terça-feira, 17 de março de 2020

Discernimento em tempos de Covid-19

Como escrevi no post anterior, atravessamos tempos desafiantes. Devemos por isso, e como disse uma pessoa amiga, "estar alerta