terça-feira, 30 de agosto de 2022

Uma azinheira em Monsanto

(Este post resultou de uma investigação-criação para o festival Pedras’22 do c.e.m-centro em movimento)

Todo o conhecimento cósmico é um ponto de vida (e não apenas um ponto de vista), toda a verdade é o mundo no espaço de mediação do vivente. Nunca se poderá conhecer o mundo enquanto tal sem passar pela mediação de um vivente. Emanuele Coccia (A vida das plantas, 2018)

Vegetar é crescer em contiguidade com o mundo, coabitar lugares, aderir e fazer espaços, engajar-nos com aquilo que nos circunda – ou, antes, nos atravessa. Criar raiz e lançar sementes. In: Vozes Vegetais, J. Cabral de Oliveira et al. (2021)

De há uns anos a esta parte tenho reflectido sobre o papel que a nossa relação com o mundo-mais-do-que-humano (a que chamamos muitas vezes ‘natureza’) desempenha nas visões que construímos sobre o mundo que habitamos e no modo como gerimos as sociedades em que vivemos (ver p.ex. aqui ou aqui). Muitos outros se têm debruçado sobre esta temática, desde filósofos a naturalistas e activistas, e já invoquei por diversas vezes as suas vozes ou os seus escritos (ver p.ex. aqui ou aqui). Tenho levado algumas dessas reflexões para a minha colaboração com o c.e.m-centro em movimento, em particular para as ‘conversas transpensar’ que decorreram às 2ªs-feiras à tarde entre Outubro de 2021 e Junho de 2022. Em paralelo, iniciei no final de Abril uma série de incursões no Parque Florestal de Monsanto com a intenção de desenvolver uma proposta para o festival Pedras’22. Aquele parque florestal é um excelente exemplo de simpoiese (tema de post anterior) na medida em que o que nos é dado ali a apreciar e vivenciar no presente é o resultado de um processo de cocriação entre humanos e e não-humanos: em particular, as plantas, mas também alguns animais e ainda muitos fungos e bactérias. De facto, a maioria das árvores de grande porte que ali encontramos resultaram de um processo de reflorestação que se iniciou no final da década de 1930 (ver p.ex. aqui e aqui). O processo prolongou-se até ao final dos anos 1940 e partir daí seguiram-se décadas de gestão florestal activa com novas plantações (essencialmente espécies autóctones), mas também de renovação natural, acentuando as características de bosque mediterrânico, que conferem ao parque um carácter de floresta silvestre.


Nas minhas deambulações na zona sul de Monsanto, cruzei-me com uma azinheira na orla de uma zona florestada que me cativou pela forma acolhedora da sua copa, fazendo lembrar um caramanchão (passei aliás a designá-la por “azinheira-caramanchão”). Esse encontro activou em mim algumas ligações mentais-sensoriais que remeteram para as estruturas (‘bowers’) construídas pelas chamadas ‘aves-jardineiro’ - tradução possível para a palavra inglesa ‘bowerbird’, que designa um grupo de aves da Papuásia e Austrália (ver p.ex. aqui ou aqui). Tinha-me cruzado com aquelas estruturas ao investigar para um post que escrevi sobre a hipótese do músico e filósofo norteamericano David Rothenberg em relação à criatividade dos animais não-humanos - que ele resumiu na expressão “survival of the beautiful”. Desta vez, não me interessou tanto a discussão em volta da validade dos atributos de artistas ou arquitectos que são conferidos àquelas aves, mas mais à sua actividade de recolectoras ou colecionadoras de objectos que encontram nas florestas onde habitam. Durante várias semanas visitei regularmente aquela azinheira singular e permaneci em estado de escuta demorada sob a sua copa. Em cada visita deixei-me levar pelo impulso de recolher e trazer para ali diferentes objectos que fui encontrando nas imediações, alguns deles assumidamente inspirados nos que são escolhidos pelas aves-jardineiro. As acções de selecionar e compor os diferentes objectos que fui recolhendo – flores, líquenes, pinhas, ramos, pedras, cascas de pinheiro, hastes de gramíneas, sementes - levaram-me, por um lado, a reflectir sobre as suas qualidades, que motivavam as minhas próprias preferências e, por outro, a experimentar o puro gozo desse mesmo exercício. Foram a alegria e o deleite desses gestos que me fizeram ali voltar e demorar, alimentando o desejo de cada (re)encontro.



Durante aquele processo realizei diversas caminhadas nas imediações da azinheira-caramanchão que me deram a oportunidade de apreciar as diferentes qualidades das diversas zonas em seu redor e as suas subtis nuances. Descobri por exemplo que já existiam outros vestígios de intervenção humana (criativa) naquele espaço (ver fotos abaixo), acrescentando-lhe uma outra camada de simpoiese sob a forma de estruturas, a que podemos atribuir a designação de ‘land art’.



No entanto, o principal foco da minha atenção e curiosidade durante as caminhadas dirigiu-se às plantas, apreciando a diversidade e distribuição de árvores e arbustos, bem como das herbáceas e como estas vão variando e se vão sucedendo ao longo das semanas e meses, na transição da Primavera para o Verão. Num grande prado em declive suave junto ao Pólo Universitário da Ajuda, pude assistir à fascinante e prodigiosa sucessão das herbáceas, com as suas flores mais ou menos vistosas - os diversos tipos de malmequeres, as malvas, as soagens, as tanchagens, as chicórias, os verbascos, ou os vários cardos. O corrupio de variados insectos – em particular, abelhas e escaravelhos de diferentes tipos e tamanhos, atraídos pelas flores - era igualmente notável. O outro grupo de herbáceas muito abundante e diverso naquele prado, ainda que mais discreto, é o das gramíneas. A diversidade de formas das suas sementes, que convidam a um olhar apurado e demorado, assim como a flexibilidade das suas hastes, ondulando ao sabor do vento, são especialmente deslumbrantes (ver este post que escrevi para o blogue do Pedras’22). Igualmente deslumbrante foi a constatação da criatividade que se expressa na diversidade de soluções (flores e sementes) para as mesmas funções de reprodução e dispersão. Várias vezes me deixei ficar - o corpo suspenso em momentos esquecidos de pura contemplação e êxtase - perante tamanha preciosidade e tão profunda sabedoria.



