segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A Mata da Margaraça ainda resiste em 2026 – mas até quando?

Mata da Margaraça (2016)
A minha passagem pela Serra do Açor na primeira quinzena de Agosto incitou-me a escrever estas linhas, como complemento ao post anterior. Estive nas encostas viradas a norte, perto das localidades de Cerdeira e Monte Frio (concelho de Arganil), onde pude testemunhar os efeitos devastadores do mega-incêndio do Piódão de Agosto de 2025 – o maior de sempre em Portugal, em termos de área ardida (cerca de 65 mil hectares, ver p.ex. aqui ou aqui), tendo-se estendido quer para sudeste (Serras da Estrela e Gardunha), quer para oeste (ver p.ex. aqui). A viagem de carro a partir de Coja (estrada N344) fez-me lembrar o que vi em 2018 quando percorri uma outra estrada que liga Coja à Benfeita, um ano após o mega-incêndio de Oliveira do Hospital: uma paisagem desoladora de encostas quase desprovidas de vegetação e semeadas de troncos ardidos (ver o meu post de 2022). A diferença é que, enquanto ao longo da estrada da Benfeita (em 2018) se viam os restos carbonizados de centenas de pinheiros, este ano, ao longo da N344, viam-se predominantemente troncos de eucaliptos queimados, com novos rebentos de cor verde clara a crescer na base. De facto, ao contrário dos pinheiros que morrem após o incêndio (podendo haver regeneração por semente, mas que demora alguns anos), os eucaliptos regeneram a partir da base (rebentação de toiça) logo no ano seguinte (ver p.ex. aqui).

Encosta ardida em 2025, vista da N344 (2026)

Isto leva a que, se não houver gestão pós-fogo, os eucaliptos, assim como arbustos de desenvolvimento rápido (p.ex. giestas), voltem a crescer descontroladamente e a servir de combustível ao próximo incêndio. Não vou aqui desenvolver a polémica em volta do comportamento e do impacto das espécies pirófilas (eucalipto e pinheiro), mas remeto para uma série de artigos publicados este ano pelo semanário regional O Mirante - Projecto Eucalipto, “projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza” (apoiado pelo Journalismfund Europe e realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress) – ver aqui. Os artigos dão voz a uma pluralidade de opiniões, das quais destaco as entrevistas a Jael Palhas, investigador da Univ. Coimbra (aqui), João Joanaz de Melo, professor da NOVA e investigador do CENSE (aqui) e Miguel Jerónimo, arquitecto paisagista e técnico do GEOTA (aqui).

Vista para a Margaraça, desde a N344 (2020 vs. 2026)

Mas o meu interesse mais premente era o de perceber em que estado tinha ficado a Mata da Margaraça – bosque relíquia das florestas caducifólias mistas (laurissilva) que cobriam as encostas das serras beirãs, com uma área de 66 hectares (ver aqui). No topo da N344, por cima da aldeia de Relva Velha, pude então avistar o que sobra da Margaraça: uma mancha de verde que contrastava com o tom acastanhado do entorno, mas mais reduzida do que em 2018, principalmente nas zonas mais altas atingidas pelo fogo. De facto, vim a saber que, apenas oito anos depois do anterior (vide meu post de 2022), a Mata sobreviveu a novo mega-incêndio, mas com mazelas – ver aqui e aqui -, embora não tenha conseguido encontrar informação sobre a percentagem de área ardida dentro da Mata. Acontece que desta vez (ao contrário de 2018) não consegui ir ver mais de perto o que sobra da Margaraça porque a estrada que a liga a Pardieiros e a Monte Frio está intransitável, devido a aluimentos resultantes das tempestades de Fevereiro (e potenciados pelo incêndio de 2025) – ver aqui

Monte Frio (2026)

Portanto, o ex-líbris da Área de Paisagem Protegida da Serra do Açor está quase inacessível (é possível aceder a pé) e as obras de reparação prometidas continuam por fazer, aparentemente devido a impasse entre o ICNF e o Município de Arganil – ver aqui. De realçar que, segundo dados do Ministério do Ambiente e da Energia, 94% (350 ha) da área da Paisagem Protegida da Serra do Açor terão ardido em 2025, tendo a Margaraça sido “um verdadeiro oásis no meio do grande incêndio” - ver aqui. Mas a este ritmo, por quanto mais tempo resistirá o “oásis”? A questão é que a Mata só persiste porque reúne características únicas que lhe conferem uma capacidade de resistência e de regeneração notáveis: a combinação de um coberto vegetal denso (mistura de carvalhos, castanheiros, aveleiras, azereiros, loureiros, etc.), que impede a entrada de ventos fortes no interior do bosque, mantendo o ambiente interno fresco e protegido, aliado a um microclima local e a uma orientação do vale que conservam muita água no solo e no ar, agindo como um travão natural contra o fogo – ver aqui ou aqui. Mas esta resiliência tem limites e com a frequência dos incêndios na região e a inexistência de campanhas sustentadas de regeneração florestal, pode não sobreviver a novo mega-incêndio.

Foto respigada daqui

Em 2020, foi lançado um projecto de reflorestação (Projeto Floresta da Serra do Açor), financiado pelo Grupo Jerónimo Martins em parceria com o Município de Arganil, comunidades locais (baldios) e a Escola Superior Agrária de Coimbra, que pretende abranger uma área de 2500 hectares até 2060, contando com um investimento de 5 milhões de euros – ver aqui e aqui. Um dos primeiros objetivos seria plantar mais de 1,8 milhões de árvores de espécies como o pinheiro-bravo, o sobreiro, o castanheiro, o carvalho e o medronheiro até 2026. Entre 2020 e 2023, este projeto de reflorestação terá plantado 697 mil novas árvores (ver aqui). O projecto venceu o Prémio Nacional da Paisagem 2025 (atribuído pelo governo), mas o incêndio de Agosto de 2025 terá afectado cerca 100 hectares da área reflorestada (ver aqui). Paralelamente, o ICNF também iniciou em 2021 um Projecto de Recuperação da Área Ardida na Paisagem Protegida da Serra do Açor com a duração de 3 anos que incluía a limpeza de matos e de lenha ardida, e o controlo de espécies invasoras, para além da reflorestação, resultante de um investimento público de 560 mil euros – ver aqui e aqui.

Foto respigada daqui

A época de incêndios de 2025 em Portugal foi das mais devastadoras (com cerca de 270000 hectares ardidos), só superada pela de 2017 (537000 hectares) – ver aqui. Até ao dia 15 de outubro, o ano de 2025 apresentou o 4.º valor mais reduzido em número de incêndios (cerca de 8200) e o 2.º valor mais elevado de área ardida, desde 2015. O que quer dizer que houve mais mega-incêndios: de facto, registaram-se 96 incêndios com mais de 100 hectares, que resultaram em 258000 hectares de área ardida, cerca de 96% do total. Só o incêndio de Piódão/Arganil representou 24% da área total ardida (até 15 de Outubro) e em conjunto com o de Trancoso (47000 ha) representaram 42% do total. Para comparação, a área total ardida este ano (até 15 de Agosto) foi de 56600 ha, ou seja, menos do que a área consumida só pelo incêndio do Piódão em 2025 (ver aqui). Mas há mais sinais graves escondidos por detrás dos números. Em 2025, arderam 30000 ha da Rede Nacional de Áreas Protegidas (11% da área total ardida), com graves impactos ecológicos – ver aqui. Só o mega-incêndio de Piódão atingiu pelo menos três áreas de paisagem protegida: a da Serra do Açor (onde se inclui a Margaraça), a da Serra da Estrela e a da Serra da Gardunha. É caso para perguntar porque insistimos em apelidá-las de “áreas protegidas” se não conseguimos efectivamente protegê-las - nem dos incêndios, nem das espécies invasoras… 

Encosta sul da Serra do Açor, coberta de acácias (2026)

Em termos europeus, os dados divulgados pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), revelaram que em 2025 arderam mais de 1 milhão de hectares, a maior área ardida alguma vez registada pelo EFFIS na UE – ver aqui. De facto, representou o dobro da média na UE, tendo o pico principal ocorrido em Julho e Agosto, quando alguns dos maiores incêndios do ano foram mapeados em Espanha e Portugal. A situação agravou-se drasticamente durante o verão onde uma vaga de calor prolongada em Agosto deu origem a 22 grandes incêndios só em Portugal e em Espanha, queimando 460000 hectares – quase metade da área total ardida da UE. Os dados do EFFIS também revelam que em Portugal mais 50000 ha arderam em zonas Natura 2000, o que representa mais de 2% da área total deste tipo de zonas. A notícia da RTP citada revela ainda que “a Comissão Europeia adoptou em 2026 uma nova estratégia para combater o aumento da ameaça de incêndios florestais que abrange todo o ciclo de risco de catástrofes – prevenção, preparação, resposta e recuperação – e estabelece ações concretas a nível nacional e da UE. A estratégia promove a existência de paisagens resistentes aos incêndios através da gestão sustentável dos solos e da restauração da natureza, reforça o alerta precoce e a monitorização através do EFFIS e do Copernicus e aumenta a capacidade da UE de combate a incêndios através de uma frota de aeronaves de combate a incêndios, do pré-posicionamento de bombeiros e de uma nova plataforma europeia de combate a incêndios com sede em Chipre”. Pelo descalabro dos incêndios que se está a registar este ano por toda a Europa (Portugal é a excepção), a nova estratégia europeia não parece estar a dar grandes resultados.

Para acabar num tom mais positivo, posso dizer que estive em duas outras zonas do país com belíssimos exemplares de florestas relíquia, que têm sobrevivido aos incêndios e cuja visita recomendo: o Adernal do Bussaco (Mata Nacional do Bussaco), o maior conjunto de adernos de porte arbóreo do mundo, relíquia de um dos tipos de florestas mediterrâneas que cobriam parte do território (ver aqui, aqui ou aqui), e a Mata da Albergaria (Parque Nacional da Peneda-Gerês), uma relíquia das florestas mistas das zonas montanhosas do norte (ver aqui ou aqui). Estar demoradamente nestes lugares é uma experiência maravilhosa e marcante – devia ser local de peregrinação obrigatória de políticos e opinadores, e de muitos daqueles que não têm noção da riqueza que está ali e cuja perda é irreparável.

Adernal do Bussaco (2026)

Mata de Albergaria (2026)


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