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domingo, 30 de junho de 2024

Respigos de Primavera #2: O descalabro dos ODS e o futuro incerto

Devemos acelerar a ação para os ODS — e não temos tempo a perder
. António Guterres

Desenvolvimento sustentável significa um mundo que é economicamente próspero, socialmente justo, ambientalmente sustentável e em paz. E nós não temos nada disso actualmente. Jeffrey Sachs

Não é a África que é um problema, mas sim o mundo. Logo, no centro dos ODS deveria estar o funcionamento desse mundo. Elísio Macamo

Foram publicados em Junho dois relatórios que fazem uma avaliação ou balanço da chamada Agenda 2030 dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), lançada pela ONU em 2015 (ver p.ex. aqui): o ‘Sustainable Development Report 2024’ (SDR 2024), publicado pela ‘Sustainable Development Solutions Network’ (SDSN) a 17 de Junho, e o ‘Sustainable Development Goals Report 2024’ (SDG 2024), divulgado pela ONU a 28 de Junho. Já tinha abordado a temática dos ODS em dois posts meus em 2019 (aqui) e em 2023 (aqui), onde destaquei algumas críticas àquela agenda.

As conclusões dos dois relatórios não são muito diferentes: os 17 ODS, assim como a maioria (pelo menos 70%) das correspondentes 167 metas, não serão presumivelmente cumpridos até 2030. As razões alegadas para esse falhanço drástico são várias: dificuldades em monitorizar o progresso nos diferentes países, descoordenação internacional, crises externas – pandemia, guerra na Ucrânia, inflação -, constrangimentos financeiros, desfasamento entre propostas técnicas e científicas e falhas na sua implementação pelo poder político. Sem grande surpresa, os ODS mais longe de serem atingidos prendem-se com questões ambientais e sociais, e com a paz.

Mas vamos por partes. O primeiro relatório (SDR 2024) foi apresentado durante a conferência internacional “Paving the Way to the Pact of the Future” organizada pela SDSN-Portugal e que decorreu em Lisboa nos dias 17 e 18 Junho. Esta conferência antecede a grande ‘Cimeira do Futuro’, convocada por António Guterres para Setembro na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, onde será apresentado o chamado ‘Pacto para o Futuro’ que tem como objectivo “voltar a colocar o mundo no caminho certo para alcançar os ODS” (ver p.ex. aqui e aqui). O Público dedicou-lhe um extenso artigo que resume assim o diagnóstico feito no relatório: “A análise mostra que não apenas não estamos no caminho para atingir nenhum dos ODS a nível global, como ainda existem «grandes desafios» em seis dos 17 objectivos: fim da fome (ODS 2), saúde e bem-estar (3), comunidades e cidades sustentáveis (11), vida marinha (14), vida terrestre (15) e paz, justiça e instituições fortes (16). As metas relacionadas com os sistemas alimentares e terrestres, distribuídas por diferentes ODS, estão «particularmente fora de rumo», nota o relatório. Os restantes objectivos mantêm-se estagnados. Para o objectivo nº 10, de redução das desigualdades, não há sequer dados para fazer uma avaliação rigorosa sobre a tendência. Em suma, não estamos nada bem. (…) Tendo em conta que já se ultrapassou metade do tempo para fazer cumprir a Agenda 2030, as velocidades extremamente díspares [em diferentes países] são particularmente penosas de observar.” Mais à frente pode ler-se: “Ao observar os objectivos e as metas, os que mais avançaram parecem estar relacionados com mercados e dinheiro – energia limpa (ODS 7) e indústria, inovação e infra-estrutura (ODS 9) –, enquanto os aspectos sociais, ambientais e da paz parecem estar em retrocesso”. Ainda no mesmo artigo destacam-se alguns factores que terão contribuído para o incumprimento dos ODS: as crises externas, a inexistência de dados e métricas adequados, a ausência de convergência entre os ODS e as políticas nacionais e europeias, e as lacunas no financiamento aos países mais pobres. Grande parte da análise pareceu-me bastante superficial, sem aflorar aspectos que fazem parte das criticas de fundo aos ODS que detalharei mais adiante, sendo as incongruências entre os diferentes ODS mencionadas apenas indirectamente.

Na verdade, o aspecto que mais me surpreendeu no artigo foi a invocação do tema do ‘pós-crescimento’ e da crítica ao PIB como métrica de performance económica (‘Beyond GDP’ foi o tema de uma das sessões do primeiro dia da conferência que se realizou em Lisboa – ver aqui, aos 4h48min), assim como o questionamento da economia de mercado, em particular pelo presidente da SDSN, o economista Jeffrey Sachs, que deu em simultâneo uma extensa entrevista ao Público. No artigo citado acima escreve-se: “Um dos grandes obstáculos para que os ODS sejam considerados prioritários é que «organizámos a economia mundial em grande parte como um sistema de mercado de propriedade privada», explicou Jeffrey Sachs (…). Apesar de o Estado ter um papel importante em países como os da União Europeia, «as forças políticas dominantes continuam a ser impulsionadas pelos mercados».” E, na entrevista, Sachs afirma quando questionado sobre a pertinência do decrescimento: “Aprendemos que existem limites planetários — podemos agradecer aos cientistas por nos terem explicado isso de forma mais clara — e precisamos de viver dentro deles. O que é que isso significa em relação ao crescimento? O crescimento é simplesmente uma taxa de mudança de algo. Decrescimento significa que já não há mudanças? Não. Significa que não há mudança nas coisas prejudiciais. Precisamos de decrescimento nos combustíveis fósseis, sem dúvida. Precisamos de decrescimento na desmatação para criar pastagens, com certeza. Precisamos de decrescimento na utilização da informação digital? Não, porque há pessoas no mundo que não têm acesso a ela actualmente — mais informação será melhor. Decrescimento dos serviços de saúde? Claro que não — precisamos de mais serviços de saúde, porque há milhares de milhões de pessoas sem cobertura adequada. Acho que a discussão sobre o decrescimento não é muito precisa.” Jeffrey Sachs revela grande desconhecimento sobre o que é o decrescimento (ver p.ex. aqui), mas estas suas afirmações não são de estranhar: ele assume-se como social-democrata e tecnocrata, que acredita no recurso a instrumentos económicos para atingir objectivos pré-definidos, executados por especialistas e sem constrangimentos ideológicos ou políticos. Aos cidadãos fica reservado o papel de observadores atentos: “O cidadão comum deve compreender os objectivos, perceber se o seu governo está a fazer um bom trabalho ou não, exigir eficiência no governo, sem esbanjamento, corrupção ou guerras inúteis.

Já tinha escrito aqui sobre a agenda do ‘pós-crescimento’ e faço notar que a própria ONU publicou em 2023 o relatório “Valuing what counts - UN System-wide Contribution on Beyond GDP”. Numa secção intitulada ‘Sustentabilidade ou PIB’, o artigo do Público que referi acima consultou também Maria João Rauch, gestora da Rede Nacional para o Desenvolvimento Sustentável (SDSN Portugal): “Há uma desadequação destes modelos e das métricas que medem o desenvolvimento e a realidade. (…) No fundo, nós temos um modelo de desenvolvimento que é baseado na produção da riqueza e que é um modelo pós-guerra.” Mais à frente pode ler-se: “A conclusão é que não basta aumentar o financiamento para investir nos ODS – é preciso introduzir métricas suplementares ao PIB que valorizem [as conquistas sociais] (e penalizem os retrocessos). Ou seja, é preciso uma harmonização entre as várias áreas de política em torno de uma visão conjunta sobre para onde caminha a economia. Ao perder-se essa matriz social, as populações mais desfavorecidas têm sido mais atingidas ao longo do tempo por esta falta de redistribuição. (…) Também nas questões ambientais se vêem as limitações da forma como medimos a saúde das nossas economias, «chegando ao ponto ridículo de que, quando se cortam florestas na Amazónia, o PIB do Brasil sobe, porque estamos a produzir mais». «Dá cabo do planeta, mata gente, mas não faz mal, porque faz subir o PIB».” Não admira pois a afirmação de Sachs durante a entrevista e que citei na abertura do post. O problema é que a agenda dos ODS não vai à raiz da insustentabilidade do sistema socioeconómico dominante, além de vários ODS serem incompatíveis entre si. Mas já lá vamos.

O segundo relatório (SDG 2024), produzido pela ONU, foi apresentado em Nova Iorque com a presença de António Guterres, que fez uma declaração de abertura com algumas das suas já habituais tiradas dramáticas – ver p.ex. aqui ou aqui. Como disse acima, as conclusões são semelhantes às do SDR 2024, mas a sua divulgação foi acompanhada da publicação de imagens-resumo sobre os diferentes ODS, com mensagens bem pungentes – seguem-se alguns exemplos:

Guterres frisou que apesar de melhorias em alguns indicadores (paridade entre géneros, acesso a recursos digitais e internet, controlo das infecções por HIV e produção de vacinas contra a malária, transição para fontes renováveis na produção eléctrica), a velocidade e escala da mudança para um verdadeiro desenvolvimento sustentável ainda são demasiado lentas, além de haver indicadores ambientais e alimentares em retrocesso. Defendeu que serão necessárias acções mais abrangentes e céleres em áreas chave como a paz, a acção climática, a conectividade e economia digital, o envolvimento dos jovens e o financiamento. Em relação a este último tópico, defendeu ainda a aposta na estratégia ‘SDG Stimulus’ para financiar os países em desenvolvimento e que deve incluir a redução da sua dívida. Algumas daquelas propostas de acção já são apregoadas há décadas, mas sem resultados palpáveis, enquanto outras parecem-me demasiado genéricas para promover a mudança necessária.

Acontece que a noção de que as metas dos ODS não iriam ser cumpridas já existe desde o lançamento inicial da Agenda 2030 em 2015, tendo mesmo havido diversas críticas ao seu carácter neocolonialista e neoliberal - ver p.ex. aqui ou aqui. No ano passado, em que se cumpria o meio-caminho do período de vigência da Agenda 2030, o relatório ‘Global Sustainable Development Report 2023’ já indiciava o incumprimento da maioria dos ODS – ver p.ex. aqui ou aqui. As principais conclusões são aliás muito semelhantes às dos relatórios deste ano. Nessa altura, alguns académicos defenderam que os ODS são demasiado ambiciosos, mas que deveriam funcionar como orientação para as políticas regionais ou nacionais, desde que os decisores sigam as propostas técnicas dos estudos académicos e científicos, o que não terá acontecido – ver p.ex. aqui e aqui. Este último artigo cita Charles Kenny, investigador senior do “Center for Global Development”, que afirma: “A razão pela qual estamos a ficar para trás nos ODS é que eles eram super, super ambiciosos. E embora pudéssemos ter a capacidade técnica para cumpri-los, não implementámos agendas políticas super, super ambiciosas aos níveis nacional e global em parte alguma…”. E acrescenta: “talvez a única coisa pior do que não conseguir alcançar os ODS seria não perguntar como acreditámos que eles seriam alcançáveis”.


Tendo surgido na sequência da agenda precedente da ONU dos (oito) Objectivos do Milénio (2000-2015), que não foi cumprida (ver p.ex. aqui), os ODS foram uma tentativa bem-intencionada de integrar as dimensões ambiental, social e económica para desenhar estratégias de governança para o bem-estar e prosperidade universais. No entanto, vários autores têm alertado para as incongruências e para a ‘agenda oculta’ dos ODS, que promovem uma visão de desenvolvimento ocidentocentrica e neoliberal. Para além dos dois artigos citados no início do parágrafo anterior, destaco o relatório “Stockholm+50: Unlocking a better future”, publicado pelo ‘Stockholm Environmental Institute’ em 2022, que destaca a incompatibilidade entre os limites dos sistemas biofísicos e sociais e a agenda de crescimento económico e de bem-estar universal inerente aos ODS: “the world's social and natural biophysical systems cannot support the aspirations for universal human well-being embedded in the SDGs”. Por seu lado, no capítulo sobre integridade planetária do livro “The Political Impact of the Sustainable Development Goals” de 2022, Louis J. Kotzé e colaboradores defendem que os ODS não dão suficiente prioridade à proteção ambiental: “não reconhecem que as preocupações com o planeta, as pessoas e a prosperidade fazem parte de um único sistema terrestre, e que a protecção da integridade planetária não deve ser um meio para um fim, mas um fim em si mesmo” e que “permanecem fixados na ideia de que o crescimento económico é fundamental para alcançar todos os pilares do desenvolvimento sustentável”.  Os autores destacam também as seguintes deficiências no desenho da agenda dos ODS: “o número de objetivos, a estrutura do quadro de objetivos (por exemplo, a sua estrutura não hierárquica), a (in)coerência entre os objetivos, a especificidade ou mensurabilidade das metas, a linguagem utilizada no texto e a sua aposta num desenvolvimento sustentável baseado no sistema económico neoliberal como sua orientação central.” A outra fraqueza da agenda dos ODS apontada pelos mesmos autores prende-se com as orientações éticas baseadas em noções modernistas (ocidentais) de desenvolvimento: “soberania dos seres humanos sobre o seu ambiente (antropocentrismo), individualismo, competição, liberdade (direitos em vez de deveres), interesse próprio, crença no mercado que conduz ao bem-estar colectivo, propriedade privada (protegida pelos sistemas legais), recompensas baseadas no mérito, materialismo, quantificação de valor e instrumentalização do trabalho.


No post que escrevi em 2019, citei um artigo do sociólogo moçambicano Elísio Macamo que critica o viés neocolonialista da agenda dos ODS, a partir da perspectiva da sua aplicação em África. Macamo questiona: “É a África que precisa deles ou a burocracia internacional do desenvolvimento e da caridade remunerada que precisa de uma África que precise dos ODS?” e afirma: “Ao invés de lograr o desenvolvimento através da deliberação e da confrontação de projectos alternativos, os ODS sufocam o debate premiando aqueles que com eles concordam”, destacando que “o maior problema consistiu na fraca capacidade africana de gerir os efeitos das soluções.” Põe também em causa a prossecução de fins em detrimento da discussão sobre os meios para os atingir: “A África, hoje, não é pobre por ser pobre. É pobre porque é objecto de intervenção institucional para acabar com a pobreza.” O autor questiona ainda o próprio conceito de pobreza, assim como a estratégia para a mitigar (aspecto que destaquei no meu post de 2023): “Porque nunca nos passou pela cabeça que seja a riqueza o problema? A pobreza é o problema não porque o seja realmente, mas sim porque o sistema económico que gere o mundo assim a torna. (…) é fácil explicar porque a África devia rejeitar os ODS. Eles definem fins que definham o espaço político, impedindo uma discussão sobre os meios. Hoje, a pobreza é activamente produzida pelo modo dominante de gestão do mundo. (…) É suspeito querer resolver um problema criado por uma certa estrutura sem mexer nessa estrutura. Não é a África que é um problema, mas sim o mundo. Logo, no centro dos ODS deveria estar o funcionamento desse mundo.

A definição desadequada do conceito de pobreza e a desconsideração dos factores que para ela contribuem foram também aspectos negativos destacados pelo economista britânico (decrescentista) Jason Hickel logo em 2015 (aqui). No entanto, a sua crítica mais veemente prende-se com a incompatibilidade do crescimento económico com a sustentabilidade ambiental e a justiça social. Hickel considera que os ODS são, não só uma oportunidade perdida, mas também activamente perigosos porque fazem depender a agenda de desenvolvimento global de um modelo económico falido. O autor destaca que o crescimento económico não reduz a pobreza e não resolve, antes intensifica, as desigualdades inerentes ao sistema neoliberal dominante, que são praticamente ignoradas pela Agenda 2030. Num artigo de 2024, Sam Markert defende igualmente que a promoção do crescimento a qualquer custo conduz a um desenvolvimento ambiental- e socialmente insustentável, em contradição com os objectivos daquela agenda. Confundindo a sustentabilidade com o progresso em áreas como a eco-eficiência, os ODS incentivam contra-intuitivamente um desenvolvimento insustentável e desigual. Markert defende a necessidade de experimentar modelos económicos alternativos, como a economia de estado estacionário, o decrescimento ou a ‘Doughnut Economics’, que abraçam a sustentabilidade e a prosperidade sem a dependência do crescimento económico, contribuindo para um futuro onde o desenvolvimento humano e a preservação ambiental são possíveis em simultâneo.

Existem várias propostas para tentar salvar, ou, pelo menos, realinhar, a agenda dos ODS que serão discutidas na ‘Cimeira do Futuro’ em Setembro, onde será apresentado o ‘Pacto para o Futuro’ – ver p.ex. aqui ou aqui. Muitas delas parecem-me meramente cosméticas por não fazerem face às questões fundamentais que acabei de mencionar. A discussão em volta do ‘pós-crescimento’ e da substituição do PIB soa-me mais promissora, mas não será claramente suficiente. Um outro indício mais ousado é referido no artigo do Público que citei no início, onde é mencionada uma proposta avançada no relatório ‘SDR 2024’ de restruturação das próprias Nações Unidas (incluiria a reforma da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança, bem como a criação de outros conselhos) e de reforma da arquitectura financeira global. Duvido que seja possível reformar ou mesmo eliminar instituições, como o FMI ou o Banco Mundial, mas seriam sem dúvida passos fundamentais para transformar o sistema financeiro global que, há décadas, beneficia os países do Norte global e penaliza os do Sul. Finalmente, na ONU já se discute qual deverá ser a estratégia pós-2030. Uma ideia, que se baseia em estudos sobre as interações entre os ODS, é o enfoque num número menor de objetivos transversais, incluindo o bem-estar humano, a descarbonização energética e economias sustentáveis e justas (ver p.ex. aqui). Atendendo ao caminho percorrido até agora, duvido que os actuais líderes políticos tivessem a capacidade ou a ousadia de agir no sentido de alcançar a definição desenvolvimento sustentável resumida por Jeffrey Sachs: “um mundo que é economicamente próspero, socialmente justo, ambientalmente sustentável e em paz” - como se viu p.ex. na recente cimeira do G7 (ver p.ex. aqui). A obsessão de Guterres (e de outros líderes mundiais) com a velocidade (“Devemos acelerar a ação para os ODS”) e com chavões vazios (“não deixar ninguém para trás”), são claramente fastidiosos e inconsequentes. Uma gralha no título de um artigo de 2016 que faz a apologia dos ODS acaba por descrever inadvertidamente a sua verdadeira natureza – “Unsustainable Development Goals” (em vez de “UN Sustainable Development Goals”)!


domingo, 28 de maio de 2023

Quando renegaremos o mito do crescimento (económico)?

mais menos
(Casa da Esquina, Coimbra)
We must look beyond GDP and growth to something that really matters: life.Philippe Lamberts

The word ‘currency’ never meant money before colonialism. The word ‘currency’ means flow (…) We have to degrow the currency of money that is extinguishing life, biodiversity and the flow of life.Vandana Shiva

Já tinha abordado o tema do crescimento económico em escritos anteriores (p.ex. aqui ou aqui), onde apresentei alguns dos argumentos invocados pelos decrescentistas (e outros críticos do paradigma dominante) para rejeitar a sua validade como via preferencial para garantir o bem-estar e a prosperidade, e como objectivo primordial das políticas preconizadas por governantes de diferentes geografias ou cores políticas – em particular, quando é medido com base num indicador reconhecidamente inadequado como o PIB (ver p.ex. aqui ou aqui). Retomo-o agora a propósito da conferência “Beyond Growth 2023” que decorreu de 15 a 17 de Maio no Parlamento Europeu (PE) em Bruxelas e onde a palavra decrescimento e as ideias e propostas decrescentistas (ou pós-crescentistas) foram discutidas durante três dias, com uma audiência estimada em 2000 pessoas ao vivo e pelo menos mais outras tantas online. A conferência foi co-organizada por 20 eurodeputados (de cinco grupos parlamentares e um MPE não inscrito), liderados por Philippe Lamberts, onde se incluía a portuguesa Marisa Matias - representante de um partido (BE) que nem sequer tem afinidade pelo decrescimento, como a própria aliás destacou durante uma sessão em que foi moderadora. É possível aceder aos vídeos de todas as sessões da conferência (7 plenárias e 20 painéis temáticos, além de eventos paralelos, como uma sessão especial que teve Vandana Shiva como convidada) a partir desta ligação (selecionando o dia e clicando sucessivamente no nome da sessão, em ‘Info & Livestream’ e finalmente em ‘Livestream’). Também é possível aceder a uma seleção de vídeos das sessões no canal Youtube do grupo parlamentar dos Verdes (Greens/EFA), nesta ligação. O contraste entre as propostas de muitos dos intervenientes na conferência e a narrativa dominante das instituições europeias ficou desde logo evidente na plenária inaugural com as intervenções da presidente do PE (que, sem aparentar qualquer sensibilidade para o contexto, só falou de crescimento!) e da presidente da Comissão Europeia, que tinha estudado a lição e referiu-se ao relatório ‘The Limits to Growth’, assim como ao famoso discurso de Robert Kennedy sobre a inadequação do PIB como indicador de prosperidade económica, mas não deixou de defender o ‘European Green Deal’ e o ‘crescimento verde’.


O lema radical “Decrescimento ou barbárie”, que usei como título de um post em 2019, não foi abertamente adoptado pelos proponentes da conferência (que preferiram aliás usar expressões mais ‘fofinhas’ como 'pós-crescimento' ou 'para além do crescimento'), mas o espírito da sua declaração de intenções (ver versão EN ou versão ES) não está muito distante. Segue um excerto elucidativo: “o atual modelo económico, baseado no crescimento infinito, atingiu os seus limites. Primeiro, o crescimento económico contínuo, fortemente baseado no consumo de combustíveis fósseis, é a principal causa do aquecimento global catastrófico. Em segundo lugar, a busca incessante do crescimento conduz ao esgotamento dos recursos naturais, à destruição da biodiversidade e à acumulação de lixo e poluição. O que também representa riscos para a nossa saúde, as nossas economias e as sociedades em geral. Em terceiro lugar, o actual modelo económico contribui para a desigualdade e exclusão social. A ênfase no crescimento económico não se traduziu numa distribuição equitativa de riqueza ou de oportunidade. Pelo contrário, resultou na concentração de riqueza e poder nas mãos de poucos, deixando muitos para trás. Quarto, o modelo económico actual é inerentemente instável e propenso a crises, como se viu, por exemplo, durante a crise financeira de 2008 e a pandemia de COVID-19. A busca pelo crescimento a todo custo criou um sistema económico mundial frágil e vulnerável a crises.” Na mesma missiva, os eurodeputados defenderam ainda: “Partilhamos da opinião de que precisamos de um sistema económico que dê prioridade ao bem-estar humano e à sustentabilidade ecológica acima do crescimento do PIB, que reconhecemos que o crescimento infinito num planeta finito é impossível, e que precisamos de encontrar novas formas de organizar as nossas economias sem depender da exploração contínua dos recursos e do aumento constante da produção e do consumo.” Pediram maior pluralismo no pensamento e acção económicas dentro da UE e das suas instituições, e propuseram acções concretas nesse sentido, nomeadamente: 1) elaborar políticas europeias que integrem efectivamente os objectivos sociais, ambientais e económicos; 2) promover uma abordagem pluralista aos indicadores e modelos macroeconómicos utilizados pela UE e seus Estados membros; e 3) desenhar uma arquitetura institucional que melhor sirva uma estratégia de pós-crescimento.


Alinhada com aquela missiva mas com um enfoque mais claramente decrescentista, foi divulgada nas vésperas da conferência uma carta aberta promovida por Timothée Parrique, Kate Raworth e Vincent Liegey, pelas organizações Friends of the Earth, European Environmental Bureau, European Youth Forum e Wellbeing Economy Alliance, e subscrita por mais de 150 colectivos/organizações (entre os quais a Rede para o Decrescimento, da qual sou membro) e mais de 250 académicos e activistas, – ver p.ex. aqui (versão PT) ou aqui (versão EN). Para além dos aspectos e propostas constantes na declaração dos eurodeputados, a carta aberta especifica os quatros eixos principais das políticas pós-crescentistas, a saber: a biocapacidade, a equidade, o bem-estar para todos e a democracia activa.


Não houve grandes destaques ou notícias sobre a conferência nos principais media nacionais ou internacionais – como seria de esperar – mas a presença de Ursula von der Leyen na sessão de abertura e o interesse que o evento despertou, sugerem que os dias do crescimento a qualquer preço podem estar contados (ver lista de artigos no final deste post). De referir, no entanto, que a Euronews dedicou-lhe dois destaques de cerca de meia hora na sua edição online, promovendo debates com alguns dos intervenientes na própria conferência, antes e depois da sua realização – ver aqui e aqui.


Ao atribuir ao crescimento a designação de mito no título deste post, quis enfatizar a determinação (ou obsessão) dos actuais políticos, à direita ou à esquerda, na narrativa do crescimento, mesmo na posse dos dados que demonstram claramente a sua ineficácia e os seus efeitos destrutivos (ver p.ex. aqui ou aqui). E já houve muitos a desmontar ou a desconstruir este mito (para além dos próprios decrescentistas) – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. Mas então porque é que o mito persiste? A meu ver, existem duas razões principais. A primeira é que aqueles que mais beneficiam da sua persistência – a minoria de detentores do poder económico e financeiro, mas também os decisores políticos, já que dependem e protejem os primeiros – fazem tudo o que podem para que o mito persista e para que nada de essencial mude. A segunda é que uma grande maioria da população – que tem mais a perder mas que se deixou iludir pelo ‘canto das sereias’ que lhes garante que a prosperidade está ao virar da esquina, que não existem alternativas ao sistema dominante e que mudar só iria piorar a sua situação – não quer, ou tem medo, da mudança. A máquina de persuasão montada pelas elites e interesses instalados – através do marketing, dos media ou das redes sociais - está muito bem oleada e exerce o seu encantamento (ou alienação ou intoxicação) há várias décadas (ver p.ex. aqui). Não admira pois que o crescimento se tenha tornado uma crença quase religiosa, justificando que muitos decrescentistas defendam a necessidade de desintoxicar e descolonizar o imaginário (ver p.ex. aqui). A omnipresença da referência ao crescimento nos discursos de políticos, economistas, jornalistas ou ‘marketeers’ é aliás evidente para qualquer pessoa minimamente atenta – basta acompanhar as notícias que surgem em diversos OCS para o constatar. Segue-se uma lista de títulos recentes, meramente ilustrativa: “Economia cresce e as pessoas não sentem? A culpa é da inflação, dos juros e dos salários” (aqui); “PIB cresceu 6,7%, mas o cenário agora é de quase estagnação” (aqui); “Economia portuguesa cresceu quatro vezes acima da média da OCDE” (aqui); “Economia da China cresce ao ritmo mais lento em quase 50 anos” (aqui).


Esperemos que a penetração no debate público das críticas e propostas económicas alternativas, como o decrescimento, conduzam à desmitificação do crescimento como panaceia universal - e à concomitante desmistificação das narrativas crescentistas e produtivistas dominantes – desconstruindo em simultâneo muitos dos mal-entendidos e das falácias sobre o decrescimento (ver p.ex. aqui). Esperemos também que o conhecimento e as propostas políticas veiculadas pelos vários investigadores e activistas durante a conferência possam ser democraticamente consensualizados e postos em prática. Esperemos ainda que o resultado seja de facto uma melhoria da qualidade de vida, com uma redistribuição equitativa de recursos (e não meramente de riqueza), e que essas melhorias sejam (realmente) sustentáveis. E que conduzam a um verdadeiro bem-estar e bem-ser para todos (humanos e não-humanos). Não existe evidentemente vontade política para isso entre as actuais elites do poder, nem parece haver (ainda?) um despertar de consciências generalizado, mas a esperança é a última a morrer. A realização da conferência Beyond Growth no PE deu-me algum alento, embora a quase total ausência de cobertura mediática seja sintomática do poder da narrativa dominante e dos interesses instalados. Rejeitar o crescimento (como paradigma económico e sócio-cultural) é, acima de tudo, uma questão de bom senso para que possamos alcançar uma prosperidade equitativa, mas também para garantir não só a nossa sobrevivência, como a de tantos outros seres vivos e dos ecossistemas dos quais dependemos!...

Artigos/notícias sobre a conferência (PT)

- Notícia da Lusa, reproduzida em alguns OCS: ver p.ex. aqui;

- Artigo de opinião de João Wengorovius Meneses (secretário-geral do BCSD Portugal): aqui;

- Notícia no site Empregos para o Clima: aqui;

- Notícia no site WElectric: aqui;

- Notícia no site 'La Politica online' (ES): aqui.

Vídeos sobre o mito do crescimento (ver também vídeos citados neste post)

You can’t have infinite growth on a finite planet (Paul Guilding): https://sustainablehuman.org/stories/you-cant-have-infinite-growth-on-a-finite-planet/ (6’)

How economic growth has become anti-life (Vandana Shiva): https://sustainablehuman.org/stories/how-economic-growth-has-become-anti-life/ (2’)

Conventional Economics is a form of brain damage (David Suzuki): https://chrisagnos.com/conventional-economic-is-a-form-of-brain-damage/ (4’)

Our obsession with economic growth is deadly (Al Jazeera, Dez 2022): https://youtu.be/KLiXmteCvUI (25’)

Can the economy grow forever? (TED-Ed, Ago 2022): https://youtu.be/mT3P0YSNonE (6’) (a call for post-growth economy sponsored by WEF!)


sexta-feira, 30 de abril de 2021

Escolas de economia e gestão: reformar ou demolir?

Ilustração de Michael Kirkham
O título deste
post foi inspirado num artigo do professor de gestão britânico Martin Parker (autor do livro ‘Shut Down the Business School: What’s Wrong with Management Education’), publicado em 2018 no The Guardian, onde propõe um destino radical para as escolas de economia e gestão – encerramento ou demolição: ‘Why we should bulldoze the business school’ (uma outra versão do mesmo artigo está disponível aqui). O autor defende que o ensino nas escolas de gestão foi dominado nas últimas décadas por uma visão de mundo e um modelo económico (capitalista, neoliberal e mercantil) apregoados como hegemónicos e que se converteram em profecias autocumpridas (‘self-fulfilling prophecies’). Para além do currículo explícito, que apresenta o sistema dominante como incontornável e onde as visões alternativas e questões como a sustentabilidade ou a justiça social são meramente acessórias, aquelas escolas professam um currículo oculto na forma como aqueles conteúdos são transmitidos, validando os comportamentos competitivos e gananciosos como os mais adequados para prosperar e aplicar no ‘mundo real’. Parker sugere ainda que apesar de haver alguma crítica interna aos conteúdos e modelos de ensino por parte por exemplo de cientistas sociais, essa crítica é minoritária e acaba por ficar nas prateleiras ou a preencher os currículos dos seus autores, não se reflectindo em mudanças práticas das próprias instituições.
Seguem-se alguns excertos (mas recomendo a leitura do artigo completo):
(…) in the business school, both the explicit and hidden curricula sing the same song. The things taught and the way that they are taught generally mean that the virtues of capitalist market managerialism are told and sold as if there were no other ways of seeing the world. If we educate our graduates in the inevitability of tooth-and-claw capitalism, it is hardly surprising that we end up with justifications for massive salary payments to people who take huge risks with other people’s money. If we teach that there is nothing else below the bottom line, then ideas about sustainability, diversity, responsibility and so on become mere decoration. The message that management research and teaching often provides is that capitalism is inevitable, and that the financial and legal techniques for running capitalism are a form of science. This combination of ideology and technocracy is what has made the business school into such an effective, and dangerous, institution.
(…) The problem is that business ethics and corporate social responsibility are subjects used as window dressing in the marketing of the business school, and as a fig leaf to cover the conscience of B-school deans – as if talking about ethics and responsibility were the same as doing something about it. They almost never systematically address the simple idea that since current social and economic relations produce the problems that ethics and corporate social responsibility courses treat as subjects to be studied, it is those social and economic relations that need to be changed.
(…) The easiest summary of all of the above, and one that would inform most people’s understandings of what goes on in the B-school, is that they are places that teach people how to get money out of the pockets of ordinary people and keep it for themselves. In some senses, that’s a description of capitalism, but there is also a sense here that business schools actually teach that “greed is good”.
(…) Having an MBA might not make a student greedy, impatient or unethical, but both the B-school’s explicit and hidden curriculums do teach lessons. Not that these lessons are acknowledged when something goes wrong, because then the business school usually denies all responsibility. That’s a tricky position, though, because, as a 2009 Economist editorial put it, “You cannot claim that your mission is to ‘educate the leaders who make a difference to the world’ and then wash your hands of your alumni when the difference they make is malign”.
(…) Most business schools exist as parts of universities, and universities are generally understood as institutions with responsibilities to the societies they serve. Why then do we assume that degree courses in business should only teach one form of organization – capitalism – as if that were the only way in which human life could be arranged? The sort of world that is being produced by the market managerialism that the business school sells is not a pleasant one. It’s a sort of utopia for the wealthy and powerful, a group that the students are encouraged to imagine themselves joining, but such privilege is bought at a very high cost, resulting in environmental catastrophe, resource wars and forced migration, inequality within and between countries, the encouragement of hyper-consumption as well as persistently anti-democratic practices at work.

Outros autores partilham da visão de Parker (p.ex.
Kean Birch da York University), mas as suas críticas às instituições universitárias estendem-se também ao ensino de economia. Dou apenas como exemplo um manifesto publicado em 2017 onde são apresentadas 33 teses que põem em causa a ideologia económica dominante (neoclássica e neoliberal) com propostas para uma visão pluralista da economia na sociedade e no ensino. Os seus promotores (Rethinking Economics e New Weather Institute) defendem uma reforma do sistema actual que fomente o pensamento crítico e a reflexão sobre as diferentes visões económicas que existem, em pé de igualdade com a ideologia e prática hegemónicas – sugiro a leitura do comentário de Margarida Chagas Lopes a este manifesto no blog Areia dos Dias.


NOVA-SBE: um caso paradigmático nacional


O artigo de Martin Parker começa com uma referência ao facto dos edifícios das escolas de gestão serem muitas vezes os mais modernos (ou os mais ostensivos!) num campus universitário, o que, segundo o autor, resultaria da capacidade de captar financiamentos em consonância com a sua missão de ensinar a lucrar no mundo dos negócios. Um bom exemplo recente no nosso país foi o ‘upgrade’ da faculdade de economia e gestão da Universidade Nova de Lisboa (mais conhecida pela designação baseada na sigla derivada do inglês, como manda o marketing), que se transferiu do velho edifício de Campolide para as novas instalações inauguradas com pompa e circunstância em 2018 (ver aqui ou aqui). A construção de um campus de estilo 'californiano' foi muito contestada e mediatizada pelo seu impacto e custo faraónico (ver aqui ou aqui). Um dos grandes atractivos da Nova SBE (e que lhe valeu a colagem à Califórnia) é a sua localização junto à praia de Carcavelos (com túnel directo e informação sobre a altura das ondas no seu website), como é destacado em notícias publicadas na altura no jornal Público – ver aqui ou aqui. Este mesmo jornal destacou ainda os impactos naquela zona, nomeadamente em termos do mercado imobiliário, que também foram alvo de contestação (ver aqui). Neste caso, a adesão ao paradigma económico dominante nunca foi camuflada, como se pode ler num artigo de Setembro de 2018 que faz uma análise crítica do modelo neoliberal da Nova SBE e da polémica campanha de angariação de fundos. De facto, embora pertencendo a uma universidade pública, a sua construção foi co-financiada por instituições ou empreendedores da ‘congregação global’ (ver aqui ou aqui).
Tratando-se de mais um templo da ‘igreja universal do economismo’, destinado a formar novos acólitos, não é de estranhar que, para além de um claustro (sic), tenha vários espaços aos quais foram atribuídos os nomes dos seus principais mecenas, como a ‘Biblioteca Teresa e Alexandre Soares dos Santos’, o ‘Santander Hall’ ou o ‘Jerónimo Martins Grand Auditorium’. Para completar o quadro, está em vista uma parceria com a ‘Singularity University’ (ver aqui), consumando a conjugação do culto ao neoliberalismo e ao trans-humanismo num só local! Como se pode ler num dos artigos citados acima, esta academia de formação das futuras elites do admirável mundo novo corporativo pode não ser Fátima, mas já fez milagres para o mercado imobiliário da região!
Mas como ‘no melhor pano cai a nódoa’, um relatório de uma comissão independente à NOVA-SBE, divulgado este ano (2021), revelou diversas situações de conflitos de interesses dos seus docentes em relação a instituições financeiras com as quais mantinham diferentes tipos de ligações (ver aqui). A notícia citada dá como exemplo o seu próprio director, Daniel Traça, que era administrador do Santander, onde auferiu 143 mil euros por essas funções durante o ano de 2019 que acumulou com o seu salário como docente, sendo aquele banco uma das empresas que financiou a construção do campus de Carcavelos. Para não pintar uma imagem demasiado negra daquela instituição, destaco a divulgação recente do relatório “Portugal: Balanço Social 2020” elaborado por Susana Peralta, Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves, membros do ‘Economics for Policy Knowledge Center’ da Nova SBE, que traça um retrato socioeconómico das famílias portuguesas, revelando as situações de pobreza e exclusão social no país, e, em particular, alguns dos impactos sociais nefastos das medidas de mitigação da pandemia da Covid-19 (ver aqui e aqui). Uma das autoras deste estudo, Susana Peralta, que escreve artigos semanais de opinião para o Público, alguns dos quais críticos para com empresas privadas que são mecenas da Nova SBE, como o Novo Banco ou a EDP, esteve na origem de um parecer interno do Concelho de Catedráticos que aconselhava os seus docentes a não assinarem artigos de opinião com o nome da faculdade (noticiado no artigo do Público citado acima).

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Anuncia-se a reabertura da economia!

Depois ter proibido a Páscoa e da novela em torno do cancelamento ou não das comemorações do 25 de Abril, o Costa (juntando-se a outros grandes líderes mundiais*) vai mandar reabrir a economia:
https://rr.sapo.pt/2020/04/22/economia/costa-vai-anunciar-reabertura-da-economia-mas-temos-de-estar-preparados-para-recuar/noticia/190281/
https://sicnoticias.pt/especiais/coronavirus/2020-04-17-Governo-esta-a-preparar-a-reabertura-da-economia
Como se ela tivesse fechado - tipo a época da caça ou a época balnear - e agora precisasse de ser reaberta... Será com alguma pompa e circunstância? Alguma festa com celebridades e futebolistas? Haverá corta-fitas? Parece afinal que não, que será tudo com contenção, moderação e o sacrossanto 'distanciamento social', não vá o corona estragar a festa.
Mas espera lá - então os portugueses não têm estado todos obedientemente teletrabalhando no recato das suas casinhas? Tudo afanosamente frente aos teclados e ecrans, 'zoomando' aulas, reuniões, workshops, webinars e até concertos e peças de teatro? E não há ainda todos aqueles heróis trabalhando arduamente nos hospitais, nos campos, nos supermercados, nas obras - porque muitos desses escapam à miopia social, excepção feita às palminhas ao cair da noite - e não há teletrabalho que lhes valha? Sim, mas essa é a economia dos bens essenciais e das verdadeiras necessidades!... E não é, pelos vistos, a tal 'economia' que irá ser reaberta**. Essa será a economia do consumismo e do espectáculo, das viagens e dos festivais, dos shoppings e dos futebóis, dos turistas e 'city users', dos empreendorismos e startups, do excesso e do desperdício. Aliás o Costa já veio tranquilizar os 'líderes' do sector turístico (que, dizem-nos, estava a crescer a dois dígitos!...) onde irá continuar a apostar desde que se recupere a confiança - algo que a ele não lhe falta, quando afirma que "o turismo em Portugal vai voltar a ser de ouro".*** Lá está - finalmente o 'regresso à normalidade'! Como se não houvesse amanhã! Sim, porque aquela coisa de haver uns chatos duns cientistas e duns jovens irritantes a dizerem que o clima já não é o que era, que as florestas e os animais estão a desaparecer e que os solos já não aguentam mais culturas intensivas e fertilizantes químicos, tudo por causa de inúmeras actividades económicas insustentáveis, isso é conversa de gente que quer travar a 'economia', fazer colapsar 'os mercados' e interromper as 'cadeias de criação de valor'. Sim, porque essa tal outra 'economia' precisa de crescer para sempre, caso contrário os bancos vão à falência, os mercados ficam 'zangados' ou 'mal dispostos' e os senhores bilionários deixam de acumular mais uns zeros nas suas contas bancárias, e aí não haverá economias para ninguém!... Ou será que isto é apenas um conto de fadas, uma história da carochinha para entreter adultos infantilizados e intoxicados pelos media, o marketing e as redes sociais?
Já escrevi várias vezes sobre estes tópicos - aqui, aqui, aqui ou aqui - por isso dispenso-me de mais explicações.
Temos uma escolha - sempre a tivemos - perceber que há uma oportunidade para mudar algumas coisas na vossa vida individual e colectiva, ou ceder aos oportunismos daqueles que não querem mudar coisa nenhuma.


* Parece que houve para aí uns 'líderes' que não queriam que a economia tivesse fechado e agora querem reabri-la à força toda...
** Para se perceber melhor o que os 'economistas' entendem por uma reabertura como deve ser, leia-se esta prosa aprimorada de economês neoclássico que apresenta o plano para a retoma de um grande arauto da narrativa do 'establishment':
(repare-se no pormenor da notícia ser patrocinada pela Santa Casa - mas claro que isso é apenas má-lingua da minha parte!)
*** O Turismo de Portugal, essa agência de viagens e de imobiliário patrimonial paga com dinheiros públicos, já preparou uma linda campanha para a retoma (é espantoso como as equipas de marketing nunca perdem a criatividade mesmo durante uma pandemia):

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Crescer até rebentar!?

A mensagem é repetida à exaustão, todos os dias e a toda a hora. A economia tem de crescer, os negócios têm de crescer, o comércio tem de crescer. Tudo tem de crescer. Se não, é a recessão, o desemprego, o colapso social. É uma narrativa tantas vezes repetida que muitos a aceitam como legítima e inquestionável. O crescimento é aliás o mantra da grande maioria dos políticos, governantes e... economistas. E se alguém põe tal 'verdade' em causa, é acusado de radical ou subversivo. Acontece que à luz dos conhecimentos científicos actuais sobre biologia e termodinâmica, o crescimento permanente da economia, que depende do consumo de matérias primas não renováveis e de energia, não é possível num planeta de recursos finitos e onde a conversão energética é um processo irreversível que conduz a perdas inevitáveis. Já escrevi anteriormente sobre o assunto (p.ex. aqui ou aqui) e recomendo esta curta animação que relembra que na natureza nenhum ser vivo cresce para sempre:
'The impossible hamster' (1 min)
O défice epistemológico dos economistas dominantes (adeptos da chamada economia neoclássica e em particular da sua corrente neoliberal) em relação à biologia e à ecologia é realçado pelo geneticista (e activista ambiental) canadiano David Suzuki nestes curtos vídeos onde defende que a economia convencional não é uma ciência mas sim uma ideologia (e uma forma de demência!) e onde mostra as consequências do crescimento exponencial:
'Conventional economics is a form of brain damage' (2 min)
'On exponential growth' (3 min)
A insustentabilidade e irresponsabilidade deste paradigma económico têm vindo a ser denunciadas há vários anos, em particular pelos defensores do Decrescimentosobre o qual tenho escrito por diversas vezes (p.ex. aqui ou aqui). Vem isto a propósito do lançamento recente do website da Rede para o Decrescimento, da qual sou membro, e onde é possível encontrar informação sobre este movimento internacional que contesta o modelo sócio-económico hegemónico baseado no crescimento permanente da produção e consumo de bens e serviços e na sua mercadorização globalizada. Vão sendo ali também colocadas informações sobre as actividades da Rede, bem como sobre eventos de interesse para a comunidade decrescentista. Convido pois a que façam visitas regulares.

Deixo para finalizar um excerto de um dos textos publicados naquele site:
"Só se compreende a proeminência e a urgência que damos à palavra «decrescimento» se se perceber que uma parte significativa das sociedades humanas percorre hoje um caminho de crescimento sem escalas ou regulações que permitam adequá-lo ao meio ambiente, sem decisão política sobre as transformações que ele transporta consigo e sem um sentido de justiça e dignidade humana que o modele. Transformado em único valor das sociedades modernas, o crescimento tornou-se uma dinâmica vazia de propósito, uma vez que tudo o mais passou a ser-lhe sacrificado. Esta dinâmica passou a justificar tudo e o seu contrário: mesmo no momento em que nos confrontamos com os limites do planeta, o crescimento é ainda convocado para justificar dinâmicas e tecnologias que supostamente nos permitiriam arrepiar caminho e sair da senda do crescimento infinito, que o consenso geral parece agora considerar suicida."

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Reciclar não chega, é preciso reduzir!

Esta é uma das mensagens dos defensores do decrescimento, que propõem não só desafiar a primazia do PIB como principal prioridade política, mas também a redução da produção e consumo para níveis sustentáveis, contraindo o sistema económico para dar mais espaço aos ecossistemas e à cooperação, garantindo uma redistribuição justa de rendimentos e recursos. Um estudo recente apresentado pelo 'think-tank' internacional 'Circle Economy' no WEF em Davos fornece alguns números globais que falam por si:
https://www.theguardian.com/environment/2020/jan/22/worlds-consumption-of-materials-hits-record-100bn-tonnes-a-year
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/reutilizacao-de-recursos-em-declinio-economia-mundial-e-apenas-86-circular-536007
Das mais de 100 mil milhões de toneladas de recursos (minerais, combustíveis fósseis, metais e biomassa) usados todos os anos em processos produtivos (dados referentes a 2017), 15% são convertidas em emissões de CO2 e outros GEE, 33% são tratadas como resíduos (aterros e depósitos de resíduos), 25% são descartadas para o ambiente (incluindo plástico lançado nos oceanos) e apenas menos de 9% são efectivamente recicladas. Enquanto a quantidade de recursos extraídos mundialmente aumentou 9% de 2015 para 2017, a taxa de reutilização aumentou apenas 3%. Segundo o CEO da 'Circle Economy': "Arriscamos-nos a um desastre global se continuarmos a tratar os recursos do planeta como se fossem ilimitados." O relatório inclui propostas de medidas concretas baseadas no conceito de economia circular.


No entanto, apesar de toda a retórica da desmaterialização da economia, do 'consumo verde' e da implementação de ferramentas de gestão que promovem a economia circular (ver p.ex. aqui), é evidente que o modelo económico actual alicerçado no crescimento não vai conseguir atingir as metas da sustentabilidade. Teremos mesmo de decrescer (economias ricas e privilegiadas) para vivermos melhor e garantirmos um futuro digno para todos. Este será o tema de um encontro no próximo dia 8 Fev em Montemor-o-Novo, promovido pela Rede para o Decrescimento em parceria com duas iniciativas locais: a Cooperativa Integral Minga e a Rede de Cidadania de Montemor - ver aqui.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Continuo a não apoiar o Banco Alimentar e a insurgir-me contra a postura do presidente

(Foto respigada do DN)
(texto baseado em post publicado no G+ em Dez 2018)
Como em anos anteriores, decorreu em grandes superfícies do sector alimentar mais uma campanha do Banco Alimentar contra a Fome (BACF), apoiada activamente pelo presidente Marcelo, como noticiado em quase todos os media nacionais - ver aqui, aqui ou aqui.
Numa atitude que considero lamentável, o ‘presidente dos afectos’ fez campanha pelo assistencialismo e pelas grandes superfícies; este ano escolheu o Pingo Doce mas no ano anterior tinha sido o Continente, tendo então enfatizando que dar é obrigação dos privilegiados (uma mensagem com um evidente cunho de moralismo religioso) - ver aqui ou aquiEsta afirmação, num país com níveis de desigualdade e de pobreza elevados e em que muito do rendimento gerado vai para a mão de poucos ou para fora país, é ainda mais lamentável - ver p.ex. aqui, aqui ou aqui.
Por outro lado, fazer compras numa grande superfície comercial contribui para beneficiar as grandes empresas de distribuição que têm lucros chorudos à custa dos hipermercados e dos preços baixos que pagam a funcionários e produtores, sendo pois co-responsáveis pelas desigualdades - ver p.ex. aqui, aqui ou aqui.
E, ainda por cima, parte do rendimento gerado por aquelas empresas é tributado fora do país - ver p.ex. aqui, aqui ou aqui.
Igualmente funesto é o facto destas campanhas permitirem àquelas grandes cadeias libertarem-se de excedentes, como é referido neste post que aborda ainda a relação entre o BACF e as IPSS ligadas à Igreja.
A existência de bancos alimentares pode ser justificável em situações graves de carência alimentar e como medida provisória, devendo, no entanto, ser complementada por medidas de médio-longo prazo, como políticas públicas sociais eficazes e mudanças de paradigma económico. A caridade não pode substituir a solidariedade, que, por sua vez, deve apenas colmatar desigualdades ou injustiças não evitáveis. Não é contribuindo para o Banco Alimentar que se luta contra a fome ou a pobreza, mas sim lutando contra a riqueza desmedida, as desigualdades e a hegemonia dos privilegiados - ver p.ex. aqui.
No Reino Unido, onde a austeridade tem vindo a intensificar as situações de pobreza extrema e de carência alimentar, os bancos alimentares aumentaram a sua intervenção, situação que tem sido alvo de críticas - ver aqui ou aqui.
Na vizinha Espanha também tem havido críticas aos bancos de alimentos e às suas ligações às instituições religiosas - ver aqui, aqui ou aqui.
O último artigo citado explicita as razões pelas quais os bancos alimentares são socialmente indesejáveis e injustos:
- praticam a caridade, que não é compatível com o cumprimento dos direitos humanos por parte dos Estados;
- alimentam a estratégia de lucro das grandes empresas do sector alimentar;
- limitam a liberdade de escolha das pessoas desfavorecidas;
- tornam difícil a adopção de dietas equilibradas;
- intensificam a estigmatização e os problemas de exclusão social;
- inibem a capacidade para a mobilização e a contestação social.
Em relação aos 3º e 4º pontos da lista, vale a pena destacar que o tipo de alimentos recolhidos, que está em parte relacionado com as limitações do BACF e da sua estrutura centralizada, não é compatível com uma dieta equilibrada. Sobre este tópico é interessante referir um outro projecto britânico de dimensão local mas com princípios e práticas muito diferentes das do Trussel Trust (ao qual são aliás dirigidas fortes críticas) - ver aqui
Em relação ao 5º ponto da lista acima, sugiro a leitura deste artigo de opinião do sociólogo António Pedro Dores. 
Finalmente, Marcelo referiu que o problema de fundo se resolve com mais crescimento e mais emprego – só não explicou como isso é possível quando o actual crescimento das economias é conseguido à custa do aumento das desigualdades sociais e da destruição ambiental, e quando os empregos estão a desaparecer, a ser mal pagos e sem regalias sociais, como consequência do modelo económico e financeiro globalizado - ver p.ex. aqui ou aqui.
Pela minha parte, e para não me acusarem de criticar sem oferecer alternativas, irei continuar a pugnar por uma mudança de paradigma social e económico que torne os Bancos Alimentares completamente obsoletos e desnecessários. É por isso que defendo o Decrescimento planeado, um rendimento básico incondicional e um rendimento máximo sensato e justo - ver p.ex. aqui e aqui.