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domingo, 21 de junho de 2026

Os 'acordos de paz' e o Mundial: a realidade invertida do nosso descontentamento

Evan Vucci (c) The Associated Press
Neste post recorro aos recentes ‘acordos de paz’ para o Médio Oriente mediados pelos EUA (Gaza em 2025 e Irão em 2026) como exemplos de realidade invertida, ou seja, para tentar demonstrar como as narrativas dominantes sobre os respectivos conflitos invertem as responsabilidades na sua génese e prossecução, dissimulando um teatro geopolítico ditado pelos poderosos, que violam o direito internacional e para quem a última preocupação são os interesses e bem-estar das populações afectadas. A estes exemplos adiciono o Mundial de Futebol na medida em que a promoção de um evento desportivo alegadamente acima da política e que pretende celebrar a união dos povos é, na verdade, um enorme embuste que mascara, não apenas a mercantilização e os interesses económicos, mas também os jogos políticos, que lhe estão associados.

De facto e como já tinha desenvolvido anteriormente noutros escritos sobre os conflitos no Médio Oriente (p.ex. aqui ou aqui), temos assistido a uma clara e sistemática manipulação da perceção pública mundial por parte dos media ocidentais dominantes no sentido da desresponsabilização dos agressores, em particular o governo israelita e os próprios EUA, e de ocultar o conluio, declarado ou dissimulado, de muitos outros países ocidentais na sua concretização. Portanto, não se trata meramente de usar a mentira para manipular e fabricar o consentimento, como defendi nos meus posts anteriores, mas de criar narrativas completamente invertidas. A flagrante impunidade com que Israel tem imposto a sua agenda agressiva de expansão territorial e de chacina étnica é uma amarga demonstração não só da impotência e do falhanço das instituições e do direito internacionais, mas também dos efeitos da cobertura mediática enviesada, aliada a uma apatia da opinião pública mundial. A distorção da realidade alastra-se ao campo económico na medida em que os discursos políticos e mediáticos tendem a encobrir ou a escamotear os interesses financeiros por detrás dos conflitos – ver p.ex. aqui.


Já no caso do Mundial de Futebol, é penoso assistir a uma cobertura e adesão (quase) acríticas, quer por parte dos media, quer por parte dos ‘fãs’, que acaba por legitimar simbolicamente a administração Trump e a direção da FIFA, tendo ambas revelado uma flagrante falta de ética e de respeito pelas regras internacionais, além de explorarem financeiramente de forma revoltante os adeptos do desporto, sem que haja um boicote claro ao evento – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. Se o campeonato anterior no Qatar já era apelidado de Mundial da Vergonha (ver aqui), este não lhe fica atrás.


Realidade invertida e o “plano de paz” para Gaza

A noção de realidade invertida foi invocada pela autora e activista palestiniana Rima Najjar num seu ensaio de 2025 sobre o ‘plano de paz’ para Gaza promovido por Donald Trump, intitulado “Inverting Reality: The Optics of Trump’s “Peace” Plan”. Nesse ensaio, Najjar recorre ao conceito de realidade invertida para descrever uma estratégia deliberada de manipulação narrativa e visual. Segundo ela, esta estratégia visa distorcer a perceção pública do conflito, apresentando os colonizadores como pacificadores e a resistência palestiniana como terrorismo, enquanto suprime o sofrimento e a agência do povo palestiniano. A autora enfatiza assim o processo sistemático através do qual a ocupação militar e a violência estrutural são reencenadas mediaticamente como actos de governação legítima ou esforços de paz. Najjar argumenta que as ópticas (a forma como os eventos são mostrados ou ocultados) não são incidentais, mas estratégicas, desenhadas para moldar a legitimidade moral e obscurecer os mecanismos de poder, apoiando-se no uso de terminologia falaciosa. O ensaio foca-se especificamente nas estratégias performáticas e retóricas em torno da troca de prisioneiros de Outubro de 2025, no discurso de Donald Trump no Knesset e na cimeira de Sharm al-Shaikh. Para a autora, estes eventos foram coreografados para transmitir uma falsa sensação de ‘resolução’, ocultando a realidade de que servem para consolidar a impunidade e aprofundar o controlo sobre os palestinianos. Najjar denuncia igualmente a encenação política e mediática com a exaltação de figuras como Trump e Netanyahu nos palcos diplomáticos, criando um espetáculo que legitima a ocupação sob o disfarce de diplomacia. A bajulação de Trump por alguns dos líderes presentes na cimeira no Egipto roçou o grotesco (ver p.ex. aqui). No contexto específico do “Plano de Paz” de Trump, a realidade invertida manifesta-se ao rotular uma imposição colonial como uma iniciativa de paz. Najjar descreve o plano de 20 pontos não como uma novidade estratégica, mas como uma “arquitetura de controlo reciclada”, embalada em jargão diplomático. Para Najjar, desmantelar a realidade invertida exige reconhecer que a agressão e a ocupação não são disputas entre duas partes iguais, mas um sistema de dominação onde a terminologia e as ópticas são armas usadas para manter a opressão invisível ou justificável aos olhos do mundo ocidental.


Vários outros comentadores e analistas se insurgiram, não só contra o conteúdo do ‘plano de paz’, como criticaram a sua aprovação tácita pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) em Novembro de 2025 – ver p.ex. aqui, aqui e aqui. A resolução do CSNU foi acolhida pela autoridade palestiniana, mas rejeitada pelo Hamas. Outro aspecto que gerou profunda consternação em certos sectores foi a constituição do chamado Conselho da Paz (Board of Peace), proposto e presidido vitaliciamente por Trump, que constitui não só uma afronta ao mandato da ONU, como uma normalização de uma agenda plutocrática que olha para a destruição de Gaza e a limpeza étnica do povo palestiniano como oportunidades de negócio, e onde se inclui o chamado “Gaza Reconstitution, Economic Acceleration and Transformation (GREAT) Trust” – ver p.ex. aqui, aqui e aqui. Num artigo de opinião para o Arab Center Washington DC, o ex-diplomata e especialista no Médio Oriente, Charles W. Dunne, afirma: “A actual composição do Conselho dificilmente inspira confiança na sua capacidade ou vontade de ajudar Gaza a desenvolver uma “governação moderna e eficiente que sirva o povo de Gaza”, como afirma o plano original, muito menos a promover eleições ou a um autogoverno democrático (embora, de facto, o plano nunca mencione democracia ou eleições). (...) A presença de Israel num Conselho ostensivamente destinado a reconstruir e ajudar a governar Gaza — que o próprio Israel destruiu em grande parte durante uma campanha militar que as Nações Unidas classificaram de “genocídio” — só vem aprofundar o cepticismo generalizado.” Em relação às aspirações do Conselho, Dunne escreve: “Para além dos ambiciosos planos para a paz mundial — e para sabotar a ONU — podem existir motivações mais egoístas em jogo, nomeadamente o lucro. Trump já não fala em despovoar e reconstruir Gaza como a “Riviera do Médio Oriente” (o plano dos 20 pontos exclui especificamente a transferência de população). Mas espera claramente reconstruir Gaza nos moldes das “prósperas cidades modernas e milagrosas do Médio Oriente”, como sugere o ponto 10 do plano de paz, o que pode equivaler praticamente à mesma coisa. Um “plano director” para a reconstrução de Gaza apresentado em Davos por Jared Kushner — uma visão de 30 mil milhões de dólares que inclui uma zona turística costeira com 180 arranha-céus, 100.000 unidades habitacionais em Rafah e um novo centro industrial — está certamente em consonância com o conceito anterior de Trump.

Patrick Chappatte

Para cúmulo (ou ‘juntar o insulto à injúria’), Israel não cumpriu os termos do plano de paz e tem continuado a chacina e destruição em Gaza, além de impedir a acção das agências de ajuda humanitária, com o conluio dos EUA e de grande parte da comunidade internacional, aliados a um desviar de olhar dos media – ver p.ex. aqui ou aqui.

Acordo de paz EUA-Irão

A realidade invertida volta a manifestar-se no recente acordo (memorando de entendimento) entre EUA e Irão, pelo apagamento sistemático de Israel como actor central do conflito, apesar de ter sido o principal executor da agressão e que teria muito a ganhar geopoliticamente com o seu eventual sucesso (ver p.ex. aqui). Note-se que Israel não é signatário do acordo, nem participou nas negociações directas, apesar de ter participado nos ataques aéreos iniciados a 28 de Fevereiro deste ano (e nos de Julho de 2025), que destruíram diversas infrastruturas militares e civis iranianas, além de ter assassinado líderes políticos e científicos. Ao excluir Israel do acordo, evita-se qualquer discussão sobre a legalidade dos ataques conjuntos EUA/Israel, a responsabilidade pelas baixas civis ou a destruição de infraestrutura civil. Israel mantém a sua narrativa de “segurança existencial” sem ter de se sentar à mesa de negociações como parte responsável pelo conflito. O acordo é apresentado como uma resolução bilateral EUA-Irão, ocultando que a guerra foi, na prática, travada por procuração e directamente por Israel.


O acordo foca-se nas restrições ao programa nuclear e ao comportamento regional do Irão (Hezbollah, etc.), reforçando a narrativa de que o Irão é o destabilizador, enquanto a acção militar dos EUA e Israel é enquadrada como uma “resposta necessária” ou um “mal menor” para atingir a estabilidade na região. A narrativa dominante enquadra os EUA como o mediador que “trouxe a paz” e o Irão como a parte que cedeu (ao concordar com a diluição do urânio enriquecido e a reabertura do Estreito de Ormuz). Inverte-se a realidade de que foram os EUA e Israel que iniciaram a escalada militar após o alegado colapso das negociações, bombardeando o Irão, com os objectivos declarados de desmantelar o seu programa nuclear e provocar uma mudança de regime – agora, mais do que nunca, ainda mais difíceis de atingir. Israel aproveitou entretanto para abrir outra frente de agressão no sul do Líbano, à revelia dos EUA. O Irão não tardou em exigir a vinculação de Israel ao novo acordo, que abrange o Líbano nos termos do cessar-fogo (ver p.ex. aqui). Não é de espantar que o acordo tenha sido tão mal acolhido quer por Israel, quer pelas fações neo-conservadoras e belicistas norte-americanas. Todos estes factores, bem como os ataques continuados de Israel no sul do Líbano, terão levado ao cancelamento do encontro entre as delegações americana e iraniana previsto para o dia 19 de Junho na Suíça, onde seria assinado formalmente (ver p.ex. aqui).


O acordo ilustra igualmente a inversão da realidade ao transformar as consequências de uma guerra ilegal e não provocada numa alegada vitória diplomática. O que é vendido como uma conquista diplomática dos EUA (a diluição do urânio dentro do Irão sob supervisão da AIEA) era, na verdade, uma proposta que o Irão já tinha colocado sobre a mesa em 2025, antes do início dos bombardeamentos, fazendo parecer que a guerra foi necessária para alcançar um resultado que era viável diplomaticamente antes da violência. A paz é ainda celebrada como o restabelecimento do statu quo (reabertura do Estreito de Ormuz, fim das hostilidades), mas escamoteia-se que foi a própria guerra que fechou o Estreito e destabilizou a região. A “paz” surge, portanto, como a resolução de um problema criado pela própria agressão militar, sendo apresentada como um acto de habilidade política e diplomática. Na verdade, e como vários analistas e comentadores têm destacado, o acordo é uma derrota política e diplomática para os EUA, na medida em o Irão sai fortalecido com o levantamento das sanções económicas e das restrições ao investimento – ver p.ex. aqui. A terminologia de “memorando de entendimento” e “cessar-fogo” mascara a realidade de uma rendição diplomática dos EUA e da sua subjugação aos ditames de Israel, uma vez que não conseguiram impor as suas condições máximas através da guerra, mas vendem o resultado como uma vitória estratégica.


Um aspecto que quero ainda destacar é o do oportunismo económico associado a este conflito em particular. Os efeitos quase imediatos nos preços de bens essenciais (combustíveis e alimentos) foram notórios logo desde o início das hostilidades (ver p.ex. aqui ou aqui) e traduziram-se em lucros chorudos para muitas empresas – ver p.ex. aqui ou aqui. No entanto, a constatação de que o prolongar do conflito estava a produzir fortes impactos na economia mundial e que estes se repercutiam negativamente nos países ocidentais, mas até estavam a beneficiar o próprio Irão, fez aumentar a pressão para suspender os ataques militares e para encontrar uma saída airosa para os EUA – ver p.ex. aqui. Faço notar que a Reuters divulgou que o novo acordo EUA/Irão prevê um fundo de investimento privado de 300 mil milhões de dólares, segundo noticiou o Público (aqui). Nessa notícia pode ler-se: “O novo fundo [que deverá chamar-se Fundo de Reconstrução e Desenvolvimento] é um mecanismo de investimento privado — não um programa de reconstrução ou de indemnizações — e não incluirá quaisquer verbas públicas ou subvenções, adiantou [fonte conhecedora do acordo à Reuters], acrescentando que empresas sediadas nos EUA, nos Estados árabes do Golfo, na Ásia, na América do Sul e em África comprometeram-se a financiar o projecto. Os investimentos prometidos abrangem os sectores da energia, logística, indústria transformadora e transportes.” Torna-se uma vez mais evidente que os conflitos armados fazem parte de um teatro político que se destina a dissimular os interesses económicos que beneficiam com a sua perpetuação.


Mundial da Vergonha 2

O Mundial de Futebol, co-organizado este ano pelos Estados Unidos, México e Canadá, consolidou-se como um caso paradigmático da interseção entre geopolítica, soft power e a mercantilização do desporto. Sob a sombra do segundo mandato de Donald Trump e da liderança de Gianni Infantino na FIFA, o evento transcendeu a esfera desportiva para se tornar um palco de disputas ideológicas e reafirmação da hegemonia norte-americana – ver ensaio de Marco Alves, aqui. Em contraste com edições anteriores, em que tentava manter uma neutralidade diplomática, em 2026 a FIFA adoptou uma postura de aberto alinhamento com os interesses dos EUA – ver ensaio de Camila Valente, aqui. O momento simbólico mais marcante ocorreu durante o sorteio da fase final em Washington, quando Infantino entregou a Trump o inédito ‘Prémio da Paz da FIFA’ (ver aqui). Esta condecoração foi amplamente interpretada por críticos e organizações de direitos civis como uma tentativa de legitimação política de um governo marcado por políticas migratórias restritivas e isolacionismo diplomático -ver artigo de Camila Valente citado acima. A criação do prémio quebrou o protocolo histórico da FIFA de não misturar liderança política de países-sede com honrarias oficiais durante o certame, sinalizando que a estabilidade dos contratos e o acesso ao mercado consumidor americano prevalecem sobre a independência institucional – ver artigo de Elvis da Silva, aqui. Neste texto, o autor aponta que o ‘FIFA Gate’, despoletado em 2015 pelo Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como um mecanismo disciplinador que desmantelou redes de poder antigas na FIFA e impôs uma governança alinhada com os interesses norte-americanos. De facto, com a ascensão de Infantino, o Mundial de 2026 recupera a centralidade dos EUA no futebol mundial, corrigindo o deslocamento de poder para o Médio Oriente e a Eurásia ocorrido nas décadas anteriores. A presença de Trump, que criou uma task force específica na Casa Branca para o evento, reforça a narrativa de que o torneio é uma extensão da política externa americana, utilizando o futebol como instrumento de projeção de poder – ver artigos de Elvis da Silva e de Marco Alves citados acima.


Por outro lado, sob a égide da administração Trump e da gestão da FIFA, este Mundial estabeleceu novos recordes de mercantilização. A adoção dos chamados modelos de ‘preços dinâmicos’ inflacionou o custo dos bilhetes, tornando o evento inacessível para grande parte das claques tradicionais, especialmente as da América Latina e de comunidades locais nos EUA. A crítica central reside na transformação do evento num produto de luxo, onde a lógica de mercado se sobrepõe à função social do desporto. Relatos de bilhetes com valores exorbitantes no mercado secundário, com taxas de comissão de 15% para a FIFA, tanto na venda como na compra, evidenciam a promoção do lucro em detrimento da inclusão. Essa abordagem gerou denúncias de que o torneio se tornou um “circo dominado por Trump”, onde a celebração universal do futebol é restringida por barreiras económicas elitistas – ver aqui ou aqui.


Quanto às promessas feitas na candidatura conjunta de 2018 sobre inclusão e direitos humanos, a realidade de 2026 apresentou fortes contradições – ver p.ex. aqui. A manutenção e o endurecimento de políticas de controlo fronteiriço restritivas pela administração Trump dificultaram ou impediram a entrada de adeptos de diversas nacionalidades e até de jogadores e árbitros, ferindo o princípio de universalidade do torneio – ver aqui. Organizações de direitos civis exigiram uma postura mais firme da FIFA perante as políticas da administração Trump, especialmente quanto à actuação de agências de imigração como o ICE durante os jogos. No entanto, a entidade manteve-se em silêncio, privilegiando a segurança dos contratos de patrocínio e transmissão. A participação de seleções de países sob tensão diplomática com os EUA, como o Irão, concomitante com acordos de cessar-fogo provisórios, amplificou a dimensão política do evento, demonstrando que o desporto não se conseguiu isolar dos conflitos internacionais, sendo absorvido por eles. Como afirma Marco Alves no artigo já citado: o Mundial de 2026 demonstra que “o futebol contemporâneo já não pode ser compreendido apenas como desporto ou entretenimento. Ele tornou-se um território central da competição geopolítica global, onde Estados, corporações, organizações internacionais e actores privados disputam influência, legitimidade e poder simbólico. No fim de contas, o verdadeiro significado político do Mundial talvez resida precisamente nessa transformação: o futebol converteu-se num espelho da ordem internacional contemporânea — com todas as suas contradições, conflitos e batalhas pelo controlo do imaginário global.” Seja como for, assim que se iniciou a competição, as críticas foram esquecidas e as atenções voltaram-se para os jogos e as seleções. Como diz a velha máxima americana: The $how must go on.

Em jeito de súmula: as estratégias de normalização do poder

A noção de realidade invertida, que pedi emprestada a Rima Najjar, descreve um fenómeno ilustrado pelos recentes ‘acordos de paz’ promovidos pelos Estados Unidos no Médio Oriente, em que os efeitos são apresentados como causas, os responsáveis surgem como salvadores e os beneficiários da destruição reaparecem como agentes da reconstrução. Nesta lógica, a guerra deixa de ser vista como um fracasso da ordem internacional para ser reinterpretada como uma etapa necessária de um processo cujo desfecho será a paz. A destruição de infraestruturas, a chacina e deslocação de populações ou a devastação económica dos territórios afectados são progressivamente retiradas do centro da narrativa pública. O foco desloca-se para os acordos diplomáticos, para os líderes que os patrocinam e para as oportunidades económicas que emergem da reconstrução. Passa assim para segundo plano a discussão sobre as decisões políticas e militares que contribuíram para a escalada dos conflitos, bem como o papel desempenhado pelos Estados Unidos e pelos seus aliados ocidentais no apoio material, diplomático e estratégico a Israel. A realidade invertida torna-se particularmente evidente quando empresas que lucraram directa ou indirectamente com a economia de guerra surgem posteriormente como parceiras privilegiadas dos programas de reconstrução. O sofrimento colectivo transforma-se numa oportunidade de investimento. As cidades destruídas convertem-se em mercados. Os territórios devastados passam a ser apresentados como espaços de desenvolvimento e modernização. O resultado é uma paz apresentada como um bem em si mesmo, desligada das condições em que foi alcançada e das relações de poder que a moldaram. As populações directamente afectadas pelos conflitos são invisibilizadas, raramente participam na definição dos seus termos e vêem os seus interesses subordinados aos objectivos estratégicos das grandes potências.


Esta lógica não se limita à geopolítica. Também se manifesta na esfera do entretenimento global. O Campeonato do Mundo de Futebol surge como um exemplo da capacidade das grandes instituições e estruturas de poder para normalizarem contextos politicamente controversos. Apesar das críticas dirigidas à administração Trump, das acusações de desrespeito por normas internacionais e das crescentes denúncias sobre a mercantilização extrema do futebol por parte da FIFA, o evento continua a ser apresentado sobretudo como uma celebração universal do desporto. Tal como acontece com os acordos de paz, a dimensão festiva tende a obscurecer debates mais incómodos sobre poder, responsabilidade e interesses económicos. Os adeptos são incentivados a participar no espectáculo, mesmo quando os custos financeiros se tornam proibitivos e quando persistem questões éticas relevantes sobre as instituições que o promovem.

Ao invocar a noção de realidade invertida não pretendi negar os benefícios da paz ou do desporto. O meu intuito foi antes o de revelar como determinadas estruturas de poder conseguem redefinir a narrativa pública de modo a que os responsáveis pela criação de conflitos ou de situações de injustiça apareçam simultaneamente como os seus solucionadores, enquanto ocultam os verdadeiros beneficiários e os custos humanos e sociais permanecem em grande parte invisíveis. Trata-se no fundo de denunciar a normalização do poder, ou seja, a capacidade das elites políticas, económicas e institucionais para converter situações potencialmente geradoras de escrutínio e de condenação internacional em narrativas de sucesso, paz, reconstrução, crescimento ou celebração.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O retrocesso civilizacional em curso na Europa

A velha Europa tem vindo a revelar a sua decadência e o seu desnorte - em particular, os seus ‘líderes’ e decisores políticos, principalmente ao nível da União Europeia (UE) e da Comissão Europeia (CE). Para além do fanatismo belicista, alimentado pela diabolização da Rússia e do seu líder, e da defesa cobarde do estado sionista de Israel, que denunciei em escritos anteriores (aqui e aqui), tomadas de posição ou decisões recentes ao nível da UE ou da CE sobre liberdade de expressão e de informação, assim como sobre comércio e produção alimentar e agrícola, comprovam que a Europa se encontra em pleno retrocesso civilizacional. Aquelas tomadas de posição ou decisões, não só põem em causa os tão apregoados valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, que a UE alega defender, como também vão contra a sua agenda de defesa ambiental, em particular o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal), uma das bandeiras da actual CE, além de colocarem os interesses do poder militar, económico e financeiro à frente dos direitos e aspirações dos seus próprios cidadãos.

A governação tecnocrática e centralizada da UE, permitida pelo Tratado de Lisboa, tem vindo a acumular tiques de autoritarismo e de desrespeito pelos direitos e pela diversidade de sensibilidades dos cidadãos europeus. Como veremos, a UE não está apenas a trair pontualmente valores e princípios; está a normalizar uma lógica de excepção permanente — securitária, económica e geopolítica — que corrói, de dentro para fora, os princípios que diz defender: liberdade de expressão, direitos humanos, transparência democrática e proteção ambiental. Ou seja, a UE não está a errar aqui e ali, mas está a substituir valores por gestão de riscos e interesses.

Mas vamos por partes.


A intensificação da narrativa da guerra 'inevitável' e 'justa' contra a Rússia tornou-se ainda mais evidente com a mediação de belicistas fanáticos e russófobos como Mark Rutte (ver aqui) ou Kaja Kallas (ver aqui). As iniciativas da administração Trump, que tem menosprezado o papel da UE nas negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, provocaram grande irritação nos dirigentes europeus que continuam apostados no aumento das despesas militares e na retórica da ameaça russa, desdenhando a procura de uma solução diplomática - ver p.ex. aqui ou aqui. No entanto e como argumenta Pedro Ponte e Sousa num artigo de opinião, um eventual desfecho das negociações favorável à Rússia era expectável e mostra a irracionalidade da postura belicista europeia: “O plano de paz para a Ucrânia que agora se desenha não é uma novidade, mas sim a materialização tardia de inevitabilidades que vimos tentando explicar há vários anos. Confirma, de forma inequívoca, que não haveria solução militar para este conflito e que, quanto mais o mesmo se arrastasse, mais provável seria que a Ucrânia ficasse exposta: a negociar de uma posição de fragilidade, ou sem capacidade negocial de todo, cenário que Zelensky reconheceu esta semana. A solução passaria, como sempre se antecipou, essencialmente por um entendimento entre os principais actores do conflito: os EUA e a Rússia. A Europa, por sua vez, cada vez mais apostada em converter-se num actor militar, fica a assistir ao processo negocial em casa, sem nele participar ou ter voz. Prende-se, assim, a uma dinâmica de Guerra Fria 2.0 que ela própria incentivou e da qual não consegue sair, por incapacidade das suas lideranças e falta de visão estratégica.” Ponte e Sousa reforça que a situação em que a Europa se encontra agora é da responsabilidade da actual liderança da UE e é calamitosa para o seu futuro: “A União Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen e de alguns estados com crescente influência, viu na guerra uma oportunidade para institucionalizar políticas e práticas que já vinham a ganhar tração. Esta estratégia levou a um triplo tiro no pé: 1) A militarização da Europa, com a Europa a gastar hoje mais do dobro em guerra do que há dez anos; 2) O fim da diplomacia como ferramenta central, crescentemente desvalorizada pelos estados e pelas instituições da UE, cada vez mais investidas numa corrida ao hard power e esquecendo o longo sucesso das diplomacias europeias, mesmo com exíguos recursos; 3) O declínio da UE comercial, em que a via de corte total de relações com a Rússia amputou o poderio económico e comercial – a verdadeira fonte de peso e influência da UE.


Posições igualmente críticas sobre as políticas europeias e, em particular, sobre a postura do governo alemão liderado por Merz, foram também veiculadas por Jeffrey Sachs e por Conor Gallagher, o primeiro numa carta aberta dirigida ao chanceler alemão e o segundo num artigo de opinião para a revista Naked Capitalism. Ambos criticam os líderes europeus por sacrificar a economia europeia e o bem-estar social dos seus cidadãos, cedendo aos interesses económicos e às ambições imperialistas norte-americanas e à sua postura de confrontação com a Rússia e a China. Ugo Bardi vai mais longe na sua análise da actual postura belicista europeia face à Rússia e defende que esta se baseia numa tentativa desesperada de salvar o alegado motor da sua economia, isto é a Alemanha, mas que aquela tentativa está condenada ao fracasso e poderá de facto conduzir ao colapso económico e social da Europa.

No capítulo da liberdade de expressão e de informação, destaco duas situações preocupantes. Por um lado, a restrição de acesso a documentos da UE ao abrigo de um conjunto de regulamentação relativa à segurança de informação e ciber-segurança (Infosec), denunciada pelo site de investigação jornalística independente ‘Follow The Money’. No seu boletim informativo de Dezembro, referem que, alegando a necessidade de regras mais apertadas para proteger a UE de ameaças híbridas, a CE pretende um regime de classificação unificado que espelhe a prática interna restritiva do Conselho Europeu, onde até os documentos banais são frequentemente carimbados como “limitados”. A adopção das novas medidas irá na prática impedir o acesso aos documentos da UE por parte de jornalistas e eurodeputados, o que irá distorcer ainda mais os mecanismos de escrutínio que sustentam qualquer democracia funcional, acabando por criar as bases para alargar o fosso entre o interesse público e os interesses instalados das grandes empresas.


A outra situação refere-se à imposição de sanções extra-judiciais pela UE, como medida coerciva dirigida a pessoas ou entidades, incluindo cidadãos europeus, por porem alegadamente em causa a segurança e os valores da UE, e por difundirem (des)informação anti-ucraniana ou pró-russa - ver aqui. Aquelas sanções, que incluem o congelamento total de bens e contas bancárias, a proibição de auferir rendimentos e a restrição da liberdade de circulação no seio da UE, surgem na senda de iniciativas mais abrangentes lançadas pela presidente da CE, eufemisticamente designadas por ‘European Democracy Shield’ e ‘European Centre for Democratic Resilience’. Estas iniciativas têm sido fortemente criticadas por serem repletas de retórica, mas carecerem de acções concretas, baseando-se principalmente em medidas não vinculativas e dando ênfase excessiva às ameaças externas, ao mesmo tempo que negligenciam os desafios democráticos internos, além de promoverem a censura – ver aqui ou aqui. Quantos às sanções, que se estendem agora a cidadãos europeus, várias vozes se têm insurgido contra a sua alegada ilegalidade e por considerarem que põem em causa a liberdade de expressão – ver aqui ou aqui (neste vídeo, Pascal Lottaz menciona os casos do cidadão suíço Jacques Baud, da activista africana e cidadã suíça Nathalie Yamb e do jornalista alemão Huseyin Dogru). No primeiro artigo, Binoy Kampmark refere-se às acusações mútuas de hostilidade à liberdade de expressão entre os EUA e a UE, denunciando a duplicidade de critérios e hipocrisia da UE por se insurgir contra as recentes sanções decretadas pelo governo dos EUA contra cidadãos europeus, quando tem aplicado medidas equivalentes aos seus cidadãos por exprimirem opiniões contrárias às suas posições sobre questões de política externa: “A 23 de dezembro, o Departamento de Estado norte-americano anunciou a proibição de entrada nos EUA de cinco cidadãos europeus acusados de liderar esforços para pressionar os gigantes tecnológicos norte-americanos a censurar ou suprimir as opiniões americanas. Esta medida surge após a própria União Europeia se ter decidido a sancionar indivíduos acusados de disseminar desinformação russa, particularmente sobre a guerra na Ucrânia.”


A académica macedónia Biljana Vankovska, especialista em ciência política e relações internacionais, escreveu, por sua vez, um artigo de opinião onde emprega os adjectivos orwelliano e kafkiano para descrever as iniciativas recentes da CE (como o Democracy Shield ou as sanções) com vista a controlar a disseminação de informação sobre questões sensíveis na Europa, acusando-a de criminalizar a dissidência sob o pretexto da segurança. Vankovska escreve: “Actos como «espalhar desinformação» ou promover «narrativas pró-Rússia» tornam-se motivos para punição – não porque sejam crimes, mas porque são considerados inconvenientes. (...) Infelizmente, isto não é novidade. Lembremo-nos de Julian Assange, preso por expor crimes de guerra. Ou, mais recentemente, do juiz francês do TPI, Nicolas Guillou, sancionado pelos EUA por emitir mandatos de captura contra líderes israelitas por causa de Gaza. Como salientou Varoufakis, a Europa falhou na defesa dos seus próprios cidadãos. Anteriormente, a Alemanha tinha proibido Varoufakis de falar sobre genocídio; ameaças semelhantes visam funcionários da ONU como Francesca Albanese. A UE, sob Kallas, não resistiu a esta tendência; pelo contrário, refinou-a, sancionando os seus próprios cidadãos juntamente com russos e ucranianos. Antes, gozámos com Kiev por compilar listas negras «pró-Rússia». Agora, a UE ‘ucranizou-se’, adoptando e melhorando estas mesmas práticas.” Sobre as sanções, a autora escreve: “Imagine ser impedido de aceder à sua própria conta bancária, impossibilitado de trabalhar, abandonado onde quer que esteja quando a ordem for emitida. Parece realmente assustador! Orwell tinha uma palavra para estas pessoas: ‘não-pessoa’ [unperson]. Isto é especialmente chocante, considerando a auto-imagem da UE como uma «comunidade baseada em valores», exportadora de democracia e do Estado de direito. Como chegámos ao ponto em que os intelectuais críticos são tratados como ameaças à segurança?


No domínio da regulação ambiental, alimentar e agrícola, as notícias não são melhores. O boletim informativo de 18 de Dezembro do site francês Reporterre, de informação sobre temas ambientais, faz uma súmula das várias decisões recentes da UE que representam uma clara cedência aos interesses das multinacionais agro-alimentares em detrimento do bem-estar, saúde e prosperidade dos cidadãos, em geral, e dos agricultores, em particular, além de contradizerem os princípios de proteção ambiental apregoados pela própria UE, em particular o Pacto Ecológico Europeu e as medidas em prol da biodiversidade. Temos por um lado, o pacote legislativo ‘food and feed safety omnibus’ (Pacote Omnibus) que pretende ‘aligeirar’ e ‘simplificar’ a regulação ambiental e de pesticidas – ver aqui ou aqui. Segundo a notícia do Público, “O pacote, que terá de ser aprovado pelo Conselho da União Europeia e pelo Parlamento Europeu, é apresentado no mesmo dia em que se soube que a União Europeia deverá continuar a não cumprir a maioria dos objectivos ambientais para 2030, de acordo com um relatório da Agência Europeia do Ambiente”. Este pacote legislativo tem sido fortemente contestado por várias organizações ambientais – ver notícia do Público já citada, aqui e aqui. Segundo aquela notícia: “A organização ambientalista WWF faz um alerta sobre o novo pacote de simplificação das regras ambientais proposto nesta quarta-feira pela Comissão Europeia, defendendo que põe em risco a qualidade do ar, da água e da saúde pública em nome da competitividade. Também o European Environmental Bureau (EEB), a maior rede europeia de organizações de defesa do ambiente, chamou a atenção para as consequências das propostas para simplificar a legislação ambiental, que, diz, minam leis cruciais que protegem a saúde das pessoas, a natureza e a prosperidade a longo prazo. (…) Os ambientalistas defendem que, entre outros problemas, a proposta da CE elimina a exigência de serem avaliados substitutos mais seguros para produtos químicos, dá carta-branca a indústrias para continuarem com práticas comerciais inadequadas e revoga a única base de dados que contém informação sobre produtos químicos fabricados e importados. (…) O pacote Omnibus, alerta o EEB, insere-se numa tendência política mais vasta e preocupante: «Um ataque coordenado às leis que salvaguardam a saúde, o clima e a natureza da Europa, numa pressão de desregulação que troca o interesse público a longo prazo pela conveniência política a curto prazo.»” Já para a organização Pesticide Action Network (PAN-Europe): “A proposta mina o principal objectivo do regulamento, que é o de garantir um elevado nível de proteção com base no princípio da precaução. Se implementadas na sua forma actual, as alterações representariam um sério retrocesso para a regulamentação dos pesticidas na UE, podendo permitir que substâncias perigosas continuem a ser utilizadas indefinidamente. Além disso, contrariariam as constantes e antigas reivindicações dos cidadãos por uma regulamentação mais rigorosa dos pesticidas e pela eliminação gradual dos pesticidas sintéticos.” (daqui) Também um grupo de cientistas de renome de vários países contestou as alterações legislativas incluídas no pacote Omnibus e apelou à CE para que melhore a protecção do ambiente, da biodiversidade e da saúde dos cidadãos contra os pesticidas nocivos, numa carta enviada aos 27 Comissários da UE, assinada por 203 especialistas em saúde, toxicologia e ecologia – ver aqui. Os cientistas apelam à Comissão para que abandone a ideia de enfraquecer a regulamentação dos pesticidas e que, em vez disso, melhore a implementação da regulamentação actual e elimine as lacunas existentes. É possível apoiar uma campanha da WeMove-Europe de contestação à Lei Omnibus aqui.


O segundo pacote legislativo da UE refere-se à (des)regulamentação de produtos agrícolas e alimentares resultantes da aplicação de novas técnicas genómicas (NGTs) – os chamados novos OGMs – alegando que irá ajudar os agricultores a lidar com a crise climática e melhorar a eficiência e a segurança alimentar – ver aqui ou aqui. Segundo esta última notícia, “De acordo com a legislação actual, os novos OGM estão sujeitos às mesmas regras de rotulagem, rastreabilidade e avaliação de riscos que os OGM. Agora, no entanto, foi proposta uma desregulação para isentar as culturas NGT (com excepção das sementes e do material reprodutivo vegetal) daquelas regras. A categoria NGT1, que compreende produtos de laboratório obtidos através de técnicas de edição genética de precisão que actuam como tesouras moleculares para modificar características específicas do DNA já presentes na planta, estaria isenta. Entretanto, os produtos NGT2 — aqueles que diferem da planta-mãe por mais de 20 modificações genéticas e que têm efeitos insecticidas conhecidos e tolerância a herbicidas — continuarão sujeitos a regulamentação. (…) Estas regras serão aplicadas tanto às plantas de origem da UE como às plantas importadas, enquanto as NGT serão proibidas na agricultura biológica: a presença tecnicamente inevitável de plantas NGT1 não constituirá incumprimento para os produtos biológicos. Os Estados-Membros poderão decidir se limitam ou proíbem as NGT2.” Estas alterações têm também sido fortemente contestadas por diversas ONGs ambientais como a Friends of the Earth Europe FOEE (aqui), a Slow Food (aqui) ou a Navdanya International (aqui). Para a FOEE, “Se este acordo se tornar lei, os novos OGM deixarão de estar sujeitos à Diretiva da UE sobre Responsabilidade Ambiental nem aos regimes nacionais de responsabilidade aplicáveis aos produtores de culturas geneticamente modificadas. Caso sejam detetados danos ‘não premeditados’, as empresas responsáveis pela comercialização de OGM não poderão ser responsabilizadas. A FFOE denuncia esta eliminação radical das salvaguardas, uma carta branca concedida à indústria biotecnológica, e apela aos ministros e eurodeputados para que rejeitem esta lei nas suas próximas votações no Conselho e no Plenário da UE.” Já a Navdanya adverte que: “O acordo provisório em trílogo [Parlamento Europeu, Conselho Europeu e CE] sobre os OGM da próxima geração e as Novas Técnicas Genómicas (NGTs) cria uma distinção artificial entre as categorias de NGTs, permitindo que muitos destes organismos sejam tratados como ‘equivalentes’ às plantas convencionais — contornando, na prática, anos de salvaguardas de precaução. Esta mudança, impulsionada pela pressão do lobby do agronegócio, gerou uma ampla oposição em toda a Europa. As redes de agricultores, os grupos de consumidores e os movimentos pela soberania alimentar manifestaram-se, exigindo transparência, liberdade de escolha e pleno respeito pelo princípio da precaução.(daqui).


O outro retrocesso legislativo refere-se ao
acordo obtido no Concelho da UE para alterar duas leis com uma relação muito próxima: a Directiva do Reporte de Sustentabilidade das Empresas (CSRD, sigla em inglês) e a Directiva do Dever de Diligência das Empresas em Matéria de Sustentabilidade (CSDDD) – ver aqui. Apresentado como um passo determinante para o ‘aumento da competitividade’ e para a ‘redução de custos’ pelas empresas europeias, o acordo acaba por isentar mais de 80% dessas empresas de obrigações de reporte ambiental. Segundo a notícia do Público, ambas as Directivas tinham sido alvo de fortes pressões de grandes empresas internacionais e de governos, como os dos Estados Unidos e do Qatar, e o acordo agora alcançado terá como consequência que “Mais de 80% das empresas europeias ficarão isentas de verificar se ao longo da sua cadeia de valor são reduzidos ou eliminados os efeitos adversos na natureza, no clima e nos direitos humanos”. Ainda segundo a mesma notícia, “Na versão originalmente aprovada em 2022, estas directivas aplicavam-se a empresas europeias ou com actividade na União Europeia com um volume de negócios acima de 150 milhões de euros. Mas, agora, só grandes empresas, com mais de 5000 trabalhadores e um volume de negócios anual acima de 1500 milhões de euros terá de cumprir o dever de diligência ao longo da sua cadeia de produção. E só as empresas com mais de mil trabalhadores e um volume de negócios superior a 450 milhões terão a obrigação de informar sobre a sustentabilidade da sua actividade.” A mesma notícia refere ainda que: “No final de Novembro, a Provedora de Justiça da UE, Teresa Anjinho, acusou a Comissão Europeia de má administração, por não respeitar as suas próprias regras na elaboração das propostas legislativas conhecidas como pacotes de simplificação Omnibus, consideradas urgentes, e que abrangem áreas sensíveis como as obrigações de reporte de sustentabilidade das empresas, a agricultura e o tráfico de migrantes. É no âmbito destes pacotes Omnibus que a UE está a fazer estas simplificações, que os críticos consideram esvaziamentos da legislação ambiental.” Em Fevereiro, a European Coalition for Corporate Justice (ECCJ) tinha já contestado o processo de desenvolvimento daquelas propostas pela CE, denunciando que: “O pacote Omnibus é uma recompensa para os interesses corporativos que se esquivam à responsabilidade. Cortar nos direitos humanos e nas protecções ambientais sob o pretexto da ‘simplificação’ alimenta a impunidade, é um livre-trânsito para explorar os trabalhadores, destruir os ecossistemas e silenciar as comunidades que se opõem a estes esforços.” (daqui) A directora da ECCJ, Nele Meyer, declarou na altura: “Recusamo-nos a deixar que os interesses corporativos reescrevam a lei sem a nossa participação. Os trabalhadores e as comunidades mais afetadas lutaram por estas regulamentações de sustentabilidade da UE para evitar danos, mas são as gigantes dos combustíveis fósseis e os lobistas corporativos que agora estão no comando. A Lei Omnibus trai as pessoas e a natureza que a UE prometeu proteger. A Comissão tem de decidir: está do lado das pessoas e do planeta, ou do lado dos interesses corporativos?


Finalmente, temos o (não)desfecho atribulado das negociações do tratado de comércio entre a UE e o Mercosul, que duram há mais de 25 anos e enfrentam forte contestação dos agricultores europeus – ver aqui ou aqui. Na verdade, a ratificação do acordo, que estava agendada para o mês de Dezembro, foi adiada para Janeiro – ver aqui. Segundo a notícia do Público, a contestação dos agricultores (que se estende também a alterações à Política Agrícola Comum), deve-se a receios de que “um dos principais efeitos do acordo seja uma inundação do mercado europeu com produtos agrícolas e pecuários provenientes da América do Sul, pondo em causa toda a produção europeia”. No entanto, estão também em causa não só interesses do agro-negócio sul-americano, como ainda salvaguardas impostas pelos países europeus. Num artigo para o diário espanhol Público, Miguel Urbán disseca algumas destas questões. Urbán começa por caracterizar assim o tratado: “Um acordo no qual a UE visa melhorar o acesso ao mercado para as suas multinacionais dos sectores automóvel, de peças automóveis, de energia, farmacêutico, de bebidas e de serviços financeiros no Mercosul, enquanto os países do Mercosul obterão maior acesso ao mercado europeu para as suas matérias-primas — carne de bovino e de frango, soja, açúcar e etanol para biocombustíveis, entre outras. Este acordo comercial, popularmente conhecido por «vacas por carros», embora institucionalize uma relação comercial assimétrica e neocolonial, favorece os interesses do poderoso sector agroindustrial do Mercosul.” Urbán recorda que: “A relutância de alguns Estados-membros obrigou à negociação de uma série de cláusulas de salvaguarda, mecanismos que surgem com formulações voluntárias («deviam», «vão esforçar-se») e sem instrumentos vinculativos eficazes. Na prática, estas cláusulas subordinam as boas intenções relativas ao clima e aos direitos laborais às obrigações comerciais vinculativas contidas no acordo. Trata-se de um verniz discursivo típico do soft power europeu, concebido para apresentar o acordo como um exemplo de relações comerciais que respeitam o ambiente e os direitos humanos. Estas cláusulas já tinham sido criticadas pelo próprio Lula como um mecanismo de ‘neocolonialismo verde’ que, sob o pretexto de proteger o ambiente, «impõe barreiras comerciais e medidas discriminatórias, e desconsidera os marcos regulatórios e as políticas nacionais». Assim, as tensões geradas no bloco Mercosul pelo constante fluxo de objecções europeias tornavam-se publicamente evidentes.” Urbán realça ainda que: “as ‘cláusulas de salvaguarda’ foram incorporadas não só, supostamente, para proteger o ambiente, mas também como forma de a Comissão Europeia tentar conter a agitação em torno dos protestos agrícolas que, nos últimos anos, paralisaram repetidamente a capital europeia com os seus tractores. No entanto, como denuncia a Coordenadora Europeia da Via Campesina, estas alegadas cláusulas de salvaguarda «são concebidas para que nunca sejam acionadas. Baseadas em limiares económicos arbitrários, não refletem a diversidade da agricultura europeia nem os efeitos reais e localizados do aumento das importações»”. Para saber mais detalhes sobre o tratado UE-Mercosul e as razões legítimas para a contestação, ver página informativa no site da Plataforma Troca.


Neste post que já vai longo, tentei demonstrar com exemplos muito recentes que, na Europa, a retórica dos valores choca de frente com a prática do poder: numa UE que se apresenta como bastião da democracia liberal, da paz, dos direitos humanos e da transição verde, há um desfasamento crescente entre discurso e prática. Pela relevância e abrangência dos casos que apresentei, parece-me que fica claro que o que está em causa não é uma crise pontual, mas um padrão de retrocesso civilizacional. Por um lado, a construção discursiva de uma guerra “inevitável” com a Rússia reduz o debate público e leva à demonização da dissidência como “pró-russa” ou “ameaça à segurança”, numa lógica maniqueísta que substitui a análise política e a contextualização histórica. A principal consequência é uma política externa que se transforma em dogma moral, imune à crítica. E quando a guerra se torna o eixo central da identidade política, todas as outras liberdades passam a ser condicionais. Com as restrições de acesso à informação e as sanções contra cidadãos europeus por opiniões políticas, a liberdade de expressão deixa de ser um direito universal e passa a ser permitida desde que não contrarie a narrativa oficial. A UE escolhe assim punir opiniões, não actos, aproximando-se portanto mais de regimes que afirma combater do que dos seus próprios ideais fundadores.


Quanto à tão apregoada transição verde e à proteção ambiental, parecem reduzir-se cada vez mais a meras estratégias de marketing e de ‘greenwashing’, onde as políticas da UE se rendem a um alegado pragmatismo económico, recorrendo aos eufemismos da ‘competitividade’ e da ‘simplificação’, como vimos com os exemplos do aligeiramento da regulação ambiental e de pesticidas da Lei Omnibus, a desregulação dos NGTs, as isenções de reporte ambiental e o acordo com o Mercosul. A proteção ambiental deixa de ser um princípio e passa a ser negociável. A Europa pode não ter abandonado o discurso ecológico, mas abandonou a coerência em matéria de qualidade ambiental e de saúde pública face à pressão dos interesses instalados do grande poder económico.


Em todas as dimensões e casos aflorados existem padrões que se repetem: redução do debate democrático, transferência de decisões para instâncias tecnocráticas e justificação constante pela ‘necessidade’, ‘urgência’, ‘segurança’ ou ‘competitividade’. Os cidadãos são tratados como riscos a gerir, não como sujeitos políticos, os direitos e os compromissos são transformados em concessões revogáveis e a qualidade ambiental em mera retórica que se sacrifica aos ditames dos lobbies económicos. Esta Europa poderia até ganhar eficiência, alinhamento geopolítico ou competitividade, mas paga com empobrecimento democrático, erosão da confiança pública e perda de autoridade moral, quer internamente, quer mundialmente.

Fecho com um excerto do artigo de Biljana Vankovska que citei: “Lecionei um curso universitário sobre o sistema político europeu e sempre entendi a UE por aquilo que ela realmente é: um projecto corporativo-colonial-imperialista disfarçado pela retórica da paz e da justiça. Não porque seja particularmente inteligente, mas porque conservei a liberdade infantil de declarar: o rei vai nu.


P.S. Posteriormente à publicação deste post, deparei-me com este artigo de opinião de Viriato Soromenho Marques sobre a sanha belicista da actual liderança europeia, cuja leitura recomendo.

domingo, 6 de julho de 2025

Pseudoceno – Adenda com referências adicionais

Nota: este post é uma adenda ao post anterior.

Julian Assange, numa declaração em 2011 que citei no meu post de Março de 2024, afirmou que “os jornalistas são criminosos de guerra”. Esta afirmação pode parecer desnecessariamente categórica, simplista e até injusta, e terá muito possivelmente sido um dos motivos que levou muitos media ocidentais a criticá-lo ou até a abandoná-lo desde então. Mas Assange estava a falar numa acção de protesto contra a fabricação de ‘guerras justas’ pelo Ocidente, em particular as guerras no Afeganistão e Iraque, e usou aquela afirmação como resposta a uma pergunta que ele próprio colocou sobre a cumplicidade dos media: “Quando compreendemos que as guerras surgem como resultado de mentiras espalhadas ao público britânico, ao público americano e ao público de toda a Europa e de outros países, então quem são os criminosos de guerra?

Em relação ao meu post mais recente, quero clarificar dois aspectos. Em primeiro lugar, critiquei os media dominantes ocidentais, mas nada disse sobre o que publicaram os media no Irão ou noutros países que puseram em causa a narrativa do Ocidente. A minha escolha foi premeditada e não se destina a branquear a manipulação e demagogia que também é feita em alguns desses media. É sabido que muitos são controlados ou censurados pelos governos autocráticos desses países e não é de espantar que distorçam a narrativa de modo a satisfazer a agenda dominante. Escolhi focar-me nos media dominantes ocidentais, porque nesta parte do mundo e cultura em que me insiro se apregoa que existe liberdade de informação e que os media são isentos e transmitem a verdade dos factos. Ora acontece que isso simplesmente não corresponde à realidade. Pior ainda, o conteúdo e a forma como as notícias são dadas pretendem legitimar uma agenda belicista ou um dos lados beligerantes, suprimindo ou distorcendo os factos, ou apresentando uma versão enviesada desses factos.

Em segundo lugar e para além das referências que já tinha inserido no post sobre o Pseudoceno, acrescento agora mais alguns links para vídeos e artigos que lançam críticas fundamentadas aos media ocidentais dominantes pelo viés favorável a Israel na sua cobertura, não só do conflito mais recente entre Israel e o Irão, mas também do massacre dos palestinianos em Gaza e na Cisjordânia, desde 2023 (ver p.ex. aqui). O primeiro vídeo da Aljazeera, com depoimentos da historiadora iraniano-americana Assal Rad, especialista no Médio Oriente, foca-se no conteúdo de títulos e resumos das notícias, que são muitas vezes da responsabilidade das redacções editoriais e não necessariamente dos jornalistas que escrevem os artigos – ver aqui. Rad tem vindo a fazer o exercício de corrigir os títulos de modo a reflectir a realidade que alegam descrever - ver aqui. Num artigo de opinião recente, o académico de ciência política Ali Abootalebi critica e desconstrói os mitos veiculados por media internacionais como a BBC e a Reuters sobre o Irão. Já o editor do site Countercurrents, Binu Matthew, alerta para o desvio de atenção dos media ocidentais em relação aos continuados massacres em Gaza perpetrados por Israel, causado pelo conflito entre Israel e o Irão - aqui.

Os restantes vídeos referem-se a análises das decisões editoriais recentes da BBC sobre artigos ou reportagens publicados no seu site relativos ao que se passa em Gaza deste 2023, cujo conteúdo foi distorcido a favor de Israel, ou sobre a supressão de narrativas desfavoráveis:

- comentário e discussão sobre relatório do Center for Media Monitoring (BBC On Gaza-Israel: One Story, Double Standards) que revela a dimensão do viés favorável a Israel na cobertura noticiosa da BBC do conflito em Gaza (Owen Jones): https://youtu.be/052e22XabME  

- comentário à decisão da BBC de não exibir o documentário “Gaza: medics under fire”* que havia sido encomendado pela própria BBC sobre o trabalho das equipas médicas em Gaza e que lhe valeram acusações de ‘censura política’ (Novara Media): https://youtu.be/2PWDEykH944

- comentário sobre conteúdo do site da BBC que suprime informação disponível sobre o arsenal nuclear de Israel (Novara Media): https://youtu.be/JxEAsd_fR-I - ver também aqui.

Em relação às sucessivas incorreções e distorções por parte da BBC, foi divulgada uma carta aberta subscrita por mais de 300 personalidades mediáticas britânicas, incluindo mais de 100 jornalistas da própria BBC, a denunciar a situação e a acusar a BBC de forçar os seus jornalistas a fazer propaganda pró-Israel - ver aqui ou aqui. A propósito do conteúdo desta carta aberta, recomendo ainda artigo de opinião escrito pela ex-jornalista da BBC, Karishma Patel.


* O documentário está agora disponível sob o nome “Gaza:doctors under attack” através dos sites do Channel 4 ou da Zeteo (requerem subscrição).