sábado, 28 de março de 2026

A maioria invisível e a miopia humana

Imagem respigada daqui
Somos sentimentais em relação à natureza visível mas totalmente egocêntricos sobre a sua componente invisível [microbiana] – satisfeitos com ela se nos é útil ou obcecados no seu extermínio se nos é desagradável ou prejudicial. Como biólogos, devemos reconhecer esse preconceito emocional e tentar controlá-lo. A honestidade connosco próprios ao encarar a vida tal como ela é – assim como na transmissão de um retrato fidedigno a alunos e ao público em geral – assim o exigem. Sean Nee

Há dez milhões de anos, não existiam humanos. Há cem milhões de anos, não existiam mamíferos. No entanto, os membros dos principais filos bacterianos e arqueanos prosperavam há milhares de milénios. Assim, imaginar que a razão de ser das bactérias patogénicas ou oportunistas é sobreviver ‘prejudicando’ o seu hospedeiro é, no mínimo, simplista. Rami Karan Aziz

Existe uma maioria invisível (vírus, bactérias e outros micróbios*), geralmente desprezada ou malvista, que vai fazendo e desfazendo o mundo desde que há vida no planeta (há cerca de 3,8-4 mil milhões de anos). A nossa soberba ao ignorá-la é não só intelectualmente desonesta, como um risco para a nossa própria sobrevivência (ver p.ex. aqui e aqui). Esse aparente desprezo pelo vasto e diverso mundo microbiano decorre de um duplo problema de percepção: por um lado, trata-se de formas de vida que são, na sua grande maioria, inacessíveis à visão humana (a não ser através de instrumentos, como os microscópios); e, por outro, somos condicionados por uma narrativa sociocultural dominante que é centrada no humano e nas formas de vida com as quais temos maiores afinidades – genealógicas e afectivas (ver p.ex. aqui ou aqui). Os micróbios fazem assim parte da chamada 'biodiversidade negligenciada'.

No entanto, é perfeitamente consensual que as principais formas de vida macroscópicas (animais e plantas) só terão surgido no planeta há menos de 1000 milhões de anos, o que significa que durante ¾ da história da vida só existiam seres microscópicos – na sua maioria, unicelulares: bactérias e, mais tarde, protozoários e micro-algas (para além dos vírus) –, que continuam a perseverar (ver aqui ou aqui). Como afirmou o paleontólogo Stephen J. Gould, “Esta é verdadeiramente a ‘era das bactérias’ – tal como foi nos primórdios, continua a ser e será sempre. As bactérias são a grande história de sucesso da trajectória da vida” (daqui). Presentemente, os micróbios constituem uma parcela substancial da diversidade de espécies que habitam o nosso planeta e representam uma parcela considerável da biomassa nele existente (ver p.ex. aqui ou aqui). É também entre os micróbios, e em particular entre as bactérias, que se encontra a maior diversidade bioquímica, metabólica e fisiológica, não sendo pois de estranhar que aquelas ocupem a maior diversidade dos nichos ecológicos disponíveis, muitos dos quais inóspitos para animais ou plantas (ver p.ex. aqui). Os micróbios desempenham também um papel fulcral na reciclagem global de nutrientes essenciais, que foi e continua a ser condição necessária à manutenção de todas as formas de vida do planeta (ver p.ex. aqui ou aqui). Atendendo ainda a que todo o animal ou planta é povoado por comunidades microbianas numerosas e variadas, com as quais vivem em simbiose (ver p.ex. aqui), não é de todo um exagero afirmar que os micróbios dominam efectivamente a biosfera do planeta!


Apesar de tudo isto, o mundo dos micróbios continua a servir como um microcosmo que reflete a relação complexa, muitas vezes desdenhosa e problemática, da humanidade com as outras formas de vida e o mundo mais-do-que-humano em geral, corolário da visão de mundo antropocêntrica e do excepcionalismo humano herdados da modernidade ocidental (ver p.ex. aqui ou aqui), bem como de uma visão progressista da história da evolução (ver aqui ou aqui). Aquela relação é caracterizada por um foco histórico no medo, no controlo e numa visão da humanidade como separada e superior ao mundo microbiano, apesar da nossa profunda interdependência (ver p.ex. aqui ou aqui). O autor deste último artigo (Ramy Karam Aziz), escreve: “embora a microbiologia seja uma ciência relativamente moderna, não escapou ao antropocentrismo associado a ciências clássicas como a astronomia e a física. Desde o seu surgimento, a microbiologia tem sido associada à saúde e aos interesses humanos. O próprio nome ‘microbiologia’ reflete uma atitude antropocêntrica, implicando que, como os humanos não podem vê-los, os micróbios são menores do que o ‘normal’. Escusado será dizer que esta nomenclatura arbitrária não representa adequadamente a biosfera. A biologia é predominantemente microscópica; os seres humanos, outros animais macroscópicos e plantas de grande porte são a excepção.” Esta dinâmica é evidente em diversas áreas-chave.


Por um lado, o desenvolvimento e popularização no século XIX da teoria microbiana das doenças (também conhecida por “teoria dos germes”), que estabeleceu a relação entre micróbios específicos e determinadas doenças (infecciosas) humanas (ver p.ex. aqui), levou a avanços sem precedentes no saneamento público e na medicina, mas também fomentou uma mentalidade cultural em que todos os micróbios eram vistos como “inimigos” ou “malignos”. Esta perspectiva promoveu um medo generalizado da contaminação e um impulso para a sua erradicação total com antibióticos e anti-sépticos, levando a uma ênfase problemática na higiene que, por vezes, negligenciava os aspectos benéficos da exposição microbiana. De facto, o aumento moderno de doenças autoimunes, alergias e asma tem sido associado, em parte, à “hipótese da higiene” – a ideia de que a falta de exposição a diversos microrganismos no início da vida prejudica o desenvolvimento adequado do sistema imunitário humano (ver p.ex. aqui ou aqui). A procura humana por um ambiente estéril enfraqueceu inadvertidamente a nossa própria diversidade microbiana, assim como a ambiental, levando a novos problemas de saúde. Um terceiro aspecto prende-se com a visão utilitarista dominante e com o facto de os humanos qualificarem frequentemente os micróbios em categorias simplistas de "bons" (por exemplo, usados na indústria alimentar e farmacêutica ou componentes do microbioma humano) ou "maus" (patogénicos), ignorando muitas vezes a vasta maioria da vida microbiana que contribui para processos ecológicos essenciais, sem impactar diretamente a saúde humanas ou as suas actividades produtivas. Esta visão antropocêntrica reflecte uma tendência mais ampla para valorizar a natureza apenas em termos da sua utilidade directa ou ameaça para a humanidade (ver p.ex. aqui).


É importante realçar que esta visão enviesada dos micróbios se manifesta também no interior das próprias ciências biológicas, as quais reproduzem uma hierarquia de relevância herdada de visões de mundo anacrónicas que há muito deveriam ter sido erradicadas do pensamento científico, alegadamente objectivo e racional – ver p.ex. aqui ou aqui. Para muitos biólogos – principalmente zoólogos e alguns botânicos – os micróbios são os parentes pobres da biodiversidade (ver p.ex. aqui). Dois microbiólogos norteamericanos – Carl Woese, que propôs a divisão dos seres vivos em três grandes filos ou domínios (Bacteria, Archaea e Eukarya), e Lynn Margulis, que propôs a origem dos eucariontes a partir de eventos simbióticos entre e com bactérias (hipótese simbiogénica), ambos na década de 1970 (ver aqui e aqui) – foram, na altura, duramente (e injustamente) ridicularizados pelos seus colegas, tendo as suas ideias sido amplamente aceites apenas nas décadas seguintes com a acumulação de fortes evidências experimentais que comprovaram a validade das suas propostas, passando então a figurar em qualquer tratado de biologia.


A nossa visão distorcida do mundo microbiano, aliada a uma maior dificuldade técnica na sua identificação e quantificação (quando comparada com animais e plantas), resultou num conhecimento mais incompleto sobre a sua biologia e ecologia (ver aqui). De facto, apenas nas últimas décadas, com os grandes desenvolvimentos e expansão das técnicas de análise molecular (RNA e DNA), incluindo a metagenómica (ver aqui), tem sido possível desvendar o papel dos micróbios em diferentes ecossistemas, assim como a diversidade e sofisticação das relações que estabelecem entre si, bem como com animais e plantas, e como dependem e reagem aos factores abióticos. Esse manancial de novo conhecimento pode ajudar a ultrapassar o nosso viés antropocêntrico, contribuindo para visões mais biocêntricas dos micróbios, não só como parentes e companheiros, mas também como mestres e aliados.


Esse é o desafio lançado por exemplo por Ramy Karam Aziz, no artigo já citado, onde defende o abandono da abordagem antropocêntrica por uma visão biocêntrica que contribua para uma melhor compreensão da patogénese microbiana e da sua evoluação, convidando a “pensar como um micróbio”. Aziz considera que: “Classificar os micróbios em amigos ou inimigos, úteis ou nocivos, impede-nos muitas vezes de reconhecer o principal objetivo de cada micróbio, que não é diferente do objetivo principal de qualquer outro organismo: a sobrevivência. Os micróbios associados ao hospedeiro humano, incluindo os agentes patogénicos intestinais, fazem o que for necessário para se adaptarem ao seu nicho, defenderem-se do sistema imunitário e atingirem a máxima disseminação.” Num tom mais sarcástico, escreve: “Um estilo de vida bacteriano patogénico, do ponto de vista bacteriocêntrico, não deve ser considerado diferente do comportamento de uma colónia de Homo sapiens a acampar numa floresta, explorando alguns dos recursos florestais e deixando resíduos que causam danos a esse habitat. De facto, o estado atual do ambiente global qualifica os humanos como os principais agentes patogénicos do planeta Terra. Apenas como exemplo entre muitos, os humanos foram recentemente descritos como agentes co-patogénicos dos recifes de coral.


Uma abordagem semelhante foi adoptada por Rachel Armstrong neste artigo, onde defende que enfrentar a crise ambiental exige uma mudança de mentalidade, passando de uma abordagem extractiva e antropocêntrica para uma colaboração com a inteligência dos micróbios, que considera como agentes activos, em vez de recursos passivos, com os quais temos muito a aprender. Armstrong defende a adopção de “pedagogias microbianas” e de reformas políticas, como as Avaliações de Impacto Microbiano, para alinhar os sistemas humanos com a lógica regenerativa e simbiótica do mundo microbiano. A autora considera que: “Para colaborarmos verdadeiramente com os micróbios — agentes activos em vastos ecossistemas interdependentes — devemos adoptar uma perspectiva sistémica que reconheça os seus papéis, relações e respostas dentro de redes ecológicas mais vastas. O seu potencial emerge da cooperação, não do controlo.” Armstrong afirma ainda: “Não somos apenas descendentes de micróbios; somos compostos por eles, os nossos corpos em constante negociação com os seus parentes ancestrais. Esta genealogia comum desafia mais do que a biologia.” E conclui: “o desafio é ético: porque rejeitamos o parentesco com os micróbios enquanto hospedamos os seus descendentes dentro das nossas células? Se víssemos os micróbios como antepassados em vez de invasores, como poderíamos repensar a medicina, a agricultura ou a educação? As redes micorrízicas sob as florestas não questionam o seu parentesco com as árvores — agem como parentes. Talvez a verdadeira lição do tempo profundo não seja de onde viemos, mas como lhe pertencemos.


Em última análise, a interação humana com o mundo microbiano serve como uma poderosa metáfora para uma relação com a natureza definida por um desejo de domínio, uma falta de compreensão holística e uma falha em apreciar as intrincadas interdependências que sustentam toda a vida na Terra. E estas lacunas têm consequências práticas – como afirma Armstrong: “As consequências dos nossos enviesamentos cognitivos são materiais. Os solos degradados da agricultura industrial — desprovidos de parcerias microbianas — reflectem a disbiose nos nossos próprios intestinos, ambos vítimas de uma visão do mundo que valoriza a extracção em detrimento da reciprocidade.” Em alternativa, podemos adoptar um posicionamento escutador, acompanhante e simpoiético. A compreensão da interdependência microbiana convida-nos a uma humildade mais profunda: não somos senhores da vida, mas participantes de uma teia de relações que nos sustentam. Reconhecer isto pode transformar a medicina, a ecologia e a ética, para além da própria biologia, fomentando um futuro onde o florescimento humano esteja alinhado com a prosperidade de todas as formas de vida, incluindo a dos nossos parentes e companheiros microbianos.


* O termo bactéria é aqui usado como sinónimo de procarionte, ser (maioritariamente) unicelular sem núcleo diferenciado, mas que inclui na verdade dois dos três principais ramos evolutivos da vida celular: as bactérias (inicialmente designadas por eubactérias, constituindo o domínio Bacteria) e as arqueias (ex-arquebactérias, domínio Archaea). O terceiro ramo (Eukarya), inclui todos os eucariontes (seres celulares com núcleo diferenciado): protozoários, microalgas, fungos, assim como animais e plantas. Os vírus, não sendo constituídos por células mas sendo parasitas intracelulares, são também considerados micróbios.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O retrocesso civilizacional em curso na Europa

A velha Europa tem vindo a revelar a sua decadência e o seu desnorte - em particular, os seus ‘líderes’ e decisores políticos, principalmente ao nível da União Europeia (UE) e da Comissão Europeia (CE). Para além do fanatismo belicista, alimentado pela diabolização da Rússia e do seu líder, e da defesa cobarde do estado sionista de Israel, que denunciei em escritos anteriores (aqui e aqui), tomadas de posição ou decisões recentes ao nível da UE ou da CE sobre liberdade de expressão e de informação, assim como sobre comércio e produção alimentar e agrícola, comprovam que a Europa se encontra em pleno retrocesso civilizacional. Aquelas tomadas de posição ou decisões, não só põem em causa os tão apregoados valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, que a UE alega defender, como também vão contra a sua agenda de defesa ambiental, em particular o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal), uma das bandeiras da actual CE, além de colocarem os interesses do poder militar, económico e financeiro à frente dos direitos e aspirações dos seus próprios cidadãos.

A governação tecnocrática e centralizada da UE, permitida pelo Tratado de Lisboa, tem vindo a acumular tiques de autoritarismo e de desrespeito pelos direitos e pela diversidade de sensibilidades dos cidadãos europeus. Como veremos, a UE não está apenas a trair pontualmente valores e princípios; está a normalizar uma lógica de excepção permanente — securitária, económica e geopolítica — que corrói, de dentro para fora, os princípios que diz defender: liberdade de expressão, direitos humanos, transparência democrática e proteção ambiental. Ou seja, a UE não está a errar aqui e ali, mas está a substituir valores por gestão de riscos e interesses.

Mas vamos por partes.


A intensificação da narrativa da guerra 'inevitável' e 'justa' contra a Rússia tornou-se ainda mais evidente com a mediação de belicistas fanáticos e russófobos como Mark Rutte (ver aqui) ou Kaja Kallas (ver aqui). As iniciativas da administração Trump, que tem menosprezado o papel da UE nas negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, provocaram grande irritação nos dirigentes europeus que continuam apostados no aumento das despesas militares e na retórica da ameaça russa, desdenhando a procura de uma solução diplomática - ver p.ex. aqui ou aqui. No entanto e como argumenta Pedro Ponte e Sousa num artigo de opinião, um eventual desfecho das negociações favorável à Rússia era expectável e mostra a irracionalidade da postura belicista europeia: “O plano de paz para a Ucrânia que agora se desenha não é uma novidade, mas sim a materialização tardia de inevitabilidades que vimos tentando explicar há vários anos. Confirma, de forma inequívoca, que não haveria solução militar para este conflito e que, quanto mais o mesmo se arrastasse, mais provável seria que a Ucrânia ficasse exposta: a negociar de uma posição de fragilidade, ou sem capacidade negocial de todo, cenário que Zelensky reconheceu esta semana. A solução passaria, como sempre se antecipou, essencialmente por um entendimento entre os principais actores do conflito: os EUA e a Rússia. A Europa, por sua vez, cada vez mais apostada em converter-se num actor militar, fica a assistir ao processo negocial em casa, sem nele participar ou ter voz. Prende-se, assim, a uma dinâmica de Guerra Fria 2.0 que ela própria incentivou e da qual não consegue sair, por incapacidade das suas lideranças e falta de visão estratégica.” Ponte e Sousa reforça que a situação em que a Europa se encontra agora é da responsabilidade da actual liderança da UE e é calamitosa para o seu futuro: “A União Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen e de alguns estados com crescente influência, viu na guerra uma oportunidade para institucionalizar políticas e práticas que já vinham a ganhar tração. Esta estratégia levou a um triplo tiro no pé: 1) A militarização da Europa, com a Europa a gastar hoje mais do dobro em guerra do que há dez anos; 2) O fim da diplomacia como ferramenta central, crescentemente desvalorizada pelos estados e pelas instituições da UE, cada vez mais investidas numa corrida ao hard power e esquecendo o longo sucesso das diplomacias europeias, mesmo com exíguos recursos; 3) O declínio da UE comercial, em que a via de corte total de relações com a Rússia amputou o poderio económico e comercial – a verdadeira fonte de peso e influência da UE.


Posições igualmente críticas sobre as políticas europeias e, em particular, sobre a postura do governo alemão liderado por Merz, foram também veiculadas por Jeffrey Sachs e por Conor Gallagher, o primeiro numa carta aberta dirigida ao chanceler alemão e o segundo num artigo de opinião para a revista Naked Capitalism. Ambos criticam os líderes europeus por sacrificar a economia europeia e o bem-estar social dos seus cidadãos, cedendo aos interesses económicos e às ambições imperialistas norte-americanas e à sua postura de confrontação com a Rússia e a China. Ugo Bardi vai mais longe na sua análise da actual postura belicista europeia face à Rússia e defende que esta se baseia numa tentativa desesperada de salvar o alegado motor da sua economia, isto é a Alemanha, mas que aquela tentativa está condenada ao fracasso e poderá de facto conduzir ao colapso económico e social da Europa.

No capítulo da liberdade de expressão e de informação, destaco duas situações preocupantes. Por um lado, a restrição de acesso a documentos da UE ao abrigo de um conjunto de regulamentação relativa à segurança de informação e ciber-segurança (Infosec), denunciada pelo site de investigação jornalística independente ‘Follow The Money’. No seu boletim informativo de Dezembro, referem que, alegando a necessidade de regras mais apertadas para proteger a UE de ameaças híbridas, a CE pretende um regime de classificação unificado que espelhe a prática interna restritiva do Conselho Europeu, onde até os documentos banais são frequentemente carimbados como “limitados”. A adopção das novas medidas irá na prática impedir o acesso aos documentos da UE por parte de jornalistas e eurodeputados, o que irá distorcer ainda mais os mecanismos de escrutínio que sustentam qualquer democracia funcional, acabando por criar as bases para alargar o fosso entre o interesse público e os interesses instalados das grandes empresas.


A outra situação refere-se à imposição de sanções extra-judiciais pela UE, como medida coerciva dirigida a pessoas ou entidades, incluindo cidadãos europeus, por porem alegadamente em causa a segurança e os valores da UE, e por difundirem (des)informação anti-ucraniana ou pró-russa - ver aqui. Aquelas sanções, que incluem o congelamento total de bens e contas bancárias, a proibição de auferir rendimentos e a restrição da liberdade de circulação no seio da UE, surgem na senda de iniciativas mais abrangentes lançadas pela presidente da CE, eufemisticamente designadas por ‘European Democracy Shield’ e ‘European Centre for Democratic Resilience’. Estas iniciativas têm sido fortemente criticadas por serem repletas de retórica, mas carecerem de acções concretas, baseando-se principalmente em medidas não vinculativas e dando ênfase excessiva às ameaças externas, ao mesmo tempo que negligenciam os desafios democráticos internos, além de promoverem a censura – ver aqui ou aqui. Quantos às sanções, que se estendem agora a cidadãos europeus, várias vozes se têm insurgido contra a sua alegada ilegalidade e por considerarem que põem em causa a liberdade de expressão – ver aqui ou aqui (neste vídeo, Pascal Lottaz menciona os casos do cidadão suíço Jacques Baud, da activista africana e cidadã suíça Nathalie Yamb e do jornalista alemão Huseyin Dogru). No primeiro artigo, Binoy Kampmark refere-se às acusações mútuas de hostilidade à liberdade de expressão entre os EUA e a UE, denunciando a duplicidade de critérios e hipocrisia da UE por se insurgir contra as recentes sanções decretadas pelo governo dos EUA contra cidadãos europeus, quando tem aplicado medidas equivalentes aos seus cidadãos por exprimirem opiniões contrárias às suas posições sobre questões de política externa: “A 23 de dezembro, o Departamento de Estado norte-americano anunciou a proibição de entrada nos EUA de cinco cidadãos europeus acusados de liderar esforços para pressionar os gigantes tecnológicos norte-americanos a censurar ou suprimir as opiniões americanas. Esta medida surge após a própria União Europeia se ter decidido a sancionar indivíduos acusados de disseminar desinformação russa, particularmente sobre a guerra na Ucrânia.”


A académica macedónia Biljana Vankovska, especialista em ciência política e relações internacionais, escreveu, por sua vez, um artigo de opinião onde emprega os adjectivos orwelliano e kafkiano para descrever as iniciativas recentes da CE (como o Democracy Shield ou as sanções) com vista a controlar a disseminação de informação sobre questões sensíveis na Europa, acusando-a de criminalizar a dissidência sob o pretexto da segurança. Vankovska escreve: “Actos como «espalhar desinformação» ou promover «narrativas pró-Rússia» tornam-se motivos para punição – não porque sejam crimes, mas porque são considerados inconvenientes. (...) Infelizmente, isto não é novidade. Lembremo-nos de Julian Assange, preso por expor crimes de guerra. Ou, mais recentemente, do juiz francês do TPI, Nicolas Guillou, sancionado pelos EUA por emitir mandatos de captura contra líderes israelitas por causa de Gaza. Como salientou Varoufakis, a Europa falhou na defesa dos seus próprios cidadãos. Anteriormente, a Alemanha tinha proibido Varoufakis de falar sobre genocídio; ameaças semelhantes visam funcionários da ONU como Francesca Albanese. A UE, sob Kallas, não resistiu a esta tendência; pelo contrário, refinou-a, sancionando os seus próprios cidadãos juntamente com russos e ucranianos. Antes, gozámos com Kiev por compilar listas negras «pró-Rússia». Agora, a UE ‘ucranizou-se’, adoptando e melhorando estas mesmas práticas.” Sobre as sanções, a autora escreve: “Imagine ser impedido de aceder à sua própria conta bancária, impossibilitado de trabalhar, abandonado onde quer que esteja quando a ordem for emitida. Parece realmente assustador! Orwell tinha uma palavra para estas pessoas: ‘não-pessoa’ [unperson]. Isto é especialmente chocante, considerando a auto-imagem da UE como uma «comunidade baseada em valores», exportadora de democracia e do Estado de direito. Como chegámos ao ponto em que os intelectuais críticos são tratados como ameaças à segurança?


No domínio da regulação ambiental, alimentar e agrícola, as notícias não são melhores. O boletim informativo de 18 de Dezembro do site francês Reporterre, de informação sobre temas ambientais, faz uma súmula das várias decisões recentes da UE que representam uma clara cedência aos interesses das multinacionais agro-alimentares em detrimento do bem-estar, saúde e prosperidade dos cidadãos, em geral, e dos agricultores, em particular, além de contradizerem os princípios de proteção ambiental apregoados pela própria UE, em particular o Pacto Ecológico Europeu e as medidas em prol da biodiversidade. Temos por um lado, o pacote legislativo ‘food and feed safety omnibus’ (Pacote Omnibus) que pretende ‘aligeirar’ e ‘simplificar’ a regulação ambiental e de pesticidas – ver aqui ou aqui. Segundo a notícia do Público, “O pacote, que terá de ser aprovado pelo Conselho da União Europeia e pelo Parlamento Europeu, é apresentado no mesmo dia em que se soube que a União Europeia deverá continuar a não cumprir a maioria dos objectivos ambientais para 2030, de acordo com um relatório da Agência Europeia do Ambiente”. Este pacote legislativo tem sido fortemente contestado por várias organizações ambientais – ver notícia do Público já citada, aqui e aqui. Segundo aquela notícia: “A organização ambientalista WWF faz um alerta sobre o novo pacote de simplificação das regras ambientais proposto nesta quarta-feira pela Comissão Europeia, defendendo que põe em risco a qualidade do ar, da água e da saúde pública em nome da competitividade. Também o European Environmental Bureau (EEB), a maior rede europeia de organizações de defesa do ambiente, chamou a atenção para as consequências das propostas para simplificar a legislação ambiental, que, diz, minam leis cruciais que protegem a saúde das pessoas, a natureza e a prosperidade a longo prazo. (…) Os ambientalistas defendem que, entre outros problemas, a proposta da CE elimina a exigência de serem avaliados substitutos mais seguros para produtos químicos, dá carta-branca a indústrias para continuarem com práticas comerciais inadequadas e revoga a única base de dados que contém informação sobre produtos químicos fabricados e importados. (…) O pacote Omnibus, alerta o EEB, insere-se numa tendência política mais vasta e preocupante: «Um ataque coordenado às leis que salvaguardam a saúde, o clima e a natureza da Europa, numa pressão de desregulação que troca o interesse público a longo prazo pela conveniência política a curto prazo.»” Já para a organização Pesticide Action Network (PAN-Europe): “A proposta mina o principal objectivo do regulamento, que é o de garantir um elevado nível de proteção com base no princípio da precaução. Se implementadas na sua forma actual, as alterações representariam um sério retrocesso para a regulamentação dos pesticidas na UE, podendo permitir que substâncias perigosas continuem a ser utilizadas indefinidamente. Além disso, contrariariam as constantes e antigas reivindicações dos cidadãos por uma regulamentação mais rigorosa dos pesticidas e pela eliminação gradual dos pesticidas sintéticos.” (daqui) Também um grupo de cientistas de renome de vários países contestou as alterações legislativas incluídas no pacote Omnibus e apelou à CE para que melhore a protecção do ambiente, da biodiversidade e da saúde dos cidadãos contra os pesticidas nocivos, numa carta enviada aos 27 Comissários da UE, assinada por 203 especialistas em saúde, toxicologia e ecologia – ver aqui. Os cientistas apelam à Comissão para que abandone a ideia de enfraquecer a regulamentação dos pesticidas e que, em vez disso, melhore a implementação da regulamentação actual e elimine as lacunas existentes. É possível apoiar uma campanha da WeMove-Europe de contestação à Lei Omnibus aqui.


O segundo pacote legislativo da UE refere-se à (des)regulamentação de produtos agrícolas e alimentares resultantes da aplicação de novas técnicas genómicas (NGTs) – os chamados novos OGMs – alegando que irá ajudar os agricultores a lidar com a crise climática e melhorar a eficiência e a segurança alimentar – ver aqui ou aqui. Segundo esta última notícia, “De acordo com a legislação actual, os novos OGM estão sujeitos às mesmas regras de rotulagem, rastreabilidade e avaliação de riscos que os OGM. Agora, no entanto, foi proposta uma desregulação para isentar as culturas NGT (com excepção das sementes e do material reprodutivo vegetal) daquelas regras. A categoria NGT1, que compreende produtos de laboratório obtidos através de técnicas de edição genética de precisão que actuam como tesouras moleculares para modificar características específicas do DNA já presentes na planta, estaria isenta. Entretanto, os produtos NGT2 — aqueles que diferem da planta-mãe por mais de 20 modificações genéticas e que têm efeitos insecticidas conhecidos e tolerância a herbicidas — continuarão sujeitos a regulamentação. (…) Estas regras serão aplicadas tanto às plantas de origem da UE como às plantas importadas, enquanto as NGT serão proibidas na agricultura biológica: a presença tecnicamente inevitável de plantas NGT1 não constituirá incumprimento para os produtos biológicos. Os Estados-Membros poderão decidir se limitam ou proíbem as NGT2.” Estas alterações têm também sido fortemente contestadas por diversas ONGs ambientais como a Friends of the Earth Europe FOEE (aqui), a Slow Food (aqui) ou a Navdanya International (aqui). Para a FOEE, “Se este acordo se tornar lei, os novos OGM deixarão de estar sujeitos à Diretiva da UE sobre Responsabilidade Ambiental nem aos regimes nacionais de responsabilidade aplicáveis aos produtores de culturas geneticamente modificadas. Caso sejam detetados danos ‘não premeditados’, as empresas responsáveis pela comercialização de OGM não poderão ser responsabilizadas. A FFOE denuncia esta eliminação radical das salvaguardas, uma carta branca concedida à indústria biotecnológica, e apela aos ministros e eurodeputados para que rejeitem esta lei nas suas próximas votações no Conselho e no Plenário da UE.” Já a Navdanya adverte que: “O acordo provisório em trílogo [Parlamento Europeu, Conselho Europeu e CE] sobre os OGM da próxima geração e as Novas Técnicas Genómicas (NGTs) cria uma distinção artificial entre as categorias de NGTs, permitindo que muitos destes organismos sejam tratados como ‘equivalentes’ às plantas convencionais — contornando, na prática, anos de salvaguardas de precaução. Esta mudança, impulsionada pela pressão do lobby do agronegócio, gerou uma ampla oposição em toda a Europa. As redes de agricultores, os grupos de consumidores e os movimentos pela soberania alimentar manifestaram-se, exigindo transparência, liberdade de escolha e pleno respeito pelo princípio da precaução.(daqui).


O outro retrocesso legislativo refere-se ao
acordo obtido no Concelho da UE para alterar duas leis com uma relação muito próxima: a Directiva do Reporte de Sustentabilidade das Empresas (CSRD, sigla em inglês) e a Directiva do Dever de Diligência das Empresas em Matéria de Sustentabilidade (CSDDD) – ver aqui. Apresentado como um passo determinante para o ‘aumento da competitividade’ e para a ‘redução de custos’ pelas empresas europeias, o acordo acaba por isentar mais de 80% dessas empresas de obrigações de reporte ambiental. Segundo a notícia do Público, ambas as Directivas tinham sido alvo de fortes pressões de grandes empresas internacionais e de governos, como os dos Estados Unidos e do Qatar, e o acordo agora alcançado terá como consequência que “Mais de 80% das empresas europeias ficarão isentas de verificar se ao longo da sua cadeia de valor são reduzidos ou eliminados os efeitos adversos na natureza, no clima e nos direitos humanos”. Ainda segundo a mesma notícia, “Na versão originalmente aprovada em 2022, estas directivas aplicavam-se a empresas europeias ou com actividade na União Europeia com um volume de negócios acima de 150 milhões de euros. Mas, agora, só grandes empresas, com mais de 5000 trabalhadores e um volume de negócios anual acima de 1500 milhões de euros terá de cumprir o dever de diligência ao longo da sua cadeia de produção. E só as empresas com mais de mil trabalhadores e um volume de negócios superior a 450 milhões terão a obrigação de informar sobre a sustentabilidade da sua actividade.” A mesma notícia refere ainda que: “No final de Novembro, a Provedora de Justiça da UE, Teresa Anjinho, acusou a Comissão Europeia de má administração, por não respeitar as suas próprias regras na elaboração das propostas legislativas conhecidas como pacotes de simplificação Omnibus, consideradas urgentes, e que abrangem áreas sensíveis como as obrigações de reporte de sustentabilidade das empresas, a agricultura e o tráfico de migrantes. É no âmbito destes pacotes Omnibus que a UE está a fazer estas simplificações, que os críticos consideram esvaziamentos da legislação ambiental.” Em Fevereiro, a European Coalition for Corporate Justice (ECCJ) tinha já contestado o processo de desenvolvimento daquelas propostas pela CE, denunciando que: “O pacote Omnibus é uma recompensa para os interesses corporativos que se esquivam à responsabilidade. Cortar nos direitos humanos e nas protecções ambientais sob o pretexto da ‘simplificação’ alimenta a impunidade, é um livre-trânsito para explorar os trabalhadores, destruir os ecossistemas e silenciar as comunidades que se opõem a estes esforços.” (daqui) A directora da ECCJ, Nele Meyer, declarou na altura: “Recusamo-nos a deixar que os interesses corporativos reescrevam a lei sem a nossa participação. Os trabalhadores e as comunidades mais afetadas lutaram por estas regulamentações de sustentabilidade da UE para evitar danos, mas são as gigantes dos combustíveis fósseis e os lobistas corporativos que agora estão no comando. A Lei Omnibus trai as pessoas e a natureza que a UE prometeu proteger. A Comissão tem de decidir: está do lado das pessoas e do planeta, ou do lado dos interesses corporativos?


Finalmente, temos o (não)desfecho atribulado das negociações do tratado de comércio entre a UE e o Mercosul, que duram há mais de 25 anos e enfrentam forte contestação dos agricultores europeus – ver aqui ou aqui. Na verdade, a ratificação do acordo, que estava agendada para o mês de Dezembro, foi adiada para Janeiro – ver aqui. Segundo a notícia do Público, a contestação dos agricultores (que se estende também a alterações à Política Agrícola Comum), deve-se a receios de que “um dos principais efeitos do acordo seja uma inundação do mercado europeu com produtos agrícolas e pecuários provenientes da América do Sul, pondo em causa toda a produção europeia”. No entanto, estão também em causa não só interesses do agro-negócio sul-americano, como ainda salvaguardas impostas pelos países europeus. Num artigo para o diário espanhol Público, Miguel Urbán disseca algumas destas questões. Urbán começa por caracterizar assim o tratado: “Um acordo no qual a UE visa melhorar o acesso ao mercado para as suas multinacionais dos sectores automóvel, de peças automóveis, de energia, farmacêutico, de bebidas e de serviços financeiros no Mercosul, enquanto os países do Mercosul obterão maior acesso ao mercado europeu para as suas matérias-primas — carne de bovino e de frango, soja, açúcar e etanol para biocombustíveis, entre outras. Este acordo comercial, popularmente conhecido por «vacas por carros», embora institucionalize uma relação comercial assimétrica e neocolonial, favorece os interesses do poderoso sector agroindustrial do Mercosul.” Urbán recorda que: “A relutância de alguns Estados-membros obrigou à negociação de uma série de cláusulas de salvaguarda, mecanismos que surgem com formulações voluntárias («deviam», «vão esforçar-se») e sem instrumentos vinculativos eficazes. Na prática, estas cláusulas subordinam as boas intenções relativas ao clima e aos direitos laborais às obrigações comerciais vinculativas contidas no acordo. Trata-se de um verniz discursivo típico do soft power europeu, concebido para apresentar o acordo como um exemplo de relações comerciais que respeitam o ambiente e os direitos humanos. Estas cláusulas já tinham sido criticadas pelo próprio Lula como um mecanismo de ‘neocolonialismo verde’ que, sob o pretexto de proteger o ambiente, «impõe barreiras comerciais e medidas discriminatórias, e desconsidera os marcos regulatórios e as políticas nacionais». Assim, as tensões geradas no bloco Mercosul pelo constante fluxo de objecções europeias tornavam-se publicamente evidentes.” Urbán realça ainda que: “as ‘cláusulas de salvaguarda’ foram incorporadas não só, supostamente, para proteger o ambiente, mas também como forma de a Comissão Europeia tentar conter a agitação em torno dos protestos agrícolas que, nos últimos anos, paralisaram repetidamente a capital europeia com os seus tractores. No entanto, como denuncia a Coordenadora Europeia da Via Campesina, estas alegadas cláusulas de salvaguarda «são concebidas para que nunca sejam acionadas. Baseadas em limiares económicos arbitrários, não refletem a diversidade da agricultura europeia nem os efeitos reais e localizados do aumento das importações»”. Para saber mais detalhes sobre o tratado UE-Mercosul e as razões legítimas para a contestação, ver página informativa no site da Plataforma Troca.


Neste post que já vai longo, tentei demonstrar com exemplos muito recentes que, na Europa, a retórica dos valores choca de frente com a prática do poder: numa UE que se apresenta como bastião da democracia liberal, da paz, dos direitos humanos e da transição verde, há um desfasamento crescente entre discurso e prática. Pela relevância e abrangência dos casos que apresentei, parece-me que fica claro que o que está em causa não é uma crise pontual, mas um padrão de retrocesso civilizacional. Por um lado, a construção discursiva de uma guerra “inevitável” com a Rússia reduz o debate público e leva à demonização da dissidência como “pró-russa” ou “ameaça à segurança”, numa lógica maniqueísta que substitui a análise política e a contextualização histórica. A principal consequência é uma política externa que se transforma em dogma moral, imune à crítica. E quando a guerra se torna o eixo central da identidade política, todas as outras liberdades passam a ser condicionais. Com as restrições de acesso à informação e as sanções contra cidadãos europeus por opiniões políticas, a liberdade de expressão deixa de ser um direito universal e passa a ser permitida desde que não contrarie a narrativa oficial. A UE escolhe assim punir opiniões, não actos, aproximando-se portanto mais de regimes que afirma combater do que dos seus próprios ideais fundadores.


Quanto à tão apregoada transição verde e à proteção ambiental, parecem reduzir-se cada vez mais a meras estratégias de marketing e de ‘greenwashing’, onde as políticas da UE se rendem a um alegado pragmatismo económico, recorrendo aos eufemismos da ‘competitividade’ e da ‘simplificação’, como vimos com os exemplos do aligeiramento da regulação ambiental e de pesticidas da Lei Omnibus, a desregulação dos NGTs, as isenções de reporte ambiental e o acordo com o Mercosul. A proteção ambiental deixa de ser um princípio e passa a ser negociável. A Europa pode não ter abandonado o discurso ecológico, mas abandonou a coerência em matéria de qualidade ambiental e de saúde pública face à pressão dos interesses instalados do grande poder económico.


Em todas as dimensões e casos aflorados existem padrões que se repetem: redução do debate democrático, transferência de decisões para instâncias tecnocráticas e justificação constante pela ‘necessidade’, ‘urgência’, ‘segurança’ ou ‘competitividade’. Os cidadãos são tratados como riscos a gerir, não como sujeitos políticos, os direitos e os compromissos são transformados em concessões revogáveis e a qualidade ambiental em mera retórica que se sacrifica aos ditames dos lobbies económicos. Esta Europa poderia até ganhar eficiência, alinhamento geopolítico ou competitividade, mas paga com empobrecimento democrático, erosão da confiança pública e perda de autoridade moral, quer internamente, quer mundialmente.

Fecho com um excerto do artigo de Biljana Vankovska que citei: “Lecionei um curso universitário sobre o sistema político europeu e sempre entendi a UE por aquilo que ela realmente é: um projecto corporativo-colonial-imperialista disfarçado pela retórica da paz e da justiça. Não porque seja particularmente inteligente, mas porque conservei a liberdade infantil de declarar: o rei vai nu.

sábado, 25 de outubro de 2025

O mundo segundo as plantas: um vasto campo de possibilidades de devir-com

A existência das plantas é por si mesma uma modificação global do meio cósmico, isto é, do mundo que elas penetram e pelo qual são penetradas. (…) Ser significa para elas fazer mundo, e, inversamente, construir (o nosso) mundo, fazer mundo não passa de um sinónimo do ser.Emanuele Coccia

A inteligência vegetal implica, ao nível mais básico, a constituição subjectiva do espaço e do tempo vividos pelas próprias plantas. (…) [O seu] modo enraizado de ser e pensar é caracterizado por uma extrema atenção ao local e ao contexto de crescimento e, portanto, por uma sensibilidade que, por vezes, excede a dos animais.Michael Marder

Se a vida vegetal é também uma vida cultural, esta pressupõe a actividade de uma mente que se exercita antes de tudo e, quase exclusivamente, na forma do próprio corpo. (…) Cada planta parece inventar e abrir um plano de existência no qual não se dá, de facto, oposição entre crescimento e fantasia.Emanuele Coccia

Este post surgiu na sequência da minha participação numa ‘conversa ecotópica’ que decorreu durante o Silvestre ’25, a convite dos seus promotores (Ordem do Ó e Daniel Tércio), e que teve por base a pergunta “Como é que o mundo aparece a uma planta?”. Acompanharam-me nesse exercício de pensar em conjunto a Fernanda Botelho, o João Beles e o Pedro Ramos (como moderador).

A minha primeira aproximação à pergunta foi a de confessar que, não sendo eu uma planta, ousar dar uma resposta poderia ser desonesto da minha parte e seria sempre um exercício especulativo. Mas isso não quer dizer que não fosse legítimo tentar fazê-lo – quer a partir da experiência directa de contacto com as plantas, quer indirectamente através do conhecimento adquirido por outros. Assumi que valia a pena arriscar, mesmo projectando a minha/nossa visão enviesada de humanos, isto é, sem conseguir evitar antropomorfizar aquele esforço. O que me pareceu mais importante foi tentar não transformar esse antropomorfismo em antropocentrismo, recusando a desvalorização ou o desprezo que projectamos sobre as plantas quando as reduzimos a recursos a ser explorados ou consumidos.

Na verdade, as plantas foram frequentemente olhadas como seres inferiores ou menos dignos de atenção por não possuírem os comportamentos activos dos animais – daí expressões com sentido pejorativo como ‘vegetar’ ou ‘vegetal’ e fenómenos como a ‘cegueira botânica’. Aquela visão hierárquica estende-se mesmo ao interior do reino vegetal, distinguindo as plantas ‘superiores’ (plantas com flor) das ‘inferiores’ (fetos e musgos), consoante o seu grau de complexidade estrutural, mas também menosprezando as plantas que não têm utilidade para o ser humano ou que competem com aquelas que são consideradas úteis – escrevi sobre isso aqui. De facto, não é difícil constatar que a nossa relação histórica e cultural com as plantas tem sido muitas vezes míope, interesseira e/ou utilitarista, embora sempre tenha havido quem soube ouvir e sentir aquilo que as plantas nos comunicavam, inserindo-as nas suas histórias, mitos e cosmovisões – e recorrendo, muitas vezes, à antropomorfização. Na verdade, tem-se assistido nas últimas décadas a uma crítica à desvalorização da vida vegetal, que tem ajudado a desconstruir a redução do mundo vegetal a “meras paisagens objectificadas e associais, seres caracterizados por inércia e apatia, fixidez e imobilidade, ausência de consciência, sentidos e palavras” – que no português do Brasil se designa por “virada das plantas” (ver p.ex. aqui).

Ilustração de Mathilde Roussel para o livro
'The Philosopher's Plant' de Michael Marder

Comecemos então por abordar o encontro das plantas com o mundo. Nesse exercício, deparamo-nos frequentemente com comparações entre plantas e animais em termos de percepção e de consciência do seu entorno. E a comparação não é favorável às plantas: não se mexem, não vêem, não ouvem, não pensam! No entanto, sabemos bem que as plantas reconhecem os factores biofísicos dos quais dependem: a luz (e a sombra), a temperatura, a humidade, a gravidade, os nutrientes do solo, e até diversos compostos voláteis no ar – e reagem a esses estímulos (ver p.ex. aqui). A aparência de imobilidade é outra ideia distorcida que é posta em causa pelas evidências: as plantas podem estar fixas ao seu substrato, mas tanto as suas partes aéreas, como as suas raízes, estão em constante movimento, mas num ritmo geralmente muito mais lento do que nos animais – ver p.ex. aqui ou aqui. Dado o estado actual do conhecimento sobre a biologia vegetal, podemos afirmar que as plantas vêem sem olhos, cheiram sem nariz, ouvem sem ouvidos, transpiram sem pele, movem-se sem pernas e pensam sem cérebro – ver p.ex. aqui ou aqui. Acontece que nas plantas, ao contrário de muitos animais, não existem órgãos sensoriais especializados e a capacidade de percepcionar e sentir o mundo está espalhada pelas suas principais estruturas – folhas, ramos, troncos e raízes –, embora existam diferenças marcadas, em particular, entre as partes expostas e as partes subterrâneas, que respondem a diferentes estímulos. Portanto, embora não se consigam deslocar, as plantas estão profundamente imbricadas e abertas para o mundo.

Outras observações recentes mostraram ainda que as plantas lutam por território, procuram alimento, evitam predadores, fazem armadilhas para as suas presas, conseguem distinguir indivíduos da sua espécie daqueles de espécies diferentes, são capazes de detectar e de responder a sons (de água ou de insectos), e são até capazes de aprender com a experiência – ver aqui, aqui ou aqui. Logo, estão vivas no mesmo sentido que os animais e, assim como eles, exibem formas de memória e de comportamento. Há quem apelide esses comportamentos de ‘consciência’ ou ‘inteligência vegetal’ – ver adiante e aqui ou aqui. No entanto, como disse acima, muitos destes conceitos têm origem no que conhecemos da biologia animal e, ao usá-los para descrever os processos observáveis nas plantas, estamos a ‘animalizá-las’ – o que é uma projecção que pode reduzir ou anular o valor intrínseco das plantas e a sua identidade própria.


Em vez de continuar a abordar a questão de como é que as plantas percebem e reagem ao mundo, podemos voltar à pergunta inicial invocando o autor que a formulou, o filósofo Michael Marder (que já citei anteriormente noutros posts), num ensaio de 2012 (aqui), mas também no seu livro de 2013 “Plant-Thinking: A Philosophy of Vegetal Life”, onde recorre, quer ao conhecimento científico, quer ao conhecimento vernacular, sobre o mundo vegetal. Segundo Marder, o mundo aparece a uma planta não como uma colecção de objectos distintos, mas como uma rede complexa (ou um mosaico dinâmico) de nutrientes essenciais e factores espácio-temporais. As plantas experienciam o seu ambiente como um fluxo constante de estímulos, aos quais respondem com um tipo de memória ao nível celular, em vez de formarem imagens mentais conscientes. Este “pensamento vegetal” é caracterizado por uma “intencionalidade não consciente” e não totalizante, focada na aquisição de recursos e na sobrevivência no seu meio imediato, levando a uma percepção altamente reactiva (‘responsive’) e dependente do contexto envolvente. Portanto, para Marder, as plantas não são seres passivos nem inertes: para ele, o mundo aparece à planta como uma rede de interacções subtis e contínuas, onde a distinção entre actividade e passividade se dissolve.

Marder argumenta que as plantas não agem como os humanos (impondo a vontade), mas são activamente interactivas, moldando e sendo moldadas pelo ambiente. A sua percepção não é baseada nos sentidos humanos, mas numa existência exposta e aberta ao mundo, onde luz, água, solo e ar são constantemente interpretados e integrados. Para ele, o mundo vegetal é um modelo de simbiose, diversidade e adaptação, em contraste com a homogeneização e dominação humanas. Assim, Marder vê nas plantas um modo alternativo de ser-no-mundo: não através do domínio, mas da coexistência, da vulnerabilidade e da interpenetração. A planta, para ele, é um ser pensante de forma não cognitiva e não discursiva, daí usar a expressão “pensamento vegetal” que desafia a filosofia a sair do antropocentrismo e a repensar a subjetividade e a ética ecológica.

Devo clarificar que, para Marder, o “pensamento vegetal” refere-se, simultaneamente, ao modo de pensar não cognitivo, não ideacional e não imagético próprio das plantas (a que ele chama “pensar sem a cabeça”); ao pensamento humano sobre as plantas e ao modo como este é alterado pelo seu encontro com o mundo vegetal; e, finalmente, à relação simbiótica contínua entre este pensamento transfigurado e a existência das plantas – ver aqui. Estes últimos aspectos têm sido desenvolvidos pela ecóloga evolutiva, focada no comportamento das plantas, Monica Gagliano, em particular no seu livro “Thus Spoke the Plant” (2018), onde explora também os temas da sensibilidade, subjectividade e imaginação vegetais. Para não alongar demasiado este post, deixarei um mergulho mais profundo no pensamento de Gagliano para um escrito futuro.


Um outro filósofo que abordou o mundo vegetal foi o italiano Emanuele Coccia, em particular no seu livro “A vida das plantas, uma metafísica da mistura” (2016), onde oferece também ele, de certa forma, uma resposta à pergunta de Marder: o mundo não aparece meramente à planta, ele é feito por ela e através dela. Coccia inverte a perspectiva tradicional: em vez de ver a planta como um objecto passivo no mundo, ele coloca-a como o sujeito primordial da cosmogonia. A planta não contempla o mundo de fora; ela faz e refaz o mundo por dentro, através da sua existência misturada com o ar, a luz, a água e o solo: “É já no corpo da planta que tudo está em tudo: o céu está na terra, a terra é impelida para o céu, o ar se faz corpo e extensão, a extensão é um laboratório atmosférico.

Para Coccia, as plantas são forças criadoras (cosmogónicas) que transformaram a Terra num planeta habitável (para os animais) – o autor refere-se na verdade ao papel de cianobactérias primitivas na criação de uma atmosfera rica em oxigénio, na medida em que foram os primeiros seres a produzir oxigénio por fotossíntese (as algas, as plantas e as cianobactérias modernas continuam a fazê-lo), tendo conduzido ao evento conhecido por ‘Grande Oxigenação’ que se iniciou há cerca de dois mil milhões de anos. Ele acrescenta que o seu poder criador se estende à capacidade de transformar energia solar em matéria viva, funcionando como um “alambique alquímico” ao ar livre, argumentando que a vida orgânica, tal como a conhecemos, é uma consequência directa da capacidade vegetal de misturar elementos, de ligar a terra e o céu. Assim, o mundo que co-habitamos – com ar respirável, ecossistemas complexos e ciclos energéticos e matéricos – seria um produto da vida vegetal. Portanto, o mundo aparece à planta não como um cenário externo, mas como um processo contínuo de co-criação entre planta e mundo.


Faço aqui um pequeno aparte para fazer notar que, embora esteja alinhado, no essencial, com a visão de Coccia, parece-me que ele acaba por inverter o antropocentrismo em fitocentrismo e não consegue evitar algum pensamento hierárquico, ignorando o papel dos micróbios, e em particular do vasto e diverso mundo bacteriano, como (co)criadores de mundo, pelo menos em pé de igualdade com as plantas – ver aqui ou aqui.

Coccia invoca ainda mais dois aspectos fundamentais da ontologia vegetal. Por um lado, a planta, dada a sua imobilidade e total exposição ao ambiente, torna-se o “observatório mais puro” da totalidade cósmica. Em contraste com os animais, que se movem para selecionar o que percebem, a planta está sempre em contacto com múltiplos elementos ao mesmo tempo: luz, vento, chuva, gases. A planta é o observador (e mediador) cósmico por excelência, onde não há separação entre sujeito e objecto: “a sua vida é uma interminável contemplação cósmica, sem dissociar os objectos e as substâncias, ou, dizendo-o de outro modo, aceitando todas as nuances, até se fundir com o mundo, até coincidir com a sua substância”. Nesse sentido, o mundo aparece à planta como uma “mistura permanente”, uma fusão de substâncias e forças. A planta não tem um “ponto de vista” sobre o mundo, mas é um “ponto de vida” a partir do qual o cosmos se revela como um tecido vivo e interpenetrado. A planta pode assim constituir para nós próprios um “mediador do mundo”. Como afirma Coccia: “Nunca compreenderemos o que é uma planta sem termos compreendido o que é o mundo.


Por outro lado, um dos conceitos centrais de Coccia é a “metafísica da mistura”. Ele propõe que a vida é, essencialmente, um processo de mistura recíproca. Ao respirar, os animais absorvem as ‘sobras’ do metabolismo das plantas (o oxigénio). As plantas, por sua vez, absorvem o dióxido de carbono exalado pelos animais. Para Coccia, este ciclo não é apenas biológico, mas ontológico: a vida é o ritmo dessa interpenetração. Ele apelida esta interconexão e interpenetração o “sopro da vida”. O sopro é para Coccia a chave para a coincidência entre mundo e vivente, entre sentido e existência: é o que permite que o mundo seja vivido, sentido e produzido a partir de dentro. Assim, o mundo aparece à planta como um fluxo constante de trocas materiais e energéticas, onde as fronteiras se dissolvem. A planta vive num estado de mistura universal, onde o exterior e o interior, o ser e o mundo, coincidem. Neste aspecto, a tese de Coccia apresenta evidentes afinidades com a proposta da antropóloga cultural canadiana Natasha Myers (que citei em posts anteriores) de “conspirar com as plantas”, como forma de coexistência e de reciprocidade entre humanos e plantas.

O carácter co-criativo (podíamos dizer, simpoiético, na acepção da filósofa norte-americana Donna Haraway – ver p.ex. aqui) da ontologia vegetal é obviamente extensível às restantes formas de vida, incluindo os humanos. Ou seja, todos os seres vivos são sujeitos culturais – criadores de mundo. Esta visão realista e honesta do mundo vivo contrasta com a visão distorcida do excepcionalismo humano, ainda comum, herdada do Iluminismo e da Modernidade (naturalmente rejeitada por qualquer dos autores que citei). Na verdade, Marder, Coccia, Myers, Haraway e outros tantos pensadores, sugerem que temos muito a aprender com as plantas, instando-nos a adoptar formas de ver e estar no mundo em consonância com aquelas que podemos apreciar no mundo vegetal – ver adiante.


Uma das manifestações do carácter co-criativo da interacção das plantas com o mundo é o fenómeno de co-evolução que ocorre entre certas plantas e os insectos que as polinizam, o qual tem gerado uma diversidade morfológica extraordinária de uma das estruturas mais notáveis das plantas – as flores, ver p.ex. aqui. Numa das famílias das plantas com flor, as orquídeas, essa interacção levou a relações tão íntimas entre a planta e o seu insecto polinizador que, em certos casos, a flor mimetiza o corpo da fêmea de uma única espécie de abelha que é o seu principal polinizador (note-se que se trata de um abelha solitária, ou seja, não gregária, como as abelhas melíferas). A orquídea seduz assim os machos a tentar copular com a sua flor, convertendo o macho (enganado) em disseminador do seu pólen. Donna Haraway dá precisamente como exemplo de simpoiese (no seu livro “Staying with the trouble”) a orquídea Ophris apifera (ou erva-abelha, espécie que ocorre em Portugal) cuja abelha polinizadora se extinguiu (pelo menos numa parte da sua área geográfica natural), constituindo pois a sua flor a única imagem que temos do que seria a forma daquele insecto. Ilustrando o seu argumento com um cartoon da autoria de Randall Munroe (que reproduzi no meu post sobre simpoiese), Haraway sugere que a flor da erva-abelha pode ser vista como uma tradução vegetal (ou ilustração tridimensional) do corpo de um insecto – neste caso, a sua abelha polinizadora – no seu próprio corpo! Pode ter demorado talvez centenas de milhares de anos a ser aperfeiçoada, mas é certamente uma obra de imaginação vegetal notável. Tanto nesta, como em centenas de outras espécies em que os mesmos processos co-criativos estiveram em jogo.

Acompanhando as abordagens dos autores que citei neste post, podemos afirmar que as plantas exibem um grau de sofisticação na sua relação com o mundo, que validam o recurso a expressões como “sensibilidade vegetal” ou mesmo “inteligência vegetal” para descrever os processos complexos que estão envolvidos nessas interacções e entrelaçamentos. Ao mesmo tempo, é importante não assumir que a expressão “inteligência vegetal” significa que as plantas pensam ou sentem como os humanos, mas sim que elas possuem capacidades próprias e complexas de processamento de estímulos e de adaptação que lhes permitem sobreviver e prosperar nos ambientes onde ocorrem e onde interagem com múltiplos outros agentes. Nesta perspectiva, não-antropocêntrica, o mundo aparece a uma planta, como a qualquer outro vivente, como um campo de possibilidades de estar no mundo e de fazer mundo, em processos de devir em conjunto, naturalmente simpoiéticos e co-criativos.

Ilustração de Mathilde Roussel para o livro
'The Philosopher's Plant' de Michael Marder

Mas existem também ilações éticas e políticas a retirar destes exercícios filosóficos. Marder propõe que pensar como uma planta é sair da lógica do controlo e da totalização, e abraçar a exposição contínua ao mundo. As plantas usam energia de forma não extrativa e operam de modo descentralizado e simbiótico. Um galho pode tornar-se uma nova árvore; as raízes interligam-se em redes subterrâneas; e não há um “cérebro” que controle o todo. Marder vê nisso um modelo político alternativo não hierárquico, resiliente e adaptável, espalhando-se como rebentos em diferentes locais. Para ele, a política humana pode aprender com as plantas a ser mais flexível e colaborativa e menos autoritária ou extrativista.

Marder insiste que “ainda não é tarde demais para aprender com as plantas”. Elas são sobreviventes sagazes e capacitados, com milhões de anos de adaptação, e promovem a diversidade em vez da dominação. Diferentemente dos humanos, que frequentemente destroem ecossistemas, as plantas sustentam e ampliam a vida. Ele fala em “pedagogias vegetais”: lições de resiliência, comunicação eficiente, solidariedade e integração (simbiose). Eu acrescento ainda a desaceleração, inspirada na temporalidade própria das plantas, que estimula a contemplação e a atenção ao mundo.


Marder refere ainda que as plantas habitam uma heterotemporalidade — um tempo do outro, determinado pelos ciclos naturais como as estações, a luz solar e os ritmos diários. Para ele, as plantas não possuem um tempo próprio, pois a sua existência está profundamente entrelaçada com forças externas. Elas não lutam contra a repetição, como fazem os sujeitos humanos, mas habitam-na plenamente, crescendo e decompondo-se em sintonia com o ambiente. Essa ausência de identidade fixa torna-as radicalmente abertas ao outro, vivendo um tempo de acolhimento contínuo.

Por seu lado, Coccia enfatiza que pensar a partir das plantas é pensar um mundo onde viver juntos não é uma escolha política, mas antes uma realidade ontológica. Segundo ele, as plantas são o fundamento da existência e ensinam-nos que a vida é essencialmente mistura e comunhão com o mundo. Com elas aprendemos que a nossa própria existência é um fenómeno relacional e generativo, não individual mas colectivo. Ele afirma que as plantas vivem em perpétua contemplação do mundo, fundindo-se com os elementos — sol, água, ar — e renovando-se em ciclos incessantes de crescimento, floração e reprodução. A sua existência não está voltada para um futuro próprio, mas para a geração contínua da vida, simbolizada na flor, que é o “sexo do mundo”. Pensar (e devir) com as plantas, mais do que antropomorfizá-las, é vegetalizar o humano. E em pleno Antropoceno, é afinal também uma urgência ética e ecológica.


Termino como uma citação do texto de abertura do livro “Vozes Vegetais – Diversidade, Resistências e Histórias da Floresta” (2020), co-organizado por Joana Cabral de Oliveira e colegas da USP (Universidade de São Paulo) e que reúne ensaios e depoimentos de múltiplos autores, onde se incluem descrições de práticas quotidianas e de cosmovisões de diferentes comunidades indígenas do Brasil, informadas pelo relacionamento com as plantas do seu entorno: Ao modo das plantas, há pressa em vegetar. O que temos nós a aprender com elas? Se nelas enovelados, quem mesmo, doravante, seremos nós? Plantas são trilha e morada de outros seres. Humanos colhem e pássaros bagunçam os frutos. Abelhas fazem festa nas flores. Galhos se comunicam com o vento, raízes com as hifas, sementes pegam carona nos fluxos e asas. Vegetar é crescer em contiguidade com o mundo, coabitar lugares, aderir e fazer espaços, engajarnos com aquilo que nos circunda – ou, antes, nos atravessa. Criar raiz e lançar sementes. Desterritorializar-se. Propagar, cortar, distribuir, desmembrar-se em qualquer ponto e depois se reconectar. Polinizar, cruzar, misturar, gerar o imprevisível. Brotar na terra, crescer, florescer, frutificar e apodrecer, voltar para a terra. Transformação é o nome do jogo. Vegetar é uma estratégia.