terça-feira, 30 de junho de 2020

Turismo (e 'economia') über alles

A pandemia da Covid-19 ainda está para durar, pelo menos a acreditar na narrativa que os media continuam a debitar sobre as pessoas - e Portugal passou mesmo do 'bom aluno' para país 'no vermelho':
https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2020-06-18-covid-19-portugal-entre-os-paises-a-vermelho-que-precisam-de-entrar-em-acao/ https://sol.sapo.pt/artigo/699702/lisboa-com-sinal-vermelho
https://www.jn.pt/nacional/portugal-e-o-segundo-pais-da-ue-com-mais-novos-casos-nos-ultimos-14-dias-12303019.html
Segundo esta última notícia: "Nas últimas semanas, a maioria dos novos casos têm surgido na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde as autoridades de saúde adotaram uma estratégia de 'testagem massiva'." Não admira que os 'novos casos' continuem a aumentar!... Claro que faltaria explicar que pessoas contraem afinal o vírus e se têm sintomas ou se são internadas...
Em compensação, a 'economia' vai retomando e na segunda metade de Junho tivemos a notícia da reabertura dos centros comerciais, ocasião que teve até direito à benção de D. Marcelo (que foi alegadamente testemunhar o 'processo de normalização') e a uma saudação com palmas pelos trabalhadores de um famoso grande armazém, equipados com máscaras a condizer com o lema da campanha de reabertura - 'Consigo voltamos a sorrir':
https://www.noticiasaominuto.com/pais/1509405/lisboa-aplausos-na-abertura-de-centros-comerciais-e-visita-de-marcelo


Mas uma das grandes preocupações do momento é o muito desejado (por alguns!) regresso dos turistas, atendendo às quebras dramáticas nos números de visitantes e nas receitas do sector nos meses de Abril e Maio:
O que não se explica é como seria possível sustentar um aumento constante do número de visitantes, que chegou quase aos 27 milhões no ano passado, num sector que já representa quase 9% do PIB e 20% das exportações totais!...
O governo liderado por António Costa (verdadeiro 'cheerleader' da retoma económica) e os governos locais continuam a promover o turismo como monocultura, deixando sectores inteiros da economia a afogar-se - cultura, artes, pequeno comércio, feiras, bares, etc:
https://www.noticiasaominuto.com/pais/1509677/costa-defende-na-cnn-que-portugal-e-um-destino-seguro-para-os-turistasSegundo a lógica imbatível do PM: "Temos de proteger a nossa saúde, mas temos também de proteger os rendimentos, o emprego e as empresas e de fazer viver estes territórios, que fazem de Portugal o melhor destino do mundo e que dependem muito de haver ou não haver turistas"!...
Segundo as campanhas repetidas à exasutão, fazer turismo é bom para a economia e 'desopila':
https://www.publico.pt/2020/06/16/local/noticia/turismo-lisboa-convida-portugueses-desopilar-promocoes-1920787 


E claro que Portugal até tem estado nos 'tops' dos destinos 'mais seguros':
https://www.publico.pt/2020/06/05/fugas/noticia/madeira-acores-alentejo-algarve-top-destinos-seguros-europa-1919553
https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/portugal-foi-o-primeiro-pais-europeu-a-receber-o-selo-safe-travels
A estratégia é elogiada neste artigo que insiste na narrativa de que, por sermos 'alunos' exemplares e termos muitos prémios, vai tudo correr bem e podemos continuar a fazer a mesma coisa - só temos de passar 'um ano de caminho de pedras': https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/covidiario/2020-04-17-o-turismo-foi-a-nossa-tabua-de-salvacao-para-a-crise-mas-agora-a-tabua-esta-esburacada/
Segundo a autora: "Ao achatarmos a maldita curva de forma eficiente, ganhámos pontos para a nossa imagem internacional como País seguro, ordenado e capaz de enfrentar uma crise sanitária."
O expediente para trazer turistas ao país passa por tentar criar 'pontes aéreas', mesmo com países com taxas elevadas de infectados e mortos, como o Reino Unido (mas que pode estar em risco):
Passa também por persistentes campanhas de 'marketing' para tentar convencer os mais hesitantes e inseguros:
https://www.noticiasaominuto.com/economia/1495140/saudades-de-viajar-voos-da-tap-irresistiveis-para-as-ferias-de-verao
Uma das medidas emblemáticas da 'nova normalidade' será a reabertura às 00h do dia 1 de Julho das fronteiras entre Portugal e Espanha, com direito a cerimónia protocolar que contará com a presença dos chefes de Estado e de governo dos dois países, a fazer lembrar cerimónias de outros tempos...
Esperemos que não se esqueçam das máscaras e das distâncias regulamentares...

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O regresso da droga legal

Quem me conhece sabe que não morro de amores pelo futebol. Na verdade, é mais do que isso: tenho-lhe um ódiozinho de estimação. E não é apenas pelo efeito estupidificante e alienante que ele exerce sobre as pessoas (conhecidas como 'adeptos' ou 'fãs') - basta lembrar que é o tema preferido de muitos homens (maioritariamente), que lhe dedicam horas de conversas empolgadas (e banais), o mesmo acontecendo nas TVs, onde ocupa tempos infindos de programação, inclusive nos serviços noticiosos, em detrimento de qualquer outro desporto e sem que ninguém se pareça incomodar ou questionar (ver p.ex. aqui ou aqui). A outra razão da minha rejeição do futebol tem a ver com a máquina de fazer dinheiro em que se tornou e que o converteu num antro de corrupção e de tráfico de influências, devido às inegáveis promiscuidades com o mundo da política (ver p.ex. aqui ou aqui). Basta lembrar o recente escândalo que ficou conhecido por 'Football Leaks' (ver aqui ou aqui).



Vem isto a propósito das notícias recentes nos media nacionais e internacionais sobre o regresso do futebol, que também tinha ficado suspenso em consequência da pandemia da Covid-19 (ver p.ex. aqui ou aqui). Na verdade, para além da 'reabertura da economia', o governo já vinha anunciando que iria autorizar a retoma do "desporto-rei" (ver aqui ou aqui). Só que os adeptos terão de permanecer em casa, não podendo rumar aos estádios, e a realização dos jogos, mesmo sem público, terá de respeitar diversas medidas sanitárias - também aqui se fala de uma "nova normalidade" (ver p.ex. aqui). Mesmo assim, as perspectivas de "matar a fome de bola" (expressão usada pela directora executiva da FPF, segundo esta breve notícia) estão mais próximas de se tornar realidade. E como não há fome que não dê em fartura, prometem jogos todos os dias da semana para saciar os adeptos mais desnutridos, muitos dos quais já deviam estar a sofrer de síndrome de abstinência. Como escreveu José Pacheco Pereira num artigo de opinião no Público em 2018: "Há muitas coisas que ajudam a estupidificar o país. Mas, nos dias de hoje, a mais eficaz é o futebol. (…) O futebol é a coisa mais parecida com a máfia que existe em Portugal — ou melhor, é a nossa máfia lusitana. Eles produzem a cocaína, muitas vezes em sentido literal, mas a rede de distribuição é a comunicação social. (…) O futebol é um estimulante, com efeitos anestésicos, utilizado fundamentalmente como uma droga recreativa, muito útil quando há pouco pão, para que haja muito circo." Na situação actual, é também um pretexto para esquecer as amarguras do coronavírus, pelo menos durante duas horas, como defende um futebolista galego do Real Madrid (ver aqui).

sábado, 16 de maio de 2020

Manual de instruções para a "nova normalidade"

O país acaba de entrar na 2ª fase de desconfinamento, mas continua em 'estado de calamidade' que se prolonga até fim de Maio. Estas designações soam algo contraditórias e o próprio governo parece estar a navegar à vista. O nosso 'grande timoneiro' Costa, sempre determinado, já veio apelar aos portugueses para agora saírem à rua para ajudar o comércio, que naturalmente ficou em dificuldades (não foi bem um "vão às compras", mas quase). Fez-me lembrar um célebre apelo do presidente Bush, após os ataques do 11 de Setembro, para os seus compatriotas irem às compras ou à Disneyland para ajudar a economia e vencer o medo... (Mas isto deve ser a minha mente tortuosa que faz associações bizarrasl...) Depois de semanas de campanha de medo, levada a cabo por autoridades e media, o Secretário de Estado da Saúde veio agora dizer que o medo não deve paralisar os portugueses!... Seja como for, esta nova fase envolve vários preceitos, que surgiram no final da semana passada sob a forma de manuais produzidos pela DGS.
Primeiro, temos o manual da DGS para o dia-a-dia (são mais de 30 páginas, embora tenha muita 'palha'), cujo lema é: TODOS SOMOS AGENTES DE SAÚDE PÚBLICA! Com tanta higienização, tanta máscara descartada e tanto plástico, quem vai ganhar serão certamente a saúde das pessoas e do ambiente!... Não resisto a destacar a nota que inseriram sobre o uso obrigatório de máscara em estabelecimentos comerciais: "Esta obrigatoriedade é dispensada quando, em função da natureza das atividades, o seu uso seja impraticável." Presume-se que estarão a referir-se a cafés, pastelarias e restaurantes - que têm as suas regras próprias (ver mais abaixo), para podermos beber ou a comer (sem máscara!) sem sermos importunados pelo corona... E é também digna de destaque esta ilustração da página 4 do manual - nela vemos os tais 'agentes de saúde de pública' a 'combater' o vírus:
Depois temos o guia para as idas às praias - que só 'reabrem' no dia 6 de Junho. São 78(!!) regras muito precisas e sensatas que dão mesmo vontade de ir a banhos... Parece que estou a ver os burocratas da APA nos seus gabinetes a pensaram em cada pormenor e a elaborar a regra apropriada! Será que o corona sabe nadar? E gostará de sol e água salgada?... Entre as várias ideias para evitar os congestionamentos nas praias, a do semáforo pareceu-me genial! E até já há uma proposta concreta criada por uma startup que poderá ser adquirida pelas autarquias... Devido à necessidade de distanciamento, há mesmo quem já tenha desenhado compartimentos em 'plexiglass' para as praias. E alguns autarcas voluntariosos tomaram a dianteira e começaram a 'desinfectar' as praias' (hipoclorito=lixívia), mesmo antes de saírem os manuais da DGS (que desaconselha o seu uso).
Mas temos mais: haverá também regras para museus, eventos desportivos, lares e igrejas (católicas) - nestas últimas, as missas serão de máscara, com comunhão em silêncio(!?), sem abraço da paz e com distanciamento... De notar a discriminação dos desportos 'menores' em relação ao futebol ('desporto rei'): a 'bola' começa a 1 Junho (sem público!) e os outros - andebol, voleibol, basquetebol e hóquei em patins - já não são retomados esta época.

Depois, temos o 'manual de instruções' para as escolas. Deve ser muito agradável (e dar muito jeito) dar e assistir a aulas de máscara... E depois temos o distanciamento físico e a higienização permanente, inclusive das salas entre cada aula. A foto ilustra o processo de desinfecção prévia das salas de aula por militares devidamente 'fardados' - sim, porque as salas deviam estar muito contaminadas durante as várias semanas em que as escolas estiveram fechadas...
E temos então as regras para a restauração e hotelariaSem ementas, sem buffets, sem 'adornos' (excepto talheres, prato e copo), nem temperos, nem travessas, e pagamento contactless (sem dinheiro). Adorei este detalhe da prosa do artigo (e há mais pérolas): "Sentados, mãos previamente higienizadas com solução antisséptica de base alcoólica, máscara em repouso (teremos de entrar no restaurante de máscara no rosto), depara-se-nos uma novidade, ou melhor, um ajuste a uma realidade em todos os restaurantes..."
Numa outra notícia, os detalhes sobre as orientações da DGS são complementados com as medidas adoptadas em outros países. Em Espanha o detalhe e extensão das medidas é semelhante. Nesta notícia gostei em especial da escolha da foto das senhoras sentadas com um ar alegre, máscaras no rosto, frente aos seus copos de vinho e à embalagem de gel desifectante...
Deixei o melhor para o fim - o futuro das viagens e do turismo internacional - com variadas restrições e medidas inovadoras, como passaportes de saúde e certificados Clean&Safe:
https://www.theportugalnews.com/news/clean-and-safe-seal-launched-to-bring-confidence-to-tourism-sector/53923
https://www.bbc.com/news/world-52450038
https://www.theguardian.com/politics/2020/may/03/coronavirus-health-passports-for-uk-possible-in-months
https://www.theguardian.com/world/2020/apr/26/greece-preparing-new-tourism-rules-in-wake-of-coronavirus
Num comentário a um dos artigos do Guardian, alguém resumia da seguinte forma: "Future tourism: completely anti-septic, everything desinfected with PPE (Personal Protective Equipment), throw away cutlery, everyone in a protective bubble! Great for the environment and sounds fun!"

Para aliviar um pouco o tom - deixo uma ideia 'genial' de um café na Alemanha para garantir o distanciamento físico entre os seus clientes. Talvez se tenham inspirado nuns chapéus para as crianças usados com a mesma finalidade numa escola na China.
Vai ser sem dúvida um 'novo' mundo e uma 'nova normalidade' - que não me soam nada admiráveis!... E não, não me parece que "vamos ficar todos bem", se continuarmos a tratar os cidadãos como crianças irresponsáveis que têm de obedecer aos seus governantes que, numa atitute paternalista e castradora, lhes retiram o livro arbítrio e querem regulamentar cada actividade e cada gesto que fazem. E principalmente, se retomarmos uma suposta 'normalidade' que não trará certamente um futuro saudável e sustentável para todos (ver p.ex. aqui).

terça-feira, 12 de maio de 2020

Estado de calamidade

É difícil fugir ao tema que nos assombra há várias semanas e que ameaça estar para durar. Mas há razões de sobra para eu voltar a trazê-lo aqui - mesmo que não sejam as mais evidentes. Desta vez invoco-o devido a duas campanhas publicitárias recentes na região de Lisboa.
A primeira foi levada a cabo pela TVI para promover um dos seus programas emblemáticos, o ignóbil 'Big Brother', que aquele canal televiso decidiu retomar no final de Abril, com o estado de emergência ainda em vigor devido à pandemia da Covid-19. Nem sequer me vou referir à natureza escabrosa e imbecil do programa, mas apenas a um outdoor que surgiu mais recentemente para o publicitar, contendo a seguinte frase: "A TVI decreta estado de entretenimento"! Parece que para as mentes perversas da gente do departamento de marketing não há limites para a desfaçatez que consiste na apropriação de uma situação de restrição das liberdades individuais para promover ou vender seja o que for. Neste caso, com o requinte de malvadez de tratar-se de publicitar um programa que vai buscar o seu nome à novela orwelliana que denunciava exactamente as formas mais brutais de controlo social! Já não há sombra de pudor, nem deontologia, que nos valha - e somos compelidos a aceitar (e consumir) tudo o que nos atiram para cima. Talvez seja até pura ignorância - muita gente nem saberá quem foi o Orwell, quanto mais o Big Brother!...

A outra campanha foi lançada também no final de Abril pelo movimento 'Mais Cascais', afecto ao actual executivo camarário deste município, e que também envolveu outdoors com o lema dessa mesma campanha: "Não tenha medo de ter medo". A controvérsia não se fez esperar, como o comprovam os comentários nos posts da página do movimento no Facebook, e já mereceu algumas críticas, embora apenas a nível local - ver p.ex. aqui ou aqui. Já me referi ao sentimento do medo relacionado com a actual pandemia num post anterior. Deixo aqui apenas a ligação para uma já famosa intervenção pública do escritor Mia Couto, numa conferência sobre segurança no Estoril há quase dez anos, intitulada 'Murar o medo', onde afirma que "há quem tenha medo que o medo não acabe", e que continua extremamente actual, quando governos de todo o mundo estão a usar o medo - desta vez de um vírus - para exercer um poder totalitário sobre os seus cidadãos. Encontramo-nos, sem dúvida, em pleno estado de calamidade.

sábado, 2 de maio de 2020

Documentários e vídeos em tempos de pandemia

Aproveitando o início da fase de desconfinamento nesta travessia da pandemia da Covid-19, proponho o visionamento de três documentários e dois vídeos curtos. Não estando directamente relacionados com a pandemia, qualquer dos três documentários propõe reflexões sobre os nossos modos de ver e de agir sobre o mundo, que nos podem ajudar a orientar a forma como lidamos com um processo que, desejavelmente, não seja um mero 'regresso à normalidade' (tema dos meus dois posts anteriores).
O primeiro ('The Twelve', realizado por Lucy Martens & Olivier Girard) foi lançado em 2019 e dá voz a doze anciãos (líderes espirituais ou xamãs) de povos/comunidades indígenas de diversos pontos do globo, que partilham, não só as suas visões do mundo que são colocadas em diálogo ou contraponto com as visões hegemónicas da civilização global, mas também as suas propostas para lidar com as disfuncionalidades das sociedades modernas:
https://vimeo.com/374476997 (1h15; c/ legendas PT)
O segundo ('Planet of the Humans', realizado por Jeff Gibbs) foi divulgado no Dia da Terra (que se celebrou no dia 22 Abril*) e apresenta uma visão crítica da agenda ambientalista de promoção da transição energética e das energias 'verdes' ou 'limpas': https://youtu.be/Zk11vI-7czE (1h40) 
O filme foi produzido pelo realizador Michael Moore, cujos documentários geram frequentemente controvérsia. E este novo filme não foge à regra: tendo gerado críticas muito duras, quer da parte de vários ambientalistas, quer de comentadores da esquerda política: ver p.ex. aqui. Apesar de conter incorrecções e distorções mais ou menos graves de alguns aspectos relacionados com as fragilidades das tecnologias solares e eólicas, o documentário põe claramente um dedo na ferida ao defender que a transição para as energias renováveis não é compativel com os actuais níveis de vida e de consumo na maioira dos países ditos desenvolvidos ou industrializados. Para críticas mais moderadas e equilibradas ver aqui ou aqui. O realizador, ele próprio um activista das questões ambientais, terá porventura falhado numa defesa clara da necessidade de uma transição rápida para as energias renováveis (valendo-lhe inclusivamente elogios de sectores conservadores), mas está a conseguir gerar um debate em torno de algumas propostas da agenda do chamado 'Green New Deal' que devem de facto ser postas em causa, como aliás o têm feito numerosos decrescentistas - ver p.ex. aqui ou aqui.

O terceiro ('Fairytales of Growth', realizado por Pierre Smith Khanna) é um documentário acabado de lançar este ano, que promove e discute exactamente  as propostas do movimento do Decrescimento:
https://youtu.be/dQ4cpOKmde8 (47’)
Baseado em entrevistas e depoimentos de vários investigadores e activistas decrescentistas, mas também de outros activistas, em particular dos movimentos juvenis pelo clima, o documentário parte da ligação entre o modelo económico e a crise ambiental para dar a conhecer as lutas e propostas de economia solidária e justiça social que visam contribuir para (re)construir uma sociedade justa e sustentável.

Finalmente, os dois vídeos curtos transmitem mensagens semelhantes sobre a actual situação pandémica e os seus impactos, incitando as pessoas a reflectir sobre que tipo de vida e de futuro querem para si e para as suas comunidades:
- 'Lettera dal coronavirus' (#ascolta), por Darinka Montico:
https://youtu.be/a2gdztJU1zY (3’40) (é possível activar leg. PT ou noutras línguas)
- 'What we might learn from Covid-19' (O que podemos aprender com a Covid-19),  por Kristin Flyntz (Sustainable Human): https://youtu.be/XELczQ3JWQY (5’20)
Para complementar estes visionamentos, volto a recomendar a leitura do magnífico 'O Monólogo do Vírus', texto que mencionei num post anterior.
Bons visionamentos.

* No Dia do Ambiente do ano passado tinha proposto o visionamento de outros dois documentários extraordinários ('Terra' e 'Semente'), que vale sempre a pena ver ou rever - links para os filmes aqui.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Anuncia-se a reabertura da economia!

Depois ter proibido a Páscoa e da novela em torno do cancelamento ou não das comemorações do 25 de Abril, o Costa (juntando-se a outros grandes líderes mundiais*) vai mandar reabrir a economia:
https://rr.sapo.pt/2020/04/22/economia/costa-vai-anunciar-reabertura-da-economia-mas-temos-de-estar-preparados-para-recuar/noticia/190281/
https://sicnoticias.pt/especiais/coronavirus/2020-04-17-Governo-esta-a-preparar-a-reabertura-da-economia
Como se ela tivesse fechado - tipo a época da caça ou a época balnear - e agora precisasse de ser reaberta... Será com alguma pompa e circunstância? Alguma festa com celebridades e futebolistas? Haverá corta-fitas? Parece afinal que não, que será tudo com contenção, moderação e o sacrossanto 'distanciamento social', não vá o corona estragar a festa.
Mas espera lá - então os portugueses não têm estado todos obedientemente teletrabalhando no recato das suas casinhas? Tudo afanosamente frente aos teclados e ecrans, 'zoomando' aulas, reuniões, workshops, webinars e até concertos e peças de teatro? E não há ainda todos aqueles heróis trabalhando arduamente nos hospitais, nos campos, nos supermercados, nas obras - porque muitos desses escapam à miopia social, excepção feita às palminhas ao cair da noite - e não há teletrabalho que lhes valha? Sim, mas essa é a economia dos bens essenciais e das verdadeiras necessidades!... E não é, pelos vistos, a tal 'economia' que irá ser reaberta**. Essa será a economia do consumismo e do espectáculo, das viagens e dos festivais, dos shoppings e dos futebóis, dos turistas e 'city users', dos empreendorismos e startups, do excesso e do desperdício. Aliás o Costa já veio tranquilizar os 'líderes' do sector turístico (que, dizem-nos, estava a crescer a dois dígitos!...) onde irá continuar a apostar desde que se recupere a confiança - algo que a ele não lhe falta, quando afirma que "o turismo em Portugal vai voltar a ser de ouro".*** Lá está - finalmente o 'regresso à normalidade'! Como se não houvesse amanhã! Sim, porque aquela coisa de haver uns chatos duns cientistas e duns jovens irritantes a dizerem que o clima já não é o que era, que as florestas e os animais estão a desaparecer e que os solos já não aguentam mais culturas intensivas e fertilizantes químicos, tudo por causa de inúmeras actividades económicas insustentáveis, isso é conversa de gente que quer travar a 'economia', fazer colapsar 'os mercados' e interromper as 'cadeias de criação de valor'. Sim, porque essa tal outra 'economia' precisa de crescer para sempre, caso contrário os bancos vão à falência, os mercados ficam 'zangados' ou 'mal dispostos' e os senhores bilionários deixam de acumular mais uns zeros nas suas contas bancárias, e aí não haverá economias para ninguém!... Ou será que isto é apenas um conto de fadas, uma história da carochinha para entreter adultos infantilizados e intoxicados pelos media, o marketing e as redes sociais?
Já escrevi várias vezes sobre estes tópicos - aqui, aqui, aqui ou aqui - por isso dispenso-me de mais explicações.
Temos uma escolha - sempre a tivemos - perceber que há uma oportunidade para mudar algumas coisas na vossa vida individual e colectiva, ou ceder aos oportunismos daqueles que não querem mudar coisa nenhuma.


* Parece que houve para aí uns 'líderes' que não queriam que a economia tivesse fechado e agora querem reabri-la à força toda...
** Para se perceber melhor o que os 'economistas' entendem por uma reabertura como deve ser, leia-se esta prosa aprimorada de economês neoclássico que apresenta o plano para a retoma de um grande arauto da narrativa do 'establishment':
(repare-se no pormenor da notícia ser patrocinada pela Santa Casa - mas claro que isso é apenas má-lingua da minha parte!)
*** O Turismo de Portugal, essa agência de viagens e de imobiliário patrimonial paga com dinheiros públicos, já preparou uma linda campanha para a retoma (é espantoso como as equipas de marketing nunca perdem a criatividade mesmo durante uma pandemia):

terça-feira, 7 de abril de 2020

Voltar à normalidade!?

Esta é uma das frases mais repetidas nestes tempos de pandemia e de um mundo em suspenso. É compreensível - ninguém quer continuar a viver num confinamento ou num 'distanciamento social' forçados, e é natural que as pessoas queiram retomar as suas actividades pessoais, laborais e sociais. Mas será que queremos de facto regressar à 'normalidade'? Queremos apenas livrar-nos do vírus e voltar a ligar as máquinas da 'economia' que nos dizem ser o motor do nosso bem-estar? Mas de que economia é que estamos a falar? Aquela que se tornou global e é dominada pelas corporações multinacionais e pela finança desregulada, tendo gerado uma colossal desigualdade social e uma catastrófica destruição ambiental? Ou uma outra que nos garantisse os bens essenciais e relacionais, e gerisse os bens comuns de forma equilibrada, justa e sustentável? (ver p.ex. aqui)
Neste tempo de incertezas e de sofrimento para muitos, é importante encontrar algum tempo e tranquilidade para pensar e clarificar ideias. É esse o meu propósito com os escritos recentes neste blog, assim como o de muitas outras pessoas e colectivos, que, por esse mundo fora, vão partilhando reflexões, propostas, experiências ou práticas.

Destaco um curto texto anónimo - 'O monólogo do vírus' - publicado num site editorial (original aqui: #234 da revista 'lundi matin') que dedica uma secção (Pandemia Crítica) à reflexão sobre a situação actual, disponibilizando textos de diversos autores em português (originais e traduções). Escrito na primeira pessoa, o texto faz uma análise lúcida do paradigma socioeconómico, apelando à sua renúncia e à adopção de uma ética baseada na suficiência, na atenção e no cuidado.
Excertos do texto:"Que pena que apenas reconheçam no universo aquilo que se vos assemelha. Mas, acima de tudo, parem de dizer que sou eu quem vos está a matar. Não estão a morrer por causa do que estou a fazer aos vossos tecidos, mas porque deixaram de cuidar dos vossos semelhantes. (...) Apenas os sistemas são ’vulneráveis’. O resto vive e morre. Só há vulnerabilidade para aquilo que aspira o controle, para a sua própria extensão e perfeição. (...) São livres de não acreditar em mim, mas eu vim desligar a máquina cujo travão de emergência vocês não encontram. Eu vim suspender a operação da qual vocês são reféns. Eu vim expor a aberração da ’normalidade’. (...) Sem mim, por quanto mais tempo fariam passar como necessárias todas estas coisas aparentemente inquestionáveis, cuja suspensão é imediatamente decretada ? A globalização, as competições, o tráfego aéreo, as restrições orçamentais, as eleições, o espectáculo das competições desportivas, a Disneylândia, os ginásios, a maioria das lojas, o parlamento, o encarceramento escolar, as aglomerações de massas, a maior parte dos trabalhos de escritório, toda essa sociabilidade inebriada que é apenas o contrário da angustiada solidão das mónadas metropolitanas. (...) Agradeçam-me a mim o teste da verdade que vão passar nas próximas semanas : vão finalmente viver a vossa própria vida, sem os milhares de subterfúgios que, mal ou bem, sustentam o insustentável. (...) Mas este espaço que se abre diante de vós, graças a mim, não é um espaço delimitado, é uma imensa abertura. Eu vim para vos perturbar. Nada vos garante que o não-mundo de antes vai voltar. (...)  Ou vocês aproveitam o tempo que vos estou a dar agora para imaginar o mundo do depois, a partir das lições do colapso a que estamos a assistir, ou ele será completamente radicalizado. O desastre pára quando pára a economia. A economia é o desastre. Esta era a tese antes do mês passado. Agora é um facto. (...) É uma civilização, e não vocês, que eu venho enterrar. Aqueles que querem viver terão de criar novos hábitos para si próprios. (...) Cuidem dos vossos amigos e dos vossos amores. Repensem com eles, soberanamente, uma forma de vida justa. Criem aglomerados de boa vida, expandam-nos e eu não terei poder sobre vocês."
No mesmo site encontrei um outro texto de Bruno Latour ('Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise') que projecta os cenários pós-pandemia para pôr em causa a globalização económica produtivista. Latour sugere que os cidadãos devem aproveitar a oportunidade da suspensão provisória do sistema económico global para pensar que componentes desse sistema querem ver retomados e quais querem interromper, propondo um exercício baesado numa sequência de seis perguntas.
Excertos do texto: "(...) Se tudo pára, tudo pode ser recolocado em questão, infletido, selecionado, triado, interrompido de vez ou, pelo contrário, acelerado. Agora é que é a hora de fazer o balanço de fim de ano. À exigência do bom senso: 'Retomemos a produção o mais rápido possível', temos de responder com um grito: 'De jeito nenhum!'. A última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes. (...) O que o vírus consegue com a humilde circulação boca a boca de perdigotos – a suspensão da economia mundial – nós começamos a poder imaginar que nossos pequenos e insignificantes gestos, acoplados uns aos outros, conseguirão: suspender o sistema produtivo. Ao nos colocarmos esse tipo de questão, cada um de nós começa a imaginar “gestos barreira”, mas não apenas contra o vírus: contra cada elemento de um modo de produção que não queremos que seja retomado. (...) Não se trata mais de retomar ou de transformar um sistema de produção, mas de abandonar a produção como o único princípio de relação com o mundo."

O mesmo tema é abordado por Vitor Belanciano num novo artigo de opinião no jornal Público: 'Não queremos voltar à normalidade'. O cronista defende a necessidade de questionar uma 'normalidade' que levou ao desinvestimento no serviço público de saúde, à desvalorização do trabalho, à sobrevalorização do sector financeiro, à aposta num leque limitado de actividades económicas como o turismo, à dependência do crescimento económico permanente e à fragilização da democracia. 
Excerto: "Voltar à normalidade. É a frase que todos repetem. Mas a que normalidade? A dos pequenos rituais quotidianos ou a que arruinou sistemas de saúde, de habitação, de segurança social e o ambiente? Vivemos tempos simultâneos. Por um lado, a resposta imediata e a tragédia, com famílias enlutadas que nem conseguem enterrar os mortos, e um número incalculável de pessoas que se confronta com o desemprego. E por outro, reflectir o futuro imediato, para que não voltemos ao que nos trouxe aqui e conjecturar outros rumos."
Para além das reflexões publicadas na secção 'Pandemia Crítica' da 'n-1 edições' que citei acima, recomendo ainda uma colectânea de textos de diversos filósofos contemporâneos, publicados entre 26 de Fevereiro e 28 de Março, coligida pela editorial  ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio) e denominada 'Sopa de Wuhan (pensamiento contemporáneo en tiempos de pandemias)', onde se reunem nomes como Giorgio Agamben, Slavoj ŽiŽek, Jean Luc Nancy, Judith Butler, Alain Badiou, David Harvey ou Byung-Chul Han.