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quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Respigos de Verão (2) - especulação imobiliária, lucros dos bancos, turistificação e activismo ambiental

L'été, les glaneuses (1853) J.F. Millet
Esta é a segunda leva dos Respigos de Verão (estação que se prolongou até à data da publicação deste post!). Podem conferir a primeira aqui. Os temas são desta vez mais variados – especulação imobiliária, lucros dos bancos, turistificação e demonização do activismo ambiental –, tendo por base notícias e artigos que fui respigando nos últimos meses. Faço ainda um destaque a um ensaio sobre o território da Arrábida e a sua relação com o pensamento animista, numa reflexão sobre o ambiente e a sustentabilidade da vida.


O tema da habitação e do imobiliário, em particular na cidade de Lisboa, tem andado no radar dos media e da opinião pública há vários meses e culminou com diversas manifestações no final de Setembro. O aspecto que me interessa neste tema é a relação com ‘os mercados’ e a especulação imobiliária. Era evidente, pelo menos desde 2022 (com ‘o fim da pandemia’), que a bolha imobiliária estava a inchar a olhos vistos – tanto em Portugal como noutros países europeus – e havia quem apostasse que iria rebentar em breve – ver p.ex. aqui ou aqui. Quem procura casa para arrendar em Lisboa, quem já teve de sair da cidade por não conseguir pagar as rendas ou quem tem empréstimos e começa a fazer contas à vida com a subida constante dos juros, sentiu na pele os efeitos de um mercado especulativo em rédea solta (ver p.ex. aqui). O governo português, tarde e a más horas, quis remediar a situação com o pacote ‘Mais Habitação’. As críticas choveram de todos os lados, em particular dos partidos da oposição, e ‘os mercados’ (neste caso, os especuladores imobiliários), quais frágeis donzelas, ficaram nervosos – ver p.ex. aqui. Vale a pena destacar alguns trechos desta ‘notícia’ para se perceber os disparates que se escrevem e dizem: “Imobiliário está a cair há um ano e teme novo choque com o Mais Habitação (…) Os operadores do sector imobiliário foram rápidos a reagir à apresentação do Mais Habitação, logo em Fevereiro, com avisos sobre o abalo que a confiança dos investidores iria sofrer. [minha ‘tradução’: o ‘sector’ temia afinal a perda dos seus lucros chorudos] Hoje, garantem que esse impacto já se sente e que os investidores estão mesmo «mais nervosos e desconfiados».” No mesmo artigo, diagnostica-se o problema: “A diminuição do rendimento das famílias por via da inflação, o aumento dos juros, a subida dos custos de construção e o desequilíbrio entre oferta e procura já pesam sobre o mercado há vários meses; mas constata-se (com um tom de bizarra admiração) que: “enquanto o número de vendas está a cair de forma acentuada desde o ano passado, os preços não dão tréguas e continuam a aumentar sem sinais de que venham a interromper as subidas em breve, embora cresçam a um ritmo menos acelerado do que aquele que se verificou no passado recente.” Só faltou mencionar quem beneficia afinal com esta situação: os fundos imobiliários e investidores, os mediadores (imobiliárias) e, é claro, os bancos. A ameaça dos incumprimentos nos créditos à habitação voltou a pairar, mas as reacções e medidas tomadas são no mínimo desconexas: por um lado, o Banco de Portugal reduziu a taxa de stress aplicada aos empréstimos à habitação para facilitar o crédito (ver aqui) e os bancos dão incentivos (‘borlas’, segundo este artigo) para angariar novos empréstimos na compra de habitação; por outro lado, teme-se o aumento do endividamento e os incumprimentos (ver aqui) e, pelo sim, pelo não, os bancos resolveram quintuplicar(!) as suas reservas para cobrir imparidades e prevenir o risco de incumprimentos no pagamento dos créditos (ver aqui). Parece que a bolha é mesmo para estoirar - mais uma vez!... E não é só por cá, noutros países europeus, os sinais de alarme também soaram (ver p.ex. aqui) e as mensagens de que não há motivo para preocupação (p.ex. aqui) surgem ao mesmo tempo que alguns governos se preparam para intervir (ver p.ex. aqui). Em Lisboa, foi agora aprovada a Carta Municipal da Habitação, apesar das críticas do BE – ver aqui.


Não há dúvida de que os bancos são um dos beneficiários desta situação, com os seus lucros a aumentarem - num momento de crise inflacionária –, com umas ‘ajudinhas’ do Banco Central Europeu, que tem vindo a subir as taxas de juro de referência (alegadamente, para conter a inflação). E quem fez as contas foi o próprio Banco de Portugal – ver p.ex. aqui ou aqui. Segundo o primeiro artigo: “Lucros dos bancos em Portugal dispararam 50% no ano passado, para 2,97 mil milhões de euros. Foi o melhor resultado desde a crise financeira global de 2007, de acordo com os cálculos do Banco de Portugal. Este resultado foi alcançado graças ao aumento da margem financeira… (…) Em 2022, os resultados aceleraram devido à subida das taxas de juro do Banco Central Europeu (BCE), que possibilitou aos bancos aumentarem a margem financeira em 1,38 mil milhões de euros para 7,5 mil milhões, o valor mais elevado desde 2011.” Essa situação foi confirmada em Julho com a divulgação dos resultados dos diferentes bancos portugueses, que originou uma catadupa de notícias publicadas em dias consecutivos: ver aqui, aqui, aqui e aqui. A esquerda estrebuchou, denunciando, com razão, a imoralidade e a injustiça – ver aqui e aqui. Neste último artigo de opinião do dirigente do BE João Soeiro, o autor escreve: “Desde janeiro do ano passado, a prestação da casa já subiu mais de 70%. A banca, que recebeu dos contribuintes mais de 26 mil milhões de euros entre 2012 e 2020, já lucrou dois mil milhões a mais nos últimos meses. É escandaloso e imoral. (…) Num semestre, a banca já ganhou mais do que todas as receitas que teve há um ano. Ao mesmo tempo que mantém baixas remunerações nos depósitos, beneficia enormemente com a subida das taxas de juros nos créditos, à boleia das decisões do Banco Central Europeu. O disparo da Euribor atinge diretamente 1,4 milhões de famílias com empréstimos com taxa variável (mais de 90%).” No entanto, a reivindicação mais veemente do BE continua a ser uma subida dos salários e dos impostos aos ricos – pode parecer justo, mas a mudança estrutural necessária deveria ser muito mais profunda e arrojada (e, quanto a mim, não se deve limitar a “derrotar o capitalismo”). Por seu lado, os partidos do Centrão (PS e PSD), não se deixaram comover por aqueles números e nem se atrevem a ‘hostilizar’ os bancos. As críticas à política do BCE vieram também de sectores mais moderados, apelidando-a de ‘leviandade social’ – ver p.ex. aqui ou aqui. No primeiro artigo de opinião, João Rodrigues dos Santos escreve: “A receita [do BCE] para salvar a Zona Euro assenta na política monetária e na subida das taxas de juro. Com juros mais altos, os bancos elevam os seus lucros. Na prática, os cidadãos com créditos à habitação contraídos pagam mais por cada euro recebido por empréstimo. O dinheiro nos cofres da banca aumenta. (…) há muito tempo que o limite da política monetária contracionista foi ultrapassado. Num ano, as prestações mensais sobem centenas de euros. É um ataque cruel às famílias, que as despedaça.” Neste mesmo artigo, o autor estende a sua crítica a empresas de outros sectores, em particular as energéticas: “Há uma harmonia conjuntural à escala global que contribui para o período excecional que Bancos e energéticas estão a atravessar. O processo não é complexo. Compreende-se com relativa facilidade. Primeiro, a conduta disruptiva e errática de um proeminente decisor mundial alarma os mercados. Estes últimos dão-se bem com a agitação. Por isso, não enjeitam a boleia. Num segundo momento, o ambiente de ansiedade generalizada e de muita incerteza cria o enquadramento perfeito para práticas especulatórias de preços. (…) Tudo se conjuga de forma harmoniosa para que as empresas produtoras e distribuidoras de energia acumulem lucros estratosféricos. (…) Mesmo que a origem das atuais dificuldades estivesse relacionada com variáveis estritamente económicas, continuaria a ser sempre moralmente obrigatório estabelecer um limite para o sofrimento humano. E tudo isto a ocorrer num quadro de aumento muito significativo dos lucros da banca. Um dos pensamentos mais elementares em economia consiste em reconhecer que os recursos disponíveis são sempre os mesmos e que apenas vão mudando de mãos. Para alguns terem mais, outros terão de ter menos, necessariamente. Energéticas e bancos aumentam agora os seus lucros de forma desmedida. Ao invés, as famílias veem os seus parcos recursos trucidados.” A isto devia chamar-se oportunismo predatório!

Bartoon (Público, 30 Julho 2023)

Os lucros excessivos das grandes corporações multinacionais foram revelados num novo relatório da Oxfam e Action Aid, publicado em Julho, onde foram divulgados os lucros recorde em 2021 e 2022 de mais de 700 grandes empresas internacionais (energia, alimentação, financeiras e farmacêuticas) e que defende a aplicação duma taxa de imposto de 50 a 90% sobre lucros excessivos (‘windfall tax’). Numa notícia no site do BE pode ler-se: “Mais de um quinto destes lucros «caídos do céu» (windfall profits), cerca de 219 mil milhões de euros por ano, foi parar às contas das 45 empresas do setor energético que figuram na lista da Forbes das duas mil maiores empresas. O aumento dos lucros da energia fez aparecer 96 bilionários no setor, com uma fortuna conjunta de quase 400 mil milhões de euros, mais 46 mil milhões do que em abril do ano passado. No setor alimentar e de bebidas, calcula-se que 18 empresas tenham faturado um lucro excessivo de quase 13 mil milhões de euros por ano em 2021 e 2022, à boleia do aumento de mais de 14% dos preços dos bens alimentares no ano passado. No setor da distribuição e supermercados, as 42 maiores redes lucraram mais 25 mil milhões por ano do que o que seria devido. A indústria farmacêutica também aproveitou a onda, com as 28 empresas de topo a apresentarem lucros excessivos de mais de 43 mil milhões anuais. (…) Há poucas semanas, um estudo do FMI veio confirmar que os lucros das empresas foram responsáveis por pelo menos metade da inflação registada na União Europeia nos últimos dois anos. A mesma conclusão tinha sido tirada por economistas da Reserva Federal em relação aos EUA em 2021.” Ainda assim algumas empresas do sector energético/petrolífero lamentavam o facto dos lucros de 2023 não estarem a corresponder às suas expectativas, como foi o caso da Shell que não conseguiu lucrar tanto no 2º trimestre de 2023 quanto previa – apenas 4,5 mil milhões de euros, em vez de 5,2! – ver p.ex. aqui. Nesta notícia pode ler-se: “Depois dos resultados históricos registados em 2022, os lucros da Shell caíram 56% no segundo trimestre do ano, à boleia da redução dos preços do petróleo e do gás, obrigando a empresa a desacelerar seu programa de recompra de acções. (…) Os resultados do segundo trimestre comparam ao lucro trimestral recorde de 11,5 mil milhões de dólares (10,4 mil milhões de euros) no ano anterior e de 9,65 mil milhões (8,7 mil milhões de euros) no primeiro trimestre de 2023. (…) Estes resultados foram divulgados num momento em que, segundo a Reuters, milhões de famílias britânicas lutam para pagar as contas de energia e depois de o regulador Ofgem ter alertado as empresas para evitarem pagamentos excessivos aos seus accionistas.” Imoralidade? Injustiça? “Who cares”?...


Quanto ao tema da turistificação, referi-me aos impactos da crise climática na procura turística na 1ª parte deste post e tinha já reflectido amplamente sobre o turismo de massa e os seus impactos num post que escrevi em 2017. Desde então, o fenómeno tem-se intensificado, apesar do abrandamento que se observou durante os dois primeiros anos da pandemia – ver p.ex. os seguintes documentários curtos: Crowded Out: The Story of Overtourism (Responsible Travel, 2018) e Overtourism plagues Europe (ARTE, 2023). Muitas das notícias publicadas este Verão sobre a evolução recente do turismo em Portugal, anunciaram em tom optimista e eufórico os recordes nas receitas e nos números de turistas – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. No entanto, os efeitos nefastos da enchente turística são evidentes, não só nas duas grandes cidades (Lisboa e Porto), como também p.ex. nas ilhas da Madeira e Açores – ver aqui e aqui. Para além dos impactos ambientais, têm vindo a ser discutidos mais regularmente os impactos sociais e económicos negativos da ‘monocultura’ turística - como no artigo sobre a Madeira citado atrás ou neste outro que mostra como os imigrantes que trabalham no sector são triturados pela máquina que alimentam. Numa conversa com três economistas publicada no site da Renascença (aqui), foi questionado o papel do turismo como ‘motor da economia’ ou ‘bóia de salvação’. Transcrevo alguns excertos: “Cerca de 22,3 milhões de turistas (não-residentes) pisaram solo nacional no ano passado, número que contrasta com os 14 milhões de 2012. Em cerca de uma década, a contribuição do setor do turismo para o PIB nacional passou de pouco significativa – 3,4% em 2013 – para um elemento central: uma fatia de 12,2% do PIB em 2022. (...) Na opinião de Vera Gouveia Barros, economista e autora do livro ‘Turismo em Portugal’ (ed. FFMS), o turismo tem alguns desafios próprios: «horários de trabalho exigentes», «sazonalidade» e «instabilidade de vínculos laborais». O maior, em todo o caso, está nos salários. «O setor não está bem», frisa. Que é como quem diz: paga mal. (…) segundo a ‘Agenda Profissões do Turismo: 2023-2026’, apresentada pelo Governo em abril deste ano, a remuneração média nos setores do alojamento, restauração e similares é 34% inferior à remuneração média do total da economia. Em média, os trabalhadores do turismo ganham 938 euros brutos por mês e apenas 60% tem contrato permanente. (…) diz o economista Alexandre Abreu. «Neste momento, Portugal está com turismo a mais. Nomeadamente, face às práticas de regulação do setor, que permitem o tipo de efeitos nocivos que são conhecidos sobre o setor da habitação ou disponibilidade hídrica.» Para o economista, «o alastramento praticamente desregrado do Alojamento Local é um dos fatores que contribui para o aumento fortíssimo dos preços da habitação que praticamente duplicou na última década.» Nos últimos dez anos, os preços das casas aumentaram quase 75%, de acordo com o INE.” Ainda assim, há um tom de lamúria quando se noticia o ‘abrandamento do crescimento’ das receitas – ver p.ex. aqui: “Os dados do INE revelam ainda que, entre janeiro e julho deste ano, os proveitos totais ascendem a mais de 3,2 mil milhões de euros, superando o total de proveitos gerados em 2020 e 2021 em conjunto e quase dois terços dos proveitos registados em todo o ano de 2022. No entanto, desde fevereiro que os proveitos têm apresentado um abrandamento da taxa de crescimento homóloga, passando de 97,2% em janeiro deste ano para apenas 10,6% em julho. Esta desaceleração é acompanhada pela subida dos preços das estadias, que atingiram valores recorde.”

