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domingo, 30 de julho de 2023

O nosso pacto faustiano com o fogo - bem vindos ao Piroceno!

O nosso pacto [com o fogo] reformulou as características de combustão da Terra. Juntos transformámos o que poderia ter sido mais uma época interglacial numa era do fogo. O Pleistoceno cedeu lugar ao Piroceno.” Stephen Pyne

O fogo trouxe-nos poder. Temos estômago pequeno e cabeça grande porque aprendemos a cozinhar a comida. Subimos ao topo da cadeia alimentar porque aprendemos a ‘cozinhar’ paisagens. Agora tornámo-nos uma força geológica porque começámos a ‘cozinhar’ o planeta.” Stephen Pyne

Podemos sobreviver sem uma ciência do fogo, mas não podemos viver sem uma cultura do fogo – uma cultura que garanta o lugar adequado do fogo na paisagem.” Stephen Pyne

O tema não é novo neste blog. Já o tinha abordado aquando dos incêndios florestais do ano passado em Portugal (aqui) ou daqueles que assolaram a Austrália no final de 2019 (aqui). Este ano, a ‘época de incêndios’ ainda não fez grandes estragos por cá, mas noutras partes do mundo o cenário é bem diferente e verdadeiramente catastrófico; em particular no Canadá, onde vastas extensões de floresta (boreal e taiga) têm sido consumidas por centenas de intensos fogos simultâneos que ardem ininterruptamente desde Maio – ver p.ex. aqui. Os impactos da calamidade são impressionantes: mais de 10 milhões de hectares de floresta ardidos nos primeiros seis meses de 2023, valor que ultrapassa já os das maiores áreas de sempre ardidas anualmente no Canadá (ca. 7 milhões de hectares em 1989 ou em 1995) – ver aqui ou aqui; as emissões de carbono (ou de CO2 equivalente) resultantes dos incêndios já excedem a média das emissões anuais do país, incluindo as resultantes da queima de combustíveis fósseis (ver aqui ou aqui); o fumo destes fogos cobriu já por duas vezes diversos estados do sudeste e do norte dos EUA, gerando péssimos níveis de qualidade de ar que obrigaram as autoridades americanas a emitir alertas (ver aqui ou aqui), e atravessou mesmo o Atlântico, atingindo diversos países europeus, incluindo Portugal em Junho (ver aqui); foram já relatados alguns impactos na biodiversidade animal (ver aqui ou aqui), mas a sua real dimensão estará ainda por avaliar.



Nos posts que mencionei no início, referi-me ao termo Piroceno cunhado pelo autor norte-americano e historiador do fogo Stephen J. Pyne (ver aqui), o qual procuro aqui desenvolver. De forma abreviada, o conceito, abordado inicialmente no seu livro “Fire – a brief history” de 2019, refere-se a uma Idade do Fogo que estaríamos a atravessar e que, segundo Pyne, é de escala comparável à Idade do Gelo do Pleistoceno. A sua premissa central é de que a espécie humana fez uma aliança primordial com o fogo que nos deu “estômagos pequenos e cabeças grandes” e nos levou ao topo da cadeia alimentar, mas que agora ameaça desequilibrar o planeta. Saber se essa aliança é um pacto de assistência mútua ou um pacto faustiano, é para Pyne a questão do nosso tempo. O autor subscreve a outra designação atribuída à actual era geológica marcada pelas actividades humanas – o Antropoceno – mas acrescenta-lhe a dimensão ígnea – ou talvez antes, ‘pirotécnica’! Como escreve Viriato Soromenho Marques num artigo de opinião a propósito da vinda de Pyne ao Porto em Maio deste ano para participar numa conferência internacional sobre incêndios florestais, onde apresentou a tradução portuguesa do seu livro de 2022 “The Pyrocene -How We Created an Age of Fire, and What Happens Next”, o autor “propõe uma leitura do Antropoceno a partir da radical mudança das nossas relações essenciais com o fogo, que, desde a pré-história foram determinantes na própria definição da identidade humana, seja físico-anatómica, seja cultural. Em segundo lugar, o Piroceno, a Idade do Fogo que hoje vivemos, resultou de uma enorme e veloz metamorfose. A partir do momento em que, com a Revolução industrial, começámos a recorrer maciçamente aos combustíveis fósseis…


A escolha do termo Piroceno para designar a actual era antropogénica é justificada por Pyne com base na análise de três etapas principais da história do fogo no planeta. O autor descreve um primeiro tipo de fogo (‘fogo natural’) que surgiu na Terra com o enriquecimento da atmosfera em oxigénio e a expansão das plantas terrestres durante o período Carbonífero (muito antes do surgimento da espécie humana), dando origem aos primeiros incêndios espontâneos, que moldaram as paisagens a partir dessa época. O segundo tipo (‘fogo antrópico primitivo’) surge com a apropriação e o uso do fogo pelas populações humanas pré-históricas que lhes permitiu, não só cozinhar alimentos (tendo gerado mudanças anatómicas e fisiológicas permanentes na nossa espécie), mas também moldar a paisagem dos seus territórios através do uso de queimadas. Esta nossa aliança com o fogo (que Pyne apelida de domesticação) terá permitido não só a sobrevivência às glaciações, mas também a expansão da própria espécie pelo globo. Pyne escreve no livro de 2022: “Seres humanos e fogo competiram em conjunto com o fogo da natureza e expandiram o domínio geral da combustão de tal forma que apenas uma pequena fracção da superfície terrestre – lugares cobertos por gelo, desertos implacáveis, florestas tropicais húmidas – carece de fogo. Ainda assim, os incêndios de origem humana ardiam como os da natureza, em paisagens vivas, sujeitos a condições e restrições compartilhadas.


O terceiro tipo de fogo (‘fogo pirotécnico’) chegou com a Revolução Industrial alimentada pela combustão de biomassa fossilizada (carvão e petróleo), que assim mobilizou esse carbono litosférico transformando-o em carbono atmosférico (CO2). A mudança climática resultante (com o aumento da temperatura e a redução de humidade) intensificou por sua vez os fogos florestais, em particular nos últimos decénios. Cito novamente Pyne (artigo de 2019 traduzido para a revista Anthropocenica): “Durante a maior parte da história humana, a busca do fogo significou uma busca de mais coisas para queimar. Essa dinâmica mudou quando as pessoas encontraram uma maneira de queimar biomassa fóssil, primeiro turfa e carvão, e depois petróleo e gás. Suplantámos os limites das paisagens vivas, queimando paisagens líticas. (…) Os novos fogos – considerem-se as combustões industriais – ardem em máquinas, não em paisagens. Eles podem arder dia e noite, inverno e verão, durante as épocas seca e húmida do ano. As velhas fronteiras bióticas dissolveram-se. A paisagem lítica da Terra já não subjaz à paisagem viva: sobrepõe-se-lhe. Estamos a retirar coisas do passado geológico e a lançá-las no futuro geológico. Mesmo as cadências dos ciclos e oscilações orbitais da Terra que moldam os ritmos das épocas glaciais não podem, ao que parece, conter os fogos desenfreados da humanidade. A história do clima tornou-se num subconjunto da história do fogo. O fogo não está simplesmente a preencher o vazio de uma era interglacial, mas a afirmar-se com o poder distintivo duma nova Era do Fogo. O chamado Antropoceno, a idade dos humanos, pode ser então denominado Piroceno. (…) A nossa aliança com o fogo pode ser o nosso primeiro pacto faustiano. O nosso poder ambiental é fundamentalmente um poder de fogo. No entanto, o fogo, que prosperou bem sem nós, também ganhou. Nós expandimos o domínio do fogo, recodificando as suas manchas e pulsos ecológicos, levámo-lo para lugares que nunca poderiam queimar por si mesmos, exumámos combustíveis do tempo profundo e lançámos os seus efluentes no futuro, deixando o planeta em chamas.


No artigo de opinião já citado
, Viriato Soromenho Marques reforça a posição de Pyne: “O fogo industrial, aquele que consome florestas fossilizadas que cresceram sob o Sol de há centenas de milhões de anos, arde escondido nos milhares de milhões de motores que trabalham para o nosso conforto, nas estradas, cidades, fábricas, nos céus... Sem disso termos consciência, toda a nossa civilização é um fogo permanente que transporta o carbono da litosfera para a atmosfera. Pyne chama a atenção para o facto de que o significado profundo do fogo não é sequer estudado, pois é partido aos pedaços pela fragmentação especializada das ciências e das técnicas. (…) Como escreve Pyne: «Nós também poderemos perecer no fogo se não controlarmos a sua combustão, isto é, se não nos controlarmos a nós próprios.»

Mas Pyne vai ainda mais longe na sua análise com o intuito de enfatizar que a dimensão do impacto humano não se limita a lançar quantidades inauditas de CO2 na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis, mas estende-se também à (má) gestão dos incêndios florestais alimentados pela mudança climática antropogénica: “(…) a nova combustão tanto subtrai quanto adiciona; não combina bem com as outras formas de incêndio. Elimina o fogo das paisagens, assim como elimina as chamas das casas e fábricas, conduzindo a dois paradoxos: que apesar de todo o nosso novo poder de fogo, muitas paisagens sofrem de um deficit de incêndios [p.ex. queimadas controladas], e que a maioria das nossas tentativas de suprimir os incêndios em paisagens vivas apenas provocam piores incêndios. Temos demasiado fogo mau, muito pouco fogo bom e demasiada combustão em geral.


O diagnóstico de Pyne é corroborado pela avaliação da escala inusitada dos incêndios devastadores de 2020 e 2021 na Califórnia, na Sibéria ou na Amazónia, cuja análise o próprio Pyne faz no seu livro de 2022 citado acima – ver também este seu artigo de 2021 baseado nesse livro. A dimensão inédita dos recentes incêndios no Canadá só veio confirmar aquele diagnóstico. O próprio Pyne faz essa análise num artigo publicado já este ano (Can Canada Contain Conflagration?): “O Canadá começou a queimar o seu pavio de combustão em ambas as extremidades [paisagens vivas e líticas]. As eras do gelo em série que apagaram e repovoaram o Canadá como um palimpsesto cederam a uma era do fogo que está a reescrever a história com chamas. Um período interglacial transformou-se numa época propriamente dita - o Piroceno. (…) À argumentação acresce que confiar apenas na supressão do fogo só agrava a crise, que excluir o fogo deixa mais paisagem viva disponível para queimar, mesmo quando a mudança climática impulsionada pela combustão de paisagens líticas reforça a sua propensão a queimar. A maioria dos analistas defende melhores programas de gestão de florestas, terras e incêndios que funcionem com o fogo.” E adverte: “O Piroceno está a chegar ao Canadá com a escala e o poder da calote Laurentidiana. O país terá de encontrar maneiras de alavancar os seus múltiplos talentos sobre o fogo, não apenas para promover um bem global, mas porque o Canadá pode tornar-se a estaca zero de uma era de fogo. Essa mudança significará queimar algumas florestas em vez de abatê-las, e não queimar o betume e petróleo que o Canadá tem no seu solo.


Não podemos de facto deixar de responsabilizar a queima descontrolada de combustíveis fósseis pela intensificação dos fogos florestais por via das mudanças climáticas - leia-se p.ex. um artigo publicado este ano que demonstra a ligação entre a redução de vapor de água atmosférico, as emissões geradas por dezenas de empresas petrolíferas e cimenteiras nos EUA e Canadá e o seu impacto conjunto no aumento da área florestal ardida. Num artigo de opinião num jornal local, Chris Hatch acusou mesmo a governadora do estado de Alberta de pirómana pelo facto de não ter feito qualquer referência à mitigação da crise climática durante a campanha para a sua reeleição. Já Martin Scarpacci, num post de Fevereiro, relembra os grandes incêndios recentes na América do Sul, atribuindo a culpa aos detentores do poder económico e político, que sustentam um modelo societal baseado no capitalismo e no crescimento, e que lucram com os fogos. Mas é crucial questionar também a forma como se tem feito a gestão dos incêndios florestais, demasiado centrada no combate e muito menos na prevenção, com consequências desastrosas. Artigos recentes vieram realçar o papel das queimadas controladas praticadas pelos povos originários dos EUA e Canadá (ver p.ex. aqui) na prevenção dos fogos florestais e na regeneração das florestas, práticas essas que têm sido suprimidas ou reprimidas pelos respectivos governos – ver p.ex. aquiaqui ou aqui.

Numa reflexão publicada em 2020, Charles Eisenstein aborda estas mesmas questões, mas adiciona uma dimensão ética, defendendo que só uma mudança profunda de visão de mundo poderá conduzir a uma mitigação efectiva dos fogos florestais (e da crise ecológica): “Embora engenheiros, ecologistas e especialmente povos indígenas possam oferecer técnicas para gerir adequadamente as florestas e restaurar a sua resiliência, a transição para um mundo saudável requer algo muito mais profundo do que melhores técnicas. O mais importante seria aprender a habitar a fonte de onde surgem as práticas indígenas de cuidado da terra. Essa fonte é uma forma de ver, conceber e se relacionar com a natureza – encarando-a como ser e sujeito, em vez de coisa e exterior, por via da reverência e do relacionamento.


Também Steve Pyne invoca uma dimensão estética que conduza a uma relação mais saudável dos seres humanos com o fogo e os seus territórios, num artigo de 2022 que dedica às gerações mais jovens – “Our children will need to find the beauty in our burnt planet”: “O desafio estético colocado pelo Piroceno vai além de ajustar valores artísticos a um novo cenário natural, ou encontrar formas de ‘naturalizar’ uma paisagem construída, adaptando a estética das montanhas aos arranha-céus. Não somos hominídeos ajustando noções de valor a convulsões do tamanho de continentes impostas por mudanças na radiação solar. Somos, pelo contrário, os agentes que estão a derrubar uma ordem natural existente. Somos narradores não confiáveis avaliando não obras deliberadas de nossa própria criação, moldadas com algum indício de intenção estética, mas as consequências não intencionais das nossas implacáveis disrupções. É difícil não olhar para florestas tropicais destruídas, recifes de corais branqueados e paisagens cobertas de asfalto e plástico e não repetir o comentário do tenente Joseph Ives [durante uma das primeiras expedições ao Grand Canyon] de que tais paisagens são ‘lugares sem proveito’ e que, esteticamente, não merecem um segundo olhar. (…) Mas não é o caráter da paisagem, mas o caráter do olhar que determinará o seu valor. Temos uma abundância de ‘novidades’ nas paisagens modernas que aguardam os intérpretes certos. Eles virão da geração dos meus netos. (…) Eles merecem um mundo melhor do que aquele que receberam, mas também merecem o direito de ver esse mundo por si mesmos, não apenas como um planeta desgastado e de segunda mão, desprovido da sua antiga glória e grandeza.

Deixo, à laia de síntese final, duas citações adicionais de Stephen Pyne e uma do académico brasileiro José Eustáquio Diniz Alves:

Temos duas grandes narrativas para o fogo. A Prometeica, que fala do fogo como poder, como algo extraído do seu ambiente natural, talvez pela força, e depois direcionado como a mão e a mente humanas desejam. A Primitiva, que fala do fogo como um companheiro da nossa jornada, dos humanos como espécie-chave e como guardiões para reconciliar o fogo com a terra. O nosso futuro e o da Terra dependem de qual dessas vias narrativas decidamos seguir.” (S. Pyne 2019/2022)

O fogo não é nosso para fazermos dele o que quisermos. Nem estamos em guerra com ele. Há muito tempo, firmámos um pacto mutuamente útil. (…) Mas nos últimos 200 [anos], quebrámos esse pacto. Ficamos ávidos pelo fogo Prometeico e negligenciámos o fogo primordial. Esquecemos o bem que o fogo nos fez e quão mal o fogo nos pode desfazer. Esquecemos a nossa relação com o nosso melhor amigo e pior inimigo. Um pouco de fogo pode afastar o gelo. Demasiado fogo e mergulharemos em megaincêndios e numa plena era de fogo que será boa para o fogo e nefasta para nós.” (S. Pyne 2021)

Na verdade, o que precisamos é superar as Eras do Antropoceno e do Piroceno e caminhar para a Era do Ecoceno, onde o respeito ao meio ambiente coloque a Ecologia no centro do mundo, possibilitando que o ser humano possa viver em paz e harmonia com a biodiversidade e os ecossistemas, repartindo irmãmente e fraternalmente a Nossa Casa Comum, numa verdadeira Ecosfera saudável e feliz. O ser humano não é dono, mas sim parte da Comunidade Biótica Global, na qual todos os seres vivos estão inseridos. Nenhuma pessoa e nenhuma espécie pode ser feliz sozinha. O futuro da vida na Terra depende da prosperidade comum e compartilhada entre todas as espécies.” (José E.D. Alves 2021)



domingo, 31 de julho de 2022

Época de incêndios: desvarios e milagres

Rescaldo do incêndio em Palmela (Jul 2022)
Há várias dezenas de anos prevíamos e denunciávamos publicamente que estávamos a transformar as nossas montanhas numa pira de óptimo material combustível, a que até um “iluminado” ministro [Mira Amaral] chamou o “petróleo verde” de Portugal. Realmente tem razão; [o eucalipto] arde tão bem ou melhor do que o petróleo. Jorge Paiva

El éxodo rural, los cambios socioeconómicos y el cambio climático facilitan una acumulación inmensa de combustible vegetal listo para arder con intensidades y velocidades nunca vistas. Antes vivíamos del bosque; ahora nos defendemos de él. Marc Castellnou e Alejandro García

No caso de Portugal, Espanha e França, 98% dos incêndios são precocemente extintos, mas os 2% restantes são responsáveis por 95,4% da área ardida. A conclusão é cortante como uma lâmina: para evitar incêndios devastadores nas condições especialmente hostis das alterações climáticas, a chave está no ordenamento e não no combate. Viriato Soromenho Marques

Um país cronicamente incapaz de prevenir fogos ao longo de décadas, vira-se agora com ferocidade contra a primeira vítima do fogo, a natureza, que por ser combustível e arder, tem que ser eliminada, mesmo que sejamos nós, incauta ou criminosamente, a atear 99 % dos fogos – se não houver vítima, não pode haver agressor ou agressão; se não houver combustível, não há combustão. Maria José Castro

À medida que o mundo rural da agricultura familiar se tornou o bastardo rejeitado por interesses económicos e políticos e o eucalipto se expandiu, os fogos tornaram-se, para alguns, uma lucrativa “indústria” de milhões. Maria Carolina Varela

Com a recente onda de calor, regressou o triste e trágico espectáculo mediático do flagelo dos incêndios, acompanhado do habitual rol de meios usados no ‘combate às chamas’, dos estragos directos (para os humanos) e dos hectares ardidos - quando, na verdade, os parâmetros mais relevantes para mostrar a real magnitude dos incêndios seriam a sua velocidade de propagação e a energia emitida (ver p.ex. aqui ou aqui). E por atacado vem a estupefação e consternação pelas tragédias humanas, que alimentam o sensacionalismo e voyeurismo doentios amplificados ad nauseam pelas TVs. Mas raramente leio ou ouço menção às espécies vegetais e animais perdidas ou à destruição de ecossistemas e aos anos que demorará a sua recuperação - se é que será possível... Timidamente, surgem menções à conexão entre as vagas de calor e a mudança climática (antropogénica), potenciadora do que já foi apelidado como o Piroceno (ver aqui ou aqui), mas muito poucas às causas profundas dos recorrentes mega-incêndios, como a calamitosa gestão do território florestal e rural pelos sucessivos governos (nacional ou locais) ou a trágica desertificação humana do interior. O título de um recente artigo de opinião no Público (‘Continuamos a apagar fogos’) deixou-me esperançoso, mas o seu conteúdo frustrou as minhas expectativas. Pelo contrário, o artigo da engenheira silvicultora aposentada Maria Carolina Varela no jornal i enumera os múltiplos interesses que beneficiam dos incêndios (indústria madeireira, celuloses e empresas de prevenção e combate) e desconstrói algumas das falácias mais recorrentes: os eucaliptais das celuloses não ardem, outras espécies florestais são igualmente pirófilas, os matos e o abandono do minifúndio disperso são os culpados. Diversas vozes vêm aliás alertando para a necessidade de apostar num mosaico florestal que evite as extensas monoculturas de pinheiro ou eucalipto – que muitos insistem perversamente em apelidar de ‘florestas’ (ver aqui ou aqui). Mas os poderosos interesses instalados, incluindo o lóbi das celuloses, conseguem cooptar académicos e especialistas que defendem o seu modelo de gestão florestal (ver p.ex. aqui). 

Em 2017, em artigo de opinião numa publicação digital sobre cultura (Comunidade Cultura e Arte), que permanece apenas disponível aqui, Pedro Santos discorria sobre os verdadeiros incendiários que opinam a partir das urbes – excertos: O fogo que arde em Lisboa, nas redações dos principais jornais, revistas e televisões do país, propaga-se na voz de gente que já não sai de Lisboa. Que não conhece o país. Que não tem qualquer ligação ou empatia com o modo de vida rural, com as suas práticas. Mas que dirige os principais meios de comunicação do país. (…) [Os incendiários que querem bodes expiatórios para culpar] São os mesmos que escarnecem das lutas de ambientalistas e ativistas. Que se riem de quem tenta falar contra os esquemas das barragens inúteis que vão destruir os nossos rios e encarecer a fatura da eletricidade; que se riram quando houve oposição ao fecho de linhas de caminho de ferro no Tua, no Corgo, no Tâmega, por esse Alentejo fora; que se riem quando se fala em Proteção da Natureza; que acham bem que se tenha acabado com Guardas Florestais e Guarda Rios; que ignoram as lutas contra a exploração de gás natural e petróleo; que propagam os mitos da agricultura intensiva, de um Alqueva em cada esquina ou de um fábrica de pasta de papel em cada região. O autor conclui que cabe aos cidadãos tomar nas suas mãos a responsabilidade de criar as condições para pôr fim à calamidade recorrente dos incêndios. Também em 2017 (ver aqui), António Dores destacou vários dos aspectos referidos atrás, assim como outros que refiro adiante, e, perante a incapacidade do Estado em lidar com as raízes do problema, defendia uma mudança de regime político baseada na auto-organização territorial das suas populações, enumerando algumas das diversas organizações da sociedade civil que, desde 2017, têm promovido iniciativas de reflorestação no território nacional (ver nota 1 no final do post).

Foto de capa do jornal Público de 16 Out 2017

Desvarios

Apesar dos apelos de organizações ambientalistas, quer em Portugal, quer em Espanha, a profundas mudanças nas políticas florestais (ver p.ex. aqui, aqui e aqui), o primeiro-ministro continua a enjeitar responsabilidades do governo na (má) gestão florestal, admitindo a incapacidade de resolver o problema dos incêndios e transferindo essa missão para os cidadãos. Fê-lo em 2017, garantindo que o país continuaria a arder (ver p.ex. aqui) - o que de facto tem acontecido! -, e voltou a reforçar este ano que a “responsabilidade de evitar a ocorrência de incêndios” é dos portugueses, tendo decretado estado de contingência com restrições de múltiplas actividades, mas reafirmando que o Estado não é “segurador universal” e não tem que compensar eventuais impactos negativos das medidas (ver p.ex. aqui). Pior ainda, os seus governos têm decretado medidas avulsas de eficácia duvidosa, nomeadamente: a cega ‘limpeza dos matos’ imputada aos proprietários, que resultou em aberrações de extermínio da biodiversidade vegetal e no agravamento da perda de humidade e da erosão dos solos (ver p.ex. artigo de opinião da professora universitária Maria José Castro); as reflorestações promovidas por grandes empresas, com critérios duvidosos na seleção das árvores plantadas; ou a recente proibição de usufruto de espaços florestais e de jardins(!), alegando que a presença de pessoas constitui risco de incêndio (ver p.ex. aqui)! É verdade que muitas ignições ocorrem por incúria, devido p.ex. a queimadas, mas a presença de pessoas naqueles espaços pode ajudar no alerta precoce, que evita que um fogo possa tomar proporções incontroláveis, não deixando também campo aberto aos incendiários que são responsáveis por muitas outras ignições.

Por outro lado, têm sido gastos milhões de euros na prevenção (lembram-se do tristemente famoso SIRESP?) e no combate aos incêndios (bombeiros e meios aéreos). É sempre mais simples (e menos arriscado) para os decisores políticos tentar mitigar os estragos do que actuar sobre as causas sistémicas - vê-se isso há anos na questão dos fogos e viu-se também na gestão da pandemia. É bom para a sua imagem e assim protegem os interesses instalados em vez de defender o verdadeiro interesse público. Nem mesmo o ‘presidente dos afectos’ consegue exercer uma eficaz magistratura de influência nesta matéria e, apesar de imparável nas suas deslocações e declarações, as suas boas intenções ficam-se pelas selfies e os abraços. Tudo isto é lamentável (mas não inesperado), tanto mais que vários indícios de corrupção ou de conluio criminoso têm vindo a lume, denunciados p.ex. em reportagens jornalísticas de 2017 e 2018 em Espanha e em Portugal (ver nota 2 no final do post). Em Espanha assiste-se também a uma intensificação deste flagelo e o mega-incêndio de Junho deste ano (2022) gerou pelo menos forte indignação social no país vizinho (ver aqui e aqui).

Cartoon de Vasco Gargalo (2017)

Milagres

Perante o esperado agravamento das alterações climáticas, que gerará mais ondas de calor potenciadoras de grandes incêndios, e a incapacidade ou irresponsabilidade dos poderes públicos de travar o flagelo, será que nos resta aguardar por algum milagre que nos salve da catástrofe iminente? Felizmente, esses ‘milagres’ já estão a acontecer. Para além das iniciativas citadas na nota 1 (no final), este ano já foi possível constatar os benefícios dos projectos de restauro de vegetação autóctone, como o da Associação BioLiving que funcionou como travão na progressão do incêndio de Estarreja no início do mês de Julho – ver aqui e aqui. De facto, para aquela associação este episódio demonstra claramente a importância da floresta nativa – as chamadas ‘árvores bombeiro’ – para a segurança das populações e a necessidade de uma gestão florestal pensada à escala do território e não da propriedade, evitando as grandes extensões de eucaliptal ininterrupto. 

Em 2018, escrevi um texto sobre um outro ‘milagre’ chamado Mata da Margaraça, que reproduzo a seguir para concluir este post. Faço notar que a complexidade desta questão não se limita às questões que abordei aqui e defendo (como muitos outros)  que seriam necessárias políticas públicas que promovessem uma gestão bem mais sustentada do território (ver p.ex. o artigo de opinião dos engenheiros florestais espanhóis Marc Castellnou e Alejandro García, já citado), fomentando p.ex. a fixação de populações no interior ou a plantação de bosque autóctone e de folhosas de crescimento lento ('árvores bombeiras', ver p.ex. aqui).

Mata da Margaraça: 2017 vs. 2018

O 'milagre' da Margaraça

‘Onde há vida, há esperança’ foi o título que dei a um post no qual comentei várias reflexões sobre os sentimentos antagónicos de esperança e de desespero que podem surgir perante as ameaças e os desastres ambientais que enfrentamos. Mal sabia que iria encontrar, passadas umas semanas, uma confirmação inesperada daquele aforismo. De facto, no início de Agosto (de 2018) percorri algumas das áreas do país mais afectadas pelos incêndios florestais de 2017, em particular a região de Arganil/Coja, que foi palco do segundo maior mega-incêndio jamais registado em Portugal (Outubro 2017) e que teve características únicas, nomeadamente o maior fenómeno piroconvectivo alguma vez observado na Europa e o maior do mundo em 2017 (ver aqui e aqui). Pude constatar que as encostas da serra do Açor em volta da aldeia da Benfeita tinham um aspecto verdadeiramente desolador, dominadas pelos troncos queimados dos pinheiros que cobriam grande parte daquele território, deixando exposto o solo - que só não estava despido porque a Primavera de 2018 foi chuvosa e fez despontar fetos e herbáceas que deram algum tom verde à paisagem. Havia no entanto alguns pequenos ‘oásis’ em certos vales encaixados e áreas limítrofes das povoações, onde algumas árvores e arbustos tinham escapado à fúria das chamas. Um daqueles vales encaixados cuja vegetação, constituída por árvores e arbustos autóctones, sobreviveu foi o da Barroca de Degraínhos, na zona da Fraga da Pena, embora as partes mais elevadas deste acidente geológico tenham sido muito afectadas pelo fogo. Mas um pouco mais acima, a seguir à aldeia de Pardieiros, encontrei aquilo a que se pode chamar um verdadeiro milagre: a Mata da Margaraça. Trata-se de uma área de paisagem florestal protegida de rara beleza, que tenho vindo a visitar há já vários anos, e que é constituída por uma floresta mista de folhosas (castanheiros, carvalhos, ulmeiros, vidoeiros, folhados, medronheiros, azereiros, cerejeiras, azevinhos, loureiros, aveleiras e salgueiros), constituindo uma relíquia das antigas florestas que cobriam algumas das encostas mais frondosas das nossas serras do interior (ver aqui ou aqui). Os primeiros relatos dos efeitos do mega-incêndio de Arganil fizeram-me temer o pior (ver p.ex. aqui) e já me tinha tentado preparar para o impacto de um cenário desolador - que foi o que encontrei ao longo da estrada, desde Coja, até lá chegar. Mas ao aproximar-me dos limites da Mata, o cenário dos troncos de pinheiro carbonizados foi sendo gradualmente substituído por árvores cobertas de folhagem verde, cuja intensidade e extensão contrastava fortemente com o tom escuro que predominava a toda a volta. A mancha da Mata Margaraça, apesar de algumas zonas periféricas queimadas, sobressaía como um verdadeiro oásis verde no meio do deserto de troncos queimados das encostas circundantes (ver fotos acima). De facto, cerca de 60% da Mata ficou quase intacta (ver p.ex. aqui) e, pela descrição dos técnicos do ICNF (que gere aquele área protegida), o fogo avassalador que a atravessou encontrou ali um foco de resistência à sua propagação, devido às características da folhagem e ao maior índice de humidade, como se não viu em qualquer outra área de igual extensão. Algo semelhante havia ocorrido ali aquando de outro grande incêndio que afectou aquela região em 1987.

Não há melhor prova da capacidade de resistência a um mega-incêndio de características excepcionais, como o de Outubro de 2017, do que uma verdadeira floresta como a Margaraça, quando comparada com as monoculturas de eucalipto e pinheiro que ainda cobrem grande parte do território do centro do país. Infelizmente, a predominância e insistência na plantação de eucalipto (ver p.ex. aqui ou aqui), a que não é alheia a pressão do lóbi das celuloses (ver p.ex. aqui), continua a ser motivo de grande consternação e desesperança. Creio que toda a gente deste país, em particular os jovens, deveria ir ver com os seus próprios olhos aquilo que testemunhei (ver p.ex. aqui). Essa visita devia ser mesmo obrigatória para os comentadores e especialistas que insistem em ludibriar a opinião pública, tentando escamotear os efeitos nefastos das plantações de eucaliptos que alimentam as celuloses (ver p.ex. aqui ou aqui). A Mata da Margaraça é um exemplo (vivo) de que onde existe vida na sua máxima diversidade e complexidade - bem adaptada ao território e bem gerida -, existe de facto esperança. Saibamos nós retirar as conclusões dos sucessivos flagelos dos incêndios florestais para podermos vislumbrar um futuro menos sombrio do que aquele que podemos vir a ter.

Nota 1

Iniciativas de reflorestação e projectos agroflorestais

- Rede Reflorestar Portugal: https://www.facebook.com/ReflorestarPortugal/

- Aliança pela Floresta Autóctone: http://florestautoctone.webnode.pt/

- APAGAR – Aliança Para Acabar com as vaGAs Recorrentes de Fogos:

http://www.campoaberto.pt/?p=1713010

- Terracrua (Permacultura e agrofloresta): http://terracrua.org/blog/floresta-mista-e-as-populacoes-locais/

- Projecto AFINET (Redes Regionais de Inovação Agroflorestal): https://www.tveuropa.pt/noticias/sistemas-agroflorestais-reduzem-risco-de-incendios/

Nota 2

Investigações jornalísticas e artigos sobre indícios de corrupção ou conluio criminoso (Portugal e Espanha):
O cartel do fogo ES (Set 2017) – ver aqui e aqui
(…) parece complicado relacionar las muertes de Pedrógão, y la superficie calcinada por incendios en Portugal y España en lo que va de año —118.000 hectáreas sólo en Portugal—, con otra causa que no sea la ineptitud política, los intereses de empresas locales o pequeños propietarios de tierras, la plantación descontrolada de eucalipto o los pirómanos. Sin embargo, todo apunta a que los fuegos que arrasan cada año la Península Ibérica se alimentan no sólo de oxígeno y madera, sino sobre todo de corrupción.
Reportagem TVI (Out 2017): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t4e25
Artigos media PT:
http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/2017-07-25-Carteis-esquemas-e-estado-dos-helicopteros.-Os-negocios-do-fogo-revelados-nesta-entrevista
https://www.publico.pt/2017/09/04/sociedade/noticia/justica-portuguesa-investiga-ramo-portugues-do-cartel-do-fogo-1784152
http://www.jornaltornado.pt/cartel-do-fogo-ou-lobbies-dos-incendios/
Entrevista a Xabier Vázquez Pumariño (biólogo) sobre o lóbi florestal da Galiza (Out 2017):
http://www.lavanguardia.com/vida/20171019/432157474162/industria-fuego-galicia-xabier-vazquez-pumarino.html
A máfia do pinhal, investigação TVI (Abr 2018): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t5e10
https://observador.pt/2018/04/13/incendio-que-consumiu-pinhal-de-leiria-foi-planeado-um-mes-antes/

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Revolução agrária 4.0 – devastação ambiental e social em curso

O tema da agricultura intensiva surgiu recentemente no radar mediático por via da situação grave que se vive no Sudoeste Alentejano. No entanto, a questão não se limita àquela região e já tem um historial de mais de uma década. Uma reportagem recente (Abr 2021) no canal público de TV, pouco antes do burburinho sobre Odemira, veio pôr o dedo na ferida: A Invasão da Agricultura Insustentável (Linha da Frente, RTP). A peça, da autoria do jornalista Luís Henrique Pereira, mostra exemplos de norte a sul do país - da Cova da Beira ao Algarve, passando inevitavelmente pelo olival (super)intensivo do Baixo Alentejo e as estufas do Sudoeste Alentejano - e dá voz a ambientalistas e movimentos locais que contestam os projectos de agricultura industrial e intensiva que estão a alterar de forma drástica e acelerada a paisagem. Entre os efeitos nefastos da agricultura intensiva, são destacados: a perda de qualidade e erosão dos solos, a perda de biodiversidade, a poluição química dos aquíferos e rios, os perigos para a saúde pública do uso de pesticidas, a desertificação, a escassez de água, além dos impactos nas populações locais e a exploração da mão-de-obra imigrante. Surpreendentemente, a reportagem da RTP dá menos destaque às posições dos produtores e do Governo que, sem surpresa, invocam os aumentos de produtividade e de rendimento daquele tipo de práticas agrícolas, defendendo a sua sustentabilidade. Claro que houve quem não gostasse e acusasse a reportagem de sensacionalismo e de se furtar ao contraditório (p.ex. aqui), motivando mesmo o envio pela CAP de um protesto formal à direcção da RTP (aqui). O recente 'caso Odemira' veio mostrar quem tinha afinal razão.

A expressão que usei no título deste post foi respigada de um artigo de 2019 que descreve a transformação radical na cultura do olival no Baixo Alentejo alimentada pela água do Alqueva e que tenta dar uma visão equilibrada do tema, ouvindo os diferentes agentes envolvidos: governo, autarquia, produtores, académicos e ambientalistas. Embora nunca seja explicado o uso do ‘4.0’ no título, presume-se que terá havido três revoluções agrícolas anteriores (de carácter tecnológico) e há um claro pendor no artigo para as vantagens económicas de curto prazo do modelo agro-industrial, com destaque para a citação de um grande produtor da região que pergunta “Querem ver plantação moderna?”, respondendo: “Venham a Portugal e ao Alentejo” e prometendo: “A revolução não terminou e vai continuar”. Um artigo mais recente no Boletim da Ordem dos Advogados faz uma análise mais serena e apresenta uma lista extensa dos impactos ambientais e sociais nefastos dos regadios intensivos e superintensivos, a médio e longo prazo, propondo a sua limitação e o recurso à ‘agricultura de precisão’ e à agroecologia.

Os sinais de alerta sobre as consequências nefastas da agricultura industrial já vêm desde os anos 60 e 70 do século passado, no rescaldo da chamada ‘revolução verde’ do pós-guerra (ver p.ex. aqui ou aqui), mas a consciencialização e contestação surgiram agora de novo em Portugal perante o crescimento explosivo do olival e amendoal intensivos e superintensivos, em especial no Baixo Alentejo. Os alertas e a contestação têm vindo principalmente de alguns académicos nacionais (p.ex. aqui ou aqui), de ambientalistas (p.ex. aqui), de alguns partidos políticos (p.ex. aqui), mas também de movimentos sociais ou locais, como os movimentos Alentejo Vivo e Juntos pelo Sudoeste ou o colectivo Chão Nosso Alentejo. Destaco ainda um post escrito num tom pessoal e emocional por alguém que analisou e auscultou de perto a realidade daquele território, apelidando-a de ‘genocídio’ e de ‘extermínio do povo alentejano’. No entanto, as vozes críticas não se limitam ao território nacional e um relatório do Tribunal de Contas Europeu de 2018 (referido na reportagem da RTP) alertava para o perigo de desertificação agravado pela agricultura intensiva, criticando as políticas incoerentes e desajustadas para o país, em particular a insistência no regadio num país onde a água vai ser cada vez mais escassa.

O olival (e amendoal) intensivo foi também tema de uma Grande Reportagem emitida pela SIC (Alentejo, Azeite e Água) no mesmo mês do programa da RTP referido no início (é possível assistir à 1ª parte aqui). Aqui são ouvidas as vozes de um leque mais alargado de agentes locais e nacionais, mas também dos habitantes. Um artigo de opinião de um agricultor e silvicultor local em reacção a este programa faz um leitura crítica da palavra sustentabilidade, alertando para as suas diferentes dimensões (económica, social e ambiental), e defende uma abordagem mais equilibrada com recurso a boas práticas agrícolas. Deixo uma citação deste artigo: “Como silvicultor e agricultor, tenho a perfeita consciência do difícil que é, por vezes, colocar todas as variáveis na balança. Temos uma exploração de romãzeiras em regime intensivo e, cada ano que passa, tentamos melhorar as nossas práticas agrícolas. Fizemos a requalificação de linhas de água permanentes e temporárias, instalação de sebes biológicas e zonas de descontinuidade, entre outras medidas. Este tipo de práticas faz cada vez mais sentido e, ao contrário de todas as expectativas, nos últimos três anos deixámos de utilizar inseticidas, simplesmente porque permitimos que todo o ecossistema funcionasse. Na natureza é preciso tempo e paciência, algo que o ser humano tem uma certa dificuldade em compreender.

Termino, invocando as reflexões dos meus últimos posts, assim como a deste outro que escrevi para o blogue do projecto Guarda Rios, com um apelo à sensibilidade de todos os que partilham de uma (est)ética ecológica da atenção e do cuidado no sentido de contribuírem, da forma que puderem, para que possamos recuperar uma sustentabilidade sistémica e duradoura, e para que não prevaleçam as visões daqueles que preferem os benefícios económicos imediatos (que na verdade só chegam a alguns privilegiados) e que defendem a transfiguração paisagística da outrora aridez da ‘planície dourada’ para os actuais 'mantos verdes', mas que, no médio e longo prazo, transformará o Alentejo num deserto infernal.

Nota: à excepção da foto de abertura, todas as restantes foram obtidas por mim durante uma residência do projecto Guarda Rios na região do Alqueva (Aldeia da Luz) em Outubro de 2020.

terça-feira, 25 de maio de 2021

O que faz um ser sensível é a sensibilidade

No passado dia 22 Maio celebrou-se o Dia Internacional da Biodiversidade, uma data que nos apela a reflectir sobre a nossa relação com o mundo-mais-do-que-humano. Essa relação está claramente em crise dado o afastamento crescente entre nós (populações predominantemente urbanas) e os restantes seres vivos, promovido por uma visão eminentemente antropocêntrica, utilitarista e imediatista do mundo que nos levou a explorar, dominar e destruir os ecossistemas - dos quais fazemos parte e dos quais dependemos (ver p.ex. aqui ou aqui). Para reverter esse processo será necessário estimular um melhor conhecimento do mundo não humano, que está geralmente mais próximo do que imaginamos e sem o qual não será possível desenvolver um desejo de cuidar, defender ou regenerar – ou seja, amar – todo esse universo de outros seres cuja existência é tão vital, legítima e sagrada quanto a nossa.

Com o intuito de re-activar aquela relação, apelando aos sentidos e à sensibilidade, orientei uma caminhada sensorial no Parque Florestal de Monsanto focada na escuta-olhar atento e demorado, nas sensações do corpo e nos sentidos além da visão, mas estimulando também o intelecto, numa fusão integrativa de cabeça, coração e sentidos (que, como bem sabemos, nunca estão separados). O percurso foi pontuado pela leitura de excertos de poemas ou textos de Alberto Caeiro, Manuel Zimbro e Mia Couto, aos quais junto mais dois – um de David Abram e outro de Rachel Carson – reunidos neste post.


Alberto Caeiro – O Guardador de Rebanhos
 
Poema IX
 
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
 
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
 
Poema II
 
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
 
Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
 
Poema XLVII
 
Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.

 
Manuel Zimbro – História secreta da aviação
 
O que faz um ser sensível é a sensibilidade
só a sensibilidade pode cuidar e responder adequadamente à vida, à ordem,
ao mundo,
a coisas tão importantes como por exemplo a natureza,
isso que é inteligência sem causa, em equilíbrio…
(…)
a sensibilidade é doutra dimensão
é ela, o hífen, que liga as mãos-cérebro-coração no nascente acto de fazer,
ou de não-fazer.
vemos a sua presença e também vemos a sua ausência no que o homem deixa feito,
esteja ou não concluído.
aqui, para tentar vê-la na sua mais elevada expressão – no equilíbrio –
ligá-la-emos ao acto de voar.
 
(…)
quem considera olha atentamente e quem olha atentamente vê,
não de uma maneira especial, ou desta ou daquela maneira, vê simplesmente
sem pensar – que já viu, que está a ver ou que irá ver – vê em silêncio…
(…) onde o olhar que nada foca, nada fixa, nada concentra
resplandece em todas as direcções, como a luz do sol.
quando o pensamento está calado e no seu lugar adequado, não há separação entre o que
considera e o que é considerado,
vê-se a partir do vazio o vazio.
só há a visão que flui.
tal é a natureza da consideração que constantemente põe à prova e faz escoar a extraordinária energia contida naquilo que estrutura as nossas visões do mundo.
só a consideração modera as fixações.
considerar não é pois das palavras.
 
(…)
se o homem se desloca na água - nada - porque não se deslocará no ar?
por ser mais anfíbio que aéreo?
mesmo se a água está fria, ele despe-se para nadar,
porque teria, para voar, de vestir qualquer coisa, que o iria tornar ainda mais pesado?
sem imitar os peixes, é-lhe possível usar as mãos como barbatanas,
porque será que ainda não chegou a compreender o pleno uso das mãos?
ou será que por estar tão carregado de lastro (sempre com o cérebro ocupadíssimo…) já não tem mãos a medir?
O que de resto lhe propicia ‘voos’ cada vez mais requintados,
à medida que se lhe vai adormentando a sensibilidade, que é muito mais leve que o ar.
 
(…)
como para o ser humano descolar as duas solas do solo é uma coisa e
deslocá-las
enquanto as mantém descoladas outra,
passamos a distinguir os dois conceitos, voar e levantar voo…
(…) para as descolar,
tarefa relativamente arriscada,
torna-se necessário esvaziar o espírito
despir a mente de todas as espécies de roupagens, sejam atraentes ou não.
como se tratasse de despir a roupa para se lançar à água, que, uma vez encharcada,
é lastro que faz afogar.
para haver elevação tem de haver essa nudez, é ela a mente nua que
assinala a necessária
leveza - despi-la, é esse o risco.
 
(…)
para se deslocar no ar,
a operação é em si menos complicada e mais corriqueira, mas torna-se mais
complexa dado que,
tanto o sentido (horizontal) como o impulso (exterior) só são possíveis
graças à sustentação de um movimento colectivo,
da comunidade onde se insere o que se elevou.
ou seja, o homem nunca poderá voar pelos seus próprios meios, precisará sempre da
sustentação do seu semelhante.
se precisou dele para aprender a andar, para aprender a falar, etc., porque não precisaria dela
para se deslocar no ar, ainda por cima sendo mais pesado que ele?
depois de singularmente se ter elevado, voar é um trabalho de conjunto que necessita do
apoio do mundo, isento de fricções e atritos dada a fluidez do meio.
só graças à confiança mútua, ao equilíbrio, à harmonia e à conivência de toda
a colectividade,
ele poderá procurar-se a necessária energia para se mover no espaço sem apoio material.
 
(…)
foi-nos ensinado a andar, a falar, a escrever...
e, ensinaram-nos a pensar.
(…) aprendemos tudo isso, mas não foi em conjunto, foi com esforço, com imenso desperdício de energia, (…) o que aprendemos não foi, nem é, livre nem fácil,
se fosse,
se fosse de facto em conjunto, a energia, a compreensão teriam uma
amplitude tal que com pouco esforço, ou seja, imensa beleza
já teria havido espaço para até nos terem ensinado a voar.
mas as prioridades desta sociedade são de outra ordem…


Mia Couto – Os sete pecados de uma ciência pura
 
(…) Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.
 
David Abram – Ecologia em profundidade (‘Depth ecology’)
 
(…) Ao contrário da altura de uma montanha, e da largura ou amplitude de um vale, a profundidade de uma paisagem depende inteiramente de onde nos encontramos dentro dessa paisagem. E à medida que avançamos, corporalmente, dentro dessa paisagem, a profundidade da paisagem muda à nossa volta. Em rigor, um espaço tem profundidade apenas se nos situarmos algures dentro desse espaço. (...) na verdade, apenas experimentamos o mundo real a partir da nossa perspectiva corpórea, com as duas pernas firmemente inseridas no coração das coisas. Uma vez que estamos inteiramente dentro deste mundo terreno, a natureza pode revelar-nos certos aspectos de si própria, apenas se esconder outros aspectos; nós nunca apreendemos um qualquer fenómeno terreno na sua totalidade nem de uma só vez.


Rachel Carson – Maravilhar-se (‘The sense of wonder’)
 
(…) O mundo da criança é cheio de frescura, de novidade, de beleza, povoado de maravilhas e entusiasmo. É uma pena que, para a maioria de nós, essa visão de olhar límpido, esse verdadeiro instinto que inclina ao belo e inspira temor e respeito, se esbata e mesmo se perca antes de chegarmos à idade adulta. Se eu tivesse alguma influência sobre a fada boa que se julga presidir ao batismo de todas as crianças, pediria que o seu presente para qualquer criança que viesse ao mundo fosse uma capacidade de maravilhamento tão indestrutível que duraria toda a vida, como antídoto infalível contra o aborrecimento e o desencanto da idade adulta, as preocupações estéreis com as coisas artificiais, o alheamento que nos afasta das fontes da nossa força.
Para que uma criança mantenha vivo o seu sentido inato do que é maravilhoso sem que lhe tenha sido dado tal presente pelas fadas, ela necessita da companhia de pelo menos um adulto com quem possa partilhá-lo, redescobrindo com ele a alegria, o entusiasmo e o mistério do mundo em que vivemos.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Valorizar o território, os seus habitantes e as suas actividades


Este post é sobre dois notáveis projectos nacionais criados para serem acessíveis essencialmente através da internet. São dois preciosos documentos sobre o território nacional que valorizam a sua paisagem e os seus habitantes, representando excelentes alternativas (e antídotos) às abordagens folclóricas e superficiais da divulgação turística. Trata-se de projectos independentes que investigaram, apoiados numa recolha criteriosa de material audiovisual, duas regiões do país que se sobrepõem: por um lado, o Museu da Paisagem, que teve (numa fase inicial) como objecto de estudo a bacia hidrográfica do Tejo (desde a sua entrada em Portugal, entre a Beira Baixa e o Alto Alentejo, até à sua foz na Extremadura), e, por outro, o webdoc Rodom, que se focou no concelho de Vila Velha de Ródão (Beira Baixa). O primeiro dedicou-se ao levantamento da paisagem natural e antrópica (construída ou gerida pelo ser humano), olhando o território como processo dinâmico de relação entre os seus habitantes e a natureza, tendo resultado de um projeto de investigação de uma equipa multidisciplinar de investigadores, professores e estudantes da Escola Superior de Comunicação Social do Politécnico de Lisboa, com a coordenação de João Gomes de Abreu e a curadoria de Margarida Carvalho. O Museu da Paisagem pretende, segundo os seus autores, promover a formação de uma cidadania paisagística e constituir uma plataforma participativa e geradora de conhecimento, representações e diálogos sobre a paisagem. O abundante e diversificado material disponível (incluindo conteúdos pedagógicos) pode ser explorado de diferentes formas – uma delas através de um mapa disponível aqui.
Membros da equipa do Museu da Paisagem (Portas de Ródão)
O segundo projecto teve por base uma recolha de testemunhos orais de habitantes do concelho de Vila Velha de Ródão, complementada por investigação etnográfica e antropológica daquele território, tendo como autora e realizadora Patrícia Gomes e produção da Ocidental Flimes. O documentário interactivo Rodom pode ser navegado a partir de um mapa ou de um menu disponíveis na página de entrada, que permitem aceder às histórias fascinantes das vidas e actividades da população local, ao longo dos tempos, através das vozes dos seus protagonistas (ou das dos seus descendentes ou familiares). O motivo condutor do projecto surge no final do vídeo introdutório e é uma citação de um dos entrevistados: ‘marca da separação do que foi e do que é’.
Mapa de acesso aos documentos audiovisuais do projecto Rodom
Trata-se portanto de dois projectos digitais (ou virtuais), mas que divulgam e promovem, com notável profundidade e sensibilidade, realidades paisagísticas, antropológicas e sociais, muito concretas. O convite que faço é a navegarem demoradamente qualquer dos dois sites, explorando o valioso e diversificado material audiovisual que disponibilizam. E depois, quem sabe, se sintam estimulados a viajar até a alguns daqueles lugares para explorar in loco as extraordinárias riquezas dos territórios que são ali retratados.

Museu da Paisagem: https://museudapaisagem.pt/
Notícia sobre este último projecto: