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| Paris, 2026 (c) Abdul Saboor/Reuters |
Desde meados de Setembro que os media nacionais e internacionais vão dando conta das diversas manifestações de protesto e movimentos de descontentamento social em diferentes países europeus – ver aqui, aqui, aqui ou aqui. Os principais focos foram em França, com as manifestações espontâneas de estudantes de liceus dos arredores de Paris contra as condições deploráveis das escolas públicas, em particular, as das zonas mais desfavorecidas (ver p.ex. aqui), e em Espanha, com uma nova acampada na Puerta del Sol em Madrid, para contestar os preços exorbitantes das casas e as políticas de habitação (ver p.ex. aqui). A dimensão das mobilizações nos dois países foi notável, com um crescendo de adesão por parte de outras regiões e de outros sectores da sociedade. Os protestos estenderam-se depois à Bélgica e, mais recentemente, a Itália, à Albânia e também a Portugal. Em França, Itália, Bélgica, Albânia e Portugal alguns protestos geraram conflitos com a polícia de intervenção, que exerceu, em vários casos, repressão e violência injustificadas, e houve centenas de detenções. Em França e Itália houve também tumultos e pilhagens, embora tenham ocorrido paralelamente ou após as manifestações em registo pacífico.
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| Madrid, 2026 (c) Sergio Pérez |
Apesar das origens do descontentamento, das formas de protesto e das reivindicações dos manifestantes serem diferentes, o que unifica os diferentes movimentos de contestação é, por um lado, o facto de envolverem em larga medida gente jovem e, por outro, reflectirem um profundo descontentamento social: não só devido ao aumento do “custo de vida” (segundo as narrativas mediáticas dominantes), à deterioração dos serviços públicos e à ausência de perspectivas de futuro, mas também, relacionado com a incapacidade dos governos de providenciarem condições sociais satisfatórias e de mitigarem as fortes disparidades económicas e injustiças sociais – ver aqui ou aqui. Menos falados e mediáticos foram os protestos de jovens na Alemanha contra a reintrodução do serviço militar obrigatório (ver aqui). Nas últimas semanas, a atenção mediática tem-se focado nos distúrbios e confrontos com a polícia em França e Itália, num aproveitamento sensacionalista das imagens de “caos” e “desordem”, que distorcem as mensagens de quem se manifesta – ver vídeos de sites noticiosos: aqui (Channel 4), aqui (Aljazeera), aqui (France 24), aqui (DW) ou aqui (BBC).
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| Paris, 2026 (c) Lou Benoist/AFP |
| Tirana, 2026 (c) Reuters |
Tenho ficado chocado com as reportagens (em particular, as dos media dominantes internacionais – links acima) sobre os protestos e confrontos em França (e Itália), apelidados genericamente de “agitação social” ou “caos”, e que se focam maioritariamente nos episódios de tensão, violência ou vandalismo (por parte de alegados “desordeiros”). Embora alguns até refiram que grande parte dos protestos foram pacíficos e que os distúrbios só surgiram após as manifestações ou foram limitados a zonas específicas, em geral, optam pelo sensacionalismo simplista e despolitizante. E reflectem muito pouco sobre o que se passa, para além da questão dos aproveitamentos políticos - incluindo da extrema-direita. De facto, quando se referem às causas ou reivindicações, fazem-no de forma lacónica, atribuindo o descontentamento à subida do “custo de vida” e dos preços dos combustíveis, derivados das guerras em curso, reproduzindo assim as estafadas narrativas oficiais que querem empurrar as culpas para o contexto económico e geopolítico externo. Como se as causas não fossem mais profundas e mais antigas, envolvendo as políticas públicas implementadas por sucessivos governos de centro-direita ou centro-esquerda (o ‘centrão’) naqueles países. As reportagens escamoteiam muitas vezes a dimensão desproporcionada dos contingentes policiais e o facto das suas investidas sobre os manifestantes serem frequentemente violentas, mostrando como o poder se esconde por detrás da repressão. Preferem também ignorar as condições de sufoco em que muitas pessoas vivem, como se não fossem essas mesmas condições uma forma de injustiça e violência social. Claro que terá havido exageros dispensáveis e reprováveis, como pilhagens ou destruição, mas afinal parece que os polícias só estão lá para carregar sobre os manifestantes e nem sequer são capazes de proteger edifícios públicos ou lojas. Para uma desconstrução da narrativa da violência dos protestos, recomendo este vídeo sobre a situação em França ou este artigo que denuncia a distração induzida pela cobertura mediática, atribuindo a agitação social à quebra do contrato social entre governantes e cidadãos.
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| Lisboa, 2026 (c) Francisco Romão Pereira |
Como venho pensando há algum tempo, parece passar ao lado de muitos analistas o facto do ‘centrão’ político nos diferentes países europeus ter andado, durante anos, a enganar os seus cidadãos com a historieta de que as benesses do crescimento económico e do progresso (neoliberal) iriam trazer prosperidade para todos e de que o elevador social iria funcionar – as pessoas só teriam de se esforçar e trabalhar arduamente (a narrativa da meritocracia). Só que as mentiras e as promessas não cumpridas pagam-se caro. O problema é que muitas daquelas promessas não eram sequer cumpríveis porque a ideologia económica que as sustenta é baseada em falsas premissas e em falácias – ver p.ex. alguns dos meus posts anteriores (aqui, aqui, aqui ou aqui). Para não falar do escamotear da catástrofe ambiental em curso – essa sim, uma tremenda ameaça existencial... (Mas isso é outra história)

Madrid, 2011
Em relação às acampadas (Espanha e Portugal), ligadas à “crise
da habitação” e, em geral, menos violentas, não pude evitar uma sensação de déja vu e de um regresso aos anos de
2011/2012, com os movimentos espontâneos que então surgiram, primeiro na Europa
(Indignados, Acampadas e Movimento 15M), também com epicentro em Madrid, e mais
tarde nos EUA (Occupy Wall Street), todos eles também resultantes de grande
insatisfação social e de revolta contra as disparidades económicas - ver aqui e aqui. Também em Lisboa surgiu uma acampada em Maio de 2011, que, embora tenha durado menos de duas semanas, acabou por ter algumas extensões em assembleias populares e movimentos políticos até meados de 2012 - ver p.ex. aqui e aqui. Atendendo a
que esses movimentos não conseguiram de facto induzir as transformações sociais
desejadas e a que as condições de vida para muitos jovens não só não melhoraram
como até se agravaram, não consigo evitar um certo cepticismo em relação aos
movimentos actuais – não só porque as políticas governativas não mudaram
significativamente, mas também porque as reivindicações e as dinâmicas dos
protestos de rua permanecem quase inalteradas. Com a agravante de me aperceber,
por um lado, do carácter espontâneo e auto-organizado como os protestos surgem,
e, por outro, do modo como são distorcidos e desvirtuados pelos media e pelo discurso dos governantes, e
como vão sendo manipulados ou cooptados pelas diferentes forças políticas e
partidos. Uma das narrativas que surge, quase pavlovianamente, por parte de
governantes e de partidos à direita é a de que os protestos são incitados por
forças da extrema-esquerda radical, que pretendem instalar o caos social. É
certo que os partidos de esquerda acabam por apoiar estes protestos (por vezes,
com algum aproveitamento político ou cooptando os próprios movimentos, como
aconteceu em 2011/2012), mas aquela narrativa serve essencialmente para tentar
descredibilizar os movimentos.

Occupy Wall Street, 2011 (c) Darin Oswald/AP
O problema da situação a que
chegámos é que deixámos a pressão social subir a níveis insuportáveis porque
nos têm vindo a prometer que a “normalidade” está sempre ao virar da esquina. Acresce
que nestes momentos de grande tensão, diferentes sectores da opinião pública ficam
muito crispados e zangados e há menos possibilidades de pensar ou agir com
clareza e sensatez. E claro que os populistas da direita se aproveitam,
acenando com os seus habituais bodes expiatórios... Acontece ainda que o
ressentimento social acumulado é demasiado grande para com aqueles que (mais à
direita ou mais à esquerda, mas quase sempre ao centro…) prometiam que tempos
melhores viriam se votassem neles. E assim andamos há décadas, a empurrar as
mudanças estruturais (radicais e profundas) de que precisamos para as calendas,
porque não há políticos (de ‘esquerda’) com coragem de as propor, já que iriam
implicar muita insatisfação e até revolta duma larga franja da população que
ficou conformada, acomodada ou mal habituada às pequenas mordomias do “progresso”.
As mudanças estruturais em que estou a pensar não são as infames medidas de
austeridade implementadas durante a década de 2010 e seguinte, mas trata-se
antes de políticas corajosas que reinventassem um pacto social verdadeiramente
transformador – ver p.ex. aqui
ou aqui.
Também tenho sentido falta de ouvir vozes que façam notar que muitas das reivindicações que se ouvem nas ruas são algo simplistas ou até ingénuas - melhores condições nas escolas, mais professores, mais acesso à universidade... Mas para estudar o quê e para quê? E que tipo de ensino é que se mantém na escola pública? Para aprender a ser um bom cidadão e ter um bom emprego? Ou então as reivindicações de melhores salários, da redução do preço das casas, do fim à especulação imobiliária… É que sem mexer no sistema socioeconómico e no sistema financeiro, não estou a ver como é que isso se consegue?!... Então porque não ser mais ousado e dizer que queremos outra escola, outra universidade, outra economia, outra sociedade? Em alguns dos países (Espanha, França) onde ocorrem os protestos aproximam-se eleições – mas alguém acredita que irão resolver alguma coisa ou levar à implementação de medidas de fundo radicais? Uma coisa é sabida: o descontentamento popular será usado como arma de arremesso – ora mais à direita, prometendo aumentar a repressão e a austeridade, ora mais à esquerda, prometendo reformas socialmente justas, mas sem reformar o sistema eleitoral, os partidos, a democracia ‘representativa’, os bancos, os mercados…
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| Gui Castro Felga (2011) |
Dito isto, não posso deixar de relembrar que as manifestações de rua e acampadas (as de 2011/2012, mas também as de agora) representam importantes ensaios de tomada de consciência colectiva, de um levantar do véu que ocultava a engrenagem por detrás da crise financeira de 2008 e revelava os mitos do neoliberalismo e do “desenvolvimento” económico. Constituem também experimentações de outras formas de criar corpo colectivo e de outras formas de estar-pensar-fazer juntos. Após 2012, aquela janela que se (entre)abriu voltou a fechar-se – com alguns momentos esperançosos pelo meio, como os movimentos climáticos de 2019 e os questionamentos sobre o que era afinal a “normalidade” durante a pandemia. Entreabre-se novamente uma janela agora, pois as manifestações de descontentamento nas ruas são contagiantes e têm inspirado solidariedade de largos sectores da sociedade. No entanto, não me parece nada evidente qual será o desfecho da libertação de toda essa energia reivindicativa. Como veremos na 2ª parte, há os que vêem os protestos como caminhos para uma transformação colectiva, os que lhe atribuem um carácter emancipatório e ainda os que temem que intensifiquem a atomização e balcanização crescentes ou que estimulem as forças autoritárias e reacionárias da chamada extrema-direita.
(continua)







