Recordo aqui o fenómeno de ‘cegueira botânica’, a que aludi num post que escrevi em 2021. A expressão traduz uma incapacidade ou insensibilidade de notar ou reconhecer a diversidade do mundo vegetal à nossa volta - extensível a outros componentes do mundo-mais-do-que-humano, como os líquenes (ver também post sobre líquenes e musgos que escrevi para o blogue do Pedras’22). As minhas demoras em Monsanto impeliram-me a reflectir novamente sobre o que impedirá muitas pessoas de ver e de se deslumbrar com a variedade de cores, formas, texturas e movimentos, que as diferentes plantas exibem e como esses mesmos atributos vão variando ao longo de um dia, ou de vários dias, semanas ou meses. Desconfio que tenha a ver com uma disponibilidade e uma demora que permitem que se vá estabelecendo uma intimidade entre cada um/a de nós e esses outros seres, transformando progressivamente uma eventual indiferença ou estranheza em curiosidade e deslumbramento crescentes. Trata-se portanto de aprofundar uma relação, um estar-com que não precisa de para-quês ou de comos, que se contenta com a magia dessa co-presença e que intui as diversas agências dos outros seres viventes no co-fazer do mundo. Invoco aqui o livro ‘A vida das plantas’ do filósofo Emanuele Coccia (citado no início deste post) onde o seu autor discorre sobre o desprezo a que as plantas foram votadas ao longo da história da filosofia, defendendo a necessidade de resgatar uma filosofia da natureza cosmológica e argumentando demoradamente sobre a relevância das plantas como ‘agentes culturais’, no sentido de criadoras-construtoras do mundo.



Sabemos que o que vemos do mundo é apenas uma fracção de uma realidade complexa e com múltiplas camadas, que é filtrada pelos nossos sentidos, mas também pelas nossas práticas desses sentidos, que são, por sua vez, influenciadas pelo nosso contexto cultural e social, pela nossa história de vida e visão do mundo. Mas por mais que a nossa percepção da realidade externa seja limitada ou condicionada isso não nos desresponsabiliza como agentes de co-criação de mundo. Como sugere a citação do livro ‘Vozes Vegetais’ no início deste post, podemos sempre participar num com-viver que aprofunda e cuida do entre-corpos, recusando e resistindo às histórias de separação e de excepcionalismo que, na sua miopia ou cegueira, semeiam destruição e injustiça. Precisamos por isso de resgatar os espaços e o tempo que nos restituam a capacidade de ver, de sentir, de empatizar – numa palavra, de nos reencantarmos - com o mundo-mais-do-que-humano, do qual somos parte integrante. E que melhor exemplo de mediação nesse processo que o da azinheira-caramanchão - ou outra planta (ou ser não-humano) que elejamos para ser noss@ companheir@?


Nota 1: o texto deste post teve por base os seguintes posts que escrevi para o blogue do Pedras’22: https://pedras22.wordpress.com/2022/06/03/demora-sob-a-azinheira-caramanchao-1/ ; https://pedras22.wordpress.com/2022/06/07/demora-sob-a-azinheira-caramanchao-2/; https://pedras22.wordpress.com/2022/06/17/demora-sob-a-azinheira-caramanchao-4-cegueira-botanica/

Nota 2: o processo de investigação-criação culminou com um evento para o festival Pedras’22 (Tarde no campo, 28 Jun), preparado em colaboração com a historiadora Teresa Castro e que incluiu um piquenique no pinhal, uma caminhada e uma conversa à sombra da azinheira-caramanchão – ver este post do blogue do festival.

Fotos: Álvaro e Marcin (ver fotos adicionais disponíveis nos posts citados na Nota 1)

domingo, 31 de julho de 2022

Época de incêndios: desvarios e milagres

Rescaldo do incêndio em Palmela (Jul 2022)
Há várias dezenas de anos prevíamos e denunciávamos publicamente que estávamos a transformar as nossas montanhas numa pira de óptimo material combustível, a que até um “iluminado” ministro [Mira Amaral] chamou o “petróleo verde” de Portugal. Realmente tem razão; [o eucalipto] arde tão bem ou melhor do que o petróleo. Jorge Paiva

El éxodo rural, los cambios socioeconómicos y el cambio climático facilitan una acumulación inmensa de combustible vegetal listo para arder con intensidades y velocidades nunca vistas. Antes vivíamos del bosque; ahora nos defendemos de él. Marc Castellnou e Alejandro García

No caso de Portugal, Espanha e França, 98% dos incêndios são precocemente extintos, mas os 2% restantes são responsáveis por 95,4% da área ardida. A conclusão é cortante como uma lâmina: para evitar incêndios devastadores nas condições especialmente hostis das alterações climáticas, a chave está no ordenamento e não no combate. Viriato Soromenho Marques

Um país cronicamente incapaz de prevenir fogos ao longo de décadas, vira-se agora com ferocidade contra a primeira vítima do fogo, a natureza, que por ser combustível e arder, tem que ser eliminada, mesmo que sejamos nós, incauta ou criminosamente, a atear 99 % dos fogos – se não houver vítima, não pode haver agressor ou agressão; se não houver combustível, não há combustão. Maria José Castro

À medida que o mundo rural da agricultura familiar se tornou o bastardo rejeitado por interesses económicos e políticos e o eucalipto se expandiu, os fogos tornaram-se, para alguns, uma lucrativa “indústria” de milhões. Maria Carolina Varela

Com a recente onda de calor, regressou o triste e trágico espectáculo mediático do flagelo dos incêndios, acompanhado do habitual rol de meios usados no ‘combate às chamas’, dos estragos directos (para os humanos) e dos hectares ardidos - quando, na verdade, os parâmetros mais relevantes para mostrar a real magnitude dos incêndios seriam a sua velocidade de propagação e a energia emitida (ver p.ex. aqui ou aqui). E por atacado vem a estupefação e consternação pelas tragédias humanas, que alimentam o sensacionalismo e voyeurismo doentios amplificados ad nauseam pelas TVs. Mas raramente leio ou ouço menção às espécies vegetais e animais perdidas ou à destruição de ecossistemas e aos anos que demorará a sua recuperação - se é que será possível... Timidamente, surgem menções à conexão entre as vagas de calor e a mudança climática (antropogénica), potenciadora do que já foi apelidado como o Piroceno (ver aqui ou aqui), mas muito poucas às causas profundas dos recorrentes mega-incêndios, como a calamitosa gestão do território florestal e rural pelos sucessivos governos (nacional ou locais) ou a trágica desertificação humana do interior. O título de um recente artigo de opinião no Público (‘Continuamos a apagar fogos’) deixou-me esperançoso, mas o seu conteúdo frustrou as minhas expectativas. Pelo contrário, o artigo da engenheira silvicultora aposentada Maria Carolina Varela no jornal i enumera os múltiplos interesses que beneficiam dos incêndios (indústria madeireira, celuloses e empresas de prevenção e combate) e desconstrói algumas das falácias mais recorrentes: os eucaliptais das celuloses não ardem, outras espécies florestais são igualmente pirófilas, os matos e o abandono do minifúndio disperso são os culpados. Diversas vozes vêm aliás alertando para a necessidade de apostar num mosaico florestal que evite as extensas monoculturas de pinheiro ou eucalipto – que muitos insistem perversamente em apelidar de ‘florestas’ (ver aqui ou aqui). Mas os poderosos interesses instalados, incluindo o lóbi das celuloses, conseguem cooptar académicos e especialistas que defendem o seu modelo de gestão florestal (ver p.ex. aqui). 

Em 2017, em artigo de opinião numa publicação digital sobre cultura (Comunidade Cultura e Arte), que permanece apenas disponível aqui, Pedro Santos discorria sobre os verdadeiros incendiários que opinam a partir das urbes – excertos: O fogo que arde em Lisboa, nas redações dos principais jornais, revistas e televisões do país, propaga-se na voz de gente que já não sai de Lisboa. Que não conhece o país. Que não tem qualquer ligação ou empatia com o modo de vida rural, com as suas práticas. Mas que dirige os principais meios de comunicação do país. (…) [Os incendiários que querem bodes expiatórios para culpar] São os mesmos que escarnecem das lutas de ambientalistas e ativistas. Que se riem de quem tenta falar contra os esquemas das barragens inúteis que vão destruir os nossos rios e encarecer a fatura da eletricidade; que se riram quando houve oposição ao fecho de linhas de caminho de ferro no Tua, no Corgo, no Tâmega, por esse Alentejo fora; que se riem quando se fala em Proteção da Natureza; que acham bem que se tenha acabado com Guardas Florestais e Guarda Rios; que ignoram as lutas contra a exploração de gás natural e petróleo; que propagam os mitos da agricultura intensiva, de um Alqueva em cada esquina ou de um fábrica de pasta de papel em cada região. O autor conclui que cabe aos cidadãos tomar nas suas mãos a responsabilidade de criar as condições para pôr fim à calamidade recorrente dos incêndios. Também em 2017 (ver aqui), António Dores destacou vários dos aspectos referidos atrás, assim como outros que refiro adiante, e, perante a incapacidade do Estado em lidar com as raízes do problema, defendia uma mudança de regime político baseada na auto-organização territorial das suas populações, enumerando algumas das diversas organizações da sociedade civil que, desde 2017, têm promovido iniciativas de reflorestação no território nacional (ver nota 1 no final do post).

Foto de capa do jornal Público de 16 Out 2017

Desvarios

Apesar dos apelos de organizações ambientalistas, quer em Portugal, quer em Espanha, a profundas mudanças nas políticas florestais (ver p.ex. aqui, aqui e aqui), o primeiro-ministro continua a enjeitar responsabilidades do governo na (má) gestão florestal, admitindo a incapacidade de resolver o problema dos incêndios e transferindo essa missão para os cidadãos. Fê-lo em 2017, garantindo que o país continuaria a arder (ver p.ex. aqui) - o que de facto tem acontecido! -, e voltou a reforçar este ano que a “responsabilidade de evitar a ocorrência de incêndios” é dos portugueses, tendo decretado estado de contingência com restrições de múltiplas actividades, mas reafirmando que o Estado não é “segurador universal” e não tem que compensar eventuais impactos negativos das medidas (ver p.ex. aqui). Pior ainda, os seus governos têm decretado medidas avulsas de eficácia duvidosa, nomeadamente: a cega ‘limpeza dos matos’ imputada aos proprietários, que resultou em aberrações de extermínio da biodiversidade vegetal e no agravamento da perda de humidade e da erosão dos solos (ver p.ex. artigo de opinião da professora universitária Maria José Castro); as reflorestações promovidas por grandes empresas, com critérios duvidosos na seleção das árvores plantadas; ou a recente proibição de usufruto de espaços florestais e de jardins(!), alegando que a presença de pessoas constitui risco de incêndio (ver p.ex. aqui)! É verdade que muitas ignições ocorrem por incúria, devido p.ex. a queimadas, mas a presença de pessoas naqueles espaços pode ajudar no alerta precoce, que evita que um fogo possa tomar proporções incontroláveis, não deixando também campo aberto aos incendiários que são responsáveis por muitas outras ignições.

Por outro lado, têm sido gastos milhões de euros na prevenção (lembram-se do tristemente famoso SIRESP?) e no combate aos incêndios (bombeiros e meios aéreos). É sempre mais simples (e menos arriscado) para os decisores políticos tentar mitigar os estragos do que actuar sobre as causas sistémicas - vê-se isso há anos na questão dos fogos e viu-se também na gestão da pandemia. É bom para a sua imagem e assim protegem os interesses instalados em vez de defender o verdadeiro interesse público. Nem mesmo o ‘presidente dos afectos’ consegue exercer uma eficaz magistratura de influência nesta matéria e, apesar de imparável nas suas deslocações e declarações, as suas boas intenções ficam-se pelas selfies e os abraços. Tudo isto é lamentável (mas não inesperado), tanto mais que vários indícios de corrupção ou de conluio criminoso têm vindo a lume, denunciados p.ex. em reportagens jornalísticas de 2017 e 2018 em Espanha e em Portugal (ver nota 2 no final do post). Em Espanha assiste-se também a uma intensificação deste flagelo e o mega-incêndio de Junho deste ano (2022) gerou pelo menos forte indignação social no país vizinho (ver aqui e aqui).

Cartoon de Vasco Gargalo (2017)

Milagres

Perante o esperado agravamento das alterações climáticas, que gerará mais ondas de calor potenciadoras de grandes incêndios, e a incapacidade ou irresponsabilidade dos poderes públicos de travar o flagelo, será que nos resta aguardar por algum milagre que nos salve da catástrofe iminente? Felizmente, esses ‘milagres’ já estão a acontecer. Para além das iniciativas citadas na nota 1 (no final), este ano já foi possível constatar os benefícios dos projectos de restauro de vegetação autóctone, como o da Associação BioLiving que funcionou como travão na progressão do incêndio de Estarreja no início do mês de Julho – ver aqui e aqui. De facto, para aquela associação este episódio demonstra claramente a importância da floresta nativa – as chamadas ‘árvores bombeiro’ – para a segurança das populações e a necessidade de uma gestão florestal pensada à escala do território e não da propriedade, evitando as grandes extensões de eucaliptal ininterrupto. 

Em 2018, escrevi um texto sobre um outro ‘milagre’ chamado Mata da Margaraça, que reproduzo a seguir para concluir este post. Faço notar que a complexidade desta questão não se limita às questões que abordei aqui e defendo (como muitos outros)  que seriam necessárias políticas públicas que promovessem uma gestão bem mais sustentada do território (ver p.ex. o artigo de opinião dos engenheiros florestais espanhóis Marc Castellnou e Alejandro García, já citado), fomentando p.ex. a fixação de populações no interior ou a plantação de bosque autóctone e de folhosas de crescimento lento ('árvores bombeiras', ver p.ex. aqui).

Mata da Margaraça: 2017 vs. 2018

O 'milagre' da Margaraça

‘Onde há vida, há esperança’ foi o título que dei a um post no qual comentei várias reflexões sobre os sentimentos antagónicos de esperança e de desespero que podem surgir perante as ameaças e os desastres ambientais que enfrentamos. Mal sabia que iria encontrar, passadas umas semanas, uma confirmação inesperada daquele aforismo. De facto, no início de Agosto (de 2018) percorri algumas das áreas do país mais afectadas pelos incêndios florestais de 2017, em particular a região de Arganil/Coja, que foi palco do segundo maior mega-incêndio jamais registado em Portugal (Outubro 2017) e que teve características únicas, nomeadamente o maior fenómeno piroconvectivo alguma vez observado na Europa e o maior do mundo em 2017 (ver aqui e aqui). Pude constatar que as encostas da serra do Açor em volta da aldeia da Benfeita tinham um aspecto verdadeiramente desolador, dominadas pelos troncos queimados dos pinheiros que cobriam grande parte daquele território, deixando exposto o solo - que só não estava despido porque a Primavera de 2018 foi chuvosa e fez despontar fetos e herbáceas que deram algum tom verde à paisagem. Havia no entanto alguns pequenos ‘oásis’ em certos vales encaixados e áreas limítrofes das povoações, onde algumas árvores e arbustos tinham escapado à fúria das chamas. Um daqueles vales encaixados cuja vegetação, constituída por árvores e arbustos autóctones, sobreviveu foi o da Barroca de Degraínhos, na zona da Fraga da Pena, embora as partes mais elevadas deste acidente geológico tenham sido muito afectadas pelo fogo. Mas um pouco mais acima, a seguir à aldeia de Pardieiros, encontrei aquilo a que se pode chamar um verdadeiro milagre: a Mata da Margaraça. Trata-se de uma área de paisagem florestal protegida de rara beleza, que tenho vindo a visitar há já vários anos, e que é constituída por uma floresta mista de folhosas (castanheiros, carvalhos, ulmeiros, vidoeiros, folhados, medronheiros, azereiros, cerejeiras, azevinhos, loureiros, aveleiras e salgueiros), constituindo uma relíquia das antigas florestas que cobriam algumas das encostas mais frondosas das nossas serras do interior (ver aqui ou aqui). Os primeiros relatos dos efeitos do mega-incêndio de Arganil fizeram-me temer o pior (ver p.ex. aqui) e já me tinha tentado preparar para o impacto de um cenário desolador - que foi o que encontrei ao longo da estrada, desde Coja, até lá chegar. Mas ao aproximar-me dos limites da Mata, o cenário dos troncos de pinheiro carbonizados foi sendo gradualmente substituído por árvores cobertas de folhagem verde, cuja intensidade e extensão contrastava fortemente com o tom escuro que predominava a toda a volta. A mancha da Mata Margaraça, apesar de algumas zonas periféricas queimadas, sobressaía como um verdadeiro oásis verde no meio do deserto de troncos queimados das encostas circundantes (ver fotos acima). De facto, cerca de 60% da Mata ficou quase intacta (ver p.ex. aqui) e, pela descrição dos técnicos do ICNF (que gere aquele área protegida), o fogo avassalador que a atravessou encontrou ali um foco de resistência à sua propagação, devido às características da folhagem e ao maior índice de humidade, como se não viu em qualquer outra área de igual extensão. Algo semelhante havia ocorrido ali aquando de outro grande incêndio que afectou aquela região em 1987.

Não há melhor prova da capacidade de resistência a um mega-incêndio de características excepcionais, como o de Outubro de 2017, do que uma verdadeira floresta como a Margaraça, quando comparada com as monoculturas de eucalipto e pinheiro que ainda cobrem grande parte do território do centro do país. Infelizmente, a predominância e insistência na plantação de eucalipto (ver p.ex. aqui ou aqui), a que não é alheia a pressão do lóbi das celuloses (ver p.ex. aqui), continua a ser motivo de grande consternação e desesperança. Creio que toda a gente deste país, em particular os jovens, deveria ir ver com os seus próprios olhos aquilo que testemunhei (ver p.ex. aqui). Essa visita devia ser mesmo obrigatória para os comentadores e especialistas que insistem em ludibriar a opinião pública, tentando escamotear os efeitos nefastos das plantações de eucaliptos que alimentam as celuloses (ver p.ex. aqui ou aqui). A Mata da Margaraça é um exemplo (vivo) de que onde existe vida na sua máxima diversidade e complexidade - bem adaptada ao território e bem gerida -, existe de facto esperança. Saibamos nós retirar as conclusões dos sucessivos flagelos dos incêndios florestais para podermos vislumbrar um futuro menos sombrio do que aquele que podemos vir a ter.

Nota 1

Iniciativas de reflorestação e projectos agroflorestais

- Rede Reflorestar Portugal: https://www.facebook.com/ReflorestarPortugal/

- Aliança pela Floresta Autóctone: http://florestautoctone.webnode.pt/

- APAGAR – Aliança Para Acabar com as vaGAs Recorrentes de Fogos:

http://www.campoaberto.pt/?p=1713010

- Terracrua (Permacultura e agrofloresta): http://terracrua.org/blog/floresta-mista-e-as-populacoes-locais/

- Projecto AFINET (Redes Regionais de Inovação Agroflorestal): https://www.tveuropa.pt/noticias/sistemas-agroflorestais-reduzem-risco-de-incendios/

Nota 2

Investigações jornalísticas e artigos sobre indícios de corrupção ou conluio criminoso (Portugal e Espanha):
O cartel do fogo ES (Set 2017) – ver aqui e aqui
(…) parece complicado relacionar las muertes de Pedrógão, y la superficie calcinada por incendios en Portugal y España en lo que va de año —118.000 hectáreas sólo en Portugal—, con otra causa que no sea la ineptitud política, los intereses de empresas locales o pequeños propietarios de tierras, la plantación descontrolada de eucalipto o los pirómanos. Sin embargo, todo apunta a que los fuegos que arrasan cada año la Península Ibérica se alimentan no sólo de oxígeno y madera, sino sobre todo de corrupción.
Reportagem TVI (Out 2017): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t4e25
Artigos media PT:
http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/2017-07-25-Carteis-esquemas-e-estado-dos-helicopteros.-Os-negocios-do-fogo-revelados-nesta-entrevista
https://www.publico.pt/2017/09/04/sociedade/noticia/justica-portuguesa-investiga-ramo-portugues-do-cartel-do-fogo-1784152
http://www.jornaltornado.pt/cartel-do-fogo-ou-lobbies-dos-incendios/
Entrevista a Xabier Vázquez Pumariño (biólogo) sobre o lóbi florestal da Galiza (Out 2017):
http://www.lavanguardia.com/vida/20171019/432157474162/industria-fuego-galicia-xabier-vazquez-pumarino.html
A máfia do pinhal, investigação TVI (Abr 2018): https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/episodio/t5e10
https://observador.pt/2018/04/13/incendio-que-consumiu-pinhal-de-leiria-foi-planeado-um-mes-antes/

quinta-feira, 30 de junho de 2022

A vida como simpoiese

Líquenes e musgos
(Parque Florestal de Monsanto)
‘We’ are not ‘one’ / We are not alone, Natasha Myers

No one acts alone / Nothing is connected to everything; everything is connected to something (Nenhum vivente age sozinho / Nada está conectado a tudo; tudo está conectado a algo), Donna Haraway

(…) “life” is an idea. We find it useful to think of some things as alive and others as inanimate, but this division exists only in our heads. Ferris Jabr

Our view of life as a continuum of variably structured collaborative systems leaves open the possibility that a variety of forms of organized matter – from chemical systems to ecosystems – might be usefully understood as living entities. John Dupré & Maureen O’Malley

The non-dual nature of simultaneously surrendering and leaping makes my head spin and my heart race in the most delicious way. The tension and beauty of this radically entangled freedom is that I don’t act and make meaning (and die) alone – I make-with in community, in sympoiesis. Cheryl Hsu

Simpoiese é uma palavra e um conceito desenvolvidos pela filósofa Donna Haraway no seu livro “Staying with the trouble” (2016), que significa fazer/criar-com ou em-conjunto, para enfatizar a interdependência radical que caracteriza a vida e todos os viventes (é possível aceder ao texto completo do capítulo sobre simpoiese nesta ligação). Para Haraway, é também um ensejo para frisar que as interligações e interacções que se estabelecem entre os seres vivos são extensíveis ao meio geofísico onde vivem e têm um claro paralelo com as relações presentes nas sociedades humanas. Segundo a autora: “[sympoiesis] is a word proper to complex, dynamic, responsive, situated, historical systems. It is a word for worlding-with, in company”. Aquele conceito tem ainda um carácter político na medida em que a relação que criamos com o mundo e as narrativas que usamos para descrevê-lo são parte fundamental da direção em que queremos levá-lo: “It matters what thoughts think thoughts. It matters what knowledges know knowledges. It matters what worlds world worlds. It matters what stories tell stories”.

Na génese destas minhas considerações esteve a pergunta “o que é (a) vida?”, lançada como base de reflexão sobre o mundo-mais-do-que-humano durante as conversas transpensar, que decorreram desde Outubro de 2021 até ao início de Junho deste ano no c.e.m-centro em movimento. Aquela pergunta pode ter tantas respostas quantas as visões de mundo que quisermos invocar. Desde a narrativa biomecanicista patente no vídeo ‘What is life?’, à reflexão panpsiquista do filósofo Tam Hunt, passando pelo conceito de negentropia do físico Erwin Schrödinger ou pelos sistemas colaborativos propostos pelos filósofos da ciência John Dupré e Maureen O’Malley, vários foram os nossos acessos àquela questão. Como microbiólogo que continuo a ser, a pergunta pode ser usada para percorrer a prodigiosa diversidade de formas de vida que existem no planeta, muitas das quais permanecem desconhecidas para nós, enquanto outras tantas só foram reveladas ou estudadas em detalhe nos últimos decénios. Aquela imensa diversidade apela a ampliar o nosso olhar sobre o mundo vivo e a abandonar as visões hierárquicas (patentes p.ex. nas noções de formas de vida ‘inferiores’ e ‘superiores’ ou de evolução como progresso) ou míopes (p.ex. a relevância que é dada aos animais em detrimento das plantas e dos micróbios), hoje ainda muito presentes nas chamadas ciências da vida e na sociedade em geral.
A noção de individualidade e de separação dos membros de uma comunidade natural (ou de uma sociedade) é claramente uma invenção e ilusão humanas, pois sabemos não só que todos os indivíduos interagem e dependem entre si, mas também que cada indivíduo (animal ou planta) é uma comunidade de células próprias e de muitos outros micróbios que com ele convivem – ou seja, todos os seres vivos são na verdade holobiontes (ver p.ex. aqui). Mesmo no caso dos micróbios unicelulares (em que cada indivíduo é constituído por uma única célula), como muitas bactérias e protozoários, os indivíduos não são solitários e interagem com outros indivíduos da mesma espécie, com outras espécies e com o entorno em que estão inseridos. Isto tem como consequência que cada organismo, em maior ou menor medida, conduz a transformações do meio onde se insere – neste sentido, todo o vivente é criador de cultura e de mundo (ver p.ex. Mente e matéria ou a vida das plantas de Emanuele Coccia). Além disso, aquelas interacções levaram a que o próprio processo evolutivo (que é muitas vezes reduzido à sua componente genética por via das modificações por mutação ou por trocas genéticas) seja na verdade sempre uma co-evolução. Um exemplo deste processo ubíquo é o de certas orquídeas silvestres cujas flores mimetizam a forma das fêmeas dos insectos que as polinizam (ver p.ex. aqui). Em “Staying with the trouble”, Haraway dá precisamente como exemplo de simpoiese o processo de co-evolução entre a orquídea Ophris apifera (erva-abelha) a sua abelha polinizadora. Esta última  extinguiu-se (pelo menos numa parte da sua área geográfica natural), constituindo a flor da orquídea a única imagem que temos do que seria a forma daquele insecto – exemplo que é ilustrado com o ‘cartoon’ criado por Randall Munroe, reproduzido abaixo (mas ver também aqui).


Sem dúvida que sabemos, ou intuímos, muita coisa sobre as formas diversas em que a vida se manifesta, como ‘funcionam’, como interagem, como evoluiram e até como terão surgido. Mas essas abordagens empíricas e racionais são necessariamente incompletas e tendem a construir uma imagem da vida como mecanismo, que nos afasta da verdadeira natureza (orgânica) dos organismos. E a vida não tem apenas uma faceta material ou funcional (e muito menos mecânica). Aliás, as diferentes sociedades humanas sempre lhe atribuíram um carácter espiritual ou sagrado, através das suas narrativas (religiosas ou não) e cosmologias. No entanto, a modernidade ocidental foi substituindo os mitos pagãos e as narrativas religiosas sobre a vida pelo conhecimento trazido pelas ciências e pela tecnologia, e adicionou-lhe outras dimensões, como a das leis e dos direitos, numa tentativa de a gerir e administrar. Fomos assim impelidos para uma visão utilitarista dos viventes como recursos naturais (mercantilizáveis) e arrogámo-nos o direito de explorar e dominar outras formas de vida (e destruir ecossistemas inteiros) em nome de uma prosperidade dita ‘económica’. Apesar de todos os avanços alcançados no conhecimento sobre a vida e na gestão das sociedades humanas, entrámos no século XXI com uma plena consciência de que muito desse conhecimento e engenho se tinha afinal tornado uma ameaça para a própria vida - a dos humanos e a dos não humanos. E apercebemo-nos de que as formas sofisticadas de gestão das sociedades humanas nos tinham afastado do cuidado pela vida e amputado a empatia pelos outros viventes, porque criaram a ilusão de que aquele conhecimento científico e tecnológico nos permitiria autonomizar-nos da nossa base de sustentação - ou seja, os ecossistemas vivos e biodiversos. A economia humana transformou-se assim na antítese da ecologia natural.

A possibilidade das nossas sociedades, ditas ‘desenvolvidas’, se voltarem a relacionar de forma equilibrada com o mundo-mais-do-que-humano, depende agora de uma mudança de paradigma que nos afaste da noção de excepcionalismo humano e que nos permita transformar o nosso próprio papel de meros gestores e dominadores da vida para o de cuidadores e guardiões, guiados por práticas de reciprocidade e de empatia. Como aliás sempre o fizeram e continuam a fazer vários povos indígenas, cujas cosmovisões e estruturas sociais, que integram a natureza (ou seja, o mundo-além-do-humano) na sua vida quotidiana, as nossas sociedades têm desvalorizado ou ignorado como primitivas (ver p.ex. aqui). Pior do que isso, esses povos foram sujeitos a processos brutais de aculturação, expropriação e genocídio em nome da prosperidade económica de uma parte privilegiada da humanidade. A colonização dos humanos por outros humanos reproduz as atitudes de domesticação, dominação e mercadorização das outras formas de vida que ameaçam agora a nossa própria sobrevivência - ver p.ex. o meu 'post' anterior.


O culminar do excepcionalismo humano cultivado por uma parte da humanidade é a auto-designada era do Antropoceno, em que o próprio ser humano se torna força geológica, atribuindo-se também a si próprio o papel de salvador da catástrofe por si causada (ver p.ex. aqui ou aqui). Vários autores têm criticado ou recusado aquela designação, não só pelo evidente antropocentrismo que lhe está associado, mas também por insinuar que o ‘antropos’ é uma entidade universal e homogénea, escamoteando assim a natureza socioeconómica e cultural dos processos que estão na base dos problemas e os diferentes graus de responsabilidade de diferentes povos, comunidades e instituições naqueles processos (ver p.ex. aqui ou aqui). É no fundo a própria visão dominante de mundo e de vida que está em causa, na medida em que se baseia numa separação dos seres humanos do restante mundo vivo e não-vivo. As vozes críticas e as visões alternativas de divers@s filósof@s, ecologistas polític@s, antropólog@s, ecofeministas, activistas, etc. defendem que apenas uma religação radical com o mundo-mais-do-que-humano, envolvendo uma escuta activa e uma atenção reparadora, nos pode afastar do rumo ecocida e suicida em que nos encontramos. Uma dessas vozes é precisamente a de Donna Haraway que propôs a designação de Chthuluceno para uma nova época de sustentabilidade regenerativa caracterizada pela simpoiese (ver p.ex. aqui). Haraway propõe assumir as relações colaborativas e empenhadas entre seres terranos (incorporados na própria terra) como narrativa e como modo de vida, numa tentativa de recriar e resgatar o(s) comum(ns) e de, simultaneamente, (re)ligar artes, ciências, tecnologias e pensamento. A autora afirma: “Maybe, but only maybe, and only with intense commitment and collaborative work and play with other terrans, flourishing for rich multispecies assemblages that include people will be possible. I am calling all this the Chthulucene—past, present, and to come.”

Praia das Avencas
Encarar a vida como simpoiese é assumir que ‘não se é corpo sozinho’, que ‘eu sou porque nós somos’, que nunca fomos indivíduos (essa é a narrativa do racionalismo cartesiano e do paradigma socioeconómico dominante) e que somos todos holobiontes. Não estamos-somos sozinhos, mas também não somos 'um' (dada a enorme diversidade de modos de vida e de culturas), como defende Natasha Myers no seu manifesto citado na abertura deste 'post'. Trata-se no fundo de recolocar o enfoque no entre-corpos e nas relações: nas deformações, nas simbioses, nos parasitismos (que são também formas de simbiose), nas reciprocidades. Podemos assim talvez contar novas histórias que desfaçam as narrativas do excepcionalismo humano e da dominação, regenerando mundos cheios de vida em (parafraseando Darwin) “intermináveis formas, tão belas e admiráveis, que a partir de um começo tão simples, evoluíram e continuam a evoluir.” Mais do que tentar definir (a) vida, o que importa afinal é saber como podemos com-viver, na companhia dos viventes-além-dos-humanos, e imaginar que mundo-em-comum é esse que queremos co-criar, simpoieticamente.

Concluo com as palavras do escritor e biólogo Mia Couto e do filósofo político camaronês Achille Mbembe, em entrevistas ao jornal Público (aqui e aqui):

"Na minha concepção não existe uma árvore em si mesma, existe uma árvore em relação às pessoas, e o mesmo para os bichos. Portanto, como a ecologia nos sugere, temos de encontrar a verdade das coisas não por via de essências, mas por via de relações. E é isso que a literatura também nos diz, as pessoas são o que são porque são parte de uma rede." Mia Couto

"Partilhamos a Terra com outras entidades, que são todas vivas, não há entidades mortas porque mesmo as entidades mortas referem-se de algum modo a uma capacidade de agir, embora um agir de maneira diferente das entidades vivas. Tudo é capaz de agir, capaz de ser mobilizado em modalidades de acção diferentes. E, portanto, por princípio, a capacidade de agir é partilhada com os antepassados, com a Natureza, com a atmosfera, com as forças naturais, as tempestades, etc. Assim, se se quiser viver bem e por muito tempo é necessário aprender a coexistir com tudo, orgânico, o natural, o humano, não-humano." Achille Mbembe

Nota final: este texto é uma versão ampliada de um ‘post’ que escrevi para o blog do festival Pedras22 (promovido pelo c.e.m-centro em movimento): https://pedras22.wordpress.com/2022/06/23/transpensares-a-vida-como-simpoiese/

Ligações para textos de outros autores que abordam o conceito de simpoiese:

Fazendo nós: fazer-com no Antropoceno, Vitor Chiodi (2017): http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/fazendo-nos-fazer-com-no-antropoceno/

Sympoiesis, Gavin Lamb (2020): https://medium.com/thewildones/sympoiesis-an-environmental-keyword-for-new-nature-writers-f1aba5cb9592

The sympoiesis of life life-ing, Cheryl Hsu (2021): https://cherylhsu.ca/post/2021-01-20-life-lifeing/

 

terça-feira, 31 de maio de 2022

O rei da criação?

 

(C) Steve Cutts
“(…) o ser humano está provocando o 1º extermínio ecocida em massa. Acontece que o Ecocídio é também um suicídio, pois o ser humano não consegue viver sem a natureza e sem a riqueza dos ecossistemas…” José Eustáquio D. Alves

“We are in the midst of the First Extermination Event, the process by which Capital has pushed the Earth to the brink of the Necrocene, the age of the new necrotic death.” Justin McBrien

“We’re hard at work: every day, someone is slitting, skinning, eviscerating, clubbing, beating, kicking, dragging, hoisting, shackling, or whipping some creature. And we’ve come up with so many ways to dispatch them… (…) if we just stay the course, then in, say, two hundred years’ time, we might just accomplish our dream. Either that, or it won’t matter anyway, because our own species won’t be around to appreciate our handiwork.” Martin Rowe

A imagem que encabeça este post ilustra uma curta de animação de Steve Cutts (‘Man’, 2012) onde este desenhador e videasta britânico retrata de forma propositadamente satírica e brutal a relação do ser humano moderno com os restantes seres vivos. Embora pareça exagerado e algo simplista, o vídeo transmite o carácter especialmente doentio que essa relação tem assumido nos últimos decénios, como nos dizem aliás diversos diagnósticos recentes (ver p.ex. aqui ou aqui). Embora se use a expressão ‘6ª extinção em massa’ para caracterizar a dimensão da crise de declínio da biodiversidade causado pelas actividades humanas, a expressão correcta deveria ser ‘1º extermínio em massa’ (ver p.ex. aqui ou aqui; artigos dos quais extraí as duas primeiras citações que encabeçam este post). Isto porque há já algumas décadas que sabemos não só as causas daquele declínio (as actividades destrutivas das sociedades humanas industrializadas: desflorestação, sobrepesca, expansão urbana e agrícola, etc.), como sabemos que apenas uma parte da humanidade é de facto responsável por aquele extermínio (as elites do poder político e económico, bem como as populações privilegiadas do Norte global) – escrevi anteriormente aqui sobre este tópico e também num artigo para a revista Flauta de Luz (“O asteróide somos nós”: nº6, 2019, pp, 26-37).
Ilustração para o nº6 da revista Flauta de Luz (p.26)

Uma outra forma de perceber a dimensão do impacto da acção humana e de justificar o epíteto ‘rei da criação’ resulta de um estudo recente (2018) que estimou a biomassa (peso de cada ser vivo) de todos os organismos existentes no planeta (animais, plantas e micróbios) – ver aqui ou aqui. Essa avaliação concluíu que, apesar de representarem apenas 0,01% da biomassa global (a sua principal componente é a biomassa vegetal, que representa 80% do total) e 2,3% da biomassa animal, os seres humanos representam, em conjunto com os animais criados para alimentação humana (vacas, porcos, ovelhas), 96% da biomassa de todos os mamíferos. Ou seja, os mamíferos selvagens representam apenas 4% do peso de todos os mamíferos existentes (incluindo os humanos, 36%, e os animais domésticos, 60%). Também no caso das aves, as galinhas de criação e outras aves de capoeira representam cerca de 70% da biomassa total da avifauna. Aquele mesmo estudo mostra, no entanto, que o papel de ‘criador’ não é aquele que devia ser destacado mas sim o de exterminador (implacável!), uma vez que as actividades humanas são já responsáveis por uma redução da biomassa dos mamíferos marinhos e terrestres (selvagens) por um factor de seis vezes e pela redução para metade da biomassa vegetal terrestre (ver aqui e aqui). Mesmo as inúmeras variedades de plantas e animais criadas localmente por todo o globo e durante muitas gerações para a produção alimentar estão ameaçadas de extinção pela agricultura e pecuária industriais que privilegiaram nas últimas décadas apenas umas poucas de cultivares e raças para a produção global e intensiva.
Mas nem mesmo os animais domesticados e criados pelos seres humanos estão a salvo da chacina infligida pelo ‘grande exterminador’. Devido a alegadas razões sanitárias, milhões de cabeças de gado ou de aves de capoeira têm sido abatidas nas últimas décadas, mesmo antes de atingirem o tempo de vida que lhes seria concedido ‘a priori’. Um dos abates em massa mais tristemente famoso foi o que sucedeu durante a chamada crise da ‘doença das vacas loucas’ (BSE), em meados dos anos 1990, que levou ao abate de mais de 4 milhões de animais só no Reino Unido, embora a principal causa da epidemia tivesse ligada ao modo industrial de produção animal e à utilização de farinhas animais nas rações, e a variante humana da doença tenha provocado a morte de pouco mais de 150 pessoas a nível mundial (ver p.ex. aqui). Uns anos mais tarde, foram os surtos de febre aftosa bovina que levaram ao abate de mais de 6 milhões de bovinos, ovinos e caprinos, só no Reino Unido, apesar do número de casos entre os animais não ter excedido alguns milhares (ver p.ex. aqui). Mais recentemente, surtos de gripe das aves levaram a ‘abates preventivos’ de centenas de milhares de aves de criação (principalmente galinhas e patos) em todo o mundo: Portugal, Espanha, França, Estados Unidos, Reino Unido, Israel, Índia, Japão. As razões alegadas pelas autoridades governamentais ou sanitárias para aqueles abates prendem-se com a prevenção do contágio entre os animais das pequenas e grandes produções agro-pecuárias e aviários, mas também com a eventual transmissão para humanos. No entanto, as previsões baseadas em modelos epidemiológicos que foram usadas para justificar alguns dos abates em massa têm vindo a ser criticadas por académicos que as acusam de serem desnecessariamente alarmistas e mesmo incorrectas, em particular aquelas que vieram da equipa do Imperial College liderada por Neil Ferguson (conhecido entre os seus pares por ‘The Master of Disaster’) – ver aqui, aqui ou aqui. As suas previsões sobre eventuais números de casos resultantes de surtos de gripe suína, febre aftosa e BSE no Reino Unido estavam notoriamente equivocadas. Recorde-se que foi aquela mesma equipa de epidemiologistas que motivou a viragem na política sanitária do governo britânico no início da pandemia da Covid em 2020 (ver p.ex. aqui).
Uma série de episódios de abates em massa, menos conhecidos e que estiveram relacionados com a pandemia da Covid, aconteceram em 2020 em países com criações de vison-americano para a indústria das peles (‘fur farms’), nomeadamente a Dinamarca, a Holanda e a Espanha. Na Dinamarca, o maior produtor mundial de peles de vison para exportação, o episódio gerou uma crise política que culminou com a demissão do ministro da agricultura e um pedido de desculpas público da primeira-ministra (ver aqui e aqui), tendo o governo sido forçado a suspender o abate dos cerca de 17 milhões de animais nas mais de 1000 criações em todo o país (ver aqui). Na Holanda, o governo foi mais longe e decidiu banir as criações de animais para a produção de peles até meados de 2021 (ver aqui). Mais uma vez, o possível contágio entre os animais das criações, a geração de mutantes e a eventual transmissão dos animais para humanos esteve na origem dos abates, embora as evidências para esta última transmissão não sejam convincentes (ver aqui ou aqui). Com excepção das medidas drásticas do governo holandês, a criação industrial de animais 
não foi posta em causa, em condições muitas vezes questionáveis e que favorecem a disseminação de doenças infecciosas (ver aqui).
O recurso recorrente a abates em massa durante crises sanitárias, que evitam que se ponha em causa a criação industrial intensiva de animais para alimentação ou vestuário, levou o norte-americano Martin Rowe, defensor dos direitos animais e do vegetarianismo, a escrever um texto sarcástico onde defende o extermínio de todos os animais do mundo como forma de prevenir futuras epidemias de doenças zoonóticas (transmitidas de animais para humanos). Nesse texto, do qual extraí umas das citações que abre este post, o autor reconhece que, infelizmente, essa empreitada já está em curso e poderá ter um enorme e trágico sucesso. Na mesma linha satírica, o videasta Steve Cutts publicou em 2020 uma sequela da sua animação de 2012, inspirada numa das consequências dos confinamentos da 1ª fase da pandemia Covid que impediram muitos seres humanos de realizar, pelo menos provisoriamente, as suas tarefas quotidianas. Já o psicólogo canadiano Todd Hayden teceu, num outro texto, uma análise contundente da nossa relação funesta e do nosso distanciamento em relação à natureza, defendendo que as políticas de mitigação da pandemia Covid foram uma extensão e um sintoma daquele afastamento e refletem um medo doentio das sociedades modernas em relação ao mundo natural: (excerto) “The problem itself is fear. (…)  This is the real problem: our distorted belief that nature itself is the real enemy. Forget the miracle of the human immune system and how it is designed to function by taking in pathogens and building antibodies, it is better to live in a bubble because nature can’t get you then, create a vaccine, let science protect you, nature will kill you. If you didn’t have to be an animal and be a part of nature, you could live forever.” No mesmo contexto da pandemia e de forma menos polémica mas igualmente incisiva, o jornalista português Vítor Belanciano escreveu numa das suas crónicas para o jornal Público: (excertos) “Talvez possamos utilizar a dolorosa aprendizagem deste momento para não voltar ao que nos querem fazer crer que é a ‘normalidade’, que não é mais do que uma ‘normalização’ imposta por um modo de existência predatório. (…) será possível atenuar os problemas apelando apenas à boa consciência de cada um, sem questionar estruturas de poder, modelos económicos, lógicas de acumulação de lucro ou de crença no crescimento infinito? Não é crível. (…) O desafio é, então, aprender a viver de forma não predatória, entendendo que somos parte da terra e não os seus amos. O vírus veio recordar-nos que o nosso destino está enlaçado com as demais criaturas e entidades. Mas vai demorar a alcançar esse entendimento. Vê-se isso quando falamos em ‘isolamento social’ ou em ‘guerra’ contra o vírus, como se nos posicionássemos fora da natureza. (…) não existimos nós, os seres humanos, de um lado, e a natureza, do outro. O planeta é um complexo organismo vivo de coabitação, de afectação mútua e conectividade entre diversas formas de existência. Temos estado cegos à interconexão da natureza. É vital despertar para ela.”