“There are places where the boundary between matter and spirit blurs. Not dissolves, not vanishes, but blurs in a way that invites a new form of clarity, one that doesn’t depend on sharp lines or final answers, but on presence. I know these places. Plants have shown me.” (Há lugares onde a fronteira entre a matéria e o espírito se torna ténue. Não se dissolve, não desaparece, mas torna-se ténue de tal maneira que convida a uma nova forma de clareza, uma clareza que não depende de linhas nítidas ou de respostas definitivas, mas de presença. Eu conheço estes lugares. As plantas mostraram-me.) Monica Gagliano
| Tony Leung e Ildikó Enyedi |
Convém notar que aquela espécie terá sido trazida da China para a Europa ainda no século XVIII como curiosidade botânica, permanecendo, nos jardins em que foi plantada, desligada do seu contexto original e sem possibilidade de interagir com outros membros da sua espécie. Acontece que uma particularidade das Ginkgo é serem plantas dioicas, ou seja, com indivíduos femininos e masculinos separados (ver p.ex. aqui). A Ginkgo centenária do filme é um indivíduo feminino e uma cena memorável mostra o neurocientista Tony, auxiliado pelo segurança do campus, a polinizarem manualmente a árvore - um evento inédito na sua vida, dada a inexistência de indivíduos masculinos na proximidade, e que gera uma explosão fisiológica e sensorial na árvore. Uma outra singularidade das Ginkgo é possuírem gâmetas masculinos móveis (ausentes em todas angiospérmicas e na maioria das gimnospérmicas), característica que partilham com outras plantas ‘primitivas’ como as cicas, os fetos e os musgos – facto que é ilustrado no filme e foi objecto de um maravilhoso documentário realizado no Japão sobre a evolução do sistema reprodutivo das Ginkgo: “The sea in the seed” (2000). A espécie é também considerada excepcional por representar a única sobrevivente de uma linhagem primitiva da evolução das gimnospérmicas (grupo de plantas sem flores ou frutos verdadeiros que inclui as coníferas), mas possuindo folhas de página larga (com a forma reconhecível de leque) e sementes envolvidas por tecido carnudo que fazem lembrar frutos (ver p.ex. a página da Wikipedia sobre a espécie, citada acima).
Regressando ao filme de Enyedi, um outro tema explorado pela realizadora é o da procura de uma forma de comunicação não-verbal, sensitiva e sensual, entre humanos e plantas, ora através da fotografia (protagonizada por Grete no segmento que se desenrola em 1908, ano em que foram admitidas pela primeira vez estudantes femininas nas universidades prussianas), ora por meio de sensores de estímulos eléctricos (usados pelos protagonistas dos segmentos que decorrem nos anos 1970 e 2020). Essa indagação parece surgir nas personagens do filme como uma forma de compensar ou superar o desajustamento que cada uma experiencia na comunicação ou no relacionamento com outros indivíduos da sua espécie. No caso dos segmentos passados nos anos 70, as experiências iniciadas pela personagem de Gundula e que são continuadas por Hannes reproduzem as famosas experiências realizadas com um polígrafo por Cleve Backster nos anos 60 e 70 para demonstrar a sensibilidade e a capacidade de comunicação das plantas (ver p.ex. aqui). Essas e outras experiências com o mesmo propósito são descritas no igualmente famoso livro de Peter Tompkins e Christopher Bird “The Secret Life of Plants” (1973), que vemos Gundula a ler numa cena. O livro tornou-se, na altura, um bestseller, mas foi fortemente criticado e desacreditado pelos botânicos de então (mas ver aqui). Embora muitas das alegações de Tompkins e Bird se tenham revelado infundadas, o livro faz uma crítica acertada às práticas destrutivas do modelo agrícola industrial. Mais ainda, nas primeiras décadas do presente século, a investigação sobre comportamento vegetal fez nascer um nova disciplina, a neurobiologia vegetal, que tem mostrado as extraordinárias capacidades cognitivas e comunicativas das plantas – ver p.ex. aqui ou aqui.
O filme invoca ainda diferentes questões igualmente relevantes (algumas das quais abordei no meu post de 2025), que entrecruza de forma inteligente e sensível: As plantas dispõem de sensibilidade, de inteligência ou de consciência? Será possível estabelecer comunicação entre humanos e plantas? A cognição descentralizada das plantas terá paralelo nos padrões cerebrais difusos e não-associados à linguagem que se observam em bebés mas que desaparecem nos adultos? Será possível conciliar a temporalidade de uma árvore com a dos humanos? Qual o papel da ciência e do conhecimento não-científico no nosso conhecimento sobre o mundo? O mundo académico é movido por preconceitos ou pelo desejo do conhecimento? São perguntas às quais o filme não dá respostas cabais, deixando-as antes como estímulos à curiosidade e sensibilidade do espectador. Subjacente a todo o filme está um olhar crítico sobre o zoocentrismo e o antropocentrismo, ainda reinantes quer no mundo académico, quer na sociedade em geral, e que reforçam a separação entre (muitos) humanos e o mundo natural – ver p.ex. meus posts anteriores (aqui e aqui). A realizadora fez aliás questão de incluir nos créditos finais uma listagem das espécies vegetais que surgem no filme e que excedem claramente o elenco humano.
Para quem quiser saciar a sua curiosidade sobre uma das linhas de investigação mais interessantes e desafiantes no domínio da sensibilidade, comunicação e inteligência das plantas, sugiro procurar o trabalho da investigadora Monica Gagliano, que terá servido de inspiração à personagem da Drª. Alice Sauvage (um piscar de olho da realizadora) no filme. Recomendo em particular, o seu livro de 2018 “Thus Spoke the Plant” ou um seu ensaio recente que resultou da palestra que deu em Maio de 2025 no simpósio “Thinking with Plants and Fungi” na Universidade de Harvard (do qual retirei a citação que abre este post). As suas abordagens pouco ortodoxas têm-lhe trazido o desdém de muitos biólogos vegetais mais convencionais – ver p.ex. aqui. Como Gagliano costuma dizer, podemos não saber se as plantas falam, mas há quem as saiba escutar. Para quem estiver disponível para escutar/sentir, deixando-se levar pelo ritmo e pelo registo contemplativo do filme de Enyedi, será certamente uma experiência arrebatadora e comovente.
Para fechar, transcrevo a tradução para português (de Paulo Quintela) do poema de Goethe sobre a Ginkgo, citado no filme (daqui):
Ginkgo biloba (Johann Wolfgang von Goethe, 1815)
A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos um gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.
Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?
P’ra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?
(é possível aceder à versão original e à tradução inglesa aqui)
Deixo ainda links para uma página com vários recursos sobre Ginkgo (aqui) e para artigos que apresentam diversas perspectivas sobre o filme:
Jorge Pereira Rosa: https://c7nema.net/critica/item/140012-silent-friend-podem-as-plantas-sentir.html
Hoai-Tran Bui : https://www.inverse.com/entertainment/silent-friend-reel-science-plant-intelligence
Ryan Bedsaul: https://lareviewofbooks.org/article/silent-friend-ildiko-enyedi-tony-leung-plants-technology/
Dan Schindel: https://reverseshot.org/reviews/entry/3456/silent_friend


