quinta-feira, 4 de março de 2021

Confinamentos e alterações climáticas: trapalhadas mediáticas

Primeiro foi o World Economic Forum (WEF) a sugerir que os 'lockdowns' diminuiram o ruido nas cidades (permitindo até detectar sismos que passariam despercebidos) bem como os níveis de poluição e de emissões CO2:
As reacções negativas não se fizeram esperar e o WEF viu-se forçado a retirar o Twit e respectivo video (na notícia do RT falta o início, mas pode ser visto na sua totalidade na notícia da News AKMI, linkada abaixo): 
Como seria de esperar, foram invocadas ligações à agenda do 'Great Reset' (GR) e os media de direita aproveitaram para ridicularizar o WEF:
Claro que o discurso do WEF foi, no mínimo, infeliz, e a sua agenda GR deve ser repudiada por promover o tecnofuturismo insustentável, o capitalismo verde e a concentração do poder nas elites económicas (ver p.ex. aqui ou aqui). No entanto, é preciso denunciar também a agenda ideológica das críticas que defendem o regresso da vida económica às cidades sem questionar o modelo económico e de negócio que as alimenta - que é de facto não só ambientalmente insustentável, como socialmente injusto, promovendo o aumento das desigualdades e beneficiando os grandes grupos económicos e financeiros.
Menos de uma semana depois do incidente com o Twit do WEF, foi a vez do Guardian escolher um título igualmente descabido para uma notícia sobre um estudo recente publicado na revista Nature, que defende que os governos devem responder à emergência climática com a mesma determinação com que adoptaram medidas drásticas para enfrentar a pandemia (em particular, os 'lockdowns'):
Os comentários críticos, com acusações de fanatismo climático, levaram o jornal a alterar o título original, que invocava a ideia de 'climate lockdowns'. Mais uma vez, uma opção extremamente infeliz dum título acaba por deitar a perder as oportunidades para alertar simultaneamente para a ameaça existencial da crise climática e ambiental, e para denunciar a inacção ou, pelo menos, a duplicidade dos governos na forma como lidam com crises diferentes (ver também meu post anterior). Desgraçamente, quem ganha com isto são os poderes económicos e financeiros transnacionais, que saem reforçados, e quem perde são os milhões de cidadãos que sofrem as consequências directas ou indirectas, quer da crise pandémica, quer da crise climática e ambiental.
 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Amor em tempos pandémicos

“A relação com os outros e a comunidade sofre um abalo profundo. O laço social, que, mais do que na inveja e no amor-de-si, se enraíza no 'amor' ao outro (como afecto gregário da espécie), encontra-se comprometido, ameaçando romper-se.” José Gil (O medo)

As relações amorosas nos últimos anos já vinham a sofrer diversas mudanças, não só por razões de natureza cultural ou social, como também devido ao impacto das novas tecnologias de comunicação, da profusão dos dispositivos electrónicos e das redes sociais. Um ‘cartoon’ do artista Dan Perjovschi ilustra de forma simples parte destas mudanças:
Com a entrada em cena da Covid, novos constrangimentos e desafios surgiram, dando origem a variadas recomendações, guias e folhetos sobre relações e sexo seguro (ver p.ex. aqui ou aqui). A gama de sugestões vai do trivial ou exagerado, ao excêntrico ou mesmo caricato. Seleccionei apenas duas de um guia norte-americano:
- Tu és o teu parceiro sexual mais seguro. O auto-prazer não transmite a Covid-19… (You are your safest sex partner. Self-pleasure will not spread COVID-19…)
- Sê creativo nas posições sexuais e no uso de barreiras físicas, como paredes (sic!), que proporcionam contacto sexual sem exposição cara-a-cara. (Be creative with sexual positions and physical barriers, like walls, that allow sexual contact while preventing close face to face contact)
O humor tem também surgido por via das sugestões mais ridículas, como ilustrado na imagem abaixo ou na recuperação de um clip do filme ‘Demolition man’ de 1993 para ilustrar o tema do sexo na era pós-covid. As consequências mais profundas da pandemia são provavelmente bem mais sérias (vide citação no início do 'post'), mas escolhi limitar-me a uma análise mais leve e superficial - para variar! Voltarei ao meu registo habitual nos próximos 'posts'…


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Dois poemas sobre o estado do mundo

Os tempos que atravessamos, adversos e inquietantes a vários níveis (social, ambiental, psicológico, emocional), já o eram antes da entrada em cena da Covid. No entanto, a pandemia veio exacerbar certos processos e revelar outros que tornaram mais evidentes as disfuncionalidades das sociedades em que vivemos (ver p.ex. um post anterior), nomeadamente as formas de governação cada vez mais autoritárias e menos democráticas, e a influência nefasta dos media na decisão política e na manipulação da opinião pública. No que respeita à crise pandémica, sinto que é cada vez mais necessário e urgente denunciar (e resistir) não só a campanha de medo mediática que dura há mais de um ano (ver p.ex. aqui ou aqui), como também a verdadeira pandemia autoritária em curso (ver p.ex. aqui), apelidada por alguns de terror sanitário (ver p.ex. aqui). Não deveríamos tolerar a propaganda permanente que é despejada pelos media (e amplificada pelas redes sociais), sob a aparência de informação. 

Sobre este tema, recomendo o visionamento do recente documentário ‘Ceci n’est pas um complot’ do realizador belga Bernard Crutzen que, sem recorrer a teorias rebuscadas ou a argumentos ideológicos, faz um historial da evolução das narrativas mediáticas na Bélgica, com evidentes paralelismos com o que se passou noutros países: ver aqui ou aqui (versão original em francês; é possível selecionar legendas em inglês ou tradução automática em português).


Serve este preâmbulo como pretexto para partilhar dois poemas separados por três quartos de século, mas que estão claramente em diálogo e nos devolvem um olhar sobre o nosso mundo que só a linguagem poética consegue transmitir. O primeiro é do poeta bretão pouco conhecido (e mal amado)
Armand Robin (1912-1961) e do qual foi recentemente publicada uma tradução em português no número mais recente da revista Flauta de Luz:


O programa em poucos séculos (Le programme en quelques siècles; ‘Les Poèmes Indésirables’, 1945)

Vai suprimir-se a Fé

Em nome da Luz,

Depois suprime-se a luz.

 

Vai suprimir-se a Alma

Em nome da Razão,

Depois suprime-se a razão.

 

Vai suprimir-se a Caridade

Em nome da Justiça,

Depois suprime-se a justiça.

 

Vai suprimir-se o Amor

Em nome da Fraternidade,

Depois suprime-se a fraternidade.

 

Vai suprimir-se o Espírito de Verdade

Em nome do Espírito Crítico,

Depois suprime-se o espírito crítico.

 

Vai suprimir-se o Sentido da Palavra

Em nome do sentido das palavras,

Depois suprime-se o sentido das palavras.

 

Vai suprimir-se o Sublime

Em nome da Arte,

Depois suprime-se a arte.

 

Vão suprimir-se os Escritos

Em nome dos comentários,

Depois suprimem-se os comentários.

 

Vai suprimir-se o Santo

Em nome do Génio,

Depois suprime-se o génio.

 

Vai suprimir-se o Profeta

Em nome do poeta,

Depois suprime-se o poeta.

 

Vão suprimir-se os Homens do Fogo

Em nome dos Esclarecidos,

Depois suprimem-se os esclarecidos.

 

Vai suprimir-se o Espírito

Em nome da Matéria,

Depois suprime-se a matéria.

 

EM NOME DE NADA IRÁ SUPRIMIR-SE O HOMEM;

SUPRIME-SE O NOME DO HOMEM;

DEIXARÁ DE HAVER NOME;

JÁ CÁ ESTAMOS.

O segundo poema parece ter sido inspirado no de Robin e foi publicado em Novembro de 2020 pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, uma das vozes que tem colocado em causa, desde o início da pandemia, as narrativas oficiais e mediáticas (ver aqui):


Foi abolido o amor
(Si è abolito l’amore, Nov 2020)

Foi abolido o amor

em nome da saúde

depois será abolida a saúde.

 

Foi abolida a liberdade

em nome da medicina

depois será abolida a medicina.

 

Foi abolido Deus

em nome da razão

depois será abolida a razão.

 

Foi abolido o homem

em nome da vida

depois será abolida a vida.

 

Foi abolida a verdade

em nome da informação

mas não será abolida a informação.

 

Foi abolida a constituição

em nome da emergência

mas não será abolida a emergência.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Húbris by Pfizer

As imagens acima são de uma campanha publicitária da farmacêutica Pfizer (daí o TM associado ao lema) do ano 2020, durante o qual esteve a desenvolver a sua vacina para a Covid-19, e que vinha acompanhada de vídeos a condizer: ver aqui ou aqui.

Quem me conhece sabe que sou um entusiasta da(s) ciência(s) como forma valiosa de conhecimento e de deslumbramento sobre o mundo. No entanto, considero que os conhecimentos alcançados pela ciência não são suficientes para garantir o bem-estar e sustentabilidade das sociedades, e devem ser complementados pelos saberes das outras áreas do conhecimento (artes, humanidades, etc.), assim como pelos saberes vernáculos e pelo senso comum (escrevi sobre isso aqui). O que não me parece definitivamente aceitável é que uma corporação multinacional se apodere do conhecimento científico como sua propriedade, elevando-o ao estatuto de quase-religião. Esta distorção e apropriação da ciência como saber supremo é aliás apanágio dos fundamentalistas do chamado cientismo (ver p.ex. aqui) e tem servido para validar as mais diversas decisões políticas por parte de governantes. É ainda a mesma Pfizer que usa novamente "a ciência" para promover um outro slogan publicitário, ainda mais demagógico:
Muitos cientistas tornaram-se mais cautelosos nas últimas décadas e evitam este tipo de afirmações injustificadas e arrogantes, mas que têm sido igualmente usadas por filantropos menos escrupulosos (que denunciei num post anterior). Estes abusos do marketing agressivo da farmacêutica são agravados pelas notícias sobre os seus ganhos financeiros imediatos ou futuros, incluindo dos seus próprios executivos – ver aqui, aqui e aqui – e que levaram mesmo um jornalista da CNN a interrogar-se: “You thought he [CEO da Pfizer] was in it for saving lives, perhaps?”. Claro que estas alegações são extensíveis às restantes farmacêuticas, que não só receberam milhões de fundos públicos (ver p.ex. aqui) ou incentivos especiais (p.ex. a Operação ‘Warp Speed’ nos EUA) para o desenvolvimento das vacinas, como ainda exigiram protecção legal dos governos em caso de problemas de segurança (ver p.ex. aqui ou aqui). Como é dito no vídeo publicitário da Pfizer, embora sem ironia dissimulada: “When science wins, we all win.”

Notas:

1. Húbris: palavra grega cujo significado original pode ser traduzido como "tudo o que passa da medida; descomedimento" e que actualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou prepotência.

2. Para evitar ser acusado de ‘anti-vaxxer’, faço notar que não ponho em causa a utilidade das vacinas para mitigar uma epidemia viral (a varíola é o exemplo mais óbvio). No entanto, a forma apressada como estas vacinas foram autorizadas e validadas para uso massivo, as disputas e negociatas entre as farmacêuticas e com os estados, e as dúvidas e reservas colocadas por vários cientistas, não me deixam nada tranquilo nem convencido da sua eficácia, ainda para mais num clima de histerismo colectivo e de propaganda mediática que já não era propício à tomada de decisões sensatas e equilibradas.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Retomar o fio à meada

Depois de mais de 6 meses de ausência, retomo a escrita neste ‘blog’ para assinalar o final do ano 2020, que deixará muitas e variadas recordações – algumas boas, mas muitas outras, certamente, menos boas. E também saudar o novo ano 2021, que nos chega ensombrado de várias incertezas e inquietações. Embora as vicissitudes porque passámos em 2020 tenham levado muita gente a considerá-lo como um ‘ano para esquecer’ (ver p.ex. aqui ou aqui), eu, pelo contrário, considero que será um ano que dificilmente esquecerei. Creio mesmo que deveríamos tirar muitas ilações de tudo o que aconteceu se quisermos de facto mudar um rumo colectivo que há já demasiado tempo se dirige para um futuro pouco promissor.

O tema da pandemia da Covid-19 atravessou inevitavelmente os meus ‘posts’ do ano passado e estou a preparar outros que não fugirão à regra. Embora o seu impacto não tenha sido igual em todo o mundo e em todas as pessoas, a pandemia gerou debates acalorados, mas também muitas divisões e ainda mais perplexidades. Infelizmente, muitas das suas consequências mais profundas estão ainda para vir: sanitárias (agravamento de doenças não-respiratórias), económicas (desemprego, falências de pequenos negócios e empresas), sociais (aumento das desigualdades e da pobreza), ambientais (impactos negativos que poderão suplantar impactos positivos iniciais) ou psicológicas (impactos do isolamento e da ansiedade). A imagem que escolhi para ilustrar este ‘post’ chegou-me no início de Janeiro e pretende introduzir uma nota de ironia (ou, talvez para alguns, de humor negro) que me pareceu adequada para assinalar este momento de transição para aquilo que alguns já chamam a ‘era pós-covid’.

Para não fugir às habituais resoluções que acompanham esta transição do calendário, espero em 2021 retomar as escritas neste ‘blog’ com maior regularidade. Na verdade, as oportunidades para respigar nunca cessaram e continuei o meu trabalho de pesquisa nos bastidores. Conto recomeçar a partilhá-lo aqui muito em breve. Por agora, deixo uma lista de ligações para fontes de opinião e de informação sobre a pandemia que estão em contra-corrente com as narrativas oficiais e mediáticas dominantes (no final deste 'post'). Não sou ‘negacionista’ da pandemia (o vírus e a epidemia que provocou são reais e preocupantes), mas ponho em causa aquilo que considero os contornos mais sinistros e nefastos dos tempos que atravessámos: por um lado, a miopia, desproporção e insensatez das medidas de mitigação adoptadas por muitos governos (exagerando o risco e distorcendo as evidências científicas muito para lá do aceitável), e por outro, as campanhas de medo, de histerismo e de autêntica desinformação e manipulação alimentadas pelos media convencionais – em particular, a permanente (e chocante!) descontextualização dos dados sobre a pandemia e a (quase) ausência de debate aberto e de pluralismo na sua discussão. Em conjunto, estes dois aspectos transformaram uma crise sanitária numa crise social de proporções inimagináveis, cujos contornos extremamente gravosos levaram a que a apelidassem de pandemia autoritária ou de ‘scamdemic’. Prefiro pensar nela como sindemia, termo invocado pelo editor da revista científica ‘The Lancet’ para enfatizar o seu carácter sistémico (aqui), em particular a sua dimensão social, alertando para que qualquer solução puramente biomédica contra a Covid-19 irá falhar e defendendo a necessidade dos governos elaborarem políticas e programas para reverter as profundas disparidades sociais, caso contrário as nossas sociedades nunca estarão verdadeiramente protegidas contra qualquer epidemia de igual envergadura (ver também aqui ou aqui).

Fontes de informação alternativa sobre a pandemia:

Em português:

Plataforma Cidadania XXI: http://www.cidadaniaxxi.eu/ https://www.facebook.com/plataformacidadaniaXXI/

Pedro A. Vieira: https://noscornosdacovid.blogspot.com/  

Raquel Varela: https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/  

Lourdes Cerol Bandeira: https://lourdescerolbandeira.eu/  

Casa das Aranhas: https://casadasaranhas.com/  

Noutras línguas:

Canadá: https://muchadoaboutcorona.ca/

Reino Unido: https://off-guardian.org/the-coronavirus-pandemic/

https://www.contagionlive.com/disease-specific-topics/coronavirus

https://covileaks.co.uk/

https://lockdownsceptics.org/

https://inproportion2.talkigy.com/

Suiça: https://swprs.org/facts-about-covid-19/

Irlanda: https://thefatemperor.com/blog/

França: https://covidinfos.net/

Bélgica: https://www.kairospresse.be/

Itália: https://www.quodlibet.it/una-voce-giorgio-agamben 

México: https://kacevedow.wixsite.com/vidyaysatya/

terça-feira, 30 de junho de 2020

Turismo (e 'economia') über alles

A pandemia da Covid-19 ainda está para durar, pelo menos a acreditar na narrativa que os media continuam a debitar sobre as pessoas - e Portugal passou mesmo do 'bom aluno' para país 'no vermelho':
https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2020-06-18-covid-19-portugal-entre-os-paises-a-vermelho-que-precisam-de-entrar-em-acao/ https://sol.sapo.pt/artigo/699702/lisboa-com-sinal-vermelho
https://www.jn.pt/nacional/portugal-e-o-segundo-pais-da-ue-com-mais-novos-casos-nos-ultimos-14-dias-12303019.html
Segundo esta última notícia: "Nas últimas semanas, a maioria dos novos casos têm surgido na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde as autoridades de saúde adotaram uma estratégia de 'testagem massiva'." Não admira que os 'novos casos' continuem a aumentar!... Claro que faltaria explicar que pessoas contraem afinal o vírus e se têm sintomas ou se são internadas...
Em compensação, a 'economia' vai retomando e na segunda metade de Junho tivemos a notícia da reabertura dos centros comerciais, ocasião que teve até direito à benção de D. Marcelo (que foi alegadamente testemunhar o 'processo de normalização') e a uma saudação com palmas pelos trabalhadores de um famoso grande armazém, equipados com máscaras a condizer com o lema da campanha de reabertura - 'Consigo voltamos a sorrir':
https://www.noticiasaominuto.com/pais/1509405/lisboa-aplausos-na-abertura-de-centros-comerciais-e-visita-de-marcelo


Mas uma das grandes preocupações do momento é o muito desejado (por alguns!) regresso dos turistas, atendendo às quebras dramáticas nos números de visitantes e nas receitas do sector nos meses de Abril e Maio:
O que não se explica é como seria possível sustentar um aumento constante do número de visitantes, que chegou quase aos 27 milhões no ano passado, num sector que já representa quase 9% do PIB e 20% das exportações totais!...
O governo liderado por António Costa (verdadeiro 'cheerleader' da retoma económica) e os governos locais continuam a promover o turismo como monocultura, deixando sectores inteiros da economia a afogar-se - cultura, artes, pequeno comércio, feiras, bares, etc:
Segundo a lógica imbatível do PM: "Temos de proteger a nossa saúde, mas temos também de proteger os rendimentos, o emprego e as empresas e de fazer viver estes territórios, que fazem de Portugal o melhor destino do mundo e que dependem muito de haver ou não haver turistas"!...
Segundo as campanhas repetidas à exasutão, fazer turismo é bom para a economia e 'desopila':
https://www.publico.pt/2020/06/16/local/noticia/turismo-lisboa-convida-portugueses-desopilar-promocoes-1920787 


E claro que Portugal até tem estado nos 'tops' dos destinos 'mais seguros':
https://www.publico.pt/2020/06/05/fugas/noticia/madeira-acores-alentejo-algarve-top-destinos-seguros-europa-1919553
https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/portugal-foi-o-primeiro-pais-europeu-a-receber-o-selo-safe-travels
A estratégia é elogiada neste artigo que insiste na narrativa de que, por sermos 'alunos' exemplares e termos muitos prémios, vai tudo correr bem e podemos continuar a fazer a mesma coisa - só temos de passar 'um ano de caminho de pedras': https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/covidiario/2020-04-17-o-turismo-foi-a-nossa-tabua-de-salvacao-para-a-crise-mas-agora-a-tabua-esta-esburacada/
Segundo a autora: "Ao achatarmos a maldita curva de forma eficiente, ganhámos pontos para a nossa imagem internacional como País seguro, ordenado e capaz de enfrentar uma crise sanitária."
O expediente para trazer turistas ao país passa por tentar criar 'pontes aéreas', mesmo com países com taxas elevadas de infectados e mortos, como o Reino Unido (mas que pode estar em risco):
Passa também por persistentes campanhas de 'marketing' para tentar convencer os mais hesitantes e inseguros:
https://www.noticiasaominuto.com/economia/1495140/saudades-de-viajar-voos-da-tap-irresistiveis-para-as-ferias-de-verao
Uma das medidas emblemáticas da 'nova normalidade' será a reabertura às 00h do dia 1 de Julho das fronteiras entre Portugal e Espanha, com direito a cerimónia protocolar que contará com a presença dos chefes de Estado e de governo dos dois países, a fazer lembrar cerimónias de outros tempos...
Esperemos que não se esqueçam das máscaras e das distâncias regulamentares...

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O regresso da droga legal

Quem me conhece sabe que não morro de amores pelo futebol. Na verdade, é mais do que isso: tenho-lhe um 'ódiozinho de estimação'. E não é apenas pelo efeito estupidificante e alienante que ele exerce sobre as pessoas (conhecidas como 'adeptos' ou 'fãs') - basta lembrar que é o tema preferido de muitos homens (maioritariamente), que lhe dedicam horas de conversas empolgadas (e banais). O mesmo acontece nas TVs, onde ocupa tempos infindos de programação, inclusive nos serviços noticiosos, em detrimento de qualquer outro desporto e sem que ninguém se pareça incomodar ou questionar (ver p.ex. aqui ou aqui). A outra razão da minha rejeição do futebol tem a ver com a máquina de fazer dinheiro em que se tornou e que o converteu num antro de corrupção e de tráfico de influências, devido às inegáveis promiscuidades com o mundo da política (ver p.ex. aqui ou aqui). Basta lembrar o recente escândalo que ficou conhecido por 'Football Leaks' (ver aqui ou aqui).



Vem isto a propósito das notícias recentes nos media nacionais e internacionais sobre o regresso do futebol, que também tinha ficado suspenso em consequência da pandemia da Covid-19 (ver p.ex. aqui ou aqui). Na verdade, para além da 'reabertura da economia', o governo já vinha anunciando que iria autorizar a retoma do "desporto-rei" (ver aqui ou aqui). Só que os adeptos terão de permanecer em casa, não podendo rumar aos estádios, e a realização dos jogos, mesmo sem público, terá de respeitar diversas medidas sanitárias - também aqui se fala de uma "nova normalidade" (ver p.ex. aqui). Mesmo assim, as perspectivas de "matar a fome de bola" (expressão usada pela directora executiva da FPF, segundo esta breve notícia) estão mais próximas de se tornar realidade. E como não há fome que não dê em fartura, prometem jogos todos os dias da semana para saciar os adeptos mais desnutridos, muitos dos quais já deviam estar a sofrer de síndrome de abstinência. Como escreveu José Pacheco Pereira num artigo de opinião no Público em 2018: "Há muitas coisas que ajudam a estupidificar o país. Mas, nos dias de hoje, a mais eficaz é o futebol. (…) O futebol é a coisa mais parecida com a máfia que existe em Portugal — ou melhor, é a nossa máfia lusitana. Eles produzem a cocaína, muitas vezes em sentido literal, mas a rede de distribuição é a comunicação social. (…) O futebol é um estimulante, com efeitos anestésicos, utilizado fundamentalmente como uma droga recreativa, muito útil quando há pouco pão, para que haja muito circo." Na situação actual, é também um pretexto para esquecer as amarguras do coronavírus, pelo menos durante duas horas, como defende um futebolista galego do Real Madrid (ver aqui).