quinta-feira, 17 de novembro de 2022
O ‘Mundial da vergonha’ no Qatar
sexta-feira, 11 de novembro de 2022
Perdoar e esquecer o pandemónio?
Um artigo de opinião da profª de economia norteamericana Emily Oster no The Atlantic propõe uma 'amnistia' para apaziguar os ânimos das contendas mais extremadas sobre a validade e consequências das medidas de mitigação da pandemia:
(…) We have to put
these fights aside and declare a pandemic amnesty. We can leave out the willful
purveyors of actual misinformation while forgiving the hard calls that people
had no choice but to make with imperfect knowledge. (…) The standard saying is
that those who forget history are doomed to repeat it. But dwelling on the
mistakes of history can lead to a repetitive doom loop as well. Let’s
acknowledge that we made complicated choices in the face of deep uncertainty,
and then try to work together to build back and move forward.
Mas acabou por ter o efeito contrário - e os que criticaram a sua alegada postura conciliatória têm razão: aqueles que sofreram na pele a discriminação e ostracização social durante quase três anos não podem simplesmente 'perdoar e esquecer' o que aconteceu apenas porque não se sabia tudo e foi preciso agir por precaução, e porque agora é tempo de avançar e não de cultivar rancores. O que seria necessário era garantir que o que sucedeu durante a pandemia não voltasse a suceder perante outra crise. Mas o que se viu com a guerra na Ucrânia foi novamente a censura e a diabolização de quem tem questionado a narrativa oficial propalada por governantes e media – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui.
Charles Eisenstein: https://charleseisenstein.substack.com/p/amnesty-yesand-here-is-the-price
(…) Let us
inaugurate an era of accountability based in transparency rather than
punishment. The invisible workings of the Covid machine must be laid bare if we
are to prevent something similar from happening again. People and institutions
must become cognizant of the role they played in the social catastrophe that
was Covid. I will support amnesty when universities admit that they coerced
young people to take unnecessary and dangerous vaccines. I will support amnesty
when Pfizer describes how it manipulated data to get its shots approved. I will
support amnesty when regulators confess that they allowed shoddy vaccine
manufacturing processes to proceed without oversight. I will support amnesty
when medical boards and hospitals acknowledge that they expelled doctors for
using beneficial therapies. I will support amnesty when the FDA admits that it
removed helpful drugs from the market. I will support amnesty when social media
platforms acknowledge that they censored important, true information. I will
support amnesty when fired workers are reinstated with back pay. I will support
amnesty when the state of Rhode Island reinstates my wife as a licensed
acupuncturist. I will support amnesty when the government acknowledges vaccine
damage and compensates the victims. I will support amnesty when regulatory
agencies are freed of corporate influence. I will support amnesty when vaccines
are subjected to long-term, robust scientific study to determine safety and
efficacy. I will support amnesty when mainstream media gives attention to the
dissidents and whistleblowers it has ignored and ridiculed. I will support
amnesty when brave, conscientious doctors like Peter McCullough and Meryl Nass
are reinstated by professional organizations and medical boards. I will support
amnesty when a moratorium is declared on genetically engineered bioweapons
research, and its full extent made transparent to the public. These are the
kinds of things that would have to happen for me to trust that amnesty wouldn’t
mean license to repeat the crimes, again with the excuse of “We didn’t know.”
Vinay Prasad: https://vinayprasadmdmph.substack.com/p/pandemic-accountability
The COVID-19
pandemic resulted in many bad policies being implemented. We need
accountability so that we never institute these policies again. Let me
enumerate some structural solutions (…)
Eugyppius: https://www.eugyppius.com/p/emily-oster-proposes-a-pandemic-amnesty
(…) Emily Oster’s
latest act of moderation is the suggestion that we forgive and forget all the
disastrous policies inflicted on us by terrified wealthy urbanites, clueless
technocrats and mad scientist vaccinators since 2020, because, hey, these were
just honest mistakes, anybody could’ve messed up like that, it’s all good.
Madhava Setty: https://childrenshealthdefense.org/defender/covid-pandemic-amnesty-accountability/
(…) Yes. We do
need to forgive each other in order to move forward — but that will be possible
only if we take full account of the mistakes that were made and come to an
understanding of why so many people made them. Sadly, Oster isn’t interested in
this level of inquiry and the editors at The Atlantic aren’t either. What
happened over the last two-and-a-half years was reprehensible, and her attempt
to get to the bottom of things is fanning the flames of fury among those whose
lives were destroyed by ad hominem attacks, de-platforming, delicensure,
demonetization, demonization and debilitating vaccine injuries. (…) She’s right
about one thing. Getting things wrong during a time of uncertainty was not a
“moral failing.” The moral failure occurred whenever people in her position of
uncertainty ruthlessly attacked anyone who happened to get it right…
Já no final de 2020 (aqui) me tinha recusado a aceitar a expressão 'um ano para esquecer' - e reitero-o agora, repudiando as tentativas de banalizar e branquear a engenharia social que foi imposta a reboque do pandemónio. Considero particularmente gravosos os seguintes factos: a forma brutal como foram demonizadas as pessoas que se recusaram a vacinar-se, assim como outras medidas, incluindo chantagem emocional e psicológica, para incentivar a vacinação; a imposição de certificados e passes sanitários, quando já se sabia que as vacinas não preveniam a transmissão. Aproveito para recordar os posts onde manifestei a minha indignação, dando voz a muit@s d@s que questionaram a narrativa dominante e a propaganda permanente - em 2021 (aqui e aqui) e em 2022 (aqui).
quinta-feira, 10 de novembro de 2022
COP27: cantando a mesma cantiga desde 1995
- A crise climática é o maior desafio da humanidade
- É urgente estancar o aquecimento climático
- Esta cimeira é fundamental para colocar o mundo no rumo da neutralidade carbónica
- É imperioso deixar um planeta saudável para as próximas gerações
- O mundo deverá descarbonizar com urgência
- Precisamos de assumir compromissos concretos e ambiciosos
- Líderes mundiais devem estar à altura da emergência climática
- A janela de tempo para fazer a transição energética está a fechar-se rapidamente
- Só temos esta década para implementar uma acção climática eficaz
- O mundo está a arder
Presumo que muitas destas frases serão familiares por terem vindo a ser repetidas e transcritas pelos media, ano após ano, por ocasião das conferências anuais das Nações Unidas dedicadas ao Clima – conhecidas por COP – e que se iniciaram em 1995 (ver aqui). Está a decorrer até ao dia 18 de Novembro mais uma COP – a #27 – no Egipto (ver aqui ou aqui). Lamentavelmente, já se percebeu que as COPs servem essencialmente para gastar rios de dinheiro (e gerar toneladas de CO2 e de lixo) na organização de um evento que não está à altura do desafio da crise climática e que deixa tudo quase na mesma - rumo à catástrofe anunciada pelo painel de peritos (IPCC) patrocinado pela própria ONU (ver p.ex. aqui) ou por avisos sucessivos de cientistas mundiais (como aquele que foi publicado no final de Outubro). Como escreveu Daniel Tanuro em 2019, antes da COP25: "Da COP1 à COP24, os governos empenharam-se sobretudo em arranjar forma de não reduzirem as suas emissões, ou de as fazer reduzir aos outros, ou de fingir que as reduzem, deslocalizando-as, ou de conseguir novos mercados para compensar o seu compromisso em reduzi-las de forma homeopática, ou de fazer adotar a ideia absurda de que não abater uma árvore equivale a não queimar combustíveis fósseis.” E eu acrescento que o enfoque da discussão em volta dos balanços de carbono é perigosamente redutor, pois sabemos não só que a crise ambiental é bem mais profunda (ver p.ex. aqui), como também que a sua raiz está no modelo económico global que (quase) ninguém que se senta à mesa das negociações ousa sequer propor mudar (escrevi sobre isto aqui e aqui).
Este ano a COP27 padece de diversas agravantes: decorre numa famosa estância turística à beira do Mar Vemelho, num país que reprime dissidentes e protestos, e conta com patrocínios de corporações como a Coca-Cola ou a Microsoft, o que já lhe valeu acusações de ‘greenwashing’ e os cancelamentos de participação de figuras mediáticas, como Greta Thunberg e outr@s activistas – ver aqui, aqui ou aqui. Ao contrário das COPs anteriores, não haverá portanto cimeiras alternativas ou protestos no local – embora estejam previstas manifestações noutras partes do mundo, incluindo Lisboa (ver aqui). Ironicamente e apesar dos patrocínios, os conferencistas têm-se queixado da escassez de água e de alimentos no recinto da COP!
Apesar de tudo, os ‘líderes’ mundiais continuam a proferir as mesmas frases dramáticas nos seus discursos empolgados, talvez para encobrir a sua própria incapacidade ou impotência para lidar com a catástrofe em curso. António Guterres afirmou, numa mensagem vídeo enviada aos conferencistas: “No momento em que arranca a COP27, o nosso planeta está a enviar um sinal de sofrimento”, acrescentando: “Devemos responder ao sinal de alarme do planeta com ações climáticas ambiciosas e credíveis. A COP27 é o lugar e o momento para o fazer.” Numa entrevista ao jornal The Guardian, advertiu: “continuamos a alimentar o nosso vício em combustíveis fósseis. Perante isto, temos uma de duas opções: ou a ação coletiva, ou o suicídio coletivo.” E no seu discurso na abertura da cimeira, disse: “Estamos numa auto-estrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador.” Por sua vez, Ursula van der Leyen ripostou no 3º dia da cimeira: “Não vamos pela auto-estrada que nos leva ao Inferno, tiremos um bilhete limpo que nos leva ao Céu”, enquanto Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, prometeu: “vamos [UE] continuar a ser campeões da acção climática.”
Como escrevi há um ano a propósito da COP26, “Desde a aprovação do ‘Acordo de Paris’ em 2015, os governos dos diferentes países tentam, sem êxito, negociar as estratégias concertadas e os meios necessários para cumprir as metas de redução de emissões. No entanto, como continuam a tentar fazê-lo sem mudar o paradigma económico global [baseado no crescimento permanente da produção e do consumo] e sem integrar as outras dimensões interligadas da crise ecológica (…), é natural que as emissões tenham continuado a aumentar, apesar de uma ligeira redução durante o ano 2020 devido [ao impacto das] medidas de mitigação da pandemia da Covid-19 [na actividade económica]”. Desde então assistiu-se a retrocessos na transição para energias ‘verdes’ na Europa, a reboque da guerra na Ucrânia (ver p.ex. aqui ou aqui), assim como a novas demonstrações de hipocrisia por parte das instituições financeiras que afirmam querer contribuir para a mitigação da crise climática, algumas das quais tendo abandonado ou ameaçado abandonar a coligação Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ) criada em 2021 na COP26 por temerem as repercussões legais (e financeiras) de não cumprir os seus compromissos (ver aqui ou aqui). O resultado foi o recuo das ambições da GFANZ que anunciou que não irá cumprir as metas da campanha ‘Race to Zero’ da ONU.
Por outro lado, as ameaças das soluções tecnológicas promovidas pelo ‘capitalismo verde’ têm sido acertadamente denunciadas pela sua ineficácia ou por serem contraproducentes, em particular por sectores da ‘esquerda’ (ver p.ex. aqui), que defendem, por sua vez, um papel mais activo dos Estados na promoção de investimentos de vulto na chamada ‘transição verde’ ou na regulação do investimento privado, para cumprir as metas climáticas. No entanto, parecem querer ignorar que a maioria dos Estados foi capturada pelo poder económico e pela mercantilização global, que promovem a desregulação e o caos climático. Aqueles mesmos sectores defendem também que os países ricos devem compensar as ‘economias emergentes’ dos países do sul global, através por exemplo de mecanismos de ‘perdas e danos’, discutindo os montantes das verbas a alocar, como se tudo se resolvesse atirando milhões de euros ou dólares aos problemas. A justiça climática é indispensável - e podia começar com o anulamento das dívidas dos países mais frágeis do sul global - mas deverá envolver outras formas de solidariedade que não se traduzam (apenas) em cifrões.
Enfim, resta pouca esperança de não se repetir o desalento que se seguiu à COP anterior em Glasgow, alcunhada de FLOP26, sarcasticamente documentado pelo comediante britânico Tom Walker (aka Jonathan Pie). A comunidade internacional que se reúne anualmente para as COP parece-me assemelhar-se cada vez mais à banda que continuou obstinadamente a tocar à medida que o Titanic mergulhava nas águas gélidas do Atlântico Norte.
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| © Clarisse Albertini / Reporterre |
P.P.S. Uma análise da lista de conferencistas registados na COP27 mostrou que o lóbi das indústrias de combustíveis fósseis está presente em força, superando o número de representantes daquelas indústrias o de membros de qualquer das representações nacionais (excepto a dos Emiratos Árabes) - ver aqui.
terça-feira, 25 de outubro de 2022
Parrésia: confrontar o poder falando verdade
Os outros dois exemplos que seleccionei são de parresiastas que agiram individualmente. O primeiro refere-se ao depoimento da jovem activista climática britânica Mikaela Loach que aproveitou um convite para participar num evento patrocindado pela Fundação Gates - a BMGF Goalkeepers Award Ceremony 2022 – para denunciar o contributo dos bilionários e do capitalismo para a crise climática, bem como o papel do filantrocapitalismo no ‘greenwashing’ das suas próprias iniciativas – vídeo aqui e comentário aqui. O segundo refere-se a depoimentos recentes da eurodeputada irlandesa Clare Daly em sessões do Parlamento Europeu, nos quais denunciou a hipocrisia e incitação à guerra por parte da União Europeia e dos EUA/NATO, que lhe valeram acusações de propagandista pró-russa e anti-europeísta – ver vídeos aqui e aqui.
A coragem, a integridade e a coerência são três das facetas mais notáveis que caracterizam os parresiastas, conseguindo assim abalar a impunidade dos poderosos e vencer o conformismo social, inspirando outros a fazer o mesmo – ver p.ex. aqui. Os autores deste artigo, que enaltecem a parrésia como uma ética radical, afirmam: “Only through the extreme courage to pursue, continually and not exceptionally, our own and always singular ethos that gives content to an alternative form of life, outside the laws of scientific, philosophical and prophetic truths, can we–perhaps–slay the Hydra of impunity.”No entanto, a parrésia não é isenta de perigos, nomeadamente os da apropriação ou desvirtuação pelo próprio sistema de poder, acabando por servir a sua perpetuação. Um exemplo recente é o da jovem poetisa afroamericana Amanda Gorman, cuja eloquência na defesa e na afirmação de comunidades discriminadas ou oprimidas socialmente lhe valeu rasgados elogios vindos dos sectores mais progressistas da sociedade norteamericana, tendo sido escolhida para ler um poema seu na tomada de posse do presidente Biden em 2021 – ver p.ex. aqui ou aqui. Apesar da aclamação e celebridade que se seguiram, as suas decisões de dar corpo a campanhas publicitárias de grandes corporações internacionais ou a reportagens em revistas de moda valeram-lhe acusações de oportunismo e de colaboracionismo com o sistema que alega criticar – ver p.ex. aqui ou aqui. Em sua defesa, Gorman tem afirmado que tem consciência das potenciais incoerências da exposição mediática, mas que esta serve a sua causa de lutar contra a injustiça social e que tenciona mesmo candidatar-se à presidência dos EUA. Há quem desconfie que a sua ousadia se terá transmutado em deslumbramento e hubris. Uma outra aclamada escritora de origem nigeriana – Chimamanda Adichie – cuja obra celebra o poder das histórias na afirmação e emancipação social das mulheres africanas, foi recentemente convidada para a mesma cerimónia a que me referi acima a propósito da jovem parresiasta Mikaela Loach. Só que na conversa que teve com a bilionária Melinda Gates (ver aqui), não se vislumbra uma atitude parresiástica; antes pelo contrário, fiquei boquiaberto ao ouvir a escritora elogiar as iniciativas da Fundação Gates nos países mais pobres em todo o mundo, incluindo a África. A incoerência é tão gritante que tenho de dar razão ao discurso radical de Onyesonwu Chatoyer no artigo citado acima, no qual faz uma crítica devastadora a várias mulheres de origem africana (incluindo Gorman) cuja ascensão a lugares de poder ou de visibilidade na sociedade norteamericana não tem afinal confrontado ou posto em causa o sistema supremacista, imperialista e neocolonialista dos EUA.
P.S. Após publicação deste post recebi uma amável resposta de uma leitora que partilhou um escrito de 2013 sobre o mesmo tópico (invocando a personagem parresiástica de Casy no filme 'As vinhas da ira' de John Ford), do qual extraí a seguinte frase: "O parrésico não diz em nome de Deus, da sabedoria ou da técnica. Diz em nome de um ethos, a sua relação com a verdade é fundamental e dizê-la é um dever perante os outros [e, acrescento eu, em particular, perante o poder opressivo e desumanizante] e perante si próprio."
P.P.S. Já tinha escrito anteriormente (aqui e aqui) sobre outros casos de parresiastas que sofreram consequências mais gravosas pelos seus actos corajosos de defesa da liberdade de informação ou de expressão, ou de defesa dos seus territórios e modos de vida.
terça-feira, 30 de agosto de 2022
Uma azinheira em Monsanto
(Este post resultou de uma investigação-criação para o festival Pedras’22 do c.e.m-centro em movimento)
Todo o conhecimento cósmico é um ponto de vida (e não apenas um ponto de vista), toda a verdade é o mundo no espaço de mediação do vivente. Nunca se poderá conhecer o mundo enquanto tal sem passar pela mediação de um vivente. Emanuele Coccia (A vida das plantas, 2018)
Vegetar é crescer em contiguidade com o mundo, coabitar lugares, aderir e fazer espaços, engajar-nos com aquilo que nos circunda – ou, antes, nos atravessa. Criar raiz e lançar sementes. In: Vozes Vegetais, J. Cabral de Oliveira et al. (2021)
De há uns anos a esta parte tenho reflectido sobre o papel que a nossa relação com o mundo-mais-do-que-humano (a que chamamos muitas vezes ‘natureza’) desempenha nas visões que construímos sobre o mundo que habitamos e no modo como gerimos as sociedades em que vivemos (ver p.ex. aqui ou aqui). Muitos outros se têm debruçado sobre esta temática, desde filósofos a naturalistas e activistas, e já invoquei por diversas vezes as suas vozes ou os seus escritos (ver p.ex. aqui ou aqui). Tenho levado algumas dessas reflexões para a minha colaboração com o c.e.m-centro em movimento, em particular para as ‘conversas transpensar’ que decorreram às 2ªs-feiras à tarde entre Outubro de 2021 e Junho de 2022. Em paralelo, iniciei no final de Abril uma série de incursões no Parque Florestal de Monsanto com a intenção de desenvolver uma proposta para o festival Pedras’22. Aquele parque florestal é um excelente exemplo de simpoiese (tema de post anterior) na medida em que o que nos é dado ali a apreciar e vivenciar no presente é o resultado de um processo de cocriação entre humanos e e não-humanos: em particular, as plantas, mas também alguns animais e ainda muitos fungos e bactérias. De facto, a maioria das árvores de grande porte que ali encontramos resultaram de um processo de reflorestação que se iniciou no final da década de 1930 (ver p.ex. aqui e aqui). O processo prolongou-se até ao final dos anos 1940 e partir daí seguiram-se décadas de gestão florestal activa com novas plantações (essencialmente espécies autóctones), mas também de renovação natural, acentuando as características de bosque mediterrânico, que conferem ao parque um carácter de floresta silvestre.
Nota 1: o texto deste post teve por base os seguintes posts que escrevi para o blogue do Pedras’22: https://pedras22.wordpress.com/2022/06/03/demora-sob-a-azinheira-caramanchao-1/ ; https://pedras22.wordpress.com/2022/06/07/demora-sob-a-azinheira-caramanchao-2/; https://pedras22.wordpress.com/2022/06/17/demora-sob-a-azinheira-caramanchao-4-cegueira-botanica/
Nota 2: o processo de investigação-criação culminou com um evento para o festival Pedras’22 (Tarde no campo, 28 Jun), preparado em colaboração com a historiadora Teresa Castro e que incluiu um piquenique no pinhal, uma caminhada e uma conversa à sombra da azinheira-caramanchão – ver este post do blogue do festival.
Fotos: Álvaro e Marcin (ver fotos adicionais disponíveis nos posts citados na Nota 1)
domingo, 31 de julho de 2022
Época de incêndios: desvarios e milagres
| Rescaldo do incêndio em Palmela (Jul 2022) |
El éxodo rural, los cambios
socioeconómicos y el cambio climático facilitan una acumulación inmensa de
combustible vegetal listo para arder con intensidades y velocidades nunca
vistas. Antes vivíamos del bosque; ahora nos defendemos de él. Marc Castellnou e Alejandro García
No caso de Portugal, Espanha e
França, 98% dos incêndios são precocemente extintos, mas os 2% restantes são
responsáveis por 95,4% da área ardida. A conclusão é cortante como uma lâmina:
para evitar incêndios devastadores nas condições especialmente hostis das
alterações climáticas, a chave está no ordenamento e não no combate. Viriato Soromenho Marques
Um país cronicamente incapaz de
prevenir fogos ao longo de décadas, vira-se agora com ferocidade contra a
primeira vítima do fogo, a natureza, que por ser combustível e arder, tem que
ser eliminada, mesmo que sejamos nós, incauta ou criminosamente, a atear 99 %
dos fogos – se não houver vítima, não pode haver agressor ou agressão; se não
houver combustível, não há combustão. Maria José Castro
À medida que o mundo rural da
agricultura familiar se tornou o bastardo rejeitado por interesses económicos e
políticos e o eucalipto se expandiu, os fogos tornaram-se, para alguns, uma
lucrativa “indústria” de milhões. Maria Carolina Varela
Com a recente onda de calor, regressou o triste e trágico espectáculo mediático do flagelo dos incêndios, acompanhado do habitual rol de meios usados no ‘combate às chamas’, dos estragos directos (para os humanos) e dos hectares ardidos - quando, na verdade, os parâmetros mais relevantes para mostrar a real magnitude dos incêndios seriam a sua velocidade de propagação e a energia emitida (ver p.ex. aqui ou aqui). E por atacado vem a estupefação e consternação pelas tragédias humanas, que alimentam o sensacionalismo e voyeurismo doentios amplificados ad nauseam pelas TVs. Mas raramente leio ou ouço menção às espécies vegetais e animais perdidas ou à destruição de ecossistemas e aos anos que demorará a sua recuperação - se é que será possível... Timidamente, surgem menções à conexão entre as vagas de calor e a mudança climática (antropogénica), potenciadora do que já foi apelidado como o Piroceno (ver aqui ou aqui), mas muito poucas às causas profundas dos recorrentes mega-incêndios, como a calamitosa gestão do território florestal e rural pelos sucessivos governos (nacional ou locais) ou a trágica desertificação humana do interior. O título de um recente artigo de opinião no Público (‘Continuamos a apagar fogos’) deixou-me esperançoso, mas o seu conteúdo frustrou as minhas expectativas. Pelo contrário, o artigo da engenheira silvicultora aposentada Maria Carolina Varela no jornal i enumera os múltiplos interesses que beneficiam dos incêndios (indústria madeireira, celuloses e empresas de prevenção e combate) e desconstrói algumas das falácias mais recorrentes: os eucaliptais das celuloses não ardem, outras espécies florestais são igualmente pirófilas, os matos e o abandono do minifúndio disperso são os culpados. Diversas vozes vêm aliás alertando para a necessidade de apostar num mosaico florestal que evite as extensas monoculturas de pinheiro ou eucalipto – que muitos insistem perversamente em apelidar de ‘florestas’ (ver aqui ou aqui). Mas os poderosos interesses instalados, incluindo o lóbi das celuloses, conseguem cooptar académicos e especialistas que defendem o seu modelo de gestão florestal (ver p.ex. aqui).
Em 2017, em artigo de opinião numa publicação digital sobre cultura (Comunidade Cultura e Arte), que permanece apenas disponível aqui, Pedro Santos discorria sobre os verdadeiros incendiários que opinam a partir das urbes – excertos: O fogo que arde em Lisboa, nas redações dos principais jornais, revistas e televisões do país, propaga-se na voz de gente que já não sai de Lisboa. Que não conhece o país. Que não tem qualquer ligação ou empatia com o modo de vida rural, com as suas práticas. Mas que dirige os principais meios de comunicação do país. (…) [Os incendiários que querem bodes expiatórios para culpar] São os mesmos que escarnecem das lutas de ambientalistas e ativistas. Que se riem de quem tenta falar contra os esquemas das barragens inúteis que vão destruir os nossos rios e encarecer a fatura da eletricidade; que se riram quando houve oposição ao fecho de linhas de caminho de ferro no Tua, no Corgo, no Tâmega, por esse Alentejo fora; que se riem quando se fala em Proteção da Natureza; que acham bem que se tenha acabado com Guardas Florestais e Guarda Rios; que ignoram as lutas contra a exploração de gás natural e petróleo; que propagam os mitos da agricultura intensiva, de um Alqueva em cada esquina ou de um fábrica de pasta de papel em cada região. O autor conclui que cabe aos cidadãos tomar nas suas mãos a responsabilidade de criar as condições para pôr fim à calamidade recorrente dos incêndios. Também em 2017 (ver aqui), António Dores destacou vários dos aspectos referidos atrás, assim como outros que refiro adiante, e, perante a incapacidade do Estado em lidar com as raízes do problema, defendia uma mudança de regime político baseada na auto-organização territorial das suas populações, enumerando algumas das diversas organizações da sociedade civil que, desde 2017, têm promovido iniciativas de reflorestação no território nacional (ver nota 1 no final do post).
| Foto de capa do jornal Público de 16 Out 2017 |
Desvarios
Apesar dos apelos de organizações ambientalistas, quer em Portugal, quer em Espanha, a profundas mudanças nas políticas florestais (ver p.ex. aqui, aqui e aqui), o primeiro-ministro continua a enjeitar responsabilidades do governo na (má) gestão florestal, admitindo a incapacidade de resolver o problema dos incêndios e transferindo essa missão para os cidadãos. Fê-lo em 2017, garantindo que o país continuaria a arder (ver p.ex. aqui) - o que de facto tem acontecido! -, e voltou a reforçar este ano que a “responsabilidade de evitar a ocorrência de incêndios” é dos portugueses, tendo decretado estado de contingência com restrições de múltiplas actividades, mas reafirmando que o Estado não é “segurador universal” e não tem que compensar eventuais impactos negativos das medidas (ver p.ex. aqui). Pior ainda, os seus governos têm decretado medidas avulsas de eficácia duvidosa, nomeadamente: a cega ‘limpeza dos matos’ imputada aos proprietários, que resultou em aberrações de extermínio da biodiversidade vegetal e no agravamento da perda de humidade e da erosão dos solos (ver p.ex. artigo de opinião da professora universitária Maria José Castro); as reflorestações promovidas por grandes empresas, com critérios duvidosos na seleção das árvores plantadas; ou a recente proibição de usufruto de espaços florestais e de jardins(!), alegando que a presença de pessoas constitui risco de incêndio (ver p.ex. aqui)! É verdade que muitas ignições ocorrem por incúria, devido p.ex. a queimadas, mas a presença de pessoas naqueles espaços pode ajudar no alerta precoce, que evita que um fogo possa tomar proporções incontroláveis, não deixando também campo aberto aos incendiários que são responsáveis por muitas outras ignições.
Por outro lado, têm sido gastos milhões de euros na prevenção (lembram-se do tristemente famoso SIRESP?) e no combate aos incêndios (bombeiros e meios aéreos). É sempre mais simples (e menos arriscado) para os decisores políticos tentar mitigar os estragos do que actuar sobre as causas sistémicas - vê-se isso há anos na questão dos fogos e viu-se também na gestão da pandemia. É bom para a sua imagem e assim protegem os interesses instalados em vez de defender o verdadeiro interesse público. Nem mesmo o ‘presidente dos afectos’ consegue exercer uma eficaz magistratura de influência nesta matéria e, apesar de imparável nas suas deslocações e declarações, as suas boas intenções ficam-se pelas selfies e os abraços. Tudo isto é lamentável (mas não inesperado), tanto mais que vários indícios de corrupção ou de conluio criminoso têm vindo a lume, denunciados p.ex. em reportagens jornalísticas de 2017 e 2018 em Espanha e em Portugal (ver nota 2 no final do post). Em Espanha assiste-se também a uma intensificação deste flagelo e o mega-incêndio de Junho deste ano (2022) gerou pelo menos forte indignação social no país vizinho (ver aqui e aqui).
| Cartoon de Vasco Gargalo (2017) |
Milagres
Perante o esperado agravamento das alterações climáticas, que gerará mais ondas de calor potenciadoras de grandes incêndios, e a incapacidade ou irresponsabilidade dos poderes públicos de travar o flagelo, será que nos resta aguardar por algum milagre que nos salve da catástrofe iminente? Felizmente, esses ‘milagres’ já estão a acontecer. Para além das iniciativas citadas na nota 1 (no final), este ano já foi possível constatar os benefícios dos projectos de restauro de vegetação autóctone, como o da Associação BioLiving que funcionou como travão na progressão do incêndio de Estarreja no início do mês de Julho – ver aqui e aqui. De facto, para aquela associação este episódio demonstra claramente a importância da floresta nativa – as chamadas ‘árvores bombeiro’ – para a segurança das populações e a necessidade de uma gestão florestal pensada à escala do território e não da propriedade, evitando as grandes extensões de eucaliptal ininterrupto.
Em 2018, escrevi um texto sobre um outro ‘milagre’ chamado Mata da Margaraça, que reproduzo a seguir para concluir este post. Faço notar que a complexidade desta questão não se limita às questões que abordei aqui e defendo (como muitos outros) que seriam necessárias políticas públicas que promovessem uma gestão bem mais sustentada do território (ver p.ex. o artigo de opinião dos engenheiros florestais espanhóis Marc Castellnou e Alejandro García, já citado), fomentando p.ex. a fixação de populações no interior ou a plantação de bosque autóctone e de folhosas de crescimento lento ('árvores bombeiras', ver p.ex. aqui).
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| Mata da Margaraça: 2017 vs. 2018 |
O 'milagre' da Margaraça
‘Onde há vida, há esperança’ foi o título que dei a um post no qual comentei várias reflexões sobre os sentimentos antagónicos de esperança e de desespero que podem surgir perante as ameaças e os desastres ambientais que enfrentamos. Mal sabia que iria encontrar, passadas umas semanas, uma confirmação inesperada daquele aforismo. De facto, no início de Agosto (de 2018) percorri algumas das áreas do país mais afectadas pelos incêndios florestais de 2017, em particular a região de Arganil/Coja, que foi palco do segundo maior mega-incêndio jamais registado em Portugal (Outubro 2017) e que teve características únicas, nomeadamente o maior fenómeno piroconvectivo alguma vez observado na Europa e o maior do mundo em 2017 (ver aqui e aqui). Pude constatar que as encostas da serra do Açor em volta da aldeia da Benfeita tinham um aspecto verdadeiramente desolador, dominadas pelos troncos queimados dos pinheiros que cobriam grande parte daquele território, deixando exposto o solo - que só não estava despido porque a Primavera de 2018 foi chuvosa e fez despontar fetos e herbáceas que deram algum tom verde à paisagem. Havia no entanto alguns pequenos ‘oásis’ em certos vales encaixados e áreas limítrofes das povoações, onde algumas árvores e arbustos tinham escapado à fúria das chamas. Um daqueles vales encaixados cuja vegetação, constituída por árvores e arbustos autóctones, sobreviveu foi o da Barroca de Degraínhos, na zona da Fraga da Pena, embora as partes mais elevadas deste acidente geológico tenham sido muito afectadas pelo fogo. Mas um pouco mais acima, a seguir à aldeia de Pardieiros, encontrei aquilo a que se pode chamar um verdadeiro milagre: a Mata da Margaraça. Trata-se de uma área de paisagem florestal protegida de rara beleza, que tenho vindo a visitar há já vários anos, e que é constituída por uma floresta mista de folhosas (castanheiros, carvalhos, ulmeiros, vidoeiros, folhados, medronheiros, azereiros, cerejeiras, azevinhos, loureiros, aveleiras e salgueiros), constituindo uma relíquia das antigas florestas que cobriam algumas das encostas mais frondosas das nossas serras do interior (ver aqui ou aqui). Os primeiros relatos dos efeitos do mega-incêndio de Arganil fizeram-me temer o pior (ver p.ex. aqui) e já me tinha tentado preparar para o impacto de um cenário desolador - que foi o que encontrei ao longo da estrada, desde Coja, até lá chegar. Mas ao aproximar-me dos limites da Mata, o cenário dos troncos de pinheiro carbonizados foi sendo gradualmente substituído por árvores cobertas de folhagem verde, cuja intensidade e extensão contrastava fortemente com o tom escuro que predominava a toda a volta. A mancha da Mata Margaraça, apesar de algumas zonas periféricas queimadas, sobressaía como um verdadeiro oásis verde no meio do deserto de troncos queimados das encostas circundantes (ver fotos acima). De facto, cerca de 60% da Mata ficou quase intacta (ver p.ex. aqui) e, pela descrição dos técnicos do ICNF (que gere aquele área protegida), o fogo avassalador que a atravessou encontrou ali um foco de resistência à sua propagação, devido às características da folhagem e ao maior índice de humidade, como se não viu em qualquer outra área de igual extensão. Algo semelhante havia ocorrido ali aquando de outro grande incêndio que afectou aquela região em 1987.
Não há melhor prova da capacidade de resistência a um mega-incêndio de características excepcionais, como o de Outubro de 2017, do que uma verdadeira floresta como a Margaraça, quando comparada com as monoculturas de eucalipto e pinheiro que ainda cobrem grande parte do território do centro do país. Infelizmente, a predominância e insistência na plantação de eucalipto (ver p.ex. aqui ou aqui), a que não é alheia a pressão do lóbi das celuloses (ver p.ex. aqui), continua a ser motivo de grande consternação e desesperança. Creio que toda a gente deste país, em particular os jovens, deveria ir ver com os seus próprios olhos aquilo que testemunhei (ver p.ex. aqui). Essa visita devia ser mesmo obrigatória para os comentadores e especialistas que insistem em ludibriar a opinião pública, tentando escamotear os efeitos nefastos das plantações de eucaliptos que alimentam as celuloses (ver p.ex. aqui ou aqui). A Mata da Margaraça é um exemplo (vivo) de que onde existe vida na sua máxima diversidade e complexidade - bem adaptada ao território e bem gerida -, existe de facto esperança. Saibamos nós retirar as conclusões dos sucessivos flagelos dos incêndios florestais para podermos vislumbrar um futuro menos sombrio do que aquele que podemos vir a ter.
Nota 1
Iniciativas de reflorestação e projectos agroflorestais
- Rede Reflorestar Portugal: https://www.facebook.com/ReflorestarPortugal/
- Aliança pela Floresta Autóctone: http://florestautoctone.webnode.pt/
- APAGAR – Aliança Para Acabar com as vaGAs Recorrentes de Fogos:
http://www.campoaberto.pt/?p=1713010
- Terracrua (Permacultura e agrofloresta): http://terracrua.org/blog/floresta-mista-e-as-populacoes-locais/
- Projecto AFINET (Redes Regionais de Inovação Agroflorestal):
https://www.tveuropa.pt/noticias/sistemas-agroflorestais-reduzem-risco-de-incendios/
Nota 2
O cartel do fogo ES (Set 2017) – ver aqui e aqui
(…) parece complicado relacionar las muertes de Pedrógão, y la superficie calcinada por incendios en Portugal y España en lo que va de año —118.000 hectáreas sólo en Portugal—, con otra causa que no sea la ineptitud política, los intereses de empresas locales o pequeños propietarios de tierras, la plantación descontrolada de eucalipto o los pirómanos. Sin embargo, todo apunta a que los fuegos que arrasan cada año la Península Ibérica se alimentan no sólo de oxígeno y madera, sino sobre todo de corrupción.
Reportagem TVI (Out 2017): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t4e25
Artigos media PT:
http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/2017-07-25-Carteis-esquemas-e-estado-dos-helicopteros.-Os-negocios-do-fogo-revelados-nesta-entrevista
https://www.publico.pt/2017/09/04/sociedade/noticia/justica-portuguesa-investiga-ramo-portugues-do-cartel-do-fogo-1784152
http://www.jornaltornado.pt/cartel-do-fogo-ou-lobbies-dos-incendios/
Entrevista a Xabier Vázquez Pumariño (biólogo) sobre o lóbi florestal da Galiza (Out 2017):
http://www.lavanguardia.com/vida/20171019/432157474162/industria-fuego-galicia-xabier-vazquez-pumarino.html
A máfia do pinhal, investigação TVI (Abr 2018): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t5e10
https://observador.pt/2018/04/13/incendio-que-consumiu-pinhal-de-leiria-foi-planeado-um-mes-antes/


