Bartoon (Público, 11 Setembro 2023)

Finalmente, regresso ao tema da crise ambiental e climática (abordado na 1ª parte deste post, bem como em vários outros anteriores – ver aqui) para destacar um tópico preocupante que tem dominado uma parte do debate público: as sucessivas (e crescentes) acusações de ecoterrorismo e de radicalismo de que têm sido alvo várias iniciativas activistas de diferentes movimentos ambientalistas europeus (e também em Portugal). Note-se que tinha já aflorado o assunto este ano no post dos Respigos de Março. Um artigo de fundo da Euronews e da Reuters faz um relato exaustivo das recentes invectivas, possivelmente coordenadas, das autoridades da Alemanha, França e Reino Unido, contra diversas organizações e colectivos ambientalistas que promoveram iniciativas de acção directa nesses países em 2022 e 2023. Transcrevo alguns excertos: “Os bloqueios de estradas nas principais autoestradas britânicas provocaram o caos no trânsito, os protestos em instalações petrolíferas na Alemanha interromperam o abastecimento e, em França, milhares de ativistas e a polícia entraram em confronto por causa da utilização da água, deixando dezenas de feridos. (…) Determinados a impedir que estes protestos se reforcem ainda mais, os estados alemães e as autoridades nacionais francesas estão a invocar poderes legais frequentemente utilizados contra o crime organizado e os grupos extremistas para colocar escutas telefónicas e seguir os ativistas, segundo a Reuters, com base em conversas com quatro procuradores, a polícia de ambos os países e mais de uma dúzia de manifestantes. (…) As autoridades estatais na Alemanha estão a utilizar a detenção preventiva para impedir as pessoas de protestar, incluindo a detenção de pelo menos uma pessoa durante 30 dias sem acusação. Esta medida é permitida pela lei da Baviera, segundo os procuradores consultados pela Reuters. Os legisladores aprovaram novas leis de vigilância e detenção em França, em julho, e no Reino Unido, em maio. A Grã-Bretanha está a tornar ilegal trancar-se ou colar-se a uma propriedade. França utilizou uma unidade antiterrorismo para interrogar alguns ativistas do clima, confirmou a polícia à Reuters. Os governos britânico e da Alemanha afirmaram que a resposta aos protestos tinha por objetivo evitar ações criminosas prejudiciais. O Governo francês não quis comentar, mas já afirmou anteriormente que o Estado deve ser capaz de combater aquilo a que chama «radicalização».” Um dos movimentos destacado nesta notícia é 'Les Soulèvements de la Terre' (SLT, a que me referi no meu post de Março citado acima), que o governo francês pretendeu ilegalizar com acusações de ecoterrorismo, após uma sucessão de tentativas de demonização daquele colectivo ambientalista por parte do poder político e dos media em França – ver aqui ou aqui. Felizmente, gerou-se um coro de indignação e um movimento de solidariedade para com o SLT entre intelectuais, artistas e activistas franceses, que culminou com um apelo internacional contra a sua dissolução lançado em Julho – ver aqui ou aqui. O SLT recorreu da sentença e o Conselho de Estado suspendeu a dissolução em Agosto – ver aqui. Por cá, não se ouviu falar desta situação nos media nacionais dominantes (nem mesmo no jornal Público, que tem dedicado tanta atenção à crise climática, como destaquei no post anterior), que aparentam ter-se tornado aliados dos poderes instalados que preferem o conformismo. 


Num artigo de opinião, António Guerreiro denunciou o recurso crescente à palavra ‘ecoterrorista’ para rotular não só os activistas climáticos mais radicais, como também os intelectuais que se solidarizam com as suas acções. Transcrevo alguns excertos: “O antropólogo francês Philippe Descola, um dos representantes mais prestigiados da sua disciplina, a nível internacional, professor emérito do Collège de France [esteve em Maio na Culturgest, onde proferiu uma conferência], foi recentemente incluído pelo governo francês numa lista de suspeitos e indesejáveis cúmplices dos «ecoterroristas», por ter apoiado publicamente o movimento chamado Les Soulèvements de la Terre, que já conta com mais de cem mil signatários. A figura do “ecoterrorista” está em fase adiantada de construção pelo poder político (que já conseguiu introduzi-la no léxico da nossa época), com a colaboração de sectores importantes da opinião publicada nos media. (…) As máquinas predatórias de energia, dos recursos naturais e do espaço público, ao serviço de prazeres gratuitos, essas, nem por sombras se considera que elas relevam de um sistema, de uma maneira terrorista de habitar o planeta. Negá-lo, reivindicar os prazeres mesquinhos e privados como se não houvesse uma catástrofe ecológica em curso, é ser cúmplice de um crime de massa. Mas para esses actos não se aplica a noção de terrorismo nem sequer de delinquência.” Guerreiro denuncia o carácter destrutivo das alegadas ‘soluções verdes’ para os problemas da transição energética e da falta de água, citando os exemplos nacionais dos projectos de mineração do lítio no Norte do país e da dessalinização da água do mar no Algarve: “A água dessalinizada (tal como a extracção do lítio em Trás-os-Montes) seria uma boa coisa se não servisse para alimentar os delírios da tecnoengenharia e preservar o sistema de predação necrófila, ou seja, para ampliar tudo aquilo que provocou o estado de catástrofe...” E conclui: “Colocar o foco, como está a acontecer, nas alterações climáticas e investir tudo nos meios para prosseguir os mesmos fins, os de uma máquina exterminadora – isso sim, é obstinação terrorista.” As acusações de (eco)terrorismo ressurgiram novamente em Portugal na sequência de diversas acções directas recentes de activistas climáticos – ver p.ex. aqui ou aqui. Neste outro artigo de opinião, Manuel Soares (Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses) afirma de forma demagógica e despudorada: “Ainda que possa soar exagerado, se virmos bem, há semelhanças perturbadoras entre as acções radicais dos grupos de activistas climáticos e os atentados das organizações terroristas. Em ambos os casos, trata-se de grupos organizados de pessoas unidas por uma ideologia comum, que planeiam e executam acções subversivas ilegais, em nome de um bem maior que eles próprios definem, para, sob violência e coacção, forçar mudanças políticas e sociais, fora dos mecanismos da democracia e do civismo. Claro que não é a mesma coisa uma miúda partir a montra de um edifício público, à martelada, pela calada da manhã, para aparecer a dizer umas coisas nas televisões; ou um bombista suicida fazer-se explodir à hora de ponta para rebentar com o prédio e matar pessoas. Mas o princípio é exactamente o mesmo: as minhas razões, indiscutíveis e superiores às tuas, dão-me o direito de te coagir violentamente a pensares e fazeres o que eu digo que está certo.” Mas mais adiante parece desdizer-se: “Como disse o Papa Francisco há dias, as acções dos grupos radicais do activismo climático são a resposta a um vazio da sociedade inteira, que não exerce uma sã pressão sobre os governos.” Esta afirmação refere-se a uma passagem da exortação apostólica ‘Laudate Deum’, dedicada à crise climática e publicada na 1ª semana de Outubro – ver p.ex. aqui. Apesar de algumas posições mais extremadas, têm também surgido manifestações de solidariedade na opinião pública e da parte de diversos colectivos – ver p.ex. aqui ou aqui. Num programa da série Em Nome da Lei, a Renascença convidou activistas ambientais e duas juristas para comentar as recentes acções directas, a partir da pergunta: “Se o protesto não tiver nenhuma dimensão ou consequência, serve para alguma coisa?” – ver aqui. As respostas foram, como seria de esperar, diversas, mas apenas uma das juristas defendeu a razoabilidade e legitimidade daquelas acções. Transcrevo excertos da notícia sobre a conversa: “A professora de Direito Penal Inês Ferreira Leite defende que para resolver as alterações climáticas são precisas mudanças radicais da sociedade, e que não é imaginável que isso possa acontecer de uma forma passiva. (…) conclui fazendo um apelo. «Nós falhámos. E não é vergonha nenhuma admitir isso, com humildade. Eu já vivi a minha vida quase toda», lembra. «Com sorte terei mais 25 anos de vida. Fiz tudo o que queria. Tive uma vida ótima. Fui muito feliz. Mas tenho de assumir que os esforços que eu fiz, e foram muitos, ao longo da minha vida para que as coisas melhorassem, não resultaram. Eu fui sempre razoável. Fui sempre de compromissos. De negociação. Não funcionou. Falhou a democracia de modelo ocidental. Está a falhar o capitalismo. Está a falhar a globalização. Está tudo a falhar. Nós falhámos. E, portanto, em vez de continuarmos a penalizar as gerações mais novas que herdam o fardo pesado que lhes deixamos, nós temos é de ter um bocadinho de humildade e tentar conhecer e perceber melhor as pessoas mais novas. E ver como é que as podemos ajudar.»


Termino com um destaque para um ensaio de M. Lima (Caracóis guardiões e peregrinações interditas, relatos da Arrábida a partir de pequenos encantos e novas ameaças) publicado no Jornal Mapa em Agosto, onde a autora discorre sobre o território da Arrábida - a expansão das pedreiras e da Secil, os caracóis endémicos e as peregrinações à capela de São Luís -, entrecruzando as suas observações com o pensamento de John Halstead, Michael Hadfield, Donna Haraway e Davi Kopenawa. É uma bela reflexão que recomendo e da qual transcrevo alguns excertos: “Viver dentro do Parque Natural da Arrábida renovou a minha sensação de reverência por este ecossistema. Sinto-o como um espaço sagrado, réstia de algo puro e equilibrado que deve ser mantido – contra todas as ofensivas. Isso leva-me a dedicar um pouco mais do meu tempo ao estudo dessas duas entidades, «Fauna» e «Flora», cruzando-as com leituras sobre mitos e tradições populares. Fico sob o efeito de uma espécie de encantamento com os novos detalhes que descubro a ler ou a passear. E, para cada novo encanto, descubro também a presença de uma ameaça de extinção, pairando como uma maldição. (…) John Halstead consegue resumir as interrogações principais que surgem quando não queremos escapar ao nosso entrelaçamento mútuo. Pássaros e cobras. Caracóis e espíritos. Cientistas e turistas. Humanos e não humanos. Mortos e vivos. Nós humanos temos de fazer mais do que só observar. Temos a capacidade de proteger e tomar por sagrado este entrelaçamento [‘entaglement’], a teia da vida, de modo a evitar uma grande catástrofe. (…) Estarei a sentir que os caracóis são espelhos vivos (ou já inanimados, como os ecos que encontrei) de espíritos ancestrais? Ficou aberta a possibilidade de ler os relatos de Kopenawa de um modo diferente e de entender que estes pequenos seres antigos são veículos de compreensão para um animismo comprometido; e que também podem ser os guardiões da justiça climática multiespécie, que defenda os direitos de moluscos, pessoas e espíritos, como propõe Donna Haraway. (…) As várias peregrinações e festividades da zona, muitas delas remanescentes de tradições pagãs, encontram na propriedade privada [Herdade da Comenda] um impedimento à sua realização – templos, caminhos e parques que antes eram de todas, estão agora fechados e condenados ao turismo, à agricultura intensiva ou ao abandono. (…) A pequena peregrinação a S. Luís confronta-nos com o conjunto de ameaças que já sabíamos pairar sobre a região, mas mostra-nos ainda uma outra: o afastamento das populações locais dos seus espaços naturais ajuda a insensibilizar para o esventramento. Longe da vista, longe do coração. Se por um lado não nos permitem ver o cancro a crescer, por outro, ao vedar o acesso aos espaços de lazer, desligam-nos da Natureza e dos seus ritmos…. Sobram os lazeres artificiais, os ritmos acelerados, o cimento e o alcatrão. Dificulta-se a sobrevivência dos círios e das procissões que, segundo o que eu própria estou a experienciar, podem ser momentos de reflexão sobre a interdependência de tudo e espaços simbólicos de ritualização da vida, ou seja, alívios contra as dores de viver num mundo encantado e amaldiçoado. Sonhos de travar o grande desenvolvimento em nome de espíritos, caracóis e procissões. É assim tão absurdo querer tapar os gigantes buracos das cimenteiras para salvar frágeis caracóis? Impedir que os espaços comuns possam ser privatizados porque queremos peregrinar até eles e «pedir» pelas espécies em vias de extinção?

