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| Evan Vucci (c) The Associated Press |
Neste post recorro
aos recentes ‘acordos de paz’ para o Médio Oriente mediados pelos EUA (Gaza em
2025 e Irão em 2026) como exemplos de realidade
invertida, ou seja, para tentar demonstrar como as narrativas dominantes
sobre os respectivos conflitos invertem as responsabilidades na sua génese e
prossecução, dissimulando um teatro geopolítico ditado pelos poderosos, que
violam o direito internacional e para quem a última preocupação são os interesses e
bem-estar das populações afectadas. A estes exemplos adiciono o Mundial de
Futebol na medida em que a promoção de um evento desportivo alegadamente acima
da política e que pretende celebrar a união dos povos é, na verdade, um enorme
embuste que mascara, não apenas a mercantilização e os interesses económicos, mas também os jogos
políticos, que lhe estão associados.
De facto e como já tinha desenvolvido anteriormente noutros
escritos sobre os conflitos no Médio Oriente (p.ex. aqui
ou aqui),
temos assistido a uma clara e sistemática manipulação da perceção pública
mundial por parte dos media
ocidentais dominantes no sentido da desresponsabilização dos agressores, em
particular o governo israelita e os próprios EUA, e de ocultar o conluio,
declarado ou dissimulado, de muitos outros países ocidentais na sua
concretização. Portanto, não se trata meramente de usar a mentira para
manipular e fabricar o consentimento, como defendi nos meus posts anteriores, mas de criar
narrativas completamente invertidas. A flagrante impunidade com que Israel tem
imposto a sua agenda agressiva de expansão territorial e de chacina étnica é
uma amarga demonstração não só da impotência e do falhanço das instituições e
do direito internacionais, mas também dos efeitos da cobertura mediática enviesada,
aliada a uma apatia da opinião pública mundial. A distorção da realidade
alastra-se ao campo económico na medida em que os discursos políticos e
mediáticos tendem a encobrir ou a escamotear os interesses financeiros por
detrás dos conflitos – ver p.ex. aqui.

Já no caso do Mundial de Futebol, é penoso assistir a uma
cobertura e adesão (quase) acríticas, quer por parte dos media, quer por parte dos ‘fãs’, que acaba por legitimar
simbolicamente a administração Trump e a direção da FIFA, tendo ambas revelado
uma flagrante falta de ética e de respeito pelas regras internacionais, além de
explorarem financeiramente de forma revoltante os adeptos do desporto, sem que
haja um boicote claro ao evento – ver p.ex. aqui,
aqui
ou aqui.
Se o campeonato anterior no Qatar já era apelidado de Mundial da Vergonha (ver aqui),
este não lhe fica atrás.
Realidade invertida e o “plano de paz” para Gaza
A noção de realidade invertida foi invocada pela autora e activista
palestiniana Rima Najjar num seu ensaio de 2025 sobre o ‘plano de paz’ para Gaza promovido por Donald Trump,
intitulado “Inverting Reality: The Optics of Trump’s “Peace” Plan”. Nesse
ensaio, Najjar recorre ao conceito de realidade invertida para descrever uma
estratégia deliberada de manipulação narrativa e visual. Segundo ela, esta
estratégia visa distorcer a perceção pública do conflito, apresentando os
colonizadores como pacificadores e a resistência palestiniana como terrorismo,
enquanto suprime o sofrimento e a agência do povo palestiniano. A autora
enfatiza assim o processo sistemático através do qual a ocupação militar e a
violência estrutural são reencenadas mediaticamente como actos de governação
legítima ou esforços de paz. Najjar argumenta que as ópticas (a forma como os
eventos são mostrados ou ocultados) não são incidentais, mas estratégicas,
desenhadas para moldar a legitimidade moral e obscurecer os mecanismos de
poder, apoiando-se no uso de terminologia falaciosa. O ensaio foca-se
especificamente nas estratégias performáticas e retóricas em torno da troca de
prisioneiros de Outubro de 2025, no discurso de Donald Trump no Knesset e na
cimeira de Sharm al-Shaikh. Para a autora, estes eventos foram coreografados
para transmitir uma falsa sensação de ‘resolução’, ocultando a realidade de que
servem para consolidar a impunidade e aprofundar o controlo sobre os
palestinianos. Najjar denuncia igualmente a encenação política e mediática com a
exaltação de figuras como Trump e Netanyahu nos palcos diplomáticos, criando um
espetáculo que legitima a ocupação sob o disfarce de diplomacia. A bajulação de
Trump por alguns dos líderes presentes na cimeira no Egipto roçou o grotesco
(ver p.ex. aqui).
No contexto específico do “Plano de Paz” de Trump, a realidade invertida
manifesta-se ao rotular uma imposição colonial como uma iniciativa de paz.
Najjar descreve o plano de 20 pontos não como uma novidade estratégica, mas
como uma “arquitetura de controlo reciclada”, embalada em jargão diplomático.
Para Najjar, desmantelar a realidade invertida exige reconhecer que a agressão
e a ocupação não são disputas entre duas partes iguais, mas um sistema de
dominação onde a terminologia e as ópticas são armas usadas para manter a
opressão invisível ou justificável aos olhos do mundo ocidental.

Vários outros comentadores e analistas se insurgiram, não só
contra o conteúdo do ‘plano de paz’, como criticaram a sua aprovação tácita pelo
Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) em Novembro de 2025 – ver p.ex. aqui,
aqui
e aqui.
A resolução do CSNU foi acolhida pela autoridade palestiniana, mas rejeitada
pelo Hamas. Outro aspecto que gerou profunda consternação em certos sectores foi
a constituição do chamado Conselho da Paz (Board
of Peace), proposto e presidido vitaliciamente por Trump, que constitui não
só uma afronta ao mandato da ONU, como uma normalização de uma agenda
plutocrática que olha para a destruição de Gaza e a limpeza étnica do povo
palestiniano como oportunidades de negócio, e onde se inclui o chamado “Gaza
Reconstitution, Economic Acceleration and Transformation (GREAT) Trust” – ver
p.ex. aqui,
aqui
e aqui.
Num artigo de opinião para o Arab Center Washington DC, o ex-diplomata e especialista
no Médio Oriente, Charles W. Dunne, afirma: “A actual composição do Conselho dificilmente inspira confiança na sua
capacidade ou vontade de ajudar Gaza a desenvolver uma “governação moderna e
eficiente que sirva o povo de Gaza”, como afirma o plano original, muito menos
a promover eleições ou a um autogoverno democrático (embora, de facto, o plano
nunca mencione democracia ou eleições). (...) A presença de Israel num Conselho ostensivamente destinado a
reconstruir e ajudar a governar Gaza — que o próprio Israel destruiu em grande
parte durante uma campanha militar que as Nações Unidas classificaram de
“genocídio” — só vem aprofundar o cepticismo generalizado.” Em relação às
aspirações do Conselho, Dunne escreve: “Para
além dos ambiciosos planos para a paz mundial — e para sabotar a ONU — podem
existir motivações mais egoístas em jogo, nomeadamente o lucro. Trump já não
fala em despovoar e reconstruir Gaza como a “Riviera do Médio Oriente” (o plano
dos 20 pontos exclui especificamente a transferência de população). Mas espera
claramente reconstruir Gaza nos moldes das “prósperas cidades modernas e
milagrosas do Médio Oriente”, como sugere o ponto 10 do plano de paz, o que
pode equivaler praticamente à mesma coisa. Um “plano director” para a
reconstrução de Gaza apresentado em Davos por Jared Kushner — uma visão de 30
mil milhões de dólares que inclui uma zona turística costeira com 180
arranha-céus, 100.000 unidades habitacionais em Rafah e um novo centro
industrial — está certamente em consonância com o conceito anterior de Trump.”
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| Patrick Chappatte |
Para cúmulo (ou ‘juntar o insulto à injúria’), Israel não
cumpriu os termos do plano de paz e tem continuado a chacina e destruição em Gaza,
além de impedir a acção das agências de ajuda humanitária, com o conluio dos
EUA e de grande parte da comunidade internacional, aliados a um desviar de
olhar dos media – ver p.ex. aqui
ou aqui.
Acordo de paz EUA-Irão
A realidade invertida volta a manifestar-se no recente acordo
(memorando de entendimento) entre EUA e Irão, pelo apagamento sistemático de
Israel como actor central do conflito, apesar de ter sido o principal executor
da agressão e que teria muito a ganhar geopoliticamente com o seu eventual
sucesso (ver p.ex. aqui).
Note-se que Israel não é signatário do acordo, nem participou nas negociações
directas, apesar de ter participado nos ataques aéreos iniciados a 28 de
Fevereiro deste ano (e nos de Julho de 2025), que destruíram diversas
infrastruturas militares e civis iranianas, além de ter assassinado líderes políticos
e científicos. Ao excluir Israel do acordo, evita-se qualquer discussão sobre a
legalidade dos ataques conjuntos EUA/Israel, a responsabilidade pelas baixas
civis ou a destruição de infraestrutura civil. Israel mantém a sua narrativa de
“segurança existencial” sem ter de se sentar à mesa de negociações como parte
responsável pelo conflito. O acordo é apresentado como uma resolução bilateral
EUA-Irão, ocultando que a guerra foi, na prática, travada por procuração e
directamente por Israel.

O acordo foca-se nas restrições ao programa nuclear e ao
comportamento regional do Irão (Hezbollah, etc.), reforçando a narrativa de que
o Irão é o destabilizador, enquanto a acção militar dos EUA e Israel é
enquadrada como uma “resposta necessária” ou um “mal menor” para atingir a estabilidade
na região. A narrativa dominante enquadra os EUA como o mediador que “trouxe a
paz” e o Irão como a parte que cedeu (ao concordar com a diluição do urânio
enriquecido e a reabertura do Estreito de Ormuz). Inverte-se a realidade de que
foram os EUA e Israel que iniciaram a escalada militar após o alegado colapso
das negociações, bombardeando o Irão, com os objectivos declarados de
desmantelar o seu programa nuclear e provocar uma mudança de regime – agora,
mais do que nunca, ainda mais difíceis de atingir. Israel aproveitou entretanto
para abrir outra frente de agressão no sul do Líbano, à revelia dos EUA. O Irão
não tardou em exigir a vinculação de Israel ao novo acordo, que abrange o
Líbano nos termos do cessar-fogo (ver p.ex. aqui).
Não é de espantar que o acordo tenha sido tão mal acolhido quer por Israel,
quer pelas fações neo-conservadoras e belicistas norte-americanas. Todos estes
factores, bem como os ataques continuados de Israel no sul do Líbano, terão
levado ao cancelamento do encontro entre as delegações americana e iraniana
previsto para o dia 19 de Junho na Suíça, onde seria assinado formalmente (ver p.ex.
aqui).

O acordo ilustra igualmente a inversão da realidade ao
transformar as consequências de uma guerra ilegal e não provocada numa alegada
vitória diplomática. O que é vendido como uma conquista diplomática dos EUA (a
diluição do urânio dentro do Irão sob supervisão da AIEA) era, na verdade, uma
proposta que o Irão já tinha colocado sobre a mesa em 2025, antes do início dos
bombardeamentos, fazendo parecer que a guerra foi necessária para alcançar um
resultado que era viável diplomaticamente antes da violência. A paz é ainda
celebrada como o restabelecimento do statu
quo (reabertura do Estreito de Ormuz, fim das hostilidades), mas escamoteia-se
que foi a própria guerra que fechou o Estreito e destabilizou a região. A “paz”
surge, portanto, como a resolução de um problema criado pela própria agressão
militar, sendo apresentada como um acto de habilidade política e diplomática.
Na verdade, e como vários analistas e comentadores têm destacado, o acordo é
uma derrota política e diplomática para os EUA, na medida em o Irão sai
fortalecido com o levantamento das sanções económicas e das restrições ao
investimento – ver p.ex. aqui.
A terminologia de “memorando de entendimento” e “cessar-fogo” mascara a
realidade de uma rendição diplomática dos EUA e da sua subjugação aos ditames
de Israel, uma vez que não conseguiram impor as suas condições máximas através
da guerra, mas vendem o resultado como uma vitória estratégica.

Um aspecto que quero ainda destacar é o do oportunismo
económico associado a este conflito em particular. Os efeitos quase imediatos
nos preços de bens essenciais (combustíveis e alimentos) foram notórios logo desde
o início das hostilidades (ver p.ex. aqui
ou aqui)
e traduziram-se em lucros chorudos para muitas empresas – ver p.ex. aqui
ou aqui.
No entanto, a constatação de que o prolongar do conflito estava a produzir
fortes impactos na economia mundial e que estes se repercutiam negativamente
nos países ocidentais, mas até estavam a beneficiar o próprio Irão, fez
aumentar a pressão para suspender os ataques militares e para encontrar uma
saída airosa para os EUA – ver p.ex. aqui.
Faço notar que a Reuters divulgou que o novo acordo EUA/Irão prevê um fundo de
investimento privado de 300 mil milhões de dólares, segundo noticiou o Público
(aqui).
Nessa notícia pode ler-se: “O novo fundo
[que deverá chamar-se Fundo de Reconstrução e Desenvolvimento] é um mecanismo de investimento privado — não
um programa de reconstrução ou de indemnizações — e não incluirá quaisquer
verbas públicas ou subvenções, adiantou [fonte conhecedora do acordo à
Reuters], acrescentando que empresas
sediadas nos EUA, nos Estados árabes do Golfo, na Ásia, na América do Sul e em
África comprometeram-se a financiar o projecto. Os investimentos prometidos
abrangem os sectores da energia, logística, indústria transformadora e
transportes.” Torna-se uma vez mais evidente que os conflitos armados fazem
parte de um teatro político que se destina a dissimular os interesses
económicos que beneficiam com a sua perpetuação.

Mundial da Vergonha 2
O Mundial de Futebol, co-organizado este ano pelos Estados
Unidos, México e Canadá, consolidou-se como um caso paradigmático da interseção
entre geopolítica, soft power e a
mercantilização do desporto. Sob a sombra do segundo mandato de Donald Trump e
da liderança de Gianni Infantino na FIFA, o evento transcendeu a esfera desportiva
para se tornar um palco de disputas ideológicas e reafirmação da hegemonia
norte-americana – ver ensaio de Marco Alves, aqui.
Em contraste com edições anteriores, em que tentava manter uma neutralidade
diplomática, em 2026 a FIFA adoptou uma postura de aberto alinhamento com os
interesses dos EUA – ver ensaio de Camila Valente, aqui.
O momento simbólico mais marcante ocorreu durante o sorteio da fase final em
Washington, quando Infantino entregou a Trump o inédito ‘Prémio da Paz da FIFA’
(ver aqui).
Esta condecoração foi amplamente interpretada por críticos e organizações de
direitos civis como uma tentativa de legitimação política de um governo marcado
por políticas migratórias restritivas e isolacionismo diplomático -ver artigo de
Camila Valente citado acima. A criação do prémio quebrou o protocolo histórico
da FIFA de não misturar liderança política de países-sede com honrarias
oficiais durante o certame, sinalizando que a estabilidade dos contratos e o
acesso ao mercado consumidor americano prevalecem sobre a independência
institucional – ver artigo de Elvis da Silva, aqui.
Neste texto, o autor aponta que o ‘FIFA Gate’, despoletado em 2015 pelo
Departamento de Justiça dos EUA, funcionou como um mecanismo disciplinador que
desmantelou redes de poder antigas na FIFA e impôs uma governança alinhada com
os interesses norte-americanos. De facto, com a ascensão de Infantino, o
Mundial de 2026 recupera a centralidade dos EUA no futebol mundial, corrigindo
o deslocamento de poder para o Médio Oriente e a Eurásia ocorrido nas décadas
anteriores. A presença de Trump, que criou uma task force específica na Casa Branca para o evento, reforça a
narrativa de que o torneio é uma extensão da política externa americana,
utilizando o futebol como instrumento de projeção de poder – ver artigos de
Elvis da Silva e de Marco Alves citados acima.

Por outro lado, sob a égide da administração Trump e da
gestão da FIFA, este Mundial estabeleceu novos recordes de mercantilização. A
adoção dos chamados modelos de ‘preços dinâmicos’ inflacionou o custo dos
bilhetes, tornando o evento inacessível para grande parte das claques
tradicionais, especialmente as da América Latina e de comunidades locais nos
EUA. A crítica central reside na transformação do evento num produto de luxo,
onde a lógica de mercado se sobrepõe à função social do desporto. Relatos de
bilhetes com valores exorbitantes no mercado secundário, com taxas de comissão
de 15% para a FIFA, tanto na venda como na compra, evidenciam a promoção do
lucro em detrimento da inclusão. Essa abordagem gerou denúncias de que o
torneio se tornou um “circo dominado por Trump”, onde a celebração universal do
futebol é restringida por barreiras económicas elitistas – ver aqui
ou aqui.

Quanto às promessas feitas na candidatura conjunta de 2018
sobre inclusão e direitos humanos, a realidade de 2026 apresentou fortes
contradições – ver p.ex. aqui.
A manutenção e o endurecimento de políticas de controlo fronteiriço restritivas
pela administração Trump dificultaram ou impediram a entrada de adeptos de
diversas nacionalidades e até de jogadores e árbitros, ferindo o princípio de
universalidade do torneio – ver aqui.
Organizações de direitos civis exigiram uma postura mais firme da FIFA perante
as políticas da administração Trump, especialmente quanto à actuação de
agências de imigração como o ICE durante os jogos. No entanto, a entidade
manteve-se em silêncio, privilegiando a segurança dos contratos de patrocínio e
transmissão. A participação de seleções de países sob tensão diplomática com os
EUA, como o Irão, concomitante com acordos de cessar-fogo provisórios,
amplificou a dimensão política do evento, demonstrando que o desporto não se
conseguiu isolar dos conflitos internacionais, sendo absorvido por eles. Como
afirma Marco Alves no artigo já citado: o Mundial de 2026 demonstra que “o futebol contemporâneo já não pode ser compreendido apenas como desporto
ou entretenimento. Ele tornou-se um território central da competição
geopolítica global, onde Estados, corporações, organizações internacionais e actores
privados disputam influência, legitimidade e poder simbólico. No fim de contas,
o verdadeiro significado político do Mundial talvez resida precisamente nessa
transformação: o futebol converteu-se num espelho da ordem internacional
contemporânea — com todas as suas contradições, conflitos e batalhas pelo
controlo do imaginário global.” Seja como for, assim que se iniciou a
competição, as críticas foram esquecidas e as atenções voltaram-se para os
jogos e as seleções. Como diz a velha máxima americana: The $how must go on.
Em jeito de súmula: as estratégias de normalização do poder
A noção de realidade invertida, que pedi emprestada a Rima
Najjar, descreve um fenómeno ilustrado pelos recentes ‘acordos de paz’
promovidos pelos Estados Unidos no Médio Oriente, em que os efeitos são
apresentados como causas, os responsáveis surgem como salvadores e os
beneficiários da destruição reaparecem como agentes da reconstrução. Nesta
lógica, a guerra deixa de ser vista como um fracasso da ordem internacional
para ser reinterpretada como uma etapa necessária de um processo cujo desfecho
será a paz. A destruição de infraestruturas, a chacina e deslocação de
populações ou a devastação económica dos territórios afectados são
progressivamente retiradas do centro da narrativa pública. O foco desloca-se
para os acordos diplomáticos, para os líderes que os patrocinam e para as
oportunidades económicas que emergem da reconstrução. Passa assim para segundo
plano a discussão sobre as decisões políticas e militares que contribuíram para
a escalada dos conflitos, bem como o papel desempenhado pelos Estados Unidos e
pelos seus aliados ocidentais no apoio material, diplomático e estratégico a
Israel. A realidade invertida torna-se particularmente evidente quando empresas
que lucraram directa ou indirectamente com a economia de guerra surgem
posteriormente como parceiras privilegiadas dos programas de reconstrução. O
sofrimento colectivo transforma-se numa oportunidade de investimento. As
cidades destruídas convertem-se em mercados. Os territórios devastados passam a
ser apresentados como espaços de desenvolvimento e modernização. O resultado é
uma paz apresentada como um bem em si mesmo, desligada das condições em que foi
alcançada e das relações de poder que a moldaram. As populações directamente
afectadas pelos conflitos são invisibilizadas, raramente participam na
definição dos seus termos e vêem os seus interesses subordinados aos objectivos
estratégicos das grandes potências.

Esta lógica não se limita à geopolítica. Também se manifesta
na esfera do entretenimento global. O Campeonato do Mundo de Futebol surge como
um exemplo da capacidade das grandes instituições e estruturas de poder para
normalizarem contextos politicamente controversos. Apesar das críticas
dirigidas à administração Trump, das acusações de desrespeito por normas
internacionais e das crescentes denúncias sobre a mercantilização extrema do
futebol por parte da FIFA, o evento continua a ser apresentado sobretudo como
uma celebração universal do desporto. Tal como acontece com os acordos de paz,
a dimensão festiva tende a obscurecer debates mais incómodos sobre poder,
responsabilidade e interesses económicos. Os adeptos são incentivados a
participar no espectáculo, mesmo quando os custos financeiros se tornam
proibitivos e quando persistem questões éticas relevantes sobre as instituições
que o promovem.
Ao invocar a noção de realidade invertida não pretendi negar
os benefícios da paz ou do desporto. O meu intuito foi antes o de revelar como
determinadas estruturas de poder conseguem redefinir a narrativa pública de
modo a que os responsáveis pela criação de conflitos ou de situações de
injustiça apareçam simultaneamente como os seus solucionadores, enquanto
ocultam os verdadeiros beneficiários e os custos humanos e sociais permanecem em
grande parte invisíveis. Trata-se no fundo de denunciar a normalização do poder, ou seja, a capacidade das elites políticas,
económicas e institucionais para converter situações potencialmente geradoras
de escrutínio e de condenação internacional em narrativas de sucesso, paz, reconstrução, crescimento ou
celebração.