sábado, 28 de março de 2026

A maioria invisível e a miopia humana

Imagem respigada daqui
Somos sentimentais em relação à natureza visível mas totalmente egocêntricos sobre a sua componente invisível [microbiana] – satisfeitos com ela se nos é útil ou obcecados no seu extermínio se nos é desagradável ou prejudicial. Como biólogos, devemos reconhecer esse preconceito emocional e tentar controlá-lo. A honestidade connosco próprios ao encarar a vida tal como ela é – assim como na transmissão de um retrato fidedigno a alunos e ao público em geral – assim o exigem. Sean Nee

Há dez milhões de anos, não existiam humanos. Há cem milhões de anos, não existiam mamíferos. No entanto, os membros dos principais filos bacterianos e arqueanos prosperavam há milhares de milénios. Assim, imaginar que a razão de ser das bactérias patogénicas ou oportunistas é sobreviver ‘prejudicando’ o seu hospedeiro é, no mínimo, simplista. Rami Karan Aziz

Existe uma maioria invisível (vírus, bactérias e outros micróbios*), geralmente desprezada ou malvista, que vai fazendo e desfazendo o mundo desde que há vida no planeta (há cerca de 3,8-4 mil milhões de anos). A nossa soberba ao ignorá-la é não só intelectualmente desonesta, como um risco para a nossa própria sobrevivência (ver p.ex. aqui e aqui). Esse aparente desprezo pelo vasto e diverso mundo microbiano decorre de um duplo problema de percepção: por um lado, trata-se de formas de vida que são, na sua grande maioria, inacessíveis à visão humana (a não ser através de instrumentos, como os microscópios); e, por outro, somos condicionados por uma narrativa sociocultural dominante que é centrada no humano e nas formas de vida com as quais temos maiores afinidades – genealógicas e afectivas (ver p.ex. aqui ou aqui).

Na verdade, é perfeitamente consensual que as principais formas de vida macroscópicas (animais e plantas) só terão surgido no planeta há menos de 1000 milhões de anos, o que significa que durante ¾ da história da vida só existiam seres microscópicos – na sua maioria, unicelulares: bactérias e, mais tarde, protozoários e micro-algas (para além dos vírus) –, que continuam a perseverar (ver aqui ou aqui). Como afirmou o paleontólogo Stephen J. Gould, “Esta é verdadeiramente a ‘era das bactérias’ – tal como foi nos primórdios, continua a ser e será sempre. As bactérias são a grande história de sucesso da trajectória da vida” (daqui). Presentemente, os micróbios constituem uma parcela substancial da diversidade de espécies que habitam o nosso planeta e representam uma parcela considerável da biomassa nele existente (ver p.ex. aqui ou aqui). É também entre os micróbios, e em particular entre as bactérias, que se encontra a maior diversidade bioquímica, metabólica e fisiológica, não sendo pois de estranhar que aquelas ocupem a maior diversidade dos nichos ecológicos disponíveis, muitos dos quais inóspitos para animais ou plantas (ver p.ex. aqui). Os micróbios desempenham também um papel fulcral na reciclagem global de nutrientes essenciais, que foi e continua a ser condição necessária à manutenção de todas as formas de vida do planeta (ver p.ex. aqui ou aqui). Atendendo ainda a que todo o animal ou planta é povoado por comunidades microbianas numerosas e variadas, com as quais vivem em simbiose (ver p.ex. aqui), não é de todo um exagero afirmar que os micróbios dominam efectivamente a biosfera do planeta!


Apesar de tudo isto, o mundo dos micróbios não deixa de servir como um microcosmo que reflete a relação complexa, muitas vezes desdenhosa e problemática, da humanidade com as outras formas de vida e o mundo mais-do-que-humano em geral, corolário da visão de mundo antropocêntrica e do excepcionalismo humano herdados da modernidade ocidental (ver p.ex. aqui ou aqui) e de uma visão progressista da história da evolução (ver aqui ou aqui). Aquela relação é caracterizada por um foco histórico no medo, no controlo e numa visão da humanidade como separada e superior ao mundo microbiano, apesar da nossa profunda interdependência (ver p.ex. aqui ou aqui). O autor deste último artigo (Ramy Karam Aziz), escreve: “embora a microbiologia seja uma ciência relativamente moderna, não escapou ao antropocentrismo associado a ciências clássicas como a astronomia e a física. Desde o seu surgimento, a microbiologia tem sido associada à saúde e aos interesses humanos. O próprio nome ‘microbiologia’ reflete uma atitude antropocêntrica, implicando que, como os humanos não podem vê-los, os micróbios são menores do que o ‘normal’. Escusado será dizer que esta nomenclatura arbitrária não representa adequadamente a biosfera. A biologia é predominantemente microscópica; os seres humanos, outros animais macroscópicos e plantas de grande porte são a excepção.” Esta dinâmica é evidente em diversas áreas-chave.


Por um lado, o desenvolvimento e popularização no século XIX da teoria microbiana das doenças (também conhecida por “teoria dos germes”), que estabeleceu a relação entre micróbios específicos e determinadas doenças (infecciosas) humanas (ver p.ex. aqui), levou a avanços sem precedentes no saneamento público e na medicina, mas também fomentou uma mentalidade cultural em que todos os micróbios eram vistos como “inimigos” ou “malignos”. Esta perspectiva promoveu um medo generalizado da contaminação e um impulso para a sua erradicação total com antibióticos e anti-sépticos, levando a uma ênfase problemática na higiene que, por vezes, negligenciava os aspectos benéficos da exposição microbiana. De facto, o aumento moderno de doenças autoimunes, alergias e asma tem sido associado, em parte, à “hipótese da higiene” – a ideia de que a falta de exposição a diversos microrganismos no início da vida prejudica o desenvolvimento adequado do sistema imunitário humano (ver p.ex. aqui ou aqui). A procura humana por um ambiente estéril enfraqueceu inadvertidamente a nossa própria diversidade microbiana, assim como a ambiental, levando a novos problemas de saúde. Um terceiro aspecto prende-se com a visão utilitarista dominante e com o facto de os humanos categorizarem frequentemente os micróbios em categorias simplistas de "bons" (por exemplo, usados na indústria alimentar e farmacêutica ou componentes do microbioma humano) ou "maus" (patogénicos), ignorando muitas vezes a vasta maioria da vida microbiana que contribui para processos ecológicos essenciais, sem impactar diretamente a saúde humanas ou as suas actividades produtivas. Esta visão antropocêntrica reflecte uma tendência mais ampla para valorizar a natureza apenas em termos da sua utilidade directa ou ameaça para a humanidade (ver p.ex. aqui).


É importante realçar que esta visão enviesada dos micróbios se manifesta também no interior das próprias ciências biológicas, que reproduzem uma hierarquia de relevância herdada de visões de mundo anacrónicas que há muito deveriam ter sido erradicadas do pensamento científico, alegadamente objectivo e racional – ver p.ex. aqui ou aqui. Para muitos biólogos – principalmente zoólogos e alguns botânicos – os micróbios são os parentes pobres da biodiversidade (ver p.ex. aqui). Dois microbiólogos norteamericanos – Carl Woese, que propôs a divisão dos seres vivos em três grandes filos ou domínios (Bacteria, Archaea e Eukarya), e Lynn Margulis, que propôs a origem dos eucariontes a partir de eventos simbióticos entre e com bactérias (hipótese simbiogénica), ambos na década de 1970 (ver aqui e aqui) – foram, na altura, duramente (e injustamente) ridicularizados pelos seus colegas, tendo as suas ideias sido amplamente aceites apenas nas décadas seguintes com a acumulação de fortes evidências experimentais que comprovaram a validade das suas propostas, passando então a figurar em qualquer tratado de biologia.


A nossa visão distorcida do mundo microbiano, aliada a uma maior dificuldade técnica na sua identificação e quantificação (quando comparada com animais e plantas), resultou num conhecimento mais incompleto sobre a sua biologia e ecologia (ver aqui). De facto, apenas nas últimas décadas, com os grandes desenvolvimentos e expansão das técnicas de análise molecular (RNA e DNA), incluindo a metagenómica (ver aqui), tem sido possível desvendar o papel dos micróbios em diferentes ecossistemas, assim como a diversidade e sofisticação das relações que estabelecem entre si, bem como com animais e plantas, e como dependem e reagem aos factores abióticos. Esse manancial de novo conhecimento pode ajudar a ultrapassar o nosso viés antropocêntrico, contribuindo para visões mais biocêntricas dos micróbios, não só como parentes e companheiros, mas também como mestres e aliados.


Esse é o desafio lançado por exemplo por Ramy Karam Aziz, no artigo já citado, onde defende o abandono da abordagem antropocêntrica por uma visão biocêntrica que contribua para uma melhor compreensão da patogénese microbiana e da sua evoluação, convidando a “pensar como um micróbio”. Aziz considera que: “Classificar os micróbios em amigos ou inimigos, úteis ou nocivos, impede-nos muitas vezes de reconhecer o principal objetivo de cada micróbio, que não é diferente do objetivo principal de qualquer outro organismo: a sobrevivência. Os micróbios associados ao hospedeiro humano, incluindo os agentes patogénicos intestinais, fazem o que for necessário para se adaptarem ao seu nicho, defenderem-se do sistema imunitário e atingirem a máxima disseminação.” Num tom mais sarcástico, escreve: “Um estilo de vida bacteriano patogénico, do ponto de vista bacteriocêntrico, não deve ser considerado diferente do comportamento de uma colónia de Homo sapiens a acampar numa floresta, explorando alguns dos recursos florestais e deixando resíduos que causam danos a esse habitat. De facto, o estado atual do ambiente global qualifica os humanos como os principais agentes patogénicos do planeta Terra. Apenas como exemplo entre muitos, os humanos foram recentemente descritos como agentes co-patogénicos dos recifes de coral.


Uma abordagem semelhante foi adoptada por Rachel Armstrong neste artigo, onde defende que enfrentar a crise ambiental exige uma mudança de mentalidade, passando de uma abordagem extractiva e antropocêntrica para uma colaboração com a inteligência dos micróbios, que considera como agentes activos, em vez de recursos passivos, com os quais temos muito a aprender. Armstrong defende a adopção de “pedagogias microbianas” e de reformas políticas, como as Avaliações de Impacto Microbiano, para alinhar os sistemas humanos com a lógica regenerativa e simbiótica do mundo microbiano. A autora considera que: “Para colaborarmos verdadeiramente com os micróbios — agentes activos em vastos ecossistemas interdependentes — devemos adoptar uma perspectiva sistémica que reconheça os seus papéis, relações e respostas dentro de redes ecológicas mais vastas. O seu potencial emerge da cooperação, não do controlo.” Armstrong afirma ainda: “Não somos apenas descendentes de micróbios; somos compostos por eles, os nossos corpos em constante negociação com os seus parentes ancestrais. Esta genealogia comum desafia mais do que a biologia.” E conclui: “o desafio é ético: porque rejeitamos o parentesco com os micróbios enquanto hospedamos os seus descendentes dentro das nossas células? Se víssemos os micróbios como antepassados em vez de invasores, como poderíamos repensar a medicina, a agricultura ou a educação? As redes micorrízicas sob as florestas não questionam o seu parentesco com as árvores — agem como parentes. Talvez a verdadeira lição do tempo profundo não seja de onde viemos, mas como lhe pertencemos.


Em última análise, a interação humana com o mundo microbiano serve como uma poderosa metáfora para uma relação com a natureza definida por um desejo de domínio, uma falta de compreensão holística e uma falha em apreciar as intrincadas interdependências que sustentam toda a vida na Terra. E estas lacunas têm consequências práticas – como afirma Armstrong: “As consequências dos nossos enviesamentos cognitivos são materiais. Os solos degradados da agricultura industrial — desprovidos de parcerias microbianas — reflectem a disbiose nos nossos próprios intestinos, ambos vítimas de uma visão do mundo que valoriza a extracção em detrimento da reciprocidade.” Em alternativa, podemos adoptar um posicionamento escutador, acompanhante e simpoiético. A compreensão da interdependência microbiana convida-nos a uma humildade mais profunda: não somos senhores da vida, mas participantes de uma teia de relações que nos sustentam. Reconhecer isto pode transformar a medicina, a ecologia e a ética, para além da própria biologia, fomentando um futuro onde o florescimento humano esteja alinhado com a prosperidade de todas as formas de vida, incluindo a dos nossos parentes e companheiros microbianos.


* O termo bactéria é aqui usado como sinónimo de procarionte, ser (maioritariamente) unicelular sem núcleo diferenciado, mas que inclui na verdade dois dos três principais ramos evolutivos da vida celular: as bactérias (inicialmente designadas por eubactérias, constituindo o domínio Bacteria) e as arqueias (ex-arquebactérias, domínio Archaea). O terceiro ramo (Eukarya), inclui todos os eucariontes (seres celulares com núcleo diferenciado): protozoários, microalgas, fungos, assim como animais e plantas. Os vírus, não sendo constituídos por células mas sendo parasitas intracelulares, são também considerados micróbios.

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