domingo, 31 de julho de 2022

Época de incêndios: desvarios e milagres

Rescaldo do incêndio em Palmela (Jul 2022)
Há várias dezenas de anos prevíamos e denunciávamos publicamente que estávamos a transformar as nossas montanhas numa pira de óptimo material combustível, a que até um “iluminado” ministro [Mira Amaral] chamou o “petróleo verde” de Portugal. Realmente tem razão; [o eucalipto] arde tão bem ou melhor do que o petróleo. Jorge Paiva

El éxodo rural, los cambios socioeconómicos y el cambio climático facilitan una acumulación inmensa de combustible vegetal listo para arder con intensidades y velocidades nunca vistas. Antes vivíamos del bosque; ahora nos defendemos de él. Marc Castellnou e Alejandro García

No caso de Portugal, Espanha e França, 98% dos incêndios são precocemente extintos, mas os 2% restantes são responsáveis por 95,4% da área ardida. A conclusão é cortante como uma lâmina: para evitar incêndios devastadores nas condições especialmente hostis das alterações climáticas, a chave está no ordenamento e não no combate. Viriato Soromenho Marques

Um país cronicamente incapaz de prevenir fogos ao longo de décadas, vira-se agora com ferocidade contra a primeira vítima do fogo, a natureza, que por ser combustível e arder, tem que ser eliminada, mesmo que sejamos nós, incauta ou criminosamente, a atear 99 % dos fogos – se não houver vítima, não pode haver agressor ou agressão; se não houver combustível, não há combustão. Maria José Castro

À medida que o mundo rural da agricultura familiar se tornou o bastardo rejeitado por interesses económicos e políticos e o eucalipto se expandiu, os fogos tornaram-se, para alguns, uma lucrativa “indústria” de milhões. Maria Carolina Varela

Com a recente onda de calor, regressou o triste e trágico espectáculo mediático do flagelo dos incêndios, acompanhado do habitual rol de meios usados no ‘combate às chamas’, dos estragos directos (para os humanos) e dos hectares ardidos - quando, na verdade, os parâmetros mais relevantes para mostrar a real magnitude dos incêndios seriam a sua velocidade de propagação e a energia emitida (ver p.ex. aqui ou aqui). E por atacado vem a estupefação e consternação pelas tragédias humanas, que alimentam o sensacionalismo e voyeurismo doentios amplificados ad nauseam pelas TVs. Mas raramente leio ou ouço menção às espécies vegetais e animais perdidas ou à destruição de ecossistemas e aos anos que demorará a sua recuperação - se é que será possível... Timidamente, surgem menções à conexão entre as vagas de calor e a mudança climática (antropogénica), potenciadora do que já foi apelidado como o Piroceno (ver aqui ou aqui), mas muito poucas às causas profundas dos recorrentes mega-incêndios, como a calamitosa gestão do território florestal e rural pelos sucessivos governos (nacional ou locais) ou a trágica desertificação humana do interior. O título de um recente artigo de opinião no Público (‘Continuamos a apagar fogos’) deixou-me esperançoso, mas o seu conteúdo frustrou as minhas expectativas. Pelo contrário, o artigo da engenheira silvicultora aposentada Maria Carolina Varela no jornal i enumera os múltiplos interesses que beneficiam dos incêndios (indústria madeireira, celuloses e empresas de prevenção e combate) e desconstrói algumas das falácias mais recorrentes: os eucaliptais das celuloses não ardem, outras espécies florestais são igualmente pirófilas, os matos e o abandono do minifúndio disperso são os culpados. Diversas vozes vêm aliás alertando para a necessidade de apostar num mosaico florestal que evite as extensas monoculturas de pinheiro ou eucalipto – que muitos insistem perversamente em apelidar de ‘florestas’ (ver aqui ou aqui). Mas os poderosos interesses instalados, incluindo o lóbi das celuloses, conseguem cooptar académicos e especialistas que defendem o seu modelo de gestão florestal (ver p.ex. aqui). 

Em 2017, em artigo de opinião numa publicação digital sobre cultura (Comunidade Cultura e Arte), que permanece apenas disponível aqui, Pedro Santos discorria sobre os verdadeiros incendiários que opinam a partir das urbes – excertos: O fogo que arde em Lisboa, nas redações dos principais jornais, revistas e televisões do país, propaga-se na voz de gente que já não sai de Lisboa. Que não conhece o país. Que não tem qualquer ligação ou empatia com o modo de vida rural, com as suas práticas. Mas que dirige os principais meios de comunicação do país. (…) [Os incendiários que querem bodes expiatórios para culpar] São os mesmos que escarnecem das lutas de ambientalistas e ativistas. Que se riem de quem tenta falar contra os esquemas das barragens inúteis que vão destruir os nossos rios e encarecer a fatura da eletricidade; que se riram quando houve oposição ao fecho de linhas de caminho de ferro no Tua, no Corgo, no Tâmega, por esse Alentejo fora; que se riem quando se fala em Proteção da Natureza; que acham bem que se tenha acabado com Guardas Florestais e Guarda Rios; que ignoram as lutas contra a exploração de gás natural e petróleo; que propagam os mitos da agricultura intensiva, de um Alqueva em cada esquina ou de um fábrica de pasta de papel em cada região. O autor conclui que cabe aos cidadãos tomar nas suas mãos a responsabilidade de criar as condições para pôr fim à calamidade recorrente dos incêndios. Também em 2017 (ver aqui), António Dores destacou vários dos aspectos referidos atrás, assim como outros que refiro adiante, e, perante a incapacidade do Estado em lidar com as raízes do problema, defendia uma mudança de regime político baseada na auto-organização territorial das suas populações, enumerando algumas das diversas organizações da sociedade civil que, desde 2017, têm promovido iniciativas de reflorestação no território nacional (ver nota 1 no final do post).

Foto de capa do jornal Público de 16 Out 2017

Desvarios

Apesar dos apelos de organizações ambientalistas, quer em Portugal, quer em Espanha, a profundas mudanças nas políticas florestais (ver p.ex. aqui, aqui e aqui), o primeiro-ministro continua a enjeitar responsabilidades do governo na (má) gestão florestal, admitindo a incapacidade de resolver o problema dos incêndios e transferindo essa missão para os cidadãos. Fê-lo em 2017, garantindo que o país continuaria a arder (ver p.ex. aqui) - o que de facto tem acontecido! -, e voltou a reforçar este ano que a “responsabilidade de evitar a ocorrência de incêndios” é dos portugueses, tendo decretado estado de contingência com restrições de múltiplas actividades, mas reafirmando que o Estado não é “segurador universal” e não tem que compensar eventuais impactos negativos das medidas (ver p.ex. aqui). Pior ainda, os seus governos têm decretado medidas avulsas de eficácia duvidosa, nomeadamente: a cega ‘limpeza dos matos’ imputada aos proprietários, que resultou em aberrações de extermínio da biodiversidade vegetal e no agravamento da perda de humidade e da erosão dos solos (ver p.ex. artigo de opinião da professora universitária Maria José Castro); as reflorestações promovidas por grandes empresas, com critérios duvidosos na seleção das árvores plantadas; ou a recente proibição de usufruto de espaços florestais e de jardins(!), alegando que a presença de pessoas constitui risco de incêndio (ver p.ex. aqui)! É verdade que muitas ignições ocorrem por incúria, devido p.ex. a queimadas, mas a presença de pessoas naqueles espaços pode ajudar no alerta precoce, que evita que um fogo possa tomar proporções incontroláveis, não deixando também campo aberto aos incendiários que são responsáveis por muitas outras ignições.

Por outro lado, têm sido gastos milhões de euros na prevenção (lembram-se do tristemente famoso SIRESP?) e no combate aos incêndios (bombeiros e meios aéreos). É sempre mais simples (e menos arriscado) para os decisores políticos tentar mitigar os estragos do que actuar sobre as causas sistémicas - vê-se isso há anos na questão dos fogos e viu-se também na gestão da pandemia. É bom para a sua imagem e assim protegem os interesses instalados em vez de defender o verdadeiro interesse público. Nem mesmo o ‘presidente dos afectos’ consegue exercer uma eficaz magistratura de influência nesta matéria e, apesar de imparável nas suas deslocações e declarações, as suas boas intenções ficam-se pelas selfies e os abraços. Tudo isto é lamentável (mas não inesperado), tanto mais que vários indícios de corrupção ou de conluio criminoso têm vindo a lume, denunciados p.ex. em reportagens jornalísticas de 2017 e 2018 em Espanha e em Portugal (ver nota 2 no final do post). Em Espanha assiste-se também a uma intensificação deste flagelo e o mega-incêndio de Junho deste ano (2022) gerou pelo menos forte indignação social no país vizinho (ver aqui e aqui).

Cartoon de Vasco Gargalo (2017)

Milagres

Perante o esperado agravamento das alterações climáticas, que gerará mais ondas de calor potenciadoras de grandes incêndios, e a incapacidade ou irresponsabilidade dos poderes públicos de travar o flagelo, será que nos resta aguardar por algum milagre que nos salve da catástrofe iminente? Felizmente, esses ‘milagres’ já estão a acontecer. Para além das iniciativas citadas na nota 1 (no final), este ano já foi possível constatar os benefícios dos projectos de restauro de vegetação autóctone, como o da Associação BioLiving que funcionou como travão na progressão do incêndio de Estarreja no início do mês de Julho – ver aqui e aqui. De facto, para aquela associação este episódio demonstra claramente a importância da floresta nativa – as chamadas ‘árvores bombeiro’ – para a segurança das populações e a necessidade de uma gestão florestal pensada à escala do território e não da propriedade, evitando as grandes extensões de eucaliptal ininterrupto. 

Em 2018, escrevi um texto sobre um outro ‘milagre’ chamado Mata da Margaraça, que reproduzo a seguir para concluir este post. Faço notar que a complexidade desta questão não se limita às questões que abordei aqui e defendo (como muitos outros)  que seriam necessárias políticas públicas que promovessem uma gestão bem mais sustentada do território (ver p.ex. o artigo de opinião dos engenheiros florestais espanhóis Marc Castellnou e Alejandro García, já citado), fomentando p.ex. a fixação de populações no interior ou a plantação de bosque autóctone e de folhosas de crescimento lento ('árvores bombeiras', ver p.ex. aqui).

Mata da Margaraça: 2017 vs. 2018

O 'milagre' da Margaraça

‘Onde há vida, há esperança’ foi o título que dei a um post no qual comentei várias reflexões sobre os sentimentos antagónicos de esperança e de desespero que podem surgir perante as ameaças e os desastres ambientais que enfrentamos. Mal sabia que iria encontrar, passadas umas semanas, uma confirmação inesperada daquele aforismo. De facto, no início de Agosto (de 2018) percorri algumas das áreas do país mais afectadas pelos incêndios florestais de 2017, em particular a região de Arganil/Coja, que foi palco do segundo maior mega-incêndio jamais registado em Portugal (Outubro 2017) e que teve características únicas, nomeadamente o maior fenómeno piroconvectivo alguma vez observado na Europa e o maior do mundo em 2017 (ver aqui e aqui). Pude constatar que as encostas da serra do Açor em volta da aldeia da Benfeita tinham um aspecto verdadeiramente desolador, dominadas pelos troncos queimados dos pinheiros que cobriam grande parte daquele território, deixando exposto o solo - que só não estava despido porque a Primavera de 2018 foi chuvosa e fez despontar fetos e herbáceas que deram algum tom verde à paisagem. Havia no entanto alguns pequenos ‘oásis’ em certos vales encaixados e áreas limítrofes das povoações, onde algumas árvores e arbustos tinham escapado à fúria das chamas. Um daqueles vales encaixados cuja vegetação, constituída por árvores e arbustos autóctones, sobreviveu foi o da Barroca de Degraínhos, na zona da Fraga da Pena, embora as partes mais elevadas deste acidente geológico tenham sido muito afectadas pelo fogo. Mas um pouco mais acima, a seguir à aldeia de Pardieiros, encontrei aquilo a que se pode chamar um verdadeiro milagre: a Mata da Margaraça. Trata-se de uma área de paisagem florestal protegida de rara beleza, que tenho vindo a visitar há já vários anos, e que é constituída por uma floresta mista de folhosas (castanheiros, carvalhos, ulmeiros, vidoeiros, folhados, medronheiros, azereiros, cerejeiras, azevinhos, loureiros, aveleiras e salgueiros), constituindo uma relíquia das antigas florestas que cobriam algumas das encostas mais frondosas das nossas serras do interior (ver aqui ou aqui). Os primeiros relatos dos efeitos do mega-incêndio de Arganil fizeram-me temer o pior (ver p.ex. aqui) e já me tinha tentado preparar para o impacto de um cenário desolador - que foi o que encontrei ao longo da estrada, desde Coja, até lá chegar. Mas ao aproximar-me dos limites da Mata, o cenário dos troncos de pinheiro carbonizados foi sendo gradualmente substituído por árvores cobertas de folhagem verde, cuja intensidade e extensão contrastava fortemente com o tom escuro que predominava a toda a volta. A mancha da Mata Margaraça, apesar de algumas zonas periféricas queimadas, sobressaía como um verdadeiro oásis verde no meio do deserto de troncos queimados das encostas circundantes (ver fotos acima). De facto, cerca de 60% da Mata ficou quase intacta (ver p.ex. aqui) e, pela descrição dos técnicos do ICNF (que gere aquele área protegida), o fogo avassalador que a atravessou encontrou ali um foco de resistência à sua propagação, devido às características da folhagem e ao maior índice de humidade, como se não viu em qualquer outra área de igual extensão. Algo semelhante havia ocorrido ali aquando de outro grande incêndio que afectou aquela região em 1987.

Não há melhor prova da capacidade de resistência a um mega-incêndio de características excepcionais, como o de Outubro de 2017, do que uma verdadeira floresta como a Margaraça, quando comparada com as monoculturas de eucalipto e pinheiro que ainda cobrem grande parte do território do centro do país. Infelizmente, a predominância e insistência na plantação de eucalipto (ver p.ex. aqui ou aqui), a que não é alheia a pressão do lóbi das celuloses (ver p.ex. aqui), continua a ser motivo de grande consternação e desesperança. Creio que toda a gente deste país, em particular os jovens, deveria ir ver com os seus próprios olhos aquilo que testemunhei (ver p.ex. aqui). Essa visita devia ser mesmo obrigatória para os comentadores e especialistas que insistem em ludibriar a opinião pública, tentando escamotear os efeitos nefastos das plantações de eucaliptos que alimentam as celuloses (ver p.ex. aqui ou aqui). A Mata da Margaraça é um exemplo (vivo) de que onde existe vida na sua máxima diversidade e complexidade - bem adaptada ao território e bem gerida -, existe de facto esperança. Saibamos nós retirar as conclusões dos sucessivos flagelos dos incêndios florestais para podermos vislumbrar um futuro menos sombrio do que aquele que podemos vir a ter.

Nota 1

Iniciativas de reflorestação e projectos agroflorestais

- Rede Reflorestar Portugal: https://www.facebook.com/ReflorestarPortugal/

- Aliança pela Floresta Autóctone: http://florestautoctone.webnode.pt/

- APAGAR – Aliança Para Acabar com as vaGAs Recorrentes de Fogos:

http://www.campoaberto.pt/?p=1713010

- Terracrua (Permacultura e agrofloresta): http://terracrua.org/blog/floresta-mista-e-as-populacoes-locais/

- Projecto AFINET (Redes Regionais de Inovação Agroflorestal): https://www.tveuropa.pt/noticias/sistemas-agroflorestais-reduzem-risco-de-incendios/

Nota 2

Investigações jornalísticas e artigos sobre indícios de corrupção ou conluio criminoso (Portugal e Espanha):
O cartel do fogo ES (Set 2017) – ver aqui e aqui
(…) parece complicado relacionar las muertes de Pedrógão, y la superficie calcinada por incendios en Portugal y España en lo que va de año —118.000 hectáreas sólo en Portugal—, con otra causa que no sea la ineptitud política, los intereses de empresas locales o pequeños propietarios de tierras, la plantación descontrolada de eucalipto o los pirómanos. Sin embargo, todo apunta a que los fuegos que arrasan cada año la Península Ibérica se alimentan no sólo de oxígeno y madera, sino sobre todo de corrupción.
Reportagem TVI (Out 2017): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t4e25
Artigos media PT:
http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/2017-07-25-Carteis-esquemas-e-estado-dos-helicopteros.-Os-negocios-do-fogo-revelados-nesta-entrevista
https://www.publico.pt/2017/09/04/sociedade/noticia/justica-portuguesa-investiga-ramo-portugues-do-cartel-do-fogo-1784152
http://www.jornaltornado.pt/cartel-do-fogo-ou-lobbies-dos-incendios/
Entrevista a Xabier Vázquez Pumariño (biólogo) sobre o lóbi florestal da Galiza (Out 2017):
http://www.lavanguardia.com/vida/20171019/432157474162/industria-fuego-galicia-xabier-vazquez-pumarino.html
A máfia do pinhal, investigação TVI (Abr 2018): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t5e10
https://observador.pt/2018/04/13/incendio-que-consumiu-pinhal-de-leiria-foi-planeado-um-mes-antes/

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Revolução agrária 4.0 – devastação ambiental e social em curso

O tema da agricultura intensiva surgiu recentemente no radar mediático por via da situação grave que se vive no Sudoeste Alentejano. No entanto, a questão não se limita àquela região e já tem um historial de mais de uma década. Uma reportagem recente (Abr 2021) no canal público de TV, pouco antes do burburinho sobre Odemira, veio pôr o dedo na ferida: A Invasão da Agricultura Insustentável (Linha da Frente, RTP). A peça, da autoria do jornalista Luís Henrique Pereira, mostra exemplos de norte a sul do país - da Cova da Beira ao Algarve, passando inevitavelmente pelo olival (super)intensivo do Baixo Alentejo e as estufas do Sudoeste Alentejano - e dá voz a ambientalistas e movimentos locais que contestam os projectos de agricultura industrial e intensiva que estão a alterar de forma drástica e acelerada a paisagem. Entre os efeitos nefastos da agricultura intensiva, são destacados: a perda de qualidade e erosão dos solos, a perda de biodiversidade, a poluição química dos aquíferos e rios, os perigos para a saúde pública do uso de pesticidas, a desertificação, a escassez de água, além dos impactos nas populações locais e a exploração da mão-de-obra imigrante. Surpreendentemente, a reportagem da RTP dá menos destaque às posições dos produtores e do Governo que, sem surpresa, invocam os aumentos de produtividade e de rendimento daquele tipo de práticas agrícolas, defendendo a sua sustentabilidade. Claro que houve quem não gostasse e acusasse a reportagem de sensacionalismo e de se furtar ao contraditório (p.ex. aqui), motivando mesmo o envio pela CAP de um protesto formal à direcção da RTP (aqui). O recente 'caso Odemira' veio mostrar quem tinha afinal razão.

A expressão que usei no título deste post foi respigada de um artigo de 2019 que descreve a transformação radical na cultura do olival no Baixo Alentejo alimentada pela água do Alqueva e que tenta dar uma visão equilibrada do tema, ouvindo os diferentes agentes envolvidos: governo, autarquia, produtores, académicos e ambientalistas. Embora nunca seja explicado o uso do ‘4.0’ no título, presume-se que terá havido três revoluções agrícolas anteriores (de carácter tecnológico) e há um claro pendor no artigo para as vantagens económicas de curto prazo do modelo agro-industrial, com destaque para a citação de um grande produtor da região que pergunta “Querem ver plantação moderna?”, respondendo: “Venham a Portugal e ao Alentejo” e prometendo: “A revolução não terminou e vai continuar”. Um artigo mais recente no Boletim da Ordem dos Advogados faz uma análise mais serena e apresenta uma lista extensa dos impactos ambientais e sociais nefastos dos regadios intensivos e superintensivos, a médio e longo prazo, propondo a sua limitação e o recurso à ‘agricultura de precisão’ e à agroecologia.

Os sinais de alerta sobre as consequências nefastas da agricultura industrial já vêm desde os anos 60 e 70 do século passado, no rescaldo da chamada ‘revolução verde’ do pós-guerra (ver p.ex. aqui ou aqui), mas a consciencialização e contestação surgiram agora de novo em Portugal perante o crescimento explosivo do olival e amendoal intensivos e superintensivos, em especial no Baixo Alentejo. Os alertas e a contestação têm vindo principalmente de alguns académicos nacionais (p.ex. aqui ou aqui), de ambientalistas (p.ex. aqui), de alguns partidos políticos (p.ex. aqui), mas também de movimentos sociais ou locais, como os movimentos Alentejo Vivo e Juntos pelo Sudoeste ou o colectivo Chão Nosso Alentejo. Destaco ainda um post escrito num tom pessoal e emocional por alguém que analisou e auscultou de perto a realidade daquele território, apelidando-a de ‘genocídio’ e de ‘extermínio do povo alentejano’. No entanto, as vozes críticas não se limitam ao território nacional e um relatório do Tribunal de Contas Europeu de 2018 (referido na reportagem da RTP) alertava para o perigo de desertificação agravado pela agricultura intensiva, criticando as políticas incoerentes e desajustadas para o país, em particular a insistência no regadio num país onde a água vai ser cada vez mais escassa.

O olival (e amendoal) intensivo foi também tema de uma Grande Reportagem emitida pela SIC (Alentejo, Azeite e Água) no mesmo mês do programa da RTP referido no início (é possível assistir à 1ª parte aqui). Aqui são ouvidas as vozes de um leque mais alargado de agentes locais e nacionais, mas também dos habitantes. Um artigo de opinião de um agricultor e silvicultor local em reacção a este programa faz um leitura crítica da palavra sustentabilidade, alertando para as suas diferentes dimensões (económica, social e ambiental), e defende uma abordagem mais equilibrada com recurso a boas práticas agrícolas. Deixo uma citação deste artigo: “Como silvicultor e agricultor, tenho a perfeita consciência do difícil que é, por vezes, colocar todas as variáveis na balança. Temos uma exploração de romãzeiras em regime intensivo e, cada ano que passa, tentamos melhorar as nossas práticas agrícolas. Fizemos a requalificação de linhas de água permanentes e temporárias, instalação de sebes biológicas e zonas de descontinuidade, entre outras medidas. Este tipo de práticas faz cada vez mais sentido e, ao contrário de todas as expectativas, nos últimos três anos deixámos de utilizar inseticidas, simplesmente porque permitimos que todo o ecossistema funcionasse. Na natureza é preciso tempo e paciência, algo que o ser humano tem uma certa dificuldade em compreender.

Termino, invocando as reflexões dos meus últimos posts, assim como a deste outro que escrevi para o blogue do projecto Guarda Rios, com um apelo à sensibilidade de todos os que partilham de uma (est)ética ecológica da atenção e do cuidado no sentido de contribuírem, da forma que puderem, para que possamos recuperar uma sustentabilidade sistémica e duradoura, e para que não prevaleçam as visões daqueles que preferem os benefícios económicos imediatos (que na verdade só chegam a alguns privilegiados) e que defendem a transfiguração paisagística da outrora aridez da ‘planície dourada’ para os actuais 'mantos verdes', mas que, no médio e longo prazo, transformará o Alentejo num deserto infernal.

Nota: à excepção da foto de abertura, todas as restantes foram obtidas por mim durante uma residência do projecto Guarda Rios na região do Alqueva (Aldeia da Luz) em Outubro de 2020.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Valorizar o território, os seus habitantes e as suas actividades


Este post é sobre dois notáveis projectos nacionais criados para serem acessíveis essencialmente através da internet. São dois preciosos documentos sobre o território nacional que valorizam a sua paisagem e os seus habitantes, representando excelentes alternativas (e antídotos) às abordagens folclóricas e superficiais da divulgação turística. Trata-se de projectos independentes que investigaram, apoiados numa recolha criteriosa de material audiovisual, duas regiões do país que se sobrepõem: por um lado, o Museu da Paisagem, que teve (numa fase inicial) como objecto de estudo a bacia hidrográfica do Tejo (desde a sua entrada em Portugal, entre a Beira Baixa e o Alto Alentejo, até à sua foz na Extremadura), e, por outro, o webdoc Rodom, que se focou no concelho de Vila Velha de Ródão (Beira Baixa). O primeiro dedicou-se ao levantamento da paisagem natural e antrópica (construída ou gerida pelo ser humano), olhando o território como processo dinâmico de relação entre os seus habitantes e a natureza, tendo resultado de um projeto de investigação de uma equipa multidisciplinar de investigadores, professores e estudantes da Escola Superior de Comunicação Social do Politécnico de Lisboa, com a coordenação de João Gomes de Abreu e a curadoria de Margarida Carvalho. O Museu da Paisagem pretende, segundo os seus autores, promover a formação de uma cidadania paisagística e constituir uma plataforma participativa e geradora de conhecimento, representações e diálogos sobre a paisagem. O abundante e diversificado material disponível (incluindo conteúdos pedagógicos) pode ser explorado de diferentes formas – uma delas através de um mapa disponível aqui.
Membros da equipa do Museu da Paisagem (Portas de Ródão)
O segundo projecto teve por base uma recolha de testemunhos orais de habitantes do concelho de Vila Velha de Ródão, complementada por investigação etnográfica e antropológica daquele território, tendo como autora e realizadora Patrícia Gomes e produção da Ocidental Flimes. O documentário interactivo Rodom pode ser navegado a partir de um mapa ou de um menu disponíveis na página de entrada, que permitem aceder às histórias fascinantes das vidas e actividades da população local, ao longo dos tempos, através das vozes dos seus protagonistas (ou das dos seus descendentes ou familiares). O motivo condutor do projecto surge no final do vídeo introdutório e é uma citação de um dos entrevistados: ‘marca da separação do que foi e do que é’.
Mapa de acesso aos documentos audiovisuais do projecto Rodom
Trata-se portanto de dois projectos digitais (ou virtuais), mas que divulgam e promovem, com notável profundidade e sensibilidade, realidades paisagísticas, antropológicas e sociais, muito concretas. O convite que faço é a navegarem demoradamente qualquer dos dois sites, explorando o valioso e diversificado material audiovisual que disponibilizam. E depois, quem sabe, se sintam estimulados a viajar até a alguns daqueles lugares para explorar in loco as extraordinárias riquezas dos territórios que são ali retratados.

Museu da Paisagem: https://museudapaisagem.pt/
Notícia sobre este último projecto: