
assumir a direção e o poder de transformar o mundo, de sermos um bom aluno,
responsável e paciente», diz o engenheiro demissionário Olivier Lefebvre. «Mas,
na realidade, mentimos a nós próprios. Estamos a desperdiçar tempo e a desgastarmo-nos.
Somos confrontados com bloqueios estruturais e, afinal de contas, perdemo-nos.
Contamos histórias para justificar o nosso modo de vida confortável.» Uma acção
também pode ser eficaz no exterior. É nas margens que se desenvolvem as
promessas do futuro. Várias alternativas mostram isso mesmo, como a ZAD de
Notre-Dame-des-Landes.” D’Allens invoca ainda um dos pioneiros da ecologia,
Bernard Charbonneau, que afirmava já na década de 1930 que “só lutamos contra uma sociedade a partir do
exterior”. “Enquanto houver governos
bem organizados, os ministros da polícia farão bem em desconfiar dos jovens que
partem sozinhos para perambular pelas estradas esburacadas. O seu amor genuíno
pela natureza é um sentimento revolucionário”, escreveu ele em ‘Nous sommes
des révolutionnaires malgré nous’. O próprio Bernard Charbonneau decidira
estabelecer-se como um simples professor na região dos Pirenéus, em vez de
seguir uma carreira académica.
 |
| © Juliette de Montvallon / Reporterre |
Na 3ªparte do artigo, d’Allens reforça a sua tese sobre a relevância do
movimento contemporâneo de deserção, traçando uma linha de continuidade com
lutas históricas, que vão desde as revoltas e lutas de libertação dos escravos
e dos povos indígenas do séc. XVIII, às reivindicações dos movimentos
libertários (anarquistas) do final do séc. XIX e início do séc. XX, assim como às dos
movimentos estudantis de emancipação dos anos 60. Nas palavras de d’Allens: “A fuga das garras do sistema sempre fez
parte do repertório de acção das classes populares. Hoje, essas histórias são
tanto uma fonte de inspiração quanto um farol para o movimento de deserção:
elas ancoram a ecologia política numa filiação revolucionária e reacendem a
chama da revolta social. «A deserção» não é apenas um discurso de executivos refratários,
engenheiros demissionários ou jovens estudantes em busca de sentido,
anteriormente bem inseridos na sociedade. Antes que a ideia da «recusa de singrar»
[‘refus de parvenir’] fosse retomada
pelos ecologistas para marcar a crescente contestação dessas elites, a deserção
era uma atitude da classe trabalhadora ao recusar-se a pactuar com o inimigo -
o patrão, o burguês, o capataz.”
A
expressão ‘refus de parvenir’
foi cunhada há mais de um século pelo intelectual libertário Albert Thierry no
seu ‘Ensaio sobre a moral revolucionária’ (1916), onde a descreve como uma
exigência ética: “Consiste em recusar-se
a viver e a agir para si e para fins próprios”. D’Allens acrescenta: “Isso não era, no entanto, uma aceitação da
miséria, mas sim uma rejeição das honras e privilégios individuais. Era também
uma forma de lucidez, enquanto as elites burguesas, sob a Terceira República,
buscavam captar os elementos mais brilhantes da população trabalhadora para pô-los
ao seu serviço.” A recusa de singrar, que terá ecos na ‘Grande Recusa’ dos
anos 60 e ressurge agora nas palavras e actos dos desertores contemporâneos,
assim como em diversas publicações académicas (ver aqui ou aqui),
rejeita a ascensão ou promoção social pela busca de interesse pessoal numa
perspectiva de carreira, poder ou prestígio, em favor de ideais de emancipação
colectiva e solidariedade, já que a emancipação individual só se pode atingir numa
sociedade emancipada.

D’Allens
invoca também o trabalho dos filósofos Malcom Ferdinand e Dénetem Touam Bona
que permitiram redescobrir outras genealogias do movimento de deserção: “actores do passado, esquecidos, que, através
da sua resistência, nas profundezas da floresta, souberam lutar tanto contra o
servilismo como por uma outra concepção de mundo que se opõe, ponto por ponto,
aos valores do sistema capitalista (propriedade privada, busca do lucro, etc.).
Durante séculos, no Caribe e na América, muitos escravos fugiram das
plantações, essas vastas monoculturas desenvolvidas pelos colonos sobre antigas
florestas. (…) eles reconstruíram
sociedades inteiras, com as suas canções, os seus ritos, a sua cultura, a sua
autonomia. «O ‘marronnage’
foi uma prática de resistência ecológica», afirma Malcolm Ferdinand no seu
livro ‘Une écologie décolonial’ [tradução PT-BR aqui]. Algumas comunidades ultrapassavam dezenas de
milhares de indivíduos com várias aldeias e cidadelas, praticavam caça, coleta
e formas de agroecologia. Essas micro-sociedades por vezes até forçavam os
colonos a negociar tratados de paz… (…) Os
‘negros quilombolas’ (‘nègres marrons’) cultivavam a ‘arte da fuga’. Para usar
a bela expressão de Dénétem Touam Bona, «eles assumiam a sombra estriada da
folhagem», eles eram unos com o seu território, habitavam-no plenamente. Uma
comunidade de destino foi fundada entre os quilombolas, a terra e a natureza.
Quanto mais densa a floresta, mais eles poderiam se esconder e criar a sua
sociedade amotinada. (…) Ainda hoje
subsistem vestígios dessas resistências. (…) Por exemplo, os Saramaka, uma sociedade quilombola criada no século
XVIII entre o Suriname e a Guiana, continuam a lutar contra a desflorestação.
Dois dos seus representantes ganharam mesmo o prémio ambiental Goldman em 2009.
«Assim como a figura dos quilombolas, eles têm sido reconhecidos
internacionalmente como notáveis ambientalistas», afirma Malcom Ferdinand.”
Quanto aos
movimentos de contestação da década de 1960, d’Allens escreve: “Dezenas de milhares de jovens fugiram na
época e deixaram os cargos para os quais estavam destinados. Criticavam a
sociedade de consumo e a alienação comercial. Alguns ativistas decidiram até instalar-se
nas fábricas para provocar a ira social. Outros estabeleceram-se em áreas
rurais para criar comunidades. No ambiente universitário, o grupo ‘Survivre et
vivre’ e o matemático Alexandre Grothendieck também levaram jovens investigadores
à deserção.” Destaca a cooperativa Longo Mai (fundada nos anos 1970 em França mas que se replicou noutros
países europeus e na Costa Rica, perdurando até ao presente – ver p.ex. aqui)
como exemplo de comunidade autónoma: “O
objetivo era fundar uma nova sociedade, permanecendo ofensiva e revolucionária.
Mas os seus membros não queriam, ao contrário da RAF [Facção do Exército
Vermelho/Grupo Baader-Meinhof] ou das
Brigadas Vermelhas em Itália, engajar-se na luta armada contra o Estado. Era
uma posição estratégica para não ser esmagada e manter-se ao longo do tempo.
(…) Essas experiências alimentam as deserções
de hoje. Muitos desertores redescobrem-nas por meio de leituras e encontros e
entendem que são os herdeiros de uma longa epopeia subversiva. «É um exercício
de humildade ver o que nossos antecessores fizeram. Os riscos que correram e o
seu sacrifício.», diz o engenheiro demissionário Olivier Lefebvre.”

Também
Savater invoca no seu texto este último movimento, destacando a sua teorização por Herbert
Marcuse que, em ‘O Homem unidimensional’ (1964), apelidou de ‘Grande Recusa’ (‘great refusal’) a indispensável
rejeição das sociedades industriais modernas que submetem os indivíduos ao
sistema de produção e consumo através da repressão social e do positivismo
progressista, e fazendo a ponte com a ‘Grande Demissão’ contemporânea. Escreve
Savater: “A Grande Recusa é uma energia
de contradição, um espírito que diz não à sociedade existente, em nome de uma
libertação que não é abstrata, mas possível, autorizada e permitida pelo
progresso da abundância material. A negação da repressão e da exploração, da
pobreza e da miséria, do entretenimento padronizado e da beleza comercializada,
é acompanhada pela afirmação da criatividade e do prazer, do jogo e da
emancipação dos sentidos, da cooperação e da riqueza das faculdades do corpo
humano. É um gesto político profundamente estético…” O autor defende que a
‘velha esquerda’ foi “incapaz de ler
politicamente os fenómenos da sensibilidade, considerada como algo ‘burguês’”,
entendendo a mudança como “uma questão
meramente quantitativa: uma melhor distribuição da mesma produtividade, uma
melhor distribuição dos mesmos bens.” Savater relembra que, para Marcuse, a
sensibilidade não é um assunto privado, mas sim político, e afirma: “A transformação deve atingir as camadas
profundas do ser humano, mesmo nas suas dimensões biológicas e orgânicas.”
Savater defende que somente a libertação de Eros, entendida como “capacidade humana de estabelecer vínculos
sensíveis com tudo: o mundo, os outros e consigo mesmo”, pode conter a “instrumentalização capitalista dos impulsos
destrutivos – competitividade e agressividade, dominação e conquista – que
ameaçavam ontem, como hoje, tomar o mundo de assalto.”

Sobre a Grande Demissão contemporânea, Savater
escreve: “Nesta sociedade que neutraliza
qualquer acontecimento pela força da super-interpretação, a Grande Demissão
mantém o seu mistério e, portanto, a sua provocação ao pensamento.” Invoca
as reflexões de Bifo Berardi sobre o fenómeno: “Tudo
começa para ele com o abandono maciço de empregos nos EUA (também na China e na
Europa) após a normalização da pandemia. Por outras palavras, o tempo da
pandemia, um tempo aparentemente suspenso onde nada acontecia, era na verdade o
momento de uma repriorização geral de necessidades e desejos, ao final da qual
muitos decidiram parar de sacrificar as suas vidas pelo trabalho (e não apenas por
‘trabalhos de merda’).” Savater caracteriza a Grande Demissão como fenómeno
geral de deserção da política, da economia e dos média, que representam o actual
tripé do statu quo: “deserção da visão política do mundo: o real entendido como poder e
cálculo do poder, manipulação do público, intrigas palacianas, lógica de
facções sem preocupação com o bem comum, militância militarizada - abandono
por enfado [‘salida por hastío’]; deserção da visão económica do mundo: o real entendido como mercado,
trabalho precário e ultraexplorado, pressão para realizar, cada um tornando-se
empresário de si próprio, gerindo o seu capital simbólico de projetos,
visibilidade e contactos - abandono por exaustão; deserção da visão mediática
do mundo: o real como objeto de propaganda, captação de atenção em espetáculos
pré-fabricados, distante da vida comum, evanescente; personagens-marca, polémicas-armadilha,
notícias tendenciosas sobre questões sobre as quais não temos poder de decisão
- afastamento por saturação.” Para
Savater “a Grande Demissão surge, ao
contrário da Grande Recusa, como um fenómeno sem utopia, pós-utópico. Não preconiza um outro mundo possível. Nem algum fora.” E prossegue: “Bifo
interpreta isto como uma remoção do desejo: um apagão libidinal, uma quebra da vontade, uma certa apatia, mas
também uma fuga dos lugares onde a energia desejante tem vindo a ser capturada:
competitividade, consumo, sucesso, auto-realização. Antes, contra a repressão,
libertação. Agora, contra a pressão, deserção. O cansaço surge como sintoma e
limite da expansão, tendência sempre
privilegiada pelo Ocidente, nas suas guerras, conquistas, aceleração
progressiva e desejo de sempre-mais.” Mais uma vez, Savater destaca a
perplexidade da esquerda convencional que interpreta a deserção como uma
questão meramente quantitativa que se pode resolver com mais medidas
progressistas (como aumentar salários), não podendo nem querendo vê-la como uma
diferença qualitativa, ou seja, como algo impossível de entender e resolver dentro
do pensamento estabelecido. Mas Savater realça ainda que: “Os movimentos sociais, além da política partidária convencional, também
estão perplexos. A Grande Demissão não expressa um novo activismo, mas sim um des-activismo: um relaxamento e uma desaceleração da
vida, que busca a sua reconciliação com outros tempos e outros ritmos, outros
espaços e lugares, outras necessidades e desejos.” Para o vaticínio recorre
a Berardi: “o que está a morrer
lentamente é a própria política moderna; e também, é claro, as suas
manifestações esquerdistas, um mero fantasma do que eram.” Mas clarifica
que o fim da política moderna não implica o fim da ideia de transformação
social, mas sim “o necessário abandono da
sua principal faculdade: a vontade. A
vontade que força os acontecimentos e os submete aos ditames da razão.” E
conclui: “O que pode substituir a vontade
como principal faculdade política? Tanto Marcuse quanto Bifo apontam no mesmo
sentido: a sensibilidade. Uma qualidade essencialmente receptiva,
que não busca dominar, forçar e conquistar o mundo, mas antes acolher, ouvir e
ser afetado por ele. Não uma receptividade passiva, mas sim activa e criativa. (…)
Marcuse disse que o desafio da Grande Recusa
era deixar de ser uma força política para ser uma força revolucionária. O
desafio da Grande Demissão pode ser passar da deserção individual a uma força
política sem horizonte revolucionário.
Não sem um desejo de transformação social, mas sem a ideia clássica de revolução: tomada do poder e controlo racional da
realidade. Ainda assim, uma revolução involuntária.”

Não podia ainda deixar
de me referir ao decrescimento no
âmbito do tema de deserção, já que a rejeição do produtivismo e da centralidade
do trabalho, apanágio das sociedades industriais neoliberais, sempre fizeram
parte das reivindicações críticas dos decrescentistas, que defendem, por sua
vez, a desaceleração, a suficiência e a redução dos consumos insustentáveis e
das horas de trabalho, como vias para reconstruir comunidades prósperas.
Recorro a um artigo de Tom Smith
para o site ‘degrowth.info’ (aqui)
onde o autor caracteriza a ‘Grande Demissão’ como fenómeno global de
descontentamento profundo e de sublevação social contra o trabalho
tal-como-o-conhecíamos. O autor cita os exemplos da comunidade ‘r/Antiwork’ da
plataforma online Reddit, que tem
como slogan ‘Desemprego para todos, não apenas para os ricos’ e onde são
publicados testemunhos sobre casos de exploração laboral e de deserção, bem
como o do movimento ‘tang ping’ (literalmente, ficar deitado), que surgiu na China como reacção à pressão social
para trabalhar longas horas (padrão ‘996’: das 9 da manhã às 9 da noite, 6 dias
por semana). Este movimento preconiza um estilo de vida que inclui não casar, não ter
filhos, não comprar uma casa ou um carro, e a recusa de trabalhar horas
extraordinárias ou de ter sequer um emprego, e está a suscitar natural
consternação nas autoridades chinesas que o acusam de derrotismo (ver
p.ex. aqui
ou aqui).
Smith analisa no seu texto dois livros recentes cujas ideias-chave considera
alinhadas com a crítica decrescentista: ‘Four Thousand Weeks – Time and How to Use
It’ de Oliver Burkeman (2022)
e ‘Breaking Things at Work, The Luddites Are
Right About Why You Hate Your Job’
de Gavin Mueller (2021). O primeiro advoga uma nova relação com o tempo e a
adopção de ritmos de vida e de trabalho mais consentâneos com o bem-estar individual
e colectivo, enquanto o segundo desenvolve uma crítica marxista das sociedades
capitalistas industriais e da tecnologia, reiterando a crítica do Ludismo e preconizando
uma política de desaceleração da mudança capaz de minar o progresso tecnológico
e limitar a avidez do capital, desenvolvendo ao mesmo um certo nível de organização
e cultivando a militância.

Finalmente, retomo
o nexo entre a exaustão e a deserção
invocado por Savater para lembrar que Berardi tem também defendido que o
produtivismo, o positivismo, a competição e a aceleração, promovidos pelo
modelo socioeconómico dominante, estão a ter, para além dos reconhecidos
impactos ambientais e sociais nefastos, efeitos psicológicos profundos em
diversos países assolados por casos crescentes de depressão e de esgotamento
(‘burnout’) – ver p.ex. a sua conferência recente no TBA (aqui) e também aqui
ou aqui.
Para lá dos casos do foro clínico, Berardi considera que os sintomas
depressivos e de colapso psíquico resultam não só da pressão laboral e social,
mas também de uma insatisfação profunda com o sistema – político, laboral,
económico – incapaz de cumprir as suas promessas de bem-estar e de felicidade,
além de um sentimento de desesperança em relação ao futuro. Tal como tem vindo
a exaurir os recursos materiais do planeta, o capitalismo produtivista está a exaurir os
recursos nervosos do corpo humano. Para Berardi, a deserção, embora sendo um
fenómeno heterogéneo e não-organizado, é a manifestação de uma sensibilidade
que está (ainda) viva e que explora as potencialidades da rejeição e da
resistência ao sistema, recusando aceitar o que é impingido como necessário ou
inevitável e lançando um convite a uma mudança colectiva de modos de vida.
Tenciono voltar aos
temas do cansaço, da sensibilidade e dos ritmos e estilos de vida num próximo post, recorrendo às vozes/palavras de
autores como Byung-Chul Han, Isabelle Stengers ou Bertrand Russell.
Finalizo com uma nota autobiográfica. Há 9 anos atrás interrompi
definitivamente a minha actividade profissional como docente universitário (ver
a minha carta de demissão). Na altura não interpretei a minha decisão como um acto de
deserção mas, retrospectivamente, verifico que reúne muitas das características
do fenómeno global que tentei descrever neste post.
Deixo para encerrar
duas citações do texto de Gaspard d’Allens:
“À medida que o mundo vacila, oferecem-se-nos
escolhas decisivas. Elas ressoam como pequenas vozes interiores. É hora de
vivermos a nossa própria vida, parar de nos renegarmos, sair da dissonância. «É
preciso encontrar forças para dizer não», escreveu Albert Camus em ‘L’homme
révolté’.”
“«O sistema liga-nos e prende-nos. Devemos
quebrar os cadeados que nos aprisionam para não limitar a deserção a uma elite
que teria os meios», defende o filósofo jardineiro Aurélien Berlan. Devemos reflectir
coletivamente sobre os meios de subsistência, rearticular o nosso status entre projectos
pontuais, uma profissão mais ética ou o minimalismo social. «Há toda uma
imaginação e uma educação a ser desconstruída», avança o ex-engenheiro Olivier
Lefebvre. «Devemos romper com o medo do rebaixamento social, desconstruir o
mito da carreira. Também é preciso mostrar a existência de um outro mundo, a
possibilidade de um fora.»”
P.S. Posso adiantar
que uma tradução portuguesa do artigo completo de Gaspard d’Allens será
publicada no próximo número da revista Flauta de Luz.