domingo, 21 de junho de 2026

Os acordos de paz e o Mundial: a realidade invertida do nosso descontentamento

Evan Vucci (c) The Associated Press
Neste post recorro aos recentes ‘acordos de paz’ para o Médio Oriente mediados pelos EUA (Gaza em 2025 e Irão em 2026) como exemplos de realidade invertida, ou seja, para tentar demonstrar como as narrativas dominantes sobre os respectivos conflitos invertem as responsabilidades na sua génese e prossecução, dissimulando um teatro geopolítico ditado pelos poderosos, que viola o direito internacional e em que a última preocupação são os interesses e bem-estar das populações afectadas. A estes exemplos adiciono o Mundial de Futebol na medida em que a promoção de um evento desportivo alegadamente acima da política e que pretende celebrar a união dos povos é, na verdade, um enorme embuste que mascara, não apenas os interesses económicos, mas também os jogos políticos, que lhe estão associados.

De facto e como já tinha desenvolvido anteriormente noutros escritos sobre os conflitos no Médio Oriente (p.ex. aqui ou aqui), temos assistido a uma clara e sistemática manipulação da perceção pública mundial por parte dos media ocidentais dominantes no sentido da desresponsabilização dos agressores, em particular o governo israelita e os próprios EUA, e de ocultar o conluio, declarado ou dissimulado, de muitos outros países ocidentais na sua concretização. Portanto, não se trata meramente de usar a mentira para manipular e fabricar o consentimento, como defendi nos meus posts anteriores, mas de criar narrativas completamente invertidas. A flagrante impunidade com que Israel tem imposto a sua agenda agressiva de expansão territorial e de chacina étnica é uma amarga demonstração não só da impotência e do falhanço das instituições e do direito internacionais, mas também dos efeitos da cobertura mediática enviesada, aliada a uma apatia da opinião pública mundial. A distorção da realidade alastra-se ao campo económico na medida em que os discursos políticos e mediáticos tendem a encobrir ou a escamotear os interesses financeiros por detrás dos conflitos – ver p.ex. aqui.


Já no caso do Mundial de Futebol, é penoso assistir a uma cobertura e adesão (quase) acríticas, quer por parte dos media, quer por parte dos ‘fãs’, que acaba por legitimar simbolicamente a administração Trump e a direção da FIFA, tendo ambas revelado uma flagrante falta de ética e de respeito pelas regras internacionais, além de explorarem financeiramente de forma revoltante os adeptos do desporto, sem que haja um boicote claro ao evento – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. Se o campeonato anterior no Qatar já era apelidado de Mundial da Vergonha (ver aqui), este não lhe fica atrás.


Realidade invertida e o “plano de paz” para Gaza

A noção de realidade invertida foi invocada pela autora e activista palestiniana Rima Najjar num seu ensaio de 2025 sobre o ‘plano de paz’ para Gaza promovido por Donald Trump, intitulado “Inverting Reality: The Optics of Trump’s “Peace” Plan”. Nesse ensaio, Najjar recorre ao conceito de realidade invertida para descrever uma estratégia deliberada de manipulação narrativa e visual. Segundo ela, esta estratégia visa distorcer a perceção pública do conflito, apresentando os colonizadores como pacificadores e a resistência palestiniana como terrorismo, enquanto suprime o sofrimento e a agência do povo palestiniano. A autora enfatiza assim o processo sistemático através do qual a ocupação militar e a violência estrutural são reencenadas mediaticamente como actos de governação legítima ou esforços de paz. Najjar argumenta que as ópticas (a forma como os eventos são mostrados ou ocultados) não são incidentais, mas estratégicas, desenhadas para moldar a legitimidade moral e obscurecer os mecanismos de poder, apoiando-se no uso de terminologia falaciosa. O ensaio foca-se especificamente nas estratégias performáticas e retóricas em torno da troca de prisioneiros de Outubro de 2025, no discurso de Donald Trump no Knesset e na cimeira de Sharm al-Shaikh. Para a autora, estes eventos foram coreografados para transmitir uma falsa sensação de ‘resolução’, ocultando a realidade de que servem para consolidar a impunidade e aprofundar o controlo sobre os palestinianos. Najjar denuncia igualmente a encenação política e mediática com a exaltação de figuras como Trump e Netanyahu nos palcos diplomáticos, criando um espetáculo que legitima a ocupação sob o disfarce de diplomacia. A bajulação de Trump por alguns dos líderes presentes na cimeira no Egipto roçou o grotesco (ver p.ex. aqui). No contexto específico do “Plano de Paz” de Trump, a realidade invertida manifesta-se ao rotular uma imposição colonial como uma iniciativa de paz. Najjar descreve o plano de 20 pontos não como uma novidade estratégica, mas como uma “arquitetura de controlo reciclada”, embalada em jargão diplomático. Para Najjar, desmantelar a realidade invertida exige reconhecer que a agressão e a ocupação não são disputas entre duas partes iguais, mas um sistema de dominação onde a terminologia e as ópticas são armas usadas para manter a opressão invisível ou justificável aos olhos do mundo ocidental.


Vários outros comentadores e analistas se insurgiram, não só contra o conteúdo do ‘plano de paz’, como criticaram a sua aprovação tácita pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) em Novembro de 2025 – ver p.ex. aqui, aqui e aqui. A resolução do CSNU foi acolhida pela autoridade palestiniana, mas rejeitada pelo Hamas. Outro aspecto que gerou profunda consternação em certos sectores foi a constituição do chamado Conselho da Paz (Board of Peace), proposto e presidido vitaliciamente por Trump, que constitui não só uma afronta ao mandato da ONU, como uma normalização de uma agenda plutocrática que olha para a destruição de Gaza e a limpeza étnica do povo palestiniano como oportunidades de negócio, e onde se inclui o chamado “Gaza Reconstitution, Economic Acceleration and Transformation (GREAT) Trust” – ver p.ex. aqui, aqui e aqui. Num artigo de opinião para o Arab Center Washington DC, o ex-diplomata e especialista no Médio Oriente, Charles W. Dunne, afirma: “A actual composição do Conselho dificilmente inspira confiança na sua capacidade ou vontade de ajudar Gaza a desenvolver uma “governação moderna e eficiente que sirva o povo de Gaza”, como afirma o plano original, muito menos a promover eleições ou a um autogoverno democrático (embora, de facto, o plano nunca mencione democracia ou eleições). (...) A presença de Israel num Conselho ostensivamente destinado a reconstruir e ajudar a governar Gaza — que o próprio Israel destruiu em grande parte durante uma campanha militar que as Nações Unidas classificaram de “genocídio” — só vem aprofundar o cepticismo generalizado.” Em relação às aspirações do Conselho, Dunne escreve: “Para além dos ambiciosos planos para a paz mundial — e para sabotar a ONU — podem existir motivações mais egoístas em jogo, nomeadamente o lucro. Trump já não fala em despovoar e reconstruir Gaza como a “Riviera do Médio Oriente” (o plano dos 20 pontos exclui especificamente a transferência de população). Mas espera claramente reconstruir Gaza nos moldes das “prósperas cidades modernas e milagrosas do Médio Oriente”, como sugere o ponto 10 do plano de paz, o que pode equivaler praticamente à mesma coisa. Um “plano director” para a reconstrução de Gaza apresentado em Davos por Jared Kushner — uma visão de 30 mil milhões de dólares que inclui uma zona turística costeira com 180 arranha-céus, 100.000 unidades habitacionais em Rafah e um novo centro industrial — está certamente em consonância com o conceito anterior de Trump.

Patrick Chappatte

Para cúmulo (ou ‘juntar o insulto à injúria’), Israel não cumpriu os termos do plano de paz e tem continuado a chacina e destruição em Gaza, além de impedir a acção das agências de ajuda humanitária, com o conluio dos EUA e de grande parte da comunidade internacional, agravado por um desviar de olhar dos media – ver p.ex. aqui ou aqui.

Acordo de paz EUA-Irão

A realidade invertida volta a manifestar-se no recente acordo (memorando de entendimento) entre EUA e Irão, pelo apagamento sistemático de Israel como actor central do conflito, apesar de ter sido o principal executor da agressão e que teria muito a ganhar geopoliticamente com o seu eventual sucesso (ver p.ex. aqui). Note-se que Israel não é signatário do acordo, nem participou nas negociações directas, apesar de ter participado nos ataques aéreos iniciados a 28 de Fevereiro deste ano (e nos de Julho de 2025), que destruíram diversas infrastruturas militares e civis iranianas, além de ter assassinado líderes políticos e científicos. Ao excluir Israel do acordo, evita-se qualquer discussão sobre a legalidade dos ataques conjuntos EUA/Israel, a responsabilidade pelas baixas civis ou a destruição de infraestrutura civil. Israel mantém a sua narrativa de “segurança existencial” sem ter de se sentar à mesa de negociações como parte responsável pelo conflito. O acordo é apresentado como uma resolução bilateral EUA-Irão, ocultando que a guerra foi, na prática, travada por procuração e directamente por Israel.


O acordo foca-se nas restrições ao programa nuclear e ao comportamento regional do Irão (Hezbollah, etc.), reforçando a narrativa de que o Irão é o destabilizador, enquanto a acção militar dos EUA e Israel é enquadrada como uma “resposta necessária” ou um “mal menor” para atingir a estabilidade na região. A narrativa dominante enquadra os EUA como o mediador que “trouxe a paz” e o Irão como a parte que cedeu (ao concordar com a diluição do urânio enriquecido e a reabertura do Estreito de Ormuz). Inverte-se a realidade de que foram os EUA e Israel que iniciaram a escalada militar após o alegado colapso das negociações, bombardeando o Irão, com os objectivos declarados de desmantelar o seu programa nuclear e provocar uma mudança de regime – agora, mais do que nunca, ainda mais difíceis de atingir. Israel aproveitou entretanto para abrir outra frente de agressão no sul do Líbano, à revelia dos EUA. O Irão não tardou em exigir a vinculação de Israel ao novo acordo, que abrange o Líbano nos termos do cessar-fogo (ver p.ex. aqui). Não é de espantar que o acordo tenha sido tão mal acolhido quer por Israel, quer pelas fações neo-conservadoras e belicistas norte-americanas. Todos estes factores, bem como os ataques continuados de Israel no sul do Líbano, terão levado ao cancelamento do encontro entre as delegações americana e iraniana previsto para o dia 19 de Junho na Suíça, onde seria assinado formalmente (ver p.ex. aqui).


O acordo ilustra igualmente a inversão da realidade ao transformar as consequências de uma guerra ilegal e não provocada numa alegada vitória diplomática. O que é vendido como uma conquista diplomática dos EUA (a diluição do urânio dentro do Irão sob supervisão da AIEA) era, na verdade, uma proposta que o Irão já tinha colocado sobre a mesa em 2025, antes do início dos bombardeamentos, fazendo parecer que a guerra foi necessária para alcançar um resultado que era viável diplomaticamente antes da violência. A paz é ainda celebrada como o restabelecimento do statu quo (reabertura do Estreito de Ormuz, fim das hostilidades), mas escamoteia-se que foi a própria guerra que fechou o Estreito e destabilizou a região. A “paz” surge, portanto, como a resolução de um problema criado pela própria agressão militar, sendo apresentada como um acto de habilidade política e diplomática. Na verdade, e como vários analistas e comentadores têm destacado, o acordo é uma derrota política e diplomática para os EUA, na medida em o Irão sai fortalecido com o levantamento das sanções económicas e das restrições ao investimento – ver p.ex. aqui. A terminologia de “memorando de entendimento” e “cessar-fogo” mascara a realidade de uma rendição diplomática dos EUA e da sua subjugação aos ditames de Israel, uma vez que não conseguiram impor as suas condições máximas através da guerra, mas vendem o resultado como uma vitória estratégica.


Um aspecto que quero ainda destacar é o do oportunismo económico associado a este conflito em particular. Os efeitos quase imediatos nos preços de bens essenciais (combustíveis e alimentos) foram notórios logo desde o início das hostilidades (ver p.ex. aqui ou aqui) e traduziram-se em lucros chorudos para muitas empresas – ver p.ex. aqui ou aqui. No entanto, a constatação de que o prolongar do conflito estava a produzir fortes impactos na economia mundial e que estes se repercutiam negativamente nos países ocidentais, mas até estavam a beneficiar o próprio Irão, fez aumentar a pressão para suspender os ataques militares e para encontrar uma saída airosa para os EUA – ver p.ex. aqui. Faço notar que a Reuters divulgou que o novo acordo EUA/Irão prevê um fundo de investimento privado de 300 mil milhões de dólares, segundo noticiou o Público (aqui). Nessa notícia pode ler-se: “O novo fundo [que deverá chamar-se Fundo de Reconstrução e Desenvolvimento] é um mecanismo de investimento privado — não um programa de reconstrução ou de indemnizações — e não incluirá quaisquer verbas públicas ou subvenções, adiantou [fonte conhecedora do acordo à Reuters], acrescentando que empresas sediadas nos EUA, nos Estados árabes do Golfo, na Ásia, na América do Sul e em África comprometeram-se a financiar o projecto. Os investimentos prometidos abrangem os sectores da energia, logística, indústria transformadora e transportes.” Torna-se mais uma vez evidente que os conflitos armados fazem parte de um teatro político que se destina a dissimular os interesses económicos que beneficiam com a sua perpetuação.


Mundial da Vergonha 2

O Mundial de Futebol, co-organizado este ano pelos Estados Unidos, México e Canadá, consolidou-se como um caso paradigmático da interseção entre geopolítica, soft power e a mercantilização do desporto. Sob a sombra do segundo mandato de Donald Trump e da liderança de Gianni Infantino na FIFA, o evento transcendeu a esfera desportiva para se tornar um palco de disputas ideológicas e reafirmação da hegemonia norte-americana – ver ensaio de Marco Alves, aqui. Em contraste com edições anteriores, em que tentava manter uma neutralidade diplomática, em 2026 a FIFA adoptou uma postura de aberto alinhamento com os interesses dos EUA – ver ensaio de Camila Valente, aqui. O momento simbólico mais marcante ocorreu durante o sorteio da fase final em Washington, quando Infantino entregou a Trump o inédito ‘Prémio da Paz da FIFA’ (ver aqui). Esta condecoração foi amplamente interpretada por críticos e organizações de direitos civis como uma tentativa de legitimação política de um governo marcado por políticas migratórias restritivas e isolacionismo diplomático -ver artigo de Camila Valente citado acima. A criação do prémio quebrou o protocolo histórico da FIFA de não misturar liderança política de países-sede com honrarias oficiais durante o certame, sinalizando que a estabilidade dos contratos e o acesso ao mercado consumidor americano prevalecem sobre a independência institucional – ver artigo de Elvis da Silva, aqui. Neste texto, o autor aponta que o ‘FIFA Gate’, despoletado em 2015 pelo Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como um mecanismo disciplinador que desmantelou redes de poder antigas na FIFA e impôs uma governança alinhada com os interesses norte-americanos. De facto, com a ascensão de Infantino, o Mundial de 2026 recupera a centralidade dos EUA no futebol mundial, corrigindo o deslocamento de poder para o Médio Oriente e a Eurásia ocorrido nas décadas anteriores. A presença de Trump, que criou uma task force específica na Casa Branca para o evento, reforça a narrativa de que o torneio é uma extensão da política externa americana, utilizando o futebol como instrumento de projeção de poder – ver artigos de Elvis da Silva e de Marco Alves citados acima.


Por outro lado, sob a égide da administração Trump e da gestão da FIFA, este Mundial estabeleceu novos recordes de mercantilização. A adoção dos chamados modelos de ‘preços dinâmicos’ inflacionou o custo dos bilhetes, tornando o evento inacessível para grande parte das claques tradicionais, especialmente as da América Latina e de comunidades locais nos EUA. A crítica central reside na transformação do evento num produto de luxo, onde a lógica de mercado se sobrepõe à função social do desporto. Relatos de bilhetes com valores exorbitantes no mercado secundário, com taxas de comissão de 15% para a FIFA, tanto na venda como na compra, evidenciam a promoção do lucro em detrimento da inclusão. Essa abordagem gerou denúncias de que o torneio se tornou um “circo dominado por Trump”, onde a celebração universal do futebol é restringida por barreiras económicas elitistas – ver aqui ou aqui.


Quanto às promessas feitas na candidatura conjunta de 2018 sobre inclusão e direitos humanos, a realidade de 2026 apresentou fortes contradições – ver p.ex. aqui. A manutenção e o endurecimento de políticas de controlo fronteiriço restritivas pela administração Trump dificultaram ou impediram a entrada de adeptos de diversas nacionalidades e até de jogadores e árbitros, ferindo o princípio de universalidade do torneio – ver aqui. Organizações de direitos civis exigiram uma postura mais firme da FIFA perante as políticas da administração Trump, especialmente quanto à actuação de agências de imigração como o ICE durante os jogos. No entanto, a entidade manteve-se em silêncio, privilegiando a segurança dos contratos de patrocínio e transmissão. A participação de seleções de países sob tensão diplomática com os EUA, como o Irão, concomitante com acordos de cessar-fogo provisórios, amplificou a dimensão política do evento, demonstrando que o desporto não se conseguiu isolar dos conflitos internacionais, sendo absorvido por eles. Como afirma Marco Alves no artigo já citado: o Mundial de 2026 demonstra que “o futebol contemporâneo já não pode ser compreendido apenas como desporto ou entretenimento. Ele tornou-se um território central da competição geopolítica global, onde Estados, corporações, organizações internacionais e actores privados disputam influência, legitimidade e poder simbólico. No fim de contas, o verdadeiro significado político do Mundial talvez resida precisamente nessa transformação: o futebol converteu-se num espelho da ordem internacional contemporânea — com todas as suas contradições, conflitos e batalhas pelo controlo do imaginário global.” Seja como for, assim que se iniciou a competição, as críticas foram esquecidas e as atenções voltaram-se para os jogos e as seleções. Como diz a velha máxima americana: The $how must go on.

Em jeito de súmula: as estratégias de normalização do poder

A noção de realidade invertida, que pedi emprestada a Rima Najjar, descreve um fenómeno ilustrado pelos recentes ‘acordos de paz’ promovidos pelos Estados Unidos no Médio Oriente, em que os efeitos são apresentados como causas, os responsáveis surgem como salvadores e os beneficiários da destruição reaparecem como agentes da reconstrução. Nesta lógica, a guerra deixa de ser vista como um fracasso da ordem internacional para ser reinterpretada como uma etapa necessária de um processo cujo desfecho será a paz. A destruição de infraestruturas, a chacina e deslocação de populações ou a devastação económica dos territórios afectados são progressivamente retiradas do centro da narrativa pública. O foco desloca-se para os acordos diplomáticos, para os líderes que os patrocinam e para as oportunidades económicas que emergem da reconstrução. Passa assim para segundo plano a discussão sobre as decisões políticas e militares que contribuíram para a escalada dos conflitos, bem como o papel desempenhado pelos Estados Unidos e pelos seus aliados ocidentais no apoio material, diplomático e estratégico a Israel. A realidade invertida torna-se particularmente evidente quando empresas que lucraram directa ou indirectamente com a economia de guerra surgem posteriormente como parceiras privilegiadas dos programas de reconstrução. O sofrimento colectivo transforma-se numa oportunidade de investimento. As cidades destruídas convertem-se em mercados. Os territórios devastados passam a ser apresentados como espaços de desenvolvimento e modernização. O resultado é uma paz apresentada como um bem em si mesmo, desligada das condições em que foi alcançada e das relações de poder que a moldaram. As populações directamente afectadas pelos conflitos são invisibilizadas, raramente participam na definição dos seus termos e vêem os seus interesses subordinados aos objectivos estratégicos das grandes potências.


Esta lógica não se limita à geopolítica. Também se manifesta na esfera do entretenimento global. O Campeonato do Mundo de Futebol surge como um exemplo da capacidade das grandes instituições e estruturas de poder para normalizarem contextos politicamente controversos. Apesar das críticas dirigidas à administração Trump, das acusações de desrespeito por normas internacionais e das crescentes denúncias sobre a mercantilização extrema do futebol por parte da FIFA, o evento continua a ser apresentado sobretudo como uma celebração universal do desporto. Tal como acontece com os acordos de paz, a dimensão festiva tende a obscurecer debates mais incómodos sobre poder, responsabilidade e interesses económicos. Os adeptos são incentivados a participar no espectáculo, mesmo quando os custos financeiros se tornam proibitivos e quando persistem questões éticas relevantes sobre as instituições que o promovem.

Ao invocar a noção de realidade invertida não pretendi negar os benefícios da paz ou do desporto. O meu intuito foi antes o de revelar como determinadas estruturas de poder conseguem redefinir a narrativa pública de modo a que os responsáveis pela criação de conflitos ou de situações de injustiça apareçam simultaneamente como os seus solucionadores, enquanto ocultam os verdadeiros beneficiários e os custos humanos e sociais permanecem em grande parte invisíveis. Trata-se no fundo de denunciar a normalização do poder, ou seja, a capacidade das elites políticas, económicas e institucionais para converter situações potencialmente geradoras de escrutínio e de condenação internacional em narrativas de sucesso, paz, reconstrução, crescimento ou celebração.

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