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| Mata da Margaraça (2016) |
A minha passagem pela Serra
do Açor na primeira quinzena de Agosto incitou-me a escrever estas linhas,
como complemento ao post anterior.
Estive nas encostas viradas a norte, perto das localidades de Cerdeira e Monte
Frio (concelho de Arganil), onde pude testemunhar os efeitos devastadores do mega-incêndio do Piódão de Agosto de
2025 – o maior de sempre em Portugal, em termos de área ardida (cerca de 65 mil
hectares, ver p.ex. aqui
ou aqui),
tendo-se estendido quer para sudeste (Serras da Estrela e Gardunha), quer para
oeste (ver p.ex. aqui).
A viagem de carro a partir de Coja (estrada N344) fez-me lembrar o que vi em
2018 quando percorri uma outra estrada que liga Coja à Benfeita, um ano após o
mega-incêndio de Oliveira do Hospital: uma paisagem desoladora de encostas
quase desprovidas de vegetação e semeadas de troncos ardidos (ver o meu post de 2022). A diferença é que, enquanto
ao longo da estrada da Benfeita (em 2018) se viam os restos carbonizados de
centenas de pinheiros, este ano, ao longo da N344, viam-se predominantemente
troncos de eucaliptos queimados, com novos rebentos de cor verde clara a
crescer na base. De facto, ao contrário dos pinheiros que morrem após o
incêndio (podendo haver regeneração por semente, mas que demora alguns anos), os
eucaliptos regeneram a partir da base (rebentação de toiça) logo no ano
seguinte (ver p.ex. aqui).
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| Encosta ardida em 2025, vista da N344 (2026) |
Isto leva a que, se não houver gestão pós-fogo, os eucaliptos, assim como
arbustos de desenvolvimento rápido (p.ex. giestas), voltem a crescer
descontroladamente e a servir de combustível ao próximo incêndio. Não vou aqui
desenvolver a polémica em volta do comportamento e do impacto das espécies
pirófilas (eucalipto e pinheiro), mas remeto para uma série de artigos
publicados este ano pelo semanário regional O Mirante - Projecto Eucalipto, “projecto
editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no
tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza” (apoiado pelo Journalismfund
Europe e realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress) – ver aqui. Os artigos dão voz a
uma pluralidade de opiniões, das quais destaco as entrevistas a Jael Palhas,
investigador da Univ. Coimbra (aqui),
João Joanaz de Melo, professor da NOVA e investigador do CENSE (aqui)
e Miguel Jerónimo, arquitecto paisagista e técnico do GEOTA (aqui).
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| Vista para a Margaraça, desde a N344 (2020 vs. 2026) |
Mas o meu interesse mais premente era o de perceber em que estado
tinha ficado a Mata da Margaraça – bosque
relíquia das florestas caducifólias mistas (laurissilva) que cobriam as encostas
das serras beirãs, com uma área de 66 hectares (ver aqui).
No topo da N344, por cima da aldeia de Relva Velha, pude então avistar o que
sobra da Margaraça: uma mancha de verde que contrastava com o tom acastanhado
do entorno, mas mais reduzida do que em 2018, principalmente nas zonas mais
altas atingidas pelo fogo. De facto, vim a saber que, apenas oito anos depois
do anterior (vide meu post de 2022), a Mata sobreviveu a novo
mega-incêndio, mas com mazelas – ver aqui
e aqui -, embora não tenha conseguido encontrar informação sobre a percentagem de área ardida dentro da Mata. Acontece que desta vez (ao contrário de 2018) não consegui ir ver mais de perto o que sobra da
Margaraça porque a estrada que a liga a Pardieiros e a Monte Frio está intransitável,
devido a aluimentos resultantes das tempestades de Fevereiro (e potenciados
pelo incêndio de 2025) – ver aqui.
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| Monte Frio (2026) |
Portanto, o
ex-líbris da Área de Paisagem Protegida da Serra do Açor está quase inacessível (é possível
aceder a pé) e as obras de reparação prometidas continuam por fazer,
aparentemente devido a impasse entre o ICNF e o Município de Arganil – ver aqui.
De realçar que, segundo dados do Ministério do Ambiente e da Energia, 94% (350
ha) da área da Paisagem Protegida da Serra do Açor terão ardido em 2025, tendo
a Margaraça sido “um verdadeiro oásis no meio do grande incêndio” - ver aqui.
Mas a este ritmo, por quanto mais tempo resistirá o “oásis”? A questão é que a
Mata só persiste porque reúne características únicas que lhe conferem uma
capacidade de resistência e de regeneração notáveis: a combinação de um coberto
vegetal denso (mistura de carvalhos, castanheiros, aveleiras, azereiros,
loureiros, etc.), que impede a entrada de ventos fortes no interior do bosque,
mantendo o ambiente interno fresco e protegido, aliado a um microclima local e
a uma orientação do vale que conservam muita água no solo e no ar, agindo como
um travão natural contra o fogo – ver aqui
ou aqui.
Mas esta resiliência tem limites e com a frequência dos incêndios na região e a
inexistência de campanhas sustentadas de regeneração florestal, pode não
sobreviver a novo mega-incêndio.
Em 2020, foi lançado um projecto de reflorestação (Projeto Floresta da Serra do Açor), financiado pelo
Grupo Jerónimo Martins em parceria com o Município de Arganil, comunidades
locais (baldios) e a Escola Superior Agrária de Coimbra, que pretende abranger uma
área de 2500 hectares até 2060, contando com um investimento de 5 milhões de
euros – ver aqui
e aqui.
Um dos primeiros objetivos seria plantar mais de 1,8 milhões de árvores de
espécies como o pinheiro-bravo, o sobreiro, o castanheiro, o carvalho e o
medronheiro até 2026. Entre 2020 e 2023, este projeto de reflorestação terá
plantado 697 mil novas árvores (ver aqui).
O projecto venceu o Prémio Nacional da Paisagem 2025 (atribuído pelo governo),
mas o incêndio de Agosto de 2025 terá afectado cerca 100 hectares da área
reflorestada (ver aqui).
Paralelamente, o ICNF também iniciou em 2021 um Projecto de Recuperação da Área
Ardida na Paisagem Protegida da Serra do Açor com a duração de 3 anos que incluía
a limpeza de matos e de lenha ardida, e o controlo de espécies invasoras, para
além da reflorestação, resultante de um investimento público de 560 mil euros –
ver aqui
e aqui.
A época de incêndios
de 2025 em Portugal foi das mais devastadoras (com cerca de 270000 hectares
ardidos), só superada pela de 2017 (537000 hectares) – ver aqui. Até ao dia
15 de outubro, o ano de 2025 apresentou o 4.º valor mais reduzido em número de
incêndios (cerca de 8200) e o 2.º valor mais elevado de área ardida, desde
2015. O que quer dizer que houve mais mega-incêndios: de facto, registaram-se 96
incêndios com mais de 100 hectares, que resultaram em 258000 hectares de área
ardida, cerca de 96% do total. Só o incêndio de Piódão/Arganil representou 24%
da área total ardida (até 15 de Outubro) e em conjunto com o de Trancoso (47000
ha) representaram 42% do total. Para comparação, a área total ardida este ano (até
15 de Agosto) foi de 56600 ha, ou seja, menos do que a área consumida só pelo
incêndio do Piódão em 2025 (ver aqui). Mas há mais
sinais graves escondidos por detrás dos números. Em 2025, arderam 30000 ha da Rede Nacional de Áreas Protegidas (11%
da área total ardida), com graves impactos ecológicos – ver aqui.
Só o mega-incêndio de Piódão atingiu pelo menos três áreas de paisagem
protegida: a da Serra do Açor (onde se inclui a Margaraça), a da Serra da
Estrela e a da Serra da Gardunha. É caso para perguntar porque insistimos em
apelidá-las de “áreas protegidas” se não conseguimos efectivamente protegê-las - nem dos incêndios, nem das espécies invasoras…
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| Encosta sul da Serra do Açor, coberta de acácias (2026) |
Em termos europeus, os dados divulgados pelo Sistema Europeu de Informação sobre
Incêndios Florestais (EFFIS), revelaram que em 2025 arderam mais de 1 milhão de
hectares, a maior área ardida alguma vez registada pelo EFFIS na UE – ver aqui.
De facto, representou o dobro da média na UE, tendo o pico principal ocorrido
em Julho e Agosto, quando alguns dos maiores incêndios do ano foram mapeados em
Espanha e Portugal. A situação agravou-se drasticamente durante o verão onde uma
vaga de calor prolongada em Agosto deu origem a 22 grandes incêndios só em
Portugal e em Espanha, queimando 460000 hectares – quase metade da área total
ardida da UE. Os dados do EFFIS também revelam que em Portugal mais 50000 ha
arderam em zonas Natura 2000, o que representa mais de 2% da área total deste
tipo de zonas. A notícia da RTP citada revela ainda que “a Comissão Europeia adoptou em 2026 uma nova estratégia para combater o
aumento da ameaça de incêndios florestais que abrange todo o ciclo de risco de
catástrofes – prevenção, preparação, resposta e recuperação – e estabelece
ações concretas a nível nacional e da UE. A estratégia promove a existência de
paisagens resistentes aos incêndios através da gestão sustentável dos solos e
da restauração da natureza, reforça o alerta precoce e a monitorização através
do EFFIS e do Copernicus e aumenta a capacidade da UE de combate a incêndios
através de uma frota de aeronaves de combate a incêndios, do pré-posicionamento
de bombeiros e de uma nova plataforma europeia de combate a incêndios com sede
em Chipre”. Pelo descalabro dos incêndios que se está a registar este ano
por toda a Europa (Portugal é a excepção), a nova estratégia europeia não parece
estar a dar grandes resultados.
Para acabar num tom mais positivo, posso dizer que estive em
duas outras zonas do país com belíssimos exemplares de florestas relíquia, que
têm sobrevivido aos incêndios e cuja visita recomendo: o Adernal do Bussaco (Mata Nacional do Bussaco), o maior conjunto de adernos de porte arbóreo do
mundo, relíquia de um dos tipos de florestas mediterrâneas que cobriam parte do
território (ver aqui,
aqui
ou aqui),
e a Mata da Albergaria (Parque Nacional da Peneda-Gerês), uma
relíquia das florestas mistas das zonas montanhosas do norte (ver aqui
ou aqui).
Estar demoradamente nestes lugares é uma experiência maravilhosa e marcante –
devia ser local de peregrinação obrigatória de políticos e opinadores, e de
muitos daqueles que não têm noção da riqueza que está ali e cuja perda é
irreparável.
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| Adernal do Bussaco (2026) |
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| Mata de Albergaria (2026) |
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