quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O espectáculo grotesco de mais uma Assembleia Geral das Nações Unidas

(C) Michael Kappeler (DPA)
Decorre até amanhã (25 de Setembro) a 81ª Assembleia Geral (AG) da ONU, sob o tema “Restoring Trust, Managing Transformation: A United Nations that delivers for all”. Os prognósticos já não eram muito animadores (p.ex. aqui ou aqui), mas o que se passou até agora não contrariou essas expectativas. A intervenção inaugural de António Guterres, a última como Secretário-geral, não destoou de anteriores discursos onde tentou expressar o seu descontentamento (e a sua frustração) em relação ao estado calamitoso da ordem internacional perante as potências que ditam as suas próprias regras – mensagens indirectas aos EUA e a Israel, mas também à Rússia (p.ex. aqui ou aqui). Mas o lado mais grotesco e degradante desta peça de teatro político internacional acabou por revelar-se nos dias seguintes.

O discurso abominável, ofensivo e boçalmente narcísico de Trump foi amplamente criticado: análises publicadas durante a AG destacaram o tom de confronto, o uso de ameaças militares e a transformação da política externa americana numa extensão da sua personalidade (ver aqui, aqui ou aqui). Desde a ameaça directa ao Irão, à humilhação da Venezuela e Cuba, tudo valeu na sua verborreia de auto-vangloriação. O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney (o mesmo que admitiu no início do ano em Davos que a “ordem internacional baseada em regras” liderada pelo Ocidente e dominada pelos EUA era uma ‘ficção conveniente’– ver aqui), resumiu a percepção de muitos aliados políticos ao dizer que já não conseguem “controlar a tempestade” que sopra de Washington. Lula da Silva, no discurso de abertura, respondeu à ideia de uma América Latina subordinada aos EUA afirmando que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Infelizmente, a realidade mostra um statu quo bem mais sinistro e deprimente…


Quanto à presença de Netanyahu, a vergonha é ainda maior, bem como o descrédito a que fica sujeita a própria ONU. E nem os discursos de Guterres ou Macron foram suficientemente incisivos para contrariar essa percepção (ver aqui ou aqui). Recordemos que em Setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza e que Netanyahu, Isaac Herzog e Yoav Gallant incitaram a prática desse crime (ver aqui). A própria ONU publicou essa conclusão oficialmente (ver aqui). No entanto, aquela Comissão é um mecanismo de investigação do Conselho de Direitos Humanos e não um tribunal. A decisão judicial definitiva sobre a responsabilidade do Estado de Israel ainda cabe ao Tribunal Internacional de Justiça; e o processo iniciado pela África do Sul continua sem sentença final sobre o mérito das suas alegações. As medidas provisórias do Tribunal, contudo, são vinculativas e já reconheceram um risco plausível de genocídio, ordenando acções para impedir atrocidades abrangidas pela Convenção e permitir a entrada de ajuda humanitária (ver aqui). Mas que não foram implementadas no terreno por bloqueio de Israel (ver aqui).

É precisamente neste contexto que a presença de Netanyahu na AG se torna institucionalmente escandalosa: a ONU mantém no seu espaço central um chefe de governo que uma comissão oficial do seu próprio sistema de direitos humanos apontou como responsável, ou potencialmente responsável, por incitação ao genocídio, enquanto ele também é alvo de um mandado do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade (ver aqui e aqui). Por seu lado, os dirigentes ocidentais confirmam a sua hipocrisia e cobardia ao não assumirem uma censura clara – com excepção das poucas delegações (Eslovénia, Espanha, Irlanda, San Marino) que se ausentaram da sala antes de Bibi ter tomado a palavra (ver aqui). Os únicos protestos dignos desse nome ocorreram, como em anos anteriores, fora de portas (ver aqui).


A explicação jurídica — Israel continua membro da ONU, e não existe uma regra automática que exclua da Assembleia o representante de um Estado acusado por um órgão da ONU — explica como isto pode ocorrer. Mas não elimina a contradição política e ética: a ONU afirma que o direito internacional exige prevenção, responsabilização e punição, ao mesmo tempo que oferece a Netanyahu uma tribuna diplomática e os privilégios necessários para utilizá-la. É uma das expressões mais claras do abismo entre normas internacionais proclamadas e capacidade (ou vontade) de aplicá-las. Efectivamente, a sua aplicação depende frequentemente da vontade das grandes potências. Quando um Estado aliado pode violar princípios fundamentais sem consequências proporcionais, enquanto adversários sofrem sanções, bloqueios ou processos, a ética internacional parece reduzida a um instrumento seletivo de poder. Pode não ser letra morta, mas está na prática subordinada à correlação de forças. A Declaração Universal dos Direitos Humanos funciona como parâmetro moral e jurídico para denunciar abusos, mas não como garantia automática de proteção. O escândalo não reside apenas em haver violações; está no facto da comunidade internacional afirmar que certas violações são intoleráveis e, depois, abrir exceções quando o infrator é sistematicamente protegido politicamente. O desiderato de restaurar a confiança ao nível das relações internacionais, como sugerido pelo tema desta AG, parece-me pois cada vez mais longe de ser cumprido - e não será com certeza alcançado mantendo a actual estrutura da ONU e o desequilíbrio de poderes existente.

Nota: este curto vídeo da Aljazeera faz uma compilação das distorções e falsidades de Bibi nos seus discursos (denunciadas igualmente em anos anteriores - ver aqui), demonstrando também a sua arrogância e prepotência.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Escutar como uma árvore

“There are places where the boundary between matter and spirit blurs. Not dissolves, not vanishes, but blurs in a way that invites a new form of clarity, one that doesn’t depend on sharp lines or final answers, but on presence. I know these places. Plants have shown me.” (Há lugares onde a fronteira entre a matéria e o espírito se torna ténue. Não se dissolve, não desaparece, mas torna-se ténue de tal maneira que convida a uma nova forma de clareza, uma clareza que não depende de linhas nítidas ou de respostas definitivas, mas de presença. Eu conheço estes lugares. As plantas mostraram-me.) Monica Gagliano

É raro termos a oportunidade de assistir em exibição comercial a um filme de ficção cuja narrativa nos convide a testemunhar e a reflectir sobre os entrelaçamentos complexos entre humanos e plantas. Aconteceu-me recentemente com o filme “A Amiga Silenciosa” (Stille Freundin, no original) da realizadora húngara Ildikó Enyedi. Trata-se de uma obra de uma sensibilidade estética e poética pouco usuais, que entrecruza três histórias passadas no mesmo local, mas separadas temporalmente. O filme invoca e explora de forma ora mais contemplativa, ora mais concreta, os possíveis paralelismos ou conexões entre a sensibilidade, a cognição e a consciência em plantas e humanos – temas que aflorei num post anterior. As personagens humanas de cada história são seres solitários ou "fora da caixa", com algumas dificuldades (ou antes, desajeitamentos) nas relações com os seus semelhantes, mas que, levados pela sua curiosidade e sensibilidade incomuns, se deixam tocar e envolver pelo mundo das plantas, cada um/uma à sua maneira. Mas a personagem comum às três histórias é, na verdade, uma árvore centenária da espécie Ginkgo biloba, realmente existente no Jardim Botânico do campus da Universidade de Marburgo, na Alemanha, que serve de cenário à narrativa. Vamos assistindo a diversos entrelaçamentos entre as personagens humanas e a árvore (ou outras plantas), que vão sendo revelados ao longo do filme. Em particular, o neurocientista de Hong Kong da história contemporânea (Tony) partilha com aquela árvore um deslocamento geográfico e cultural, exacerbado pela escolha do início da pandemia de 2020 como contexto narrativo.

Tony Leung e Ildikó Enyedi

Convém notar que aquela espécie terá sido trazida da China para a Europa ainda no século XVIII como curiosidade botânica, permanecendo, nos jardins em que foi plantada, desligada do seu contexto original e sem possibilidade de interagir com outros membros da sua espécie. Acontece que uma particularidade das Ginkgo é serem plantas dioicas, ou seja, com indivíduos femininos e masculinos separados (ver p.ex.
aqui). A Ginkgo centenária do filme é um indivíduo feminino e uma cena memorável mostra o neurocientista Tony, auxiliado pelo segurança do campus, a polinizarem manualmente a árvore - um evento inédito na sua vida, dada a inexistência de indivíduos masculinos na proximidade, e que gera uma explosão fisiológica e sensorial na árvore. Uma outra singularidade das Ginkgo é possuírem gâmetas masculinos móveis (ausentes em todas angiospérmicas e na maioria das gimnospérmicas), característica que partilham com outras plantas ‘primitivas’ como as cicas, os fetos e os musgos – facto que é ilustrado no filme e foi objecto de um maravilhoso documentário realizado no Japão sobre a evolução do sistema reprodutivo das Ginkgo: “The sea in the seed” (2000). A espécie é também considerada excepcional por representar a única sobrevivente de uma linhagem primitiva da evolução das gimnospérmicas (grupo de plantas sem flores ou frutos verdadeiros que inclui as coníferas), mas possuindo folhas de página larga (com a forma reconhecível de leque) e sementes envolvidas por tecido carnudo que fazem lembrar frutos (ver p.ex. a página da Wikipedia sobre a espécie, citada acima).


Regressando ao filme de Enyedi, um outro tema explorado pela realizadora é o da procura de uma forma de comunicação não-verbal, sensitiva e sensual, entre humanos e plantas, ora através da fotografia (protagonizada por Grete no segmento que se desenrola em 1908, ano em que foram admitidas pela primeira vez estudantes femininas nas universidades prussianas), ora por meio de sensores de estímulos eléctricos (usados pelos protagonistas dos segmentos que decorrem nos anos 1970 e 2020). Essa indagação parece surgir nas personagens do filme como uma forma de compensar ou superar o desajustamento que cada uma experiencia na comunicação ou no relacionamento com outros indivíduos da sua espécie. No caso dos segmentos passados nos anos 70, as experiências iniciadas pela personagem de Gundula e que são continuadas por Hannes reproduzem as famosas experiências realizadas com um polígrafo por Cleve Backster nos anos 60 e 70 para demonstrar a sensibilidade e a capacidade de comunicação das plantas (ver p.ex. aqui). Essas e outras experiências com o mesmo propósito são descritas no igualmente famoso livro de Peter Tompkins e Christopher Bird “The Secret Life of Plants” (1973), que vemos Gundula a ler numa cena. O livro tornou-se, na altura, um bestseller, mas foi fortemente criticado e desacreditado pelos botânicos de então (mas ver aqui). Embora muitas das alegações de Tompkins e Bird se tenham revelado infundadas, o livro faz uma crítica acertada às práticas destrutivas do modelo agrícola industrial. Mais ainda, nas primeiras décadas do presente século, a investigação sobre comportamento vegetal fez nascer um nova disciplina, a neurobiologia vegetal, que tem mostrado as extraordinárias capacidades cognitivas e comunicativas das plantas – ver p.ex. aqui ou aqui.

O filme invoca ainda diferentes questões igualmente relevantes (algumas das quais abordei no meu post de 2025), que entrecruza de forma inteligente e sensível: As plantas dispõem de sensibilidade, de inteligência ou de consciência? Será possível estabelecer comunicação entre humanos e plantas? A cognição descentralizada das plantas terá paralelo nos padrões cerebrais difusos e não-associados à linguagem que se observam em bebés mas que desaparecem nos adultos? Será possível conciliar a temporalidade de uma árvore com a dos humanos? Qual o papel da ciência e do conhecimento não-científico no nosso conhecimento sobre o mundo? O mundo académico é movido por preconceitos ou pelo desejo do conhecimento? São perguntas às quais o filme não dá respostas cabais, deixando-as antes como estímulos à curiosidade e sensibilidade do espectador. Subjacente a todo o filme está um olhar crítico sobre o zoocentrismo e o antropocentrismo, ainda reinantes quer no mundo académico, quer na sociedade em geral, e que reforçam a separação entre (muitos) humanos e o mundo natural – ver p.ex. meus posts anteriores (aqui e aqui). A realizadora fez aliás questão de incluir nos créditos finais uma listagem das espécies vegetais que surgem no filme e que excedem claramente o elenco humano.


Para quem quiser saciar a sua curiosidade sobre uma das linhas de investigação mais interessantes e desafiantes no domínio da sensibilidade, comunicação e inteligência das plantas, sugiro procurar o trabalho da investigadora Monica Gagliano, que terá servido de inspiração à personagem da Drª. Alice Sauvage (um piscar de olho da realizadora) no filme. Recomendo em particular, o seu livro de 2018 “Thus Spoke the Plant” ou um seu ensaio recente que resultou da palestra que deu em Maio de 2025 no simpósio “Thinking with Plants and Fungi” na Universidade de Harvard (do qual retirei a citação que abre este post). As suas abordagens pouco ortodoxas têm-lhe trazido o desdém de muitos biólogos vegetais mais convencionais – ver p.ex. aqui. Como Gagliano costuma dizer, podemos não saber se as plantas falam, mas há quem as saiba escutar. Para quem estiver disponível para escutar/sentir, deixando-se levar pelo ritmo e pelo registo contemplativo do filme de Enyedi, será certamente uma experiência arrebatadora e comovente.

Para fechar, transcrevo a tradução para português (de Paulo Quintela) do poema de Goethe sobre a Ginkgo, citado no filme (daqui):

Ginkgo biloba (Johann Wolfgang von Goethe, 1815)

A folha desta árvore que de Leste

Ao meu jardim se veio afeiçoar,

Dá-nos um gosto de um sentido oculto

Capaz de um sábio edificar.

 

Será um ser vivo apenas

Em si mesmo em dois partido?

Serão dois que se elegeram

E nós julgamos num unidos?

 

P’ra responder às perguntas

Tenho o sentido real:

Não vês por meus cantos como

Sou uno e duplo, afinal?

(é possível aceder à versão original e à tradução inglesa aqui)


Deixo ainda links para uma página com vários recursos sobre Ginkgo (aqui) e para artigos que apresentam diversas perspectivas sobre o filme:

Jorge Pereira Rosa: https://c7nema.net/critica/item/140012-silent-friend-podem-as-plantas-sentir.html

Hoai-Tran Bui : https://www.inverse.com/entertainment/silent-friend-reel-science-plant-intelligence

Ryan Bedsaul: https://lareviewofbooks.org/article/silent-friend-ildiko-enyedi-tony-leung-plants-technology/

Dan Schindel: https://reverseshot.org/reviews/entry/3456/silent_friend