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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

COP16 – Vamos a tempo de fazer paz com a Natureza?

(c) Mahmood Nazari

We have nearly won, it seems, the war against nature, only to find ourselves on the losing side.(Ao que parece, já quase vencemos a guerra contra a natureza, apenas para constatar que nos encontramos do lado dos vencidos) Charles Eisenstein

Nature is not dying so much as being killed, by people who know perfectly well what they’re doing.(A natureza não está meramente a morrer mas a ser morta, por pessoas que sabem perfeitamente o que estão a fazer) Jeff Sparrow

Há dois anos atrás escrevi neste mesmo blogue sobre a COP15, cimeira bienal da Convenção para a Diversidade Biológica (CBD), sob os auspícios da ONU, que decorria então em Montreal, no Canadá. Realcei na altura que estas COPs são distintas das COP dedicadas ao clima (daí a numeração diferente) e são também menos mediáticas. Não é pois de estranhar que poucos se apercebam que está neste momento a decorrer até dia 1 de Novembro (começou a 21 de Outubro) em Cali, na Colômbia, a COP16, cujo lema é “Paz com a Natureza” (“Paz com la Naturaleza”) – ver p.ex. aqui ou aqui. Tem havido algumas notícias nos sites noticiosos portugueses (destaco a boa cobertura do Público) e internacionais, mas serão certamente menos perceptíveis do que as que ouviremos e leremos em breve quando começar a COP29 (do clima) no dia 11 de Novembro, em Baku (Azerbaijão), dada a maior cobertura mediática dada habitualmente à crise climática.

Acontece que o panorama sobre a biodiversidade a nível global é tão negro como o do clima e as 23 metas estabelecidas no acordo aprovado em 2022 na COP15 – o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (GBF), considerado “o Acordo de Paris da biodiversidade” – estão longe de ser alcançadas – ver p.ex. aqui e aqui. A meta mais emblemática era a de proteger 30% dos habitats terrestres e marinhos até 2030. Para se compreender a distância a que estamos de cumprir essa meta, poderia citar o relatório “On track or off course?”, encomendado pelo Bloomberg Ocean Fund e publicado nas vésperas da COP16, e que mostra que, no caso dos oceanos e da biodiversidade marinha, só foram efectivamente protegidas 2,8% das áreas críticas – ver aqui. Infelizmente, há mais dados pouco animadores. Citando outros exemplos de relatórios recentes, destaco as conclusões do “Living Planet Report 2024” da WWF que apontam para um declínio de 73% na dimensão média das populações de animais selvagens globais entre 1970 e 2020 e que, nos mesmos 50 anos, só na América Latina e Caraíbas, a queda registada foi de 95% - ver p.ex. aqui. Segundo o mesmo relatório, este declínio ficou a dever-se, nesta ordem, à perda ou degradação do habitat (sobretudo devido a desflorestação para uso agrícola), exploração exagerada de recursos, introdução de espécies invasoras, consequências das alterações climáticas e poluição. Um outro relatório refere-se à biodiversidade vegetal – a primeira Avaliação Global de Árvores (“Global Tree Assessment”) – e foi divulgado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) já durante a COP16. Segundo os dados obtidos, uma em cada três espécies de árvores do mundo está em risco de extinção – ver aqui. O problema é que o número de espécies de árvores ameaçadas (cerca de 38% do total das mais de 47000 espécies avaliadas), em 192 países, é mais do que o dobro de todas as aves, mamíferos, répteis e anfíbios combinados, segundo alerta a IUCN. Mais uma vez, as principais causas são a destruição de habitats (em particular, a desflorestação) e a introdução de espécies exóticas.

As causas do declínio de biodiversidade são aliás já conhecidas há muitos anos e tinham sido claramente reveladas no relatório de 2019 “Global Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services” do painel da ONU para a biodiversidade (IPBES, equivalente ao IPCC), sobre o qual escrevi aqui. Na altura, o coordenador do IPBES (Richard Watson) defendeu que a perda de biodiversidade e de ecossistemas induzida pelas actividades humanas é tão devastadora como as alterações climáticas e que os dois desafios não podem ser resolvidos isoladamente. De facto, o relatório do IPBES mostrava que a mudança climática não é a principal causa para a perda de biodiversidade e destruição dos ecossistemas, cujos principais determinantes são a usurpação de vastas áreas terrestres e marinhas para uso humano (desflorestação para agricultura e pecuária, expansão da ocupação humana, sobrepesca, etc.) e a exploração directa de animais e plantas, para além da introdução de espécies invasoras. Um corolário igualmente importante desta constatação, mas que é mais raramente explicitado, é que as crises climática e de perda de biodiversidade são na verdade sintomas de uma crise ecológica mais abrangente, que está, por sua vez, interligada com as outras crises globais (social, económica, ética) e é uma consequência de um modelo civilizacional hegemónico insustentável que colocou os interesses de muito poucos à frente do bem-estar de todos – humanos e não-humanos, presentes e futuros. Portanto, não resolveremos a crise ambiental, onde se inclui o declínio da biodiversidade, se não mudarmos o modelo societal dominante e a visão de mundo subjacente – ver meus posts anteriores (aqui e aqui) e ainda p.ex. artigo de Fevereiro da iniciativa “Scientists’ Warning” que advoga abordagens de longo prazo e de âmbito planetário na gestão da biodiversidade. Acontece que aquelas mudanças de fundo continuam fora do conjunto de compromissos e de ambições das diversas cimeiras e iniciativas mundiais – como mostrei em posts anteriores em relação às COP do clima (aqui) ou em relação à Agenda 2030 dos ODS (aqui). Mas voltemos à COP 16.

Num artigo sobre esta cimeira já citado acima, com o subtítulo “Países chegam com muita conversa e pouca acção”, a jornalista Aline Flor escreve: “Entre as prioridades da Colômbia, estão «implementação, integração e investimento», incluindo a adopção dos mecanismos e procedimentos para a monitorização e revisão dos planos nacionais de biodiversidade que, em teoria, teriam de ser apresentados até esta COP16.” No entanto, constata-se que as expectativas geradas pela COP15 não estão a ser correspondidas por ações concretas: “Dois anos depois da aprovação do GBF, contudo, o empenho dos países na aplicação das 23 metas de Kunming-Montreal parece insuficiente. À hora de fecho desta edição [20 de Outubro], 102 países tinham submetido metas avulsas, mas apenas 31 submeteram estratégias e planos de biodiversidade nacionais (NBSAP) actualizados [Portugal não é um deles – ver aqui], como tinha ficado combinado na COP15, o que corresponde a 16% dos 195 países da CBD.” Note-se que p.ex. os EUA nem sequer são subscritores da CBD! Mais à frente Aline Flor escreve: “Uma análise do site Carbon Brief nota que, infelizmente, «ainda não houve nenhuma meta atingida em matéria de biodiversidade até hoje». Isto acontece num contexto que muitos cientistas têm caracterizado como a «sexta extinção em massa».” (Recordo que há quem prefira designar o catastrófico declínio da biodiversidade como “1º extermínio em massa” para enfatizar o grau de premeditação dos seus agentes – ver p.ex. este meu outro post). O artigo resume assim as expectativas em vésperas da COP16: “Nina Mikander, directora de políticas da Birdlife International, adapta os versos de Elvis Presley para fazer um ponto da situação: «We need a little less conversation, a lot more action» (um pouco menos de conversa, muito mais acção).” Talvez um problema seja mesmo a ideia de separar 'conversa' e 'acção'...

António Guterres, no discurso de abertura da COP16, afirmou que a humanidade está em guerra com a natureza, enfatizando que esta é “uma guerra onde não há vencedores”. Já Gustavo Petro, presidente do país anfitrião, afirmou: “Estamos a entrar na era da extinção humana. Penso que não estou a exagerar”. Guterres alertou também os participantes da cimeira de que, se pretendem que se cumpra o lema da COP16, a sua tarefa é “converter palavras em acção”, apresentando planos nacionais de conservação e proteção alinhados com os objectivos ambiciosos do GBF. Para além de relembrar a interligação entre as crises da biodiversidade e do clima, Guterres fez uma afirmação bem mais inesperada, fazendo a ponte com o modelo económico dominante: “os motores desta destruição estão enraizados em modelos económicos obsoletos, que alimentam padrões insustentáveis de produção e consumo”. Estas palavras foram ecoadas e amplificadas pelas de Gustavo Petro, que fez um discurso contra a ganância, o motor do lucro, que destrói a vida”, afirmando: “Não se resolve a crise climática através da rentabilidade nem através das taxas de juro. Estamos a enganar-nos e o tempo está a esgotar-se” – ver aqui. Uma das propostas que avançou foi a de converter a dívida de muitos países para conseguir financiamento para as acções necessárias em prol da natureza e do clima. Isto porque, segundo dados do Banco Mundial, 60% das nações de mais baixos rendimentos, muitas das quais são também as mais vulneráveis aos danos ambientais, estão em dificuldades com a sua dívida, o que limita as suas capacidades de proteger a biodiversidade ou responder a ameaças climáticas. Petro aludiu ainda à polémica questão de financiar as perdas e danos dos países mais vulneráveis às consequências das alterações climáticas, que são normalmente também os mais pobres do mundo, um ponto quente das negociações do clima. Petro não tem dúvidas que esse esforço terá de vir dos países mais ricos que são aqueles que geram afinal os verdadeiros riscos para os países mais pobres. O presidente colombiano rematou assim: “O que precisamos é de democracia global. Espero que esta COP16 seja um ponto de inflexão. Quisemos que não fosse uma reunião numa alta montanha cheia de neve, isolada da humanidade, mas antes que se pudesse sentir o calor, o espírito de alegria da região”.

O financiamento dos esforços globais de conservação e proteção da biodiversidade e dos ecossistemas definidos no GBF, é um dos temas principais da COP16. E é um dos que mais polémica gera, como acontece nas negociações das COP do clima. O compromisso assumido por todos os países na COP15 seria o de mobilizar 200 mil milhões de dólares até 2030 (cerca de 185 mil milhões de euros), incluindo 20 mil milhões por ano até 2025 (cerca de 18 mil milhões de euros), para acções de preservação da natureza e dos seres vivos. O valor angariado até agora para o Fundo do Global da Biodiversidade, já com contribuições anunciadas por oito países do Norte global durante a actual COP16, é de 407 milhões de dólares (perto de 377 milhões de euros), ou seja apenas 2% do que foi prometido - ver aqui. Neste artigo, Clara Barata contextualiza este valor assim: “Como termo de comparação, este valor é menos de metade dos lucros da petrolífera portuguesa Galp só nos primeiros nove meses de 2024, 890 milhões de euros.” O outro mecanismo indirecto, que está também em cima da mesa das negociações durante a COP16, é o desvio de dinheiro que tem sido usado para financiar actividades nocivas para a natureza, como os subsídios para as indústrias de combustíveis fósseis ou para a agricultura industrial intensiva, e que poderia gerar cerca de 500 mil milhões de dólares (460 mil milhões de euros) por ano até 2030 – ver aqui. Segundo este artigo: “de acordo com um estudo da organização WWF publicado em Maio, até 60% do financiamento da Política Agrícola Comum (PAC) da UE, num total de 32,1 mil milhões de euros anuais, poderá estar a ser gasto em actividades agrícolas industriais «insustentáveis», que «devastam os habitats naturais». A WWF contabiliza ainda outros subsídios directos que potencialmente contribuem para a perda de natureza em sectores como as pescas (entre 59 e 138 milhões de euros), infra-estruturas de transportes (1,7 a 14,1 mil milhões de euros) e infra-estruturas hídricas (1,3 a 2 mil milhões de euros).” Em relação a Portugal, a versão portuguesa abreviada do relatório da WWF, que ao nível nacional está articulada com a Associação Natureza Portugal (ANP), destaca os desafios do país para lidar com a crise do clima e da biodiversidade e reivindica “um plano concreto para eliminar todos os subsídios a combustíveis fósseis até 2030”. O mesmo relatório sublinha que a Lei do Restauro da Natureza, diploma europeu agora em vigor, deveria ser “apoiada por um plano nacional que identifique áreas e espécies prioritárias para recuperação, com financiamento adequado, público e privado”. Manifesta ainda preocupação com a manutenção de barragens fluviais obsoletas e discordância com o investimento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) na barragem de Pisão, que, para a ANP, “irá destruir biodiversidade e impulsionar um modelo agrícola desadequado e insustentável” – ver também aqui.

O problema da ênfase nas questões do financiamento, mas também o das chamadas “Soluções Baseadas na Natureza” (SBN) ou das “Empresas de Activos Naturais” (EAN) – a que aludi aqui –, é a ideia (aparentemente bem intencionada) de que a resolução da crise ambiental e a mitigação dos seus impactos nocivos se resolvem mobilizando os fundos necessários ou a benevolência do sector empresarial corporativo – mas leiam-se os artigos críticos deste tipo de abordagens (que citei no meu post sobre a COP15): aqui, aqui e aqui. Aquela parece ser a convicção de uma académica e um especialista portugueses (Helena Freitas e Afonso Dinis) das áreas da ecologia e sustentabilidade, apologistas do ‘desenvolvimento sustentável’, da agenda dos ODS e da ‘economia verde’, que escreveram um artigo de opinião para o Público por estes dias, onde dão ênfase às oportunidades económicas das acções de proteção da natureza. O espírito (e a linguagem) empresarial está bem patente, p.ex. nestes excertos do artigo: “As empresas desempenham um papel decisivo na maximização dos benefícios das SBN. Ao adotarem práticas que respeitam e promovem a natureza, podem não apenas mitigar o impacto ambiental das suas operações, mas também explorar novas oportunidades de negócio. (…) As SBN posicionam as empresas como catalisadoras de uma economia mais verde e resiliente, criando valor partilhado que beneficia tanto os seus clientes quanto as comunidades e os ecossistemas locais. Este modelo fortalece as relações com os stakeholders e aumenta a aceitação social dos projetos, criando vantagens competitivas num cenário global em transformação”. Não quero dizer com isto que não haja iniciativas empresariais que contribuam genuinamente para o restauro e a regeneração de ecossistemas, mas a lógica mercantil e do lucro, assim como a visão antropocêntrica do mundo, que lhes subjazem não são postas em causa – ver p.ex. esta campanha da iniciativa Navdanya International, que denuncia a financeirização e mercantilização dos bens naturais. E isso é um claro entrave à mudança radical que seria necessária para invertermos o rumo do ecocídio em curso – ver os meus posts anteriores, aqui e aqui. A outra questão de fundo importante é que a insistência em quantificar os bens naturais e os chamados ‘serviços de ecossistemas’ atribuindo-lhes valores monetários (ver p.ex. a secção sobre ‘Impactos económicos’ deste artigo já citado acima), não só lhes ocultam o valor intrínseco, como exacerbam a perspectiva economicista e o excepcionalismo humano que estão na base dessa mesma abordagem – ver este meu post de 2015.


O tom do artigo de Freitas e Dinis contrasta com o da entrevista à bióloga Maria Amélia Martins-Loução (aqui) ou com o do artigo de opinião de Ângela Morgado, directora da ANP-WWF (aqui), que saíram também em Outubro. Na primeira, Martins-Loução lamenta a menor atenção dada à biodiversidade, quando comparada com o clima, e destaca a importância fulcral que aquela tem para inúmeras actividades humanas (embora opte por se referir aos ‘serviços’ que a biodiversidade presta aos humanos…). Destaca a pouca atenção e relevância dada à biodiversidade, quer pelos media, quer pelos decisores políticos, que justifica em parte a inação que se tem verificado. Denuncia ainda o poder do lobby agrícola na UE, que alega ser ainda mais poderoso do que o dos combustíveis fósseis, e os retrocessos na implementação do Pacto Ecológico Europeu. As contradições e retrocessos da UE em matéria de proteção ambiental foram também denunciadas neste artigo já citado acima. Por seu lado, Ângela Morgado alerta para o ponto de não retorno em que o sistema terrestre entrou devido aos “impactos negativos acumulados causados por décadas de más práticas” e que a “a mudança perpetuar-se-á de forma descontrolada, abrupta e potencialmente irreversível”. Morgado refere ainda: “Os decisores políticos estão mais do que conscientes desta realidade: estamos a atingir todos os limites de risco. E sabem também que, na sua grande maioria, as ameaças ao clima e à biodiversidade têm origem em más práticas governamentais e empresariais orquestradas ao longo de todos estes anos, alimentados por interesses de curto prazo que trazem uma ilusão de felicidade e bem-estar apenas para alguns, comprometendo o nosso futuro comum.” Embora não atribua ao sistema económico a causa profunda para este estado de coisas, Morgado defende “que haja coragem para criar e implementar um verdadeiro Plano de Recuperação e Resiliência só para a Natureza, mas desta vez sem os interesses mascarados de desenvolvimento sustentável e transição climática presentes no plano atual” e recorda que “a União Europeia canaliza, todos os anos, mais de 30 mil milhões de euros em subsídios para atividades que prejudicam a biodiversidade”.


Um ponto importante que ficou consagrado no GBF foi o reconhecimento do papel fundamental dos povos indígenas e comunidades locais como actores centrais na sua execução, criando mecanismos de participação nos processos oficiais de tomada de decisão. O próprio secretário-geral das Nações Unidas saudou os planos de criação de um organismo permanente na CBD para ter em conta o conhecimento e os interesses dos povos indígenas e comunidades locais, afirmando que “Temos de proteger quem protege a natureza”. O reconhecimento do papel destes povos e comunidades na conservação da biodiversidade e ecossistemas está consagrado na CBD e tinha sido reconhecido no relatório do IPBES publicado em 2019 (que analisei aqui). Um dos mecanismos legais que o tem reafirmado é o reconhecimento da natureza ou de elementos naturais como sujeitos de direitos (os também chamados ‘Direitos da Natureza’), sendo a sua proteção garantida por guardiões das comunidades que neles habitam e deles dependem, com alguns exemplos de sucesso (ver p.ex. aqui) – escrevi sobre este tópico aqui, onde também expus as limitações dessa abordagem. Este assunto está igualmente em discussão na COP16 pelas vozes de representantes de povos indígenas, que defendem o direito ao usufruto e gestão das suas terras, sujeitas muitas vezes à pressão dos interesses das indústrias extrativas ou agrícolas – ver p.ex. aqui e aqui.

Pelo que expus acima e pelo historial de insucesso de variadas cimeiras internacionais dos últimos anos, as esperanças depositadas nesta COP16 são limitadas. O secretário-geral da ONU reconhece que, “fazer as pazes com a natureza é a tarefa definidora do século XXI”. Entretanto, foi anunciada esta semana durante a COP16 a criação de uma ‘Coligação Mundial para a Paz com a Natureza’ que congrega para já 21 países – ver aqui. O anúncio foi acompanhado da divulgação da sua declaração inaugural que define um conjunto de princípios para o financiamento para a conservação e o desenvolvimento sustentável, a cooperação internacional e a mobilização de toda a sociedade para a preservação da natureza. Será suficiente? Duvido… É que o desafio que temos de enfrentar é bem mais colossal do que aquela bela frase de António Guterres dá a entender: trata-se de um autêntico extermínio em massa por agentes do poder corporativo e financeiro global que sabem o que estão a fazer, como alertou Justin McBrien num artigo de 2019 (que citei aqui). Ainda iremos a tempo? A tarefa é hercúlea: é toda uma mudança de paradigma - socioeconómico e político, mas também cultural e ético) - que será necessária! Mas não me parece que tenhamos alternativa e seria bom que todos aqueles que sabem o que está em jogo – a sobrevivência de toda a vida, incluindo a nossa – façam aquilo que podem/sabem no lugar onde estão (lancei algumas pistas aqui, aqui e aqui). Seria afinal adoptar as cosmovisões e modos de vida de certas comunidades indígenas, que se traduzem nas expressões ‘buen vivir’ ou ‘buen convivir’ (ver p.ex. aqui) e se podiam resumir num conhecido slogan de colectivos que promovem modos de vida autónomos (ver p.ex. aqui ou aqui): “Não defendemos a natureza, somos a natureza que se defende”.


domingo, 18 de dezembro de 2022

A apropriação mercantil da natureza e o extermínio da biodiversidade

Ao longo de toda a história humana, a natureza tem sido ‘O Comum’ de toda a sociedade que nos providencia os recursos culturais e naturais, incluindo processos físicos como o ar e a água. Mas agora, investidores privados pretendem subtrair esses bens, com alegações de estarem a agir em nome da ‘conservação e sustentabilidade’ de 30% do que apelidamos ‘áreas protegidas’ dos nossos preciosos bens naturais globais. Robert Hunziker

À medida que milhões de espécies são extintas, a biodiversidade que sustenta o ecossistema planetário, tal como o conhecíamos, está em perigo. Esta catástrofe não pode ser contida – muito menos revertida – dentro da atual cultura capitalista. Enfrentamos uma escolha clara: transformação política radical ou aprofundamento da extinção em massa. Ashley Dawson

É provável que não saibam, mas está a decorrer em Montreal desde o dia 7 de Dezembro a conferência da ONU para a biodiversidade (COP15) – ver p.ex. aqui. De facto, pouco se ouviu falar dela quando se compara com a cobertura mediática dada à outra conferência das Nações Unidas sobre o clima (COP27) que decorreu em Novembro no Egipto (ver meu post anterior). As conferências dedicadas à biodiversidade têm uma periodicidade bienal (daí a numeração distinta) e esta era suposto ter decorrido em 2020 na China, mas foi adiada devido à pandemia, mantendo a designação ‘2020 UN Biodiversity Conference’. As comparações entre os dois tipos de conferências não se ficam por aqui; na agenda da COP15 está um acordo ambicioso, o Quadro Global da Biodiversidade pós-2020, que almeja travar a perda de biodiversidade até 2030 e promover a regeneração dos ecossistemas até 2050, e que tem sido equiparado ao Acordo de Paris para o clima - ver p.ex. aqui ou aqui. Tal como na COP27, o secretário geral da ONU, António Guterres, fez um discurso na abertura desta COP15 recheado de frases chamativas e dramáticas - ver aqui ou aqui: “Nature is humanity’s best friend. Without nature, we have nothing. Without nature, we are nothing. (…) Multinational corporations are filling their bank accounts while emptying our world of its natural gifts. Ecosystems have become playthings of profit. With our bottomless appetite for unchecked and unequal economic growth, humanity has become a weapon of mass extinction. We are treating nature like a toilet. And ultimately, we are committing suicide by proxy.” (como nota à margem, o Público traduziu literalmente a penúltima frase de forma, no mínimo, caricata: “Estamos a tratar a natureza como uma casa de banho”!).

Lamentavelmente, tal como nas suas congéneres dedicadas ao clima, os resultados práticos das negociações das COP da biodiversidade têm ficado muito aquém do que seria necessário atendendo à dimensão e gravidade da crise de perda de biodiversidade, já sobejamente diagnosticada – ver p.ex. meus posts anteriores, aqui e aqui. De facto, na COP10 no Japão, em 2010, os governos tinham-se comprometido a cumprir os 20 Objetivos da Biodiversidade de Aichi até 2020, incluindo a redução da perda de habitats naturais para metade e a implementação de planos para o consumo e a produção sustentáveis. De acordo com um relatório de 2020, nenhuma dessas metas foi totalmente atingida (ver p.ex. aqui). Nesta reunião em Montreal, os 196 países participantes que ratificaram a Convenção sobre Diversidade Biológica, tencionam negociar um Quadro Global da Biodiversidade (QGB) que empurra algumas daquelas metas para 2030 ou 2050. Não é pois de estranhar que, apesar das palavras pungentes de António Guterres, muitos ambientalistas estejam pessimistas em relação às metas em cima da mesa de negociações, que incluem a redução do risco de extinção que ameaça mais de um milhão de espécies, a proteção de 30% dos ecossistemas terrestres e marinhos ou a eliminação dos subsídios governamentais prejudiciais ao meio ambiente – ver p.ex. aqui ou aqui. Tal como na COP27, um dos tópicos que dificilmente gerará consenso na actual COP15 é o estabelecimento de um fundo de apoio financeiro aos países do Sul global para a implementação dos objectivos do QGB. Além disso, parece-me manifestamente insuficiente e até ilusório querer resolver a questão da justiça ambiental global atirando milhões de dólares (ou euros) aos problemas.

De facto e do mesmo modo que as mudanças climáticas, também a perda de biodiversidade tem uma génese sistémica que não será possível mitigar apenas através de medidas técnicas ou financeiras. Tal como defendem muitos pensadores, investigadores e activistas que citei em posts anteriores (p.ex. aqui e aqui), os impactos ambientais destrutivos das actividades humanas - que incluem, quer a perda de biodiversidade, quer as alterações climáticas - resultam sobretudo dos padrões insustentáveis de produção e de consumo de uma parte privilegiada das populações humanas, em particular nos países do Norte global. Por sua vez, aqueles padrões têm a sua raiz no sistema económico globalizado baseado num modelo capitalista neoliberal dependente do crescimento desenfreado, do extrativismo depredador e da expansão da mercantilização, que se estende agora também aos bens comuns naturais. Seria portanto necessário abandonar este sistema económico ecocida, mas essa possibilidade não é sequer contemplada pelos delegados que se reúnem em Montreal.

Como referi acima, uma das medidas a ser discutida durante esta COP15 é a proteção de 30% das áreas naturais. Acontece que algumas das propostas de implementação desta medida avançadas nos últimos anos e englobadas nas chamadas ‘nature-based solutions’ (soluções de base natural, ver aqui ou aqui) – onde se incluem a abordagem designada por ‘New Deal for Nature’ ou as ‘Natural Asset Companies’ (empresas de activos naturais), muito acarinhadas pelo sector corporativo – têm encontrado forte oposição por parte de alguns ambientalistas mais radicais, que as têm denunciado como meros estratagemas, não só para manter o ‘business as usual’ do produtivismo e do mercantilismo capitalista global, como também para a apropriação dos bens comuns naturais pelas corporações financeiras internacionais – ver p.ex. artigos de opinião de Stephen Corry (Survival International), de Riccardo Petrella (Ágora de los habitantes de la Tierra) ou de Robert Hunziker. É evidente também aqui um claro paralelismo com as abordagens de mitigação da crise climática, nomeadamente as que se inserem no chamado ‘capitalismo verde’ – ver p.ex. aqui ou aqui.

Também Justin McBrien (aqui), que propôs mudar a designação de ‘Sexta extinção’, frequentemente atribuída à actual crise de perda de biodiversidade (ver p.ex. aqui), por ‘Primeiro extermínio em massa’, atribui este evento aos efeitos colaterais do capitalismo global. Essa tese havia sido defendida anteriormente por Ashley Dawson no seu livro ‘Extinction: A Radical History’ publicado em 2016 (ver p.ex. aqui ou aqui). Nele Dawson começa por reconhecer que the extinction crisis is at once an environmental issue and a social justice issue, one that is linked to long histories of capitalist domination over specific people, animals, and plants.” O autor defende que a constante necessidade de expansão do sistema capitalista global para evitar a sua própria extinção levou-o a estender a sua empreitada de apropriação aos bens comuns naturais: “Nature, the wonderfully abundant and diverse wild life of the world, is essentially a free pool of goods and labor that capital can draw on.Dawson relembra que: “As critics such as Michael Hardt and Antonio Negri have argued, aggressive policies of trade liberalization in recent decades have been predicated on privatizing the commons — transforming ideas, information, species of plants and animals, and even DNA into private property.” O autor conclui: “The destruction of global biodiversity needs to be framed, in other words, as a great, and perhaps ultimate, attack on the planet’s common wealth. Indeed, extinction needs to be seen, along with climate change, as the leading edge of contemporary capitalism’s contradictions. (…) There are at present no effective institutions to deal with the ‘cancerous degradation’ of the global environment that David Harvey argues is brought about by capital’s need for continuous exponential growth. And yet capital of course depends on continuous commodification of this environment to sustain its growth.Segundo o autor, as únicas soluções viáveis passam por uma transformação política radical recorrendo a abordagens pós-capitalistas de conservação fundadas na justiça social e ambiental.

De notar que a crítica à apropriação mercantil dos bens naturais e à sua valorização exclusivamente em termos económicos foi feita pelo próprio IPBES (Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services), órgão da ONU equivalente ao IPCC, no seu relatório sobre a valorização dos bens naturais ‘Assessment Report on the Diverse Values and Valuation of Nature’, publicado este ano. Nele os autores concluem pela necessidade, não só de abandonar o foco dominante nos lucros de curto prazo e no crescimento económico, como também de considerar múltiplas formas de valorização dos bens naturais nas decisões políticas sobre a sua gestão.

Como antídotos e alternativas às abordagens economicistas e mercantis, têm surgido recentemente diversas propostas baseadas na justiça económica e no envolvimento dos povos indígenas e das comunidades locais na gestão da biodiversidade, como o “Marseille Manifesto: a people’s manifesto for the future of conservation”, elaborado por membros da plataforma ‘Survival International’ no congresso ‘Our Land, Our Future’ em 2021, ou o conceito de ‘Convivial conservation’, elaborado por Bram Büscher and Robert Fletcher em 2019. Tenciono desenvolver este tema num próximo post.


Recursos audiovisuais adicionais:

Extinction: A Radical History (OR Books, 2016): https://youtu.be/CPXShU9Zp2c (2’30)

The Big Green Lie (Survival International, 2021): https://youtu.be/xRc7Ez8uY7A (3’)

The Case for Convivial conservation (Bord&Stift, 2019): https://youtu.be/AIHRdJmURdc (3’23)


P.S. Acaba de ser publicado um artigo no site do projecto 'Navdanya International', fundado e liderado por Vandana Shiva, que traça um historial da Convenção para a Diversidade Biológica e das conferências das NU para a biodiversidade, denunciando a implantação progressiva nos últimos anos de uma agenda que prioriza a mercantilização e a financeirização na definição de estratégias de mitigação da crise ambiental global, cuja leitura recomendo.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O rei da criação?

 

“(…) o ser humano está provocando o 1º extermínio ecocida em massa. Acontece que o Ecocídio é também um suicídio, pois o ser humano não consegue viver sem a natureza e sem a riqueza dos ecossistemas…” José Eustáquio D. Alves

We are in the midst of the First Extermination Event, the process by which Capital has pushed the Earth to the brink of the Necrocene, the age of the new necrotic death.Justin McBrien

We’re hard at work: every day, someone is slitting, skinning, eviscerating, clubbing, beating, kicking, dragging, hoisting, shackling, or whipping some creature. And we’ve come up with so many ways to dispatch them… (…) if we just stay the course, then in, say, two hundred years’ time, we might just accomplish our dream. Either that, or it won’t matter anyway, because our own species won’t be around to appreciate our handiwork.Martin Rowe

A imagem que encabeça este post ilustra uma curta de animação de Steve Cutts (‘Man’, 2012) onde este desenhador e videasta britânico retrata de forma propositadamente satírica e brutal a relação do ser humano moderno com os restantes seres vivos. Embora pareça exagerado e algo simplista, o vídeo transmite o carácter especialmente doentio que essa relação tem assumido nos últimos decénios, como nos dizem aliás diversos diagnósticos recentes (ver p.ex. aqui ou aqui). Embora se use a expressão ‘6ª extinção em massa’ para caracterizar a dimensão da crise de declínio da biodiversidade causado pelas actividades humanas, a expressão correcta deveria ser ‘1º extermínio em massa’ (ver p.ex. aqui ou aqui; artigos dos quais extraí as duas primeiras citações que encabeçam este post). Isto porque há já algumas décadas que sabemos não só as causas daquele declínio (as actividades destrutivas das sociedades humanas industrializadas: desflorestação, sobrepesca, expansão urbana e agrícola, etc.), como sabemos que apenas uma parte da humanidade é de facto responsável por aquele extermínio (as elites do poder político e económico, bem como as populações privilegiadas do Norte global) – escrevi anteriormente aqui sobre este tópico e também num artigo para a revista Flauta de Luz (“O asteróide somos nós”: nº6, 2019, pp, 26-37).
Uma outra forma de perceber a dimensão do impacto da acção humana e de justificar o epíteto ‘rei da criação’ resulta de um estudo recente (2018) que estimou a biomassa (peso de cada ser vivo) de todos os organismos existentes no planeta (animais, plantas e micróbios) – ver aqui ou aqui. Essa avaliação concluíu que, apesar de representarem apenas 0,01% da biomassa global (a sua principal componente é a biomassa vegetal, que representa 80% do total) e 2,3% da biomassa animal, os seres humanos representam, em conjunto com os animais criados para alimentação humana (vacas, porcos, ovelhas), 96% da biomassa de todos os mamíferos. Ou seja, os mamíferos selvagens representam apenas 4% do peso de todos os mamíferos existentes (incluindo os humanos, 36%, e os animais domésticos, 60%). Também no caso das aves, as galinhas de criação e outras aves de capoeira representam cerca de 70% da biomassa total da avifauna. Aquele mesmo estudo mostra, no entanto, que o papel de ‘criador’ não é aquele que devia ser destacado mas sim o de exterminador (implacável!), já que as actividades humanas são já responsáveis por uma redução da biomassa dos mamíferos marinhos e terrestres (selvagens) por um factor de seis vezes e pela redução para metade da biomassa vegetal terrestre (ver aqui e aqui). Mesmo as inúmeras variedades de plantas e animais criadas localmente por todo o globo e durante muitas gerações para a produção alimentar estão ameaçadas de extinção pela agricultura e pecuária industriais que privilegiaram nas últimas décadas apenas umas poucas de cultivares e raças para a produção global e intensiva.
Mas nem mesmo os animais domesticados e criados pelos seres humanos estão a salvo da chacina infligida pelo ‘grande exterminador’. Devido a alegadas razões sanitárias, milhões de cabeças de gado ou de aves de capoeira têm sido abatidas nas últimas décadas, mesmo antes de atingirem o tempo de vida que lhes seria concedido ‘a priori’. Um dos abates em massa mais tristemente famoso foi o que sucedeu durante a chamada crise da ‘doença das vacas loucas’ (BSE), em meados dos anos 1990, que levou ao abate de mais de 4 milhões de animais só no Reino Unido, embora a principal causa da epidemia tivesse ligada ao modo industrial de produção animal e à utilização de farinhas animais nas rações, e a variante humana da doença tenha provocado a morte de pouco mais de 150 pessoas a nível mundial (ver p.ex. aqui). Uns anos mais tarde, foram os surtos de febre aftosa bovina que levaram ao abate de mais de 6 milhões de bovinos, ovinos e caprinos, só no Reino Unido, apesar do número de casos entre os animais não ter excedido alguns milhares (ver p.ex. aqui). Mais recentemente, surtos de gripe das aves levaram a ‘abates preventivos’ de centenas de milhares de aves de criação (principalmente galinhas e patos) em todo o mundo: Portugal, Espanha, França, Estados Unidos, Reino Unido, Israel, Índia, Japão. As razões alegadas pelas autoridades governamentais ou sanitárias para aqueles abates prendem-se com a prevenção do contágio entre os animais das pequenas e grandes produções agro-pecuárias e aviários, mas também com a eventual transmissão para humanos. No entanto, as previsões baseadas em modelos epidemiológicos que foram usadas para justificar alguns dos abates em massa têm vindo a ser criticadas por académicos que as acusam de serem desnecessariamente alarmistas e mesmo incorrectas, em particular aquelas que vieram da equipa do Imperial College liderada por Neil Ferguson (conhecido entre os seus pares por ‘The Master of Disaster’) – ver aqui, aqui ou aqui. As suas previsões sobre eventuais números de casos resultantes de surtos de gripe suína, febre aftosa e BSE no Reino Unido estavam notoriamente equivocadas. Recorde-se que foi aquela mesma equipa de epidemiologistas que motivou a viragem na política sanitária do governo britânico no início da pandemia da Covid em 2020 (ver p.ex. aqui).
Uma série de episódios de abates em massa, menos conhecidos e que estiveram relacionados com a pandemia da Covid, aconteceram em 2020 em países com criações de vison-americano para a indústria das peles (‘fur farms’), nomeadamente a Dinamarca, a Holanda e a Espanha. Na Dinamarca, o maior produtor mundial de peles de vison para exportação, o episódio gerou uma crise política que culminou com a demissão do ministro da agricultura e um pedido de desculpas público da primeira-ministra (ver aqui e aqui), tendo o governo sido forçado a suspender o abate dos cerca de 17 milhões de animais nas mais de 1000 criações em todo o país (ver aqui). Na Holanda, o governo foi mais longe e decidiu banir as criações de animais para a produção de peles até meados de 2021 (ver aqui). Mais uma vez, o possível contágio entre os animais das criações, a geração de mutantes e a eventual transmissão dos animais para humanos esteve na origem dos abates, embora as evidências para esta última transmissão não sejam convincentes (ver aqui ou aqui). Com excepção das medidas drásticas do governo holandês, a criação industrial de animais 
não foi posta em causa, em condições muitas vezes questionáveis e que favorecem a disseminação de doenças infecciosas (ver aqui).
O recurso recorrente a abates em massa durante crises sanitárias, que evitam que se ponha em causa a criação industrial intensiva de animais para alimentação ou vestuário, levou o norte-americano Martin Rowe, defensor dos direitos animais e do vegetarianismo, a escrever um texto sarcástico onde defende o extermínio de todos os animais do mundo como forma de prevenir futuras epidemias de doenças zoonóticas (transmitidas de animais para humanos). Nesse texto, do qual extraí umas das citações que abre este post, o autor reconhece que, infelizmente, essa empreitada já está em curso e poderá ter um enorme e trágico sucesso. Na mesma linha satírica, o videasta Steve Cutts publicou em 2020 uma sequela da sua animação de 2012, inspirada numa das consequências dos confinamentos da 1ª fase da pandemia Covid que impediram muitos seres humanos de realizar, pelo menos provisoriamente, as suas tarefas quotidianas. Já o psicólogo canadiano Todd Hayden teceu, num outro texto, uma análise contundente da nossa relação funesta e do nosso distanciamento em relação à natureza, defendendo que as políticas de mitigação da pandemia Covid foram uma extensão e um sintoma daquele afastamento e refletem um medo doentio das sociedades modernas em relação ao mundo natural: (excerto) “The problem itself is fear. (…)  This is the real problem: our distorted belief that nature itself is the real enemy. Forget the miracle of the human immune system and how it is designed to function by taking in pathogens and building antibodies, it is better to live in a bubble because nature can’t get you then, create a vaccine, let science protect you, nature will kill you. If you didn’t have to be an animal and be a part of nature, you could live forever.No mesmo contexto da pandemia e de forma menos polémica mas igualmente incisiva, o jornalista português Vítor Belanciano escreveu numa das suas crónicas para o jornal Público: (excertos) “Talvez possamos utilizar a dolorosa aprendizagem deste momento para não voltar ao que nos querem fazer crer que é a ‘normalidade’, que não é mais do que uma ‘normalização’ imposta por um modo de existência predatório. (…) será possível atenuar os problemas apelando apenas à boa consciência de cada um, sem questionar estruturas de poder, modelos económicos, lógicas de acumulação de lucro ou de crença no crescimento infinito? Não é crível. (…) O desafio é, então, aprender a viver de forma não predatória, entendendo que somos parte da terra e não os seus amos. O vírus veio recordar-nos que o nosso destino está enlaçado com as demais criaturas e entidades. Mas vai demorar a alcançar esse entendimento. Vê-se isso quando falamos em ‘isolamento social’ ou em ‘guerra’ contra o vírus, como se nos posicionássemos fora da natureza. (…) não existimos nós, os seres humanos, de um lado, e a natureza, do outro. O planeta é um complexo organismo vivo de coabitação, de afectação mútua e conectividade entre diversas formas de existência. Temos estado cegos à interconexão da natureza. É vital despertar para ela.


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Emergência ecológica: ignorar este apelo é criminoso!

"Nature is not dying so much as being killed, by people who know perfectly well what they’re doing." Jeff Sparrow

Chega de linguagem branda e de falinhas mansas. Chega de promessas políticas vãs, de fantasiosas tecnologias salvíficas e de economias verdes míticas. Não me venham dizer que falar da catástrofe anunciada pelos cientistas (ver p.ex. aqui) assusta as criancinhas e paralisa os cidadãos. Que os líderes não mexam uma palha ou anunciem 'metas de descarbonização' para quando já não estiverem no poder ou já haver pouco para salvar, não é de espantar - escrevi sobre isso aqui. Agora que os cidadãos não entendam, ou não queiram entender, o que está em jogo (o futuro de todos, incluindo o dos seus filhos e netos) quando a informação disponível é inequívoca - isso sim, é inaceitável - e criminoso! Criminoso porque aquilo a que estamos a assistir é à destruição da natureza da qual dependemos e ao extermínio de milhares de espécies. Os cientistas referem-se à época que estamos a viver como o Antropoceno (ou Antropocénico) e designam a crise de perda de biodiversidade como a '6ª extinção em massa' (ver p.ex. aqui). Na verdade, devíamos antes falar do '1º extermínio em massa' porque é disso que se trata (ver artigo contundente de Jeff Sparrow aqui). Sabemos muito bem o que estamos a fazer - e quem o está a fazer (ver aqui ou aqui) - mas continuamos como se não houvesse amanhã, apenas para satisfazer os desejos de consumo e a 'boa vida' de uma parte privilegiada da humanidade. E não fazer nada é também uma escolha (ver aqui). Os jovens que já acordaram para a gravidade da situação e decidiram dizer o que pensam sobre a irresponsabilidade dos adultos têm razão (ver aqui) - 'não vos perdoaremos por não terem feito nada quando sabiam o que estavam a fazer'! Hoje (27 Set) é mais um dia para que possamos estar juntos e dizer ao mundo que é hora de acordar, de aceitar a dureza da realidade e de tomar a responsabilidade de reflectir e de agir. E continuar a fazê-lo nos dias seguintes (ver p.ex. aqui). É natural que a tarefa que temos pela frente pareça irrealizável e que sintamos medo do desconhecido. Mas podemos contar com a coragem e o alento do estarmos juntos. Como diz a jovem sueca que inspirou muitos outros jovens em todo o mundo: 'No one is too small to make a difference'. E como dizia a activista Wangari Maathai 'cada um/uma faça o melhor que pode' (video).
Concluo com um excerto do poema "Hieroglyphic stairway" do poeta norte-americano Drew Dellinger:
"It’s 3.23 in the morning
and I’m awake
because my dreams
won’t let me sleep
my great-great-grandchildren
ask me in dreams
what did you do while the planet was plundered?
what did you do when the earth was unraveling?
surely you did something
when the seasons started failing?
as the mammals, reptiles, birds were all dying?
did you fill the streets with protest
when democracy was stolen?
what did you do
once
you
knew?
"
(poema completo aqui)

terça-feira, 7 de maio de 2019

Relatório IPBES – a natureza em vias de extinção

[Nota: o subtítulo original deste post - 'um retrato esmagador do estado da biodiversidade e dos ecossistemas planetários' - foi substituído a 30 Mai]
O relatório da plataforma intergovernamental para a biodiversidade e os ecossistemas (IPBES – ‘Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services’) foi ontem (6 Mai) divulgado na sede da UNESCO em Paris e demonstra de forma categórica aquilo que já sabíamos - estamos a destruir, a um ritmo acelerado e sem precedentes, o mundo natural do qual fazemos parte e do qual dependemos: https://www.ipbes.net/news/Media-Release-Global-Assessment
O IPBES, conhecido como ‘o IPCC para a biodiversidade’, é uma plataforma criada em 2012 e que reúne representantes dos governos de mais de 130 países, sob os auspícios das Nações Unidas, para reflectir e propor medidas para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade e dos ecossistemas. Os seus membros estiveram reunidos em Paris entre 29 Abril e 4 Maio para ratificar o relatório, preparado durante três anos por 150 peritos de 50 países, sendo o primeiro documento desta envergadura a nível internacional desde o ‘Millenium Ecossystem Assessment’ publicado em 2005. As manchetes escolhidas para encabeçar o comunicado de imprensa são bem expressivas: Declínio perigoso da Natureza ‘sem precedentes’; Taxas de extinção de espécies ‘em aceleração’; Resposta global actual insuficiente; Mudanças transformadoras serão necessárias para restaurar e proteger a natureza; Oposição por parte de ‘interesses instalados’ terá de ser superada para o bem público; Um milhão de espécies ameaçadas de extinção!
A principal mensagem do relatório é enfatizada num artigo no The Guardian assinado pelo coordenador do IPBES (Richard Watson) onde defende que a perda de biodiversidade e de ecossistemas induzida pelas actividades humanas é tão devastadora como as alterações climáticas e que os dois desafios não podem ser resolvidos isoladamente. Watson lembra ainda que os avisos sobre a situação calamitosa descrita no relatório já tinham sido dados por ambientalistas, cientistas e povos indígenas, e admite que governantes e empresários, ou não ligaram e não fizeram nada, ou se fizeram alguma coisa foi insuficiente.

O diagnóstico traçado pelo relatório é exaustivo e desolador: um milhão de espécies de animais e plantas estão ameaçadas de extinção num prazo de poucas décadas; a abundância de espécies nativas nos habitats terrestres desceu pelo menos 20% desde 1900; mais de 40% dos anfíbios, 33% dos mamíferos marinhos e dos corais estão em risco de extinção; as taxas de extinção actuais são dezenas a centenas de vezes superiores ao seu valor nos últimos 10 milhões de anos; 75% dos ambientes terrestres e 66% dos ambientes marinhos foram alterados significativamente pelas actividades humanas, com a notável excepção das áreas ocupadas ou geridas por povos indígenas ou comunidades locais; mais de um terço da superfície terrestre e quase três quartos dos recursos de água doce foram convertidos para a produção agrícola e animal; a produtividade global dos solos caiu 23%, não só devido ao empobrecimento em nutrientes resultante da agricultura intensiva como também devido à perda de insectos que desempenham um papel crucial na polinização; um terço das reservas marinhas de peixe estão a pescar-se a níveis insustentáveis e outros 60% no limite máximo da sustentabilidade. É possível consultar uma súmula das principais estatísticas do relatório em: https://www.ipbes.net/news/Media-Release-Global-Assessment#_By_the_Numbers
Apesar de não ‘dourarem a pílula’, as divulgações do relatório não recorrem à expressão ‘Sexta extinção em massa’ que tem sido muito usada para descrever a extensão e gravidade dos processos de perda de biodiversidade em curso, com destaque para o livro da jornalista Elizabeth Kolbert (‘A sexta extinção’) publicado este ano em Portugal*. Outro aspecto que me parece relevante é que continua patente neste relatório uma visão antropocêntrica do mundo, que se manifesta nomeadamente na sobrevalorização dos efeitos da destruição da natureza no bem-estar e sobrevivência humanos – como se a destruição de espécies e ecossistemas fosse um mero efeito colateral indesejado.

Uma das conclusões importantes do relatório é que a mudança climática não é a principal causa para a perda de biodiversidade e destruição dos ecossistemas, cujos principais determinantes são a usurpação de vastas áreas terrestres e marinhas para uso humano (desflorestação para agricultura e pecuária, expansão da ocupação humana, etc.) e a exploração directa dos organismos, para além da introdução de espécies invasoras. Um corolário igualmente importante desta constatação é que as crises climática e de perda de biodiversidade estão ligadas e fazem parte de uma crise ecológica mais abrangente, que, por sua vez, está ligada às outras crises globais (social, económica, ética) e é uma consequência de um modelo civilizacional hegemónico que colocou os interesses de muito poucos à frente do bem-estar de todos – humanos e não-humanos, presentes e futuros. E, como não me canso de relembrar, esse modelo civilizacional globalizado está, por sua vez, apoiado num modelo de desenvolvimento sócio-económico dependente do crescimento permanente da produção e consumo, com o consequente esgotamento de recursos e destruição ambiental generalizada, como veio reforçar este novo relatório. Curiosamente, a questão da insustentabilidade do sistema financeiro e económico e da sua dependência do crescimento surge apenas timidamente no final do comunicado de imprensa: “a key element of more sustainable future policies is the evolution of global financial and economic systems to build a global sustainable economy, steering away from the current limited paradigm of economic growth”. Convém lembrar que a agenda dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU inclui o crescimento no seu oitavo objectivo: ‘emprego digno e crescimento económico’.
O outro aspecto que surge de forma indirecta no relatório é o facto de os responsáveis pela destruição em curso representarem apenas uma parte minoritária da humanidade que vive à custa da desigualdade, da miséria e do sofrimento da grande maioria dos seres humanos e da extinção de muitos outros seres vivos e de ecossistemas inteiros. Portanto, quando se diz que é o ‘nosso’ apetite insaciável por recursos e consumo que provocou a actual crise ecológica é imprescindível precisar quem é esse ‘nós’: as populações privilegiadas dos países ditos desenvolvidos. De frisar que o relatório conclui que são afinal as comunidades indígenas, muitas vezes ainda consideradas como primitivas ou subdesenvolvidas, que gerem de forma mais sustentável os seus territórios. Uma novidade interessante do relatório foi aliás que, para além dos 15000 artigos científicos e relatórios oficiais analisados, também foram considerados os saberes e práticas de povos indígenas e de comunidades locais.
Finalmente o relatório aponta para a necessidade de serem tomadas medidas que terão de ser ambiciosas e imediatas, já que as simulações realizadas mostraram um agravamento dos indicadores em todos os cenários considerados, excepto naquele que prevê mudanças profundas e abrangentes nas políticas globais. A expressão usada é ‘mudanças transformadoras’, com a qual querem significar uma reorganização radical e sistémica no âmbito tecnológico, económico e social, mas também ao nível dos paradigmas, objectivos e valores. Admitem que, pela sua natureza, estas mudanças terão forte oposição por parte dos interesses instalados que querem manter o statu quo a qualquer preço, mas que o bem comum terá de prevalecer e vencer essas resistências. A pressão continuada e o envolvimento da sociedade civil serão cruciais para se conseguir minorar ou reverter o mal que já foi feito.

* Escrevi um artigo sobre a sexta extinção em massa que intitulei ‘O asteróide somos nós’ para o número 6 da revista Flauta deLuz (2019), que será lançado no dia 21 Maio na Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa (integrado no Colóquio ‘As Linhas da Terra’).

Seguem-se links para notícias ou artigos de opinião sobre o relatório: