sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Escutar como uma árvore

There are places where the boundary between matter and spirit blurs. Not dissolves, not vanishes, but blurs in a way that invites a new form of clarity, one that doesn’t depend on sharp lines or final answers, but on presence. I know these places. Plants have shown me.” (Há lugares onde a fronteira entre a matéria e o espírito se torna ténue. Não se dissolve, não desaparece, mas torna-se ténue de tal maneira que convida a uma nova forma de clareza, uma clareza que não depende de linhas nítidas ou de respostas definitivas, mas de presença. Eu conheço estes lugares. As plantas mostraram-me.) Monica Gagliano

É raro termos a oportunidade de assistir em exibição comercial a um filme de ficção cuja narrativa nos convide a testemunhar e a reflectir sobre os entrelaçamentos complexos entre humanos e plantas. Aconteceu-me recentemente com o filme “A Amiga Silenciosa” (Stille Freundin, no original) da realizadora húngara Ildikó Enyedi. Trata-se de uma obra de uma sensibilidade estética e poética pouco usuais, que entrecruza três histórias passadas no mesmo local, mas separadas temporalmente. O filme invoca e explora de forma ora mais contemplativa, ora mais concreta, os possíveis paralelismos ou conexões entre a sensibilidade, a cognição e a consciência em plantas e humanos – temas que aflorei num post anterior. As personagens humanas de cada história são seres solitários ou "fora da caixa", com algumas dificuldades (ou antes, desajeitamentos) nas relações com os seus semelhantes, mas que, levados pela sua curiosidade e sensibilidade incomuns, se deixam tocar e envolver pelo mundo das plantas, cada um/uma à sua maneira. Mas a personagem comum às três histórias é, na verdade, uma árvore centenária da espécie Ginkgo biloba, realmente existente no Jardim Botânico do campus da Universidade de Marburgo, na Alemanha, que serve de cenário à narrativa. Vamos assistindo a diversos entrelaçamentos entre as personagens humanas e a árvore (ou outras plantas), que vão sendo revelados ao longo do filme. Em particular, o neurocientista de Hong Kong da história contemporânea (Tony) partilha com aquela árvore um deslocamento geográfico e cultural, exacerbado pela escolha do início da pandemia de 2020 como contexto narrativo.

Tony Leung e Ildikó Enyedi

Convém notar que aquela espécie terá sido trazida da China para a Europa ainda no século XVIII como curiosidade botânica, permanecendo, nos jardins em que foi plantada, desligada do seu contexto original e sem possibilidade de interagir com outros membros da sua espécie. Acontece que uma particularidade das Ginkgo é serem plantas dioicas, ou seja, com indivíduos femininos e masculinos separados (ver p.ex.
aqui). A Ginkgo centenária do filme é um indivíduo feminino e uma cena memorável mostra o neurocientista Tony, auxiliado pelo segurança do campus, a polinizarem manualmente a árvore - um evento inédito na sua vida, dada a inexistência de indivíduos masculinos na proximidade, e que gera uma explosão fisiológica e sensorial na árvore. Uma outra singularidade das Ginkgo é possuírem gâmetas masculinos móveis (ausentes em todas angiospérmicas e na maioria das gimnospérmicas), característica que partilham com outras plantas ‘primitivas’ como as cicas, os fetos e os musgos – facto que é ilustrado no filme e foi objecto de um maravilhoso documentário realizado no Japão sobre a evolução do sistema reprodutivo das Ginkgo: “The sea in the seed” (2000). A espécie é também considerada excepcional por representar a única sobrevivente de uma linhagem primitiva da evolução das gimnospérmicas (grupo de plantas sem flores ou frutos verdadeiros que inclui as coníferas), mas possuindo folhas de página larga (com a forma reconhecível de leque) e sementes envolvidas por tecido carnudo que fazem lembrar frutos (ver p.ex. a página da Wikipedia sobre a espécie, citada acima).


Regressando ao filme de Enyedi, um outro tema explorado pela realizadora é o da procura de uma forma de comunicação não-verbal, sensitiva e sensual, entre humanos e plantas, ora através da fotografia (protagonizada por Grete no segmento que se desenrola em 1908, ano em que foram admitidas pela primeira vez estudantes femininas nas universidades prussianas), ora por meio de sensores de estímulos eléctricos (usados pelos protagonistas dos segmentos que decorrem nos anos 1970 e 2020). Essa indagação parece surgir nas personagens do filme como uma forma de compensar ou superar o desajustamento que cada uma experiencia na comunicação ou no relacionamento com outros indivíduos da sua espécie. No caso dos segmentos passados nos anos 70, as experiências iniciadas pela personagem de Gundula e que são continuadas por Hannes reproduzem as famosas experiências realizadas com um polígrafo por Cleve Backster nos anos 60 e 70 para demonstrar a sensibilidade e a capacidade de comunicação das plantas (ver p.ex. aqui). Essas e outras experiências com o mesmo propósito são descritas no igualmente famoso livro de Peter Tompkins e Christopher Bird “The Secret Life of Plants” (1973), que vemos Gundula a ler numa cena. O livro tornou-se, na altura, um bestseller, mas foi fortemente criticado e desacreditado pelos botânicos de então (mas ver aqui). Embora muitas das alegações de Tompkins e Bird se tenham revelado infundadas, o livro faz uma crítica acertada às práticas destrutivas do modelo agrícola industrial. Mais ainda, nas primeiras décadas do presente século, a investigação sobre comportamento vegetal fez nascer um nova disciplina, a neurobiologia vegetal, que tem mostrado as extraordinárias capacidades cognitivas e comunicativas das plantas – ver p.ex. aqui ou aqui.

O filme invoca ainda diferentes questões igualmente relevantes (algumas das quais abordei no meu post de 2025), que entrecruza de forma inteligente e sensível: As plantas dispõem de sensibilidade, de inteligência ou de consciência? Será possível estabelecer comunicação entre humanos e plantas? A cognição descentralizada das plantas terá paralelo nos padrões cerebrais difusos e não-associados à linguagem que se observam em bebés mas que desaparecem nos adultos? Será possível conciliar a temporalidade de uma árvore com a dos humanos? Qual o papel da ciência e do conhecimento não-científico no nosso conhecimento sobre o mundo? O mundo académico é movido por preconceitos ou pelo desejo do conhecimento? São perguntas às quais o filme não dá respostas cabais, deixando-as antes como estímulos à curiosidade e sensibilidade do espectador. Subjacente a todo o filme está um olhar crítico sobre o zoocentrismo e o antropocentrismo, ainda reinantes quer no mundo académico, quer na sociedade em geral, e que reforçam a separação entre (muitos) humanos e o mundo natural – ver p.ex. meus posts anteriores (aqui e aqui). A realizadora fez aliás questão de incluir nos créditos finais uma listagem das espécies vegetais que surgem no filme e que excedem claramente o elenco humano.


Para quem quiser saciar a sua curiosidade sobre uma das linhas de investigação mais interessantes e desafiantes no domínio da sensibilidade, comunicação e inteligência das plantas, sugiro procurar o trabalho da investigadora Monica Gagliano, que terá servido de inspiração à personagem da Drª. Alice Sauvage (um piscar de olho da realizadora) no filme. Recomendo em particular, o seu livro de 2018 “Thus Spoke the Plant” ou um seu ensaio recente que resultou da palestra que deu em Maio de 2025 no simpósio “Thinking with Plants and Fungi” na Universidade de Harvard (do qual retirei a citação que abre este post). As suas abordagens pouco ortodoxas têm-lhe trazido o desdém de muitos biólogos vegetais mais convencionais – ver p.ex. aqui. Como Gagliano costuma dizer, podemos não saber se as plantas falam, mas há quem as saiba escutar. Para quem estiver disponível para escutar/sentir, deixando-se levar pelo ritmo e pelo registo contemplativo do filme de Enyedi, será certamente uma experiência arrebatadora e comovente.

Para fechar, transcrevo a tradução para português (de Paulo Quintela) do poema de Goethe sobre a Ginkgo, citado no filme (daqui):

Ginkgo biloba (Johann Wolfgang von Goethe, 1815)

A folha desta árvore que de Leste

Ao meu jardim se veio afeiçoar,

Dá-nos um gosto de um sentido oculto

Capaz de um sábio edificar.

 

Será um ser vivo apenas

Em si mesmo em dois partido?

Serão dois que se elegeram

E nós julgamos num unidos?

 

P’ra responder às perguntas

Tenho o sentido real:

Não vês por meus cantos como

Sou uno e duplo, afinal?

(é possível aceder à versão original e à tradução inglesa aqui)


Deixo ainda links para uma página com vários recursos sobre Ginkgo (aqui) e para artigos que apresentam diversas perspectivas sobre o filme:

Jorge Pereira Rosa: https://c7nema.net/critica/item/140012-silent-friend-podem-as-plantas-sentir.html

Hoai-Tran Bui : https://www.inverse.com/entertainment/silent-friend-reel-science-plant-intelligence

Ryan Bedsaul: https://lareviewofbooks.org/article/silent-friend-ildiko-enyedi-tony-leung-plants-technology/

Dan Schindel: https://reverseshot.org/reviews/entry/3456/silent_friend

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A Mata da Margaraça ainda resiste em 2026 – mas até quando?

Mata da Margaraça (2016)
A minha passagem pela Serra do Açor na primeira quinzena de Agosto incitou-me a escrever estas linhas, como complemento ao post anterior. Estive nas encostas viradas a norte, perto das localidades de Cerdeira e Monte Frio (concelho de Arganil), onde pude testemunhar os efeitos devastadores do mega-incêndio do Piódão de Agosto de 2025 – o maior de sempre em Portugal, em termos de área ardida (cerca de 65 mil hectares, ver p.ex. aqui ou aqui), tendo-se estendido quer para sudeste (Serras da Estrela e Gardunha), quer para oeste (ver p.ex. aqui). A viagem de carro a partir de Coja (estrada N344) fez-me lembrar o que vi em 2018 quando percorri uma outra estrada que liga Coja à Benfeita, um ano após o mega-incêndio de Oliveira do Hospital: uma paisagem desoladora de encostas quase desprovidas de vegetação e semeadas de troncos ardidos (ver o meu post de 2022). A diferença é que, enquanto ao longo da estrada da Benfeita (em 2018) se viam os restos carbonizados de centenas de pinheiros, este ano, ao longo da N344, viam-se predominantemente troncos de eucaliptos queimados, com novos rebentos de cor verde clara a crescer na base. De facto, ao contrário dos pinheiros que morrem após o incêndio (podendo haver regeneração por semente, mas que demora alguns anos), os eucaliptos regeneram a partir da base (rebentação de toiça) logo no ano seguinte (ver p.ex. aqui).

Encosta ardida em 2025, vista da N344 (2026)

Isto leva a que, se não houver gestão pós-fogo, os eucaliptos, assim como arbustos de desenvolvimento rápido (p.ex. giestas), voltem a crescer descontroladamente e a servir de combustível ao próximo incêndio. Não vou aqui desenvolver a polémica em volta do comportamento e do impacto das espécies pirófilas (eucalipto e pinheiro), mas remeto para o meu post de 2022 (já citado) e para uma série de artigos publicados este ano pelo semanário regional O Mirante - Projecto Eucalipto, “projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza” (apoiado pelo Journalismfund Europe e realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress) – ver aqui. Os artigos dão voz a uma pluralidade de opiniões, das quais destaco as entrevistas a Jael Palhas, investigador da Univ. Coimbra (aqui), João Joanaz de Melo, professor da NOVA e investigador do CENSE (aqui) e Miguel Jerónimo, arquitecto paisagista e técnico do GEOTA (aqui).

Vista para a Margaraça, desde a N344 (2020 vs. 2026)

Mas o meu interesse mais premente era o de perceber em que estado tinha ficado a Mata da Margaraça – bosque relíquia das florestas caducifólias mistas (laurissilva) que cobriam as encostas das serras beirãs, com uma área de 66 hectares (ver aqui). No topo da N344, por cima da aldeia de Relva Velha, pude então avistar o que sobra da Margaraça: uma mancha de verde que contrastava com o tom acastanhado do entorno, mas mais reduzida do que em 2018, principalmente nas zonas mais altas, atingidas pelo fogo. De facto, vim a saber que, apenas oito anos depois do anterior (vide meu post de 2022), a Mata sobreviveu a novo mega-incêndio, mas com mazelas – ver aqui e aqui -, embora não tenha conseguido encontrar informação sobre a percentagem de área ardida dentro da Mata. Acontece que desta vez (ao contrário de 2018) não consegui ir ver mais de perto o que sobra da Margaraça porque a estrada que a liga a Pardieiros e a Monte Frio está intransitável, devido a aluimentos resultantes das tempestades de Fevereiro (e potenciados pelo incêndio de 2025) – ver aqui

Monte Frio (2026)

Portanto, o ex-líbris da Área de Paisagem Protegida da Serra do Açor está quase inacessível (é possível aceder a pé) e as obras de reparação prometidas continuam por fazer, aparentemente devido a impasse entre o ICNF e o Município de Arganil – ver aqui. De realçar que, segundo dados do Ministério do Ambiente e da Energia, 94% (350 ha) da área da Paisagem Protegida da Serra do Açor terão ardido em 2025, tendo a Margaraça sido “um verdadeiro oásis no meio do grande incêndio” - ver aqui. Mas a este ritmo, por quanto mais tempo resistirá o “oásis”? A questão é que a Mata só persiste porque reúne características únicas que lhe conferem uma capacidade de resistência e de regeneração notáveis: a combinação de um coberto vegetal denso, rico em folhosas (mistura de carvalhos, castanheiros, aveleiras, azereiros, loureiros, etc.), que impede a entrada de ventos fortes no interior do bosque, mantendo o ambiente interno fresco e protegido, aliado a um microclima local e a uma orientação do vale que conservam muita água no solo e no ar, agindo como um travão natural contra o fogo – ver aqui ou aqui. Mas esta resiliência tem limites e com a frequência dos incêndios na região e a inexistência de campanhas sustentadas de regeneração florestal, pode não sobreviver a novo mega-incêndio.

Imagem respigada daqui

Em 2020, foi lançado um projecto de reflorestação (Projeto Floresta da Serra do Açor), financiado pelo Grupo Jerónimo Martins em parceria com o Município de Arganil, comunidades locais (baldios) e a Escola Superior Agrária de Coimbra, que pretende abranger uma área de 2500 hectares até 2060, contando com um investimento de 5 milhões de euros – ver aqui e aqui. Um dos primeiros objetivos seria plantar mais de 1,8 milhões de árvores de espécies como o pinheiro-bravo, o sobreiro, o castanheiro, o carvalho e o medronheiro até 2026. Entre 2020 e 2023, este projeto de reflorestação terá plantado 697 mil novas árvores (ver aqui). O projecto venceu o Prémio Nacional da Paisagem 2025 (atribuído pelo governo), mas o incêndio de Agosto de 2025 terá afectado cerca 100 hectares da área reflorestada (ver aqui). Paralelamente, o ICNF também iniciou em 2021 um Projecto de Recuperação da Área Ardida na Paisagem Protegida da Serra do Açor com a duração de 3 anos que incluía a limpeza de matos e de lenha ardida, e o controlo de espécies invasoras, para além da reflorestação, resultante de um investimento público de 560 mil euros – ver aqui e aqui.

Foto respigada daqui

A época de incêndios de 2025 em Portugal foi das mais devastadoras (com cerca de 270000 hectares ardidos), só superada pela de 2017 (537000 hectares) – ver aqui. Até ao dia 15 de outubro, o ano de 2025 apresentou o 4.º valor mais reduzido em número de incêndios (cerca de 8200) e o 2.º valor mais elevado de área ardida, desde 2015. O que quer dizer que houve mais mega-incêndios: de facto, registaram-se 96 incêndios com mais de 100 hectares, que resultaram em 258000 hectares de área ardida, cerca de 96% do total. Só o incêndio de Piódão/Arganil representou 24% da área total ardida (até 15 de Outubro) e, em conjunto com o de Trancoso (47000 ha), representaram 42% do total. Para comparação, a área total ardida este ano no país (até 15 de Agosto) foi de 56600 ha, ou seja, menos do que a área consumida só pelo incêndio do Piódão em 2025 (ver aqui). Mas há mais sinais preocupantes escondidos por detrás dos números. Em 2025, arderam 30000 ha da Rede Nacional de Áreas Protegidas (11% da área total ardida), com graves impactos ecológicos – ver aqui. Só o mega-incêndio de Piódão atingiu pelo menos três áreas de paisagem protegida: a da Serra do Açor (onde se inclui a Margaraça), a da Serra da Estrela e a da Serra da Gardunha. É caso para perguntar porque insistimos em apelidá-las de “áreas protegidas” se não conseguimos efectivamente protegê-las - nem dos incêndios, nem das espécies invasoras… 

Encosta sul da Serra do Açor, coberta de acácias (2026)

Em termos europeus, os dados divulgados pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), revelaram que em 2025 arderam mais de 1 milhão de hectares, a maior área ardida alguma vez registada pelo EFFIS na UE – ver aqui. De facto, representou o dobro da média na UE, tendo o pico principal ocorrido em Julho e Agosto, quando alguns dos maiores incêndios do ano foram mapeados em Espanha e Portugal. A situação agravou-se drasticamente durante o verão onde uma vaga de calor prolongada em Agosto deu origem a 22 grandes incêndios só em Portugal e em Espanha, queimando 460000 hectares – quase metade da área total ardida da UE. Os dados do EFFIS também revelam que em Portugal mais de 50000 ha arderam em zonas Natura 2000, o que representa mais de 2% da área total deste tipo de zonas. A notícia da RTP citada revela ainda que “a Comissão Europeia adoptou em 2026 uma nova estratégia para combater o aumento da ameaça de incêndios florestais que abrange todo o ciclo de risco de catástrofes – prevenção, preparação, resposta e recuperação – e estabelece ações concretas a nível nacional e da UE. A estratégia promove a existência de paisagens resistentes aos incêndios através da gestão sustentável dos solos e da restauração da natureza, reforça o alerta precoce e a monitorização através do EFFIS e do Copernicus e aumenta a capacidade da UE de combate a incêndios através de uma frota de aeronaves de combate a incêndios, do pré-posicionamento de bombeiros e de uma nova plataforma europeia de combate a incêndios com sede em Chipre”. Pelo descalabro dos incêndios que se está a registar este ano por toda a Europa, em que Portugal é a excepção (ver o meu post anterior), a nova estratégia europeia não parece estar a dar grandes resultados.

Serra do Açor (2026)

Para concluir num tom mais positivo, posso dizer que estive este ano em duas outras zonas do país com belíssimos exemplares de florestas relíquia, que têm sobrevivido aos incêndios e cuja visita recomendo: o Adernal do Bussaco (Mata Nacional do Bussaco),
 o maior conjunto de adernos de porte arbóreo do mundo, relíquia de um dos tipos de florestas mediterrâneas que cobriam parte do território (ver aqui, aqui ou aqui), e a Mata da Albergaria (Parque Nacional da Peneda-Gerês), uma relíquia das florestas mistas das zonas montanhosas do norte (ver aqui ou aqui). Estar demoradamente nestes lugares é uma experiência maravilhosa e marcante – devia ser local de peregrinação obrigatória de políticos e opinadores, e de muitos daqueles que não têm noção da riqueza que está ali (não mensurável em euros) e cuja perda é irreparável.

Adernal do Bussaco (2026)

Mata de Albergaria (2026)


quinta-feira, 30 de julho de 2026

A urgência de uma visão sistémica para enfrentar a Era do Fogo

(C) Maximilien Lamy/AFP
A “época de incêndios” tem estado ao rubro na Europa nestas últimas semanas, mas este ano (até agora…) não é Portugal que está na ribalta mas sim, principalmente, a Espanha e a França, com mega-incêndios a assolarem os dois países – ver p.ex. aqui ou aqui. As notícias e reportagens das cadeias internacionais focam-se essencialmente no dramatismo dos impactos humanos: pessoas afectadas directamente ou deslocadas, campos agrícolas e negócios destruídos, a proximidade de grandes cidades, os esforços heroicos dos bombeiros no combate às chamas. O adjectivo ‘unprecedented’ (sem precedentes) é usado ad nauseam para nomear aquelas calamidades, como foi também usado para caracterizar as recentes ondas calor naqueles países – para além de não corresponder à verdade, só vai alimentar os ‘negacionistas climáticos’, que vão alegar que se trata de exageros dos ‘ecologistas fanáticos’… - ver p.ex. este meu post de 2023. Admito que estas abordagens sejam lícitas e até expectáveis, mas, como escrevi anteriormente (post de 2022), naquelas reportagens lamenta-se muito menos os milhares de árvores e outras plantas ardidos, os solos destruídos e as paisagens devastadas. Há um vilão que surge reiteradamente em muitas narrativas noticiosas: a mudança climática (antropogénica) e as ondas de calor associadas - ver p.ex. aqui. É inegavelmente um factor potenciador, mas como escrevi no post de 2022 já citado, não é a causa profunda do descalabro que se repete ano após ano. A sua identificação requereria uma análise sistémica que os media (na sua maioria) não se dispõem, ou não se atrevem, a fazer (mas ver no final deste post). Como defendi, aquela causa prende-se com uma conjugação de factores: o desastre da gestão e ordenamento do território (com erros acumulados semelhantes nos diferentes países), poderosos interesses económicos instalados e o modelo económico dominante que privilegia o curto-prazismo do lucro fácil e a ganância sem freios. Estes dois últimos factores estão também na raíz da incapacidade ou da inércia política na mitigação da crise climática e da crise ambiental – ver p.ex. o meu post de 2023 citado acima. Mesmo um projecto jornalístico dedicado às questões ecológicas como o francês Reporterre, tem insistido agora muito mais nos impactos humanos directos e no papel da mudança climática (apoiando-se em dados históricos sobre a evolução dos incêndios), do que no ordenamento do território – ver p.ex. aqui. No entanto, em 2025, tinha entrevistado a filósofa francesa Joëlle Zask (aqui), que deu destaque ao papel central da gestão florestal desastrosa em França (e noutros países), para além do efeito intensificador da mudança climática. De notar que muitos media insistem em chamar ‘florestas’ às monoculturas de pinheiro (ou de outras árvores de produção), que surgem por exemplo nas imagens das reportagens do mega-incêndio na Gironda, uma designação enganosa e perniciosa que também é usada recorrentemente nas notícias dos OCS nacionais sobre os incêndios dos últimos anos.

Recomendo a leitura (ou releitura) dos meus posts de 2022 (já citado) e de 2023 (aqui) sobre o tema dos incêndios estivais - neste último desenvolvo o conceito de Piroceno (a Era do Fogo) proposto pelo historiador norte-americano Stephen J. Pyne. Joëlle Zask também usa a mesma designação (ver aqui) mas, enquanto Pyne se foca na evolução histórica e ecológica, Zask centra-se mais nas causas político-económicas (modelo económico capitalista e mercantilista, abandono do interior, mentalidade tecnocrática) e na filosofia cívica (passividade, alienação).


Sugiro também a leitura de um artigo de opinião de Nuno M. Santos (especialista em planeamento regenerativo) escrito a propósito das tempestades de Fevereiro, mas que versa também o flagelo estival dos incêndios, defendendo que ambos estão estreitamente ligados e que a sua mitigação requer uma mesma estratégia: uma gestão sensata dos ecossistemas agroflorestais e das paisagens rurais.


Sobre os recentes mega-incêndios em Espanha e França, recomendo dois vídeos curtos dos canais internacionais France24 (aqui) e DW (aqui), que destoam do registo mais comum (sensacionalista ou simplista), recorrendo a entrevistas com convidados que transmitem visões sistémicas sobre o tema: Alexander Held (Senior Expert of the Resilience Programme for Integrated Fire Management) e Stephen J. Pyne, respectivamente.


terça-feira, 28 de julho de 2026

A normalização perigosa e criminosa do jogo 'online'

“Por detrás das ofertas atraentes e das fachadas reluzentes, esconde-se uma realidade mais sombria e opaca. Uma realidade definida por operações ilegais, empresas offshore e uma crescente crise de saúde pública.” Investigate Europe

“A indústria do jogo existe como um icebergue no mercado global. Acima da linha de água, a indústria legal é altamente visível - regulada, tributada e fiscalizada. Mas está a flutuar num mar de criminalidade.” Ismail Vali (fundador da consultora Yield Sec)

“O jogo ilegal não é um fenómeno marginal, mas um negócio à escala industrial que está a prosperar sem ser detectado pelas autoridades reguladoras da União Europeia.” Sabine Verheyen (eurodeputada)

Suponho que não há quem não se tenha cruzado nas TVs ou na internet com publicidade a empresas de jogo e apostas online (online gambling). Desde a omnipresente Betano à Betclic, Placard ou Solverde, são várias as empresas que operam em Portugal – ver p.ex. aqui. Embora estejam legalizadas e disponibilizem informação sobre os perigos do jogo, a sua prevalência recente está rodeada de aspectos bem mais sombrios e sinistros, comuns a múltiplos países, denotando uma expansão mundial. Na verdade, a normalização dos sites de jogo online tornou-se um fenómeno global e foi especialmente notória durante o Mundial de Futebol – ver p.ex. aqui ou aqui. No entanto e como veremos, revelações de investigações jornalísticas, de estudos de consultoras e de relatórios de ONGs demonstram que há empresas a operar ilegalmente por via de um mercado negro paralelo e muitas outras impulsionam as suas campanhas de marketing de forma muito agressiva, intensificando a adição ao jogo, que se tornou um problema de saúde pública comparável ao tabaco ou ao álcool – ver p.ex. aqui.


O mercado global do jogo a dinheiro e apostas/lotarias (gambling) terá movimentado de 600 a 655 mil milhões de dólares em 2025 e a perspectiva é de que cresça até aos 730 mil milhões em 2030 (o que representa um aumento anual de cerca de 5%) – ver aqui e aqui. As receitas do jogo e apostas online (que engloba apostas desportivas digitais, casinos online, póquer e lotarias virtuais) representam uma fatia expressiva (16 a 20%) e em rápida expansão daquele mercado, e deverão totalizar entre 95 e 115 mil milhões de dólares em 2026 – ver aqui e aqui. Em regiões com regulamentação mais madura, como a Europa, essa penetração é muito maior, atingindo aproximadamente 39% do chamado “Gross Gaming Revenue” continental.
Os estabelecimentos físicos (lotarias e bingos tradicionais, casinos e casas de apostas) ainda representam mais de 80% do mercado global dos (também chamados) jogos de azar, mas esse valor tem diminuído de ano para ano. De facto, o jogo online cresce anualmente a uma taxa de cerca de 10% (o dobro do crescimento do mercado físico), impulsionado pela massificação dos smartphones e digitalização de pagamentos. Para comparação, vejam-se as receitas anuais estimadas de outras áreas da indústria global do entretenimento: cinema (bilheteira global: 36-50 mil milhões de dólares), música (vendas físicas, digitais e streaming: 28-30 mil milhões de dólares) e videojogos/gaming (consolas, PC e mobile gaming sem apostas: 190-350 mil milhões de dólares) – ver aqui e aqui. Embora o jogo físico em casinos e lotarias ainda retenha a maior fatia do dinheiro apostado no mundo, a vertente digital isolada já opera à escala financeira das maiores indústrias de entretenimento mundiais, superando o cinema e a música em capacidade de monetização directa.

Investigate Europe (IE) e as “apostas manhosas”

As diferentes facetas do fenómeno na Europa têm vindo a ser evidenciadas por uma investigação do consórcio jornalístico Investigate Europe (onde se inclui o jornal português Público), que começou a publicar as suas revelações em Março de 2025, sob o título genérico “Shady bets: how Europe’s gambling industry spun out of control”, com nove artigos/posts já publicados até Julho deste ano – ver aqui. Esta investigação foca-se em tentar desvendar: a real dimensão da indústria, a estrutura do 'ecossistema' de suporte (com ênfase na empresa ‘Soft2bet’ e no papel de Malta, Chipre e paraísos fiscais), a sua dependência de operadores ilegais que processam milhões de apostas, a infiltração no futebol europeu e as falhas de regulação por parte de governos ou da UE. Estranhamente (ou talvez não), a investigação do IE não tem tido grande exposição mediática (excepto através dos jornais que participam no consórcio – p.ex. o primeiro artigo do Público sobre o tema só saiu em Julho deste ano) e foi até alvo de tentativas de supressão por parte da Google – ver aqui.

(C) Georgina Choleva/Investigate Europe

As estimativas sugerem que as receitas brutas dos operadores de jogo online na UE aumentaram mais de 200% entre 2018 e 2023. De acordo com duas empresas agregadoras de dados, a H2 Gambling Capital e a Statista, estas receitas terão atingido entre 20 e 21 mil milhões de euros no final do período, sem contabilizar os mercados não regulados – ver aqui. No espaço europeu, estima-se que, em 2024, 71% das apostas online foram ilegais, com mais de 6000 fornecedores não licenciados a operar na região, segundo um relatório da Yield Sec (plataforma de análise de mercado) encomendado pela European Casino Association - ver aqui. De acordo com esse relatório, os operadores não licenciados terão gerado 80,6 mil milhões de euros em receitas brutas, em comparação com os 33,6 mil milhões de euros reportados pelos operadores licenciados. Os 6220 operadores ilegais activos identificados pela Yield Sec representam um aumento de 26% face a 2023. Já a H2 Gambling Capital calcula que a quota do mercado negro ronde os 20%. As metodologias variam, mas a escala é alarmante. Por seu lado, em Portugal e segundo dados do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, o volume total de apostas online terá sido de mais de 20 mil milhões de euros em 2024 (o que corresponde a cerca de 56 milhões por dia), sendo que 10% foram em apostas desportivas e tendo o Estado arrecadado mais de 300 milhões em impostos - ver aqui. Quanto à escala do mercado negro, sabe-se que foram encerrados mais de 2200 sites de apostas ilegais.

Segundo as revelações do IE, só a Soft2Bet, uma empresa de software para casinos e apostas online (sedeada em Chipre e Malta) que foi alvo de investigação mais aprofundada, terá movimentado cerca de 600 milhões de euros entre 2020 e 2024. Na verdade, a Soft2Bet opera através de casinos sem licença que utilizam táticas predatórias, empresas fictícias em Curaçau (Araxio Development e Rabidi, que entretanto abriram falência após a justiça alemã ter acionado cobrança de perdas avultadas em resultado de queixas de jogadores lesados) e empresas de pagamentos electrónicos em Chipre (Tranello e Tilarius) e no Reino Unido, qualquer delas sem ligações declaradas à Soft2Bet – ver os artigos assinados pelo jornalista Maxence Peigné aqui, aqui e aqui. No primeiro, foram incluídas ilustrações que mostram a rede complexa e opaca de empresas ligadas à Soft2Bet e ao seu fundador.

(C) Georgina Choleva/Investigate Europe

O empresário Uri Poliavich, de origem ucraniana e com cidadania israelita, fundou a Soft2bet em 2016 e dirige agora um império que gerou um lucro de 66,8 milhões de euros em 2023, só com a Soft2bet, tendo-lhe rendido 57,8 milhões de euros em dividendos. Documentos a que o IE teve acesso revelam que investiu parte da sua fortuna em imóveis em Chipre, Praga e Sófia, além de automóveis avaliados em mais de 1,3 milhões de euros. Com a expansão da sua riqueza, Poliavich passou a dedicar-se à filantropia e, em 2020, criou a Fundação Yael, uma organização que financia escolas religiosas judaicas em todo o mundo. Esta fundação está também presente em Portugal e terá comprado recentemente o edifício da antiga sede do grupo Impala (em Ranholas) por 8 milhões de euros, para ali instalar uma escola judaica, segundo artigo no Público (que faz igualmente parte da investigação do IE). Em Malta, a rede de Poliavich possui uma licença para operar através da Maltix Limited, controlada por entidades em Chipre, beneficiando de conluio governamental e de legislação favorável no primeiro país – ver aqui. Malta foi aliás identificada como o “maior incentivador” da indústria, tendo cimentado o seu papel como hub central para operadores que exploram falhas regulatórias. O IE e os seus parceiros revelaram ainda que os registos da Soft2Bet, os domínios de sites e os dados de marcas registadas mostram que Poliavich – eleito “líder do ano” numa conferência do sector em 2024 – se apoiou, em parte, em vários casinos e sites de apostas desportivas ilegais para construir o seu império (ver os artigos de Maxence Peigné já citados). Estas revelações são contestadas por Poliavich, tendo aliás a Soft2Bet recebido diversos prémios do sector, incluindo de boas práticas internas. Declarações de ex-empregados das empresas da teia da Soft2Bet, apontam para um panorama bem diferente: desde práticas internas pouco éticas, às táticas agressivas de cativação de apostadores – ver aqui.

(C) Georgina Choleva/Investigate Europe

Como mostra uma cronologia de 2016 a 2024 publicada pelo IE (aqui), o império global da Soft2Bet é baseado, por um lado, em actividades legais e visíveis, que lhe conferem credibilidade e onde se incluem 11 casinos online ou sites de apostas desportivas, e, por outro, num amplo ‘ecossistema’ de casinos online ilegais e empresas fictícias que operam sub-repticiamente, incluindo empresas de marketing (que angariam apostadores), assim como empresas de pagamento electrónico que facilitam as transações.

Um outro artigo recente no Público (já citado), resultante da mesma investigação do IE, revela exemplos de empresas portuguesas que fazem parte da rede ligada à Soft2Bet: a “Digital Island Ventures” (DIV), empresa de marketing digital sedeada na Zona Franca da Madeira, e a “Eupago Instituição de Pagamento”. O artigo revela como a DIV terá recebido 650 milhões de euros, actuando através do AffiliatesDiv, associado ao casino Pole Star (sem licença para operar em Portugal). Trata-se de um ‘programa de afiliados’, mecanismo comum na indústria do jogo online, em que, através de uma empresa de marketing, são recrutados jogadores para um casino, recebendo aquela empresa uma comissão por cada jogador que deposita dinheiro. O truque é que para os bancos, estas transacções parecem simplesmente pagamentos entre empresas de marketing, dificultando a sua detecção. O artigo revela ainda as ligações da DIV à família Poças, em particular ao seu director Gonçalo Nuno Poças, cujo currículo inclui a academia (ISCTE e Porto Business School) e variadas empresas, onde se inclui a consultora Click Profit, que assinou diversos contratos com a Santa Casa. Por seu lado, a Eupago facilitou pagamentos de apostadores nacionais e transferências para as empresas cipriotas associadas à Soft2Bet no valor de cerca de 2 milhões de euros.

(C) Georgina Choleva/Investigate Europe

A investigação do IE, em parceria com o jornal Irish Times, revelou ainda o papel instrumental da Irlanda nas operações da Soft2Bet, através dos mesmos dois mecanismos principais – ver aqui e aqui. Por um lado, as autoridades irlandesas concederam licenças de jogo remoto a seis empresas diretamente ligadas à Soft2Bet, apesar de a rede operar mais de 100 sites banidos por reguladores europeus. A obtenção de licenças irlandesas (através do Remote Betting Operator) permitiu que a Soft2Bet apresentasse uma fachada de legalidade, facilitando parcerias bancárias e de patrocínio desportivo. As licenças foram emitidas para entidades como Maltix Ltd, Zentoria Ltd, Naale Ltd, Sligo Ltd, Sky Rain Ltd e Salvia Ltd. Muitas destas empresas estavam registadas em endereços de serviços corporativos em Dublin. Por outro lado, empresas irlandesas foram utilizadas activamente para processar pagamentos provenientes de sites de jogo ilegais que operavam sem licença em toda a Europa. De facto, a Morada Horizon Services e a Zentoria Ltd, processadores de pagamento sediados na Irlanda, canalizaram milhões de euros de apostadores europeus para a rede da Soft2Bet. O site pornográfico de jogo OnlySpins, que não verifica a idade dos utilizadores e opera com uma licença questionável do Canadá (Tobique), utilizou aquelas entidades irlandesas para processar transações de clientes na Bélgica e noutros países da UE. As revelações provocaram alguma reação política na Irlanda, com críticas severas ao sistema de regulação financeira e de jogo do país. O deputado Cian O’Callaghan (Social Democrats) classificou a situação como mais um escândalo no sistema financeiro irlandês, afirmando que o país se tornou um “Far West financeiro” para criminosos e operadores corruptos – ver aqui.

Em outros artigos da mesma série investigativa do IE, são revelados mecanismos adicionais que impulsionam a indústria global do jogo online, nomeadamente, a sua promoção por dezenas de influenciadores nas redes sociais que lucram com as perdas dos jogadores (ver aqui), o recrutamento de jogadores para casinos ilegais por via de chatbots de IA (ver aqui) e as numerosas parcerias com clubes e federações nacionais e internacionais de futebol (ver aqui).


Ligações ao universo do futebol

Com a integração das apostas online na cultura desportiva, em particular no futebol, o jogo a dinheiro passou de uma actividade quase marginal para uma componente básica do patrocínio desportivo. Na Europa, a presença das plataformas de apostas alastrou-se a todos os países do continente, com a maioria das equipas masculinas da primeira divisão a fazerem agora parceria com empresas de apostas, como revelou o IE – ver aqui. Apesar das crescentes preocupações com o vício do jogo e dos esforços regulamentares cada vez maiores para limitar a publicidade, a análise dos jornalistas que colaboraram com o IE mostrou que os clubes e os organizadores de ligas nacionais de futebol continuam reféns do dinheiro da indústria. Dois terços das equipas (296 em 442) nas 31 principais competições da UE e do Reino Unido assinaram pelo menos um contrato de patrocínio com uma empresa de apostas para a época 2024/25. Em alguns países (Áustria, Chéquia, Holanda e Reino Unido), aquela fatia chegou aos 100%. Uma em cada três teve um patrocinador estampado na frente da camisola. Além disso, quase metade de todas as ligas depende de um patrocinador principal ligado ao jogo ou à lotaria. 

(C) Investigate Europe

A investigação revelou ainda que 105 empresas – que operam 140 marcas – têm contratos com clubes de futebol, muitas delas sediadas em Malta. Entre os patrocinadores do futebol, encontram-se gigantes do sector como a Kindred, Kaizen Gaming (casa-mãe da Betano) e Entain, bem como marcas conhecidas como a Unibet, Betano, Betway e Bwin. Outras são operadoras offshore em Curaçau e na Ilha de Man, ou em países asiáticos. De notar que todas estas empresas e marcas têm licenças para operar em muitos países e não foram acusadas de práticas ilegais. No entanto, têm sido alvo de escrutínio por parte de grupos de integridade desportiva, consórcios jornalísticos e organismos reguladores locais, com foco na ética da publicidade desportiva em grande escala e na conformidade com as leis nacionais – ver aqui, aqui e aqui. Por sua vez, algumas das empresas legais de jogo ou apostas associadas à Soft2Bet contaram com Diego Simeone, treinador do clube do futebol espanhol Atlético de Madrid, como embaixador (Betinia e CampoBet), enquanto outra (ToonieBet) tem uma parceria com a Liga de Futebol do Canadá. Já a Boomerang, casino online associado à Soft2Bet mas banido em França, Espanha, Itália e Grécia, foi patrocinadora do AC Milan em 2024 – ver aqui.


Em Portugal, quase dois terços dos clubes da Primeira Liga são patrocinados por casas de apostas online. Os principais operadores e as respetivas equipas incluem a Betano (patrocinadora do Sporting CP e FC Porto), a Placard (Benfica, Vitória SC e Boavista), a Solverde (Rio Ave e Estoril) e a Moosh (SC Braga) – ver aqui e aqui. As plataformas de apostas desportivas e casinos online dominam o mercado publicitário do futebol português, garantindo grande parte das receitas de patrocínio dos equipamentos dos jogadores e assumindo mesmo a designação do principal campeonato, a 'Liga Portugal Betclic' (desde 2023), ou o patrocínio da 'Supertaça Cândido de Oliveira' (Betano), através de parcerias com a FPF – ver aqui e aqui. Enquanto que outros países europeus (Bélgica, Espanha, Holanda, Itália, Lituânia e, mais recentemente, o Reino Unido) já proibiram ou limitaram a publicidade às empresas de apostas online (ver p.ex. aqui ou aqui), Portugal ainda não o fez, apesar de tentativas de regulação propostas pelo Livre no Parlamento (ver abaixo). A Betano tem aliás recebido sucessivos prémios de 'Escolha do Consumidor' ou 'Marca do Ano' – ver p.ex. aqui – e as suas campanhas de marketing (como as de outras congéneres) recorrem a figuras públicas (TV, desporto) e a influenciadores digitais – ver p.ex. aqui.




A nível mais global, há que destacar as parcerias da FIFA e da UEFA com a Betano/Kaizen. De facto, a FIFA inaugurou a sua associação à Betano no Mundial de 2022, parceria que foi retomada no Mundial deste ano – ver aqui. Já a UEFA, abriu as portas ao patrocínio da mesma empresa no Europeu de 2024 – ver aqui. Como disse anteriormente, esta empresa não é acusada de ilegalidades, mas a exposição massiva das multidões que acompanham aqueles eventos desportivos (onde se incluem crianças) à publicidade ao jogo e apostas online, normaliza estas actividades viciantes, abrindo a porta ao marketing agressivo e ao mercado negro, como alertam os dois artigos que acabei de citar e ainda aqui e aqui. Diversos alertas para os impactos negativos (pessoais e sociais) daquela exposição massiva têm surgido em diversos países, como o Brasil (ver aqui), a Austrália (ver aqui) ou os EUA (ver aqui).


Adição ao jogo e as fragilidades da regulação

A investigação do IE já citada realçou a faceta viciante do jogo online com a recolha de depoimentos de jogadores viciados e de associações de proteção do consumidor, descrevendo-o como problema de saúde pública e revelando os enormes desafios de regulação da indústria por parte das autoridades nacionais e europeias – ver aqui. Por seu lado, no Reino Unido, grupos de defesa do consumidor como o Gambling with Lives alertaram as comissões parlamentares para o facto de o marketing generalizado ter criado uma verdadeira onda de normalização, condicionando os jovens a verem o jogo como uma diversão segura e sem riscos, sem compreenderem os seus perigos – ver aqui. Um estudo por académicos da Universidade de Sheffield sobre o Mundial da FIFA de 2022 (ver aqui) revelou que os anúncios de jogo nas TVs influenciaram diretamente o comportamento dos espectadores, alertando para que as proteções actuais possam ser insuficientes para o Mundial de 2026, dado que as regras de publicidade televisiva ao jogo no Reino Unido permanecem inalteradas desde 2022. Por exemplo, durante o Mundial de 2022, os homens dos 18 aos 45 anos exibiram uma probabilidade 22 a 33% mais elevada de fazer uma aposta durante os jogos ao vivo transmitidos em canais que exibiam anúncios de jogo em comparação com aqueles que o não faziam.

(C) Georgina Choleva/Investigate Europe

Um importante relatório da comissão de saúde pública sobre jogo a dinheiro da revista The Lancet, publicado em 2024 (aqui), evidenciou: a expansão da indústria global através do jogo digital; o uso de táticas comerciais abrangentes, manipuladoras e agressivas; os danos graves para a saúde e o bem-estar (que se estendem para além do efeito directo nos jogadores a grupos mais alargados de pessoas na sua esfera); e a necessidade urgente de políticas e controlos regulamentares fortes e decisivos para prevenir ou mitigar aqueles danos, independentes da indústria ou de outras influências concorrentes e recorrendo a coordenação internacional. O relatório lança ainda o seguinte alerta, que passo a transcrever: “Para salvaguardar os seus interesses, as partes interessadas no ecossistema do jogo comercial implementam uma série de estratégias, muitas das quais semelhantes às utilizadas por outras indústrias que vendem produtos potencialmente viciantes ou prejudiciais para a saúde. Para moldar a percepção pública e política, e ao pressionar directamente os legisladores para promoverem os seus interesses comerciais, a indústria retrata o jogo como entretenimento inofensivo e enfatiza os benefícios económicos (incluindo a cobrança de impostos) e as oportunidades de emprego que o sector proporciona. A indústria do jogo destaca particularmente os benefícios sociais que advêm da utilização de parte dos lucros do jogo para financiar a educação, os serviços de saúde ou outras causas sociais relevantes. De acordo com as narrativas da indústria, a responsabilidade pelos danos causados pelo jogo é atribuída aos indivíduos, especialmente àqueles considerados como praticantes de jogos problemáticos, o que desvia a atenção da conduta corporativa. A indústria do jogo também exerce uma influência considerável sobre a investigação relacionada com o jogo e os seus danos, o que a ajuda a manter o controlo sobre a abordagem e as mensagens que rodeiam estas questões.

Parece pois evidente que o problema da adição ao jogo está associado à sua normalização mediática e social, devido em particular à expansão do marketing das grandes empresas e das parcerias com clubes e federações de futebol. Para além dos alertas e apelos descritos acima, tem havido tentativas de regular a indústria e de mitigar os problemas diagnosticados (incluindo os operadores ilegais) na Europa – ver p.ex. aqui e aqui. No entanto, como refere o primeiro artigo, a capacidade de implementar e fiscalizar a legislação não é ainda evidente. Na UE, não existe legislação comum sobre o jogo online e cada estado-membro pode regular como entender – tal como descrevi acima para o caso da publicidade e patrocínios às empresas do sector. Como afirmou Benedikt Quarch, cofundador da RightNow (escritório de advogados alemão que ajuda apostadores a recuperar dinheiro), que defende um mecanismo europeu de licenciamento: “O mercado ilegal de jogo online é um exemplo muito interessante e lamentável de como a aplicação da lei na Europa não funciona” (daqui). Para saber mais sobre os esforços regulatórios do jogo na UE ver p.ex. aqui ou aqui.


Em Portugal, a regulação é ainda algo insipiente e limitada, apesar de existir informação centralizada sobre os sites legais e sua homologação, para além de avisos sobre os perigos do jogo ilegal - ver aqui, aqui e aqui. Embora já tenham existido anteriormente iniciativas legislativas da esquerda (ver aqui), em 2025, foram apresentados na AR 12 projectos de lei pelo PS (1), BE (3), PAN (1) e Livre (7) no sentido de limitar o crescimento do jogo a dinheiro (online ou não), a adição ao jogo e a publicidade generalizada e agressiva – ver aqui e aqui. No caso do Livre, as suas propostas tinham vários objetivos, desde logo proibir a venda de bilhetes de lotarias e de lotaria instantânea ("raspadinhas") nos estabelecimentos de saúde, para além da proibição de figuras públicas ou influenciadores digitais poderem publicitar este tipo de jogos e ainda a obrigação de se incluírem advertências ao potencial de adição e à idade mínima para jogar, à semelhança do que acontece com os maços de tabaco ver aqui. No entanto, dos 12 projetos apresentados, só uma iniciativa do PS para aumentar proteção dos consumidores foi aprovada e outras quatro seguiram para discussão nas comissões parlamentares da especialidade sem terem sido votadas, como o aumento das restrições à publicidade de jogos e apostas – ver aqui. Em Abril deste ano, segundo esta notícia, a iniciativa, apresentada pela Comissão da Economia e Coesão Territorial a partir de um projeto do Livre, que tinha descido à especialidade sem votação, foi votada em plenário na generalidade e acabou chumbada com os votos contra de PSD e CDS-PP, abstenção do Chega e voto a favor de toda a esquerda e da IL. A proposta do Livre centrava-se na implementação de advertências sobre o potencial de adição em todos os jogos de azar, uma solução que acabou por nem sequer integrar o texto de substituição final redigido em comissão. O projecto, votado e chumbado, propunha que o mecanismo de autoexclusão (para evitar o sobre-endividamento de jogadores viciados) passasse a impedir o acesso do jogador a todas as entidades e sites autorizados a explorar jogos de azar em Portugal. Já no combate ao jogo ilegal, pretendia-se que a entidade reguladora passasse a estar obrigada a notificar plataformas digitais, aplicações e órgãos de comunicação social que promovem jogos e apostas não autorizados, para que essa publicidade fosse removida. Os meios de pagamento utilizados nas plataformas ilegais passariam também a poder ser notificados para bloquear operações associadas a essas atividades. Apesar do chumbo, o Livre afirmou que não irá desistir de banir a publicidade predatória ao jogo no espaço público – ver aqui. Em Junho, o PS apresentou na AR um novo projecto de lei que “reforça a proteção dos consumidores, a prevenção do jogo compulsivo e o combate ao jogo ilegal online, alterando o Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online” e que pretende garantir uma avaliação do impacto dos influenciadores digitais e de outras formas de promoção dos jogos e apostas online podem ter nos apostadores – ver aqui. Entre outras medidas, o projeto de lei prevê a criação de um “Plano de Ação para a Prevenção e Combate ao Jogo Ilegal Online”, de um “Portal da Transparência do Mercado do Jogo” e a obrigatoriedade do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos manter atualizada no seu site uma “lista atualizada das entidades comprovadamente identificadas como não legalmente habilitadas a explorar jogos e apostas online em Portugal.” Veremos qual será o desfecho.


Prognóstico e desiderato

A indústria do jogo a dinheiro (em particular, a sua componente digital) é mais um microcosmos (neste caso, bastante macro) da estrutura intrincada dos fluxos financeiros que alimentam os mercados globais e das diversas componentes (alegadamente legais ou mesmo ilegais) que a constituem. Pelo que se depreende do que escrevi acima e das fontes citadas (cuja leitura recomendo, em particular os posts do site do IE), a fachada de normalização e de credibilidade é indispensável para que estas teias globais se mantenham operacionais e providenciem os dividendos chorudos à minoria que lucra com os desvarios ou os vícios do comum dos mortais. O facto de aquelas operações estarem dependentes de actores- e empresas-chave muito diversos, mas cuja legalidade e comportamento ético são claramente duvidosos, não parece ser obstáculo à sua manutenção. Muito pelo contrário, operações desta envergadura só são possíveis porque os seus diferentes elementos cumprem os seus papeis na rede da qual fazem parte, sem questionar quais os seus impactos na sociedade. Lamentavelmente, em sociedades movidas pelo dinheiro e pela ganância, muitos daqueles que exercem o poder executivo ou judicial, ou exercem cargos na academia, e que podiam agir de modo a denunciar, interromper ou punir aquelas redes mafiosas – e que, em muitos casos, são eleitos ou nomeados para defender o bem comum e a causa pública – fazem também parte dessas mesmas redes, ou, pelo menos, compactuam com elas. Felizmente, ainda há alguns que não se rendem (ou vendem) e que lutam por desmontar o embuste – é o caso dos jornalistas de consórcios como o IE ou dos membros de diversas ONGs, órgãos regulatórios ou mesmo na academia. Ao cidadão comum cabe-lhe informar-se ou aliar-se com outros para tomar consciência, ajudar a denunciar e/ou participar, através de escolhas ou acções, individuais ou colectivas, que contribuam para mitigar não só o flagelo da adição ao jogo, mas também para denunciar e desfazer as redes mafiosas de colaboração e de tráfico de influências de que dependem estas indústrias – que em nada contribuem para criar os mundos desejáveis onde possamos viver bem em comum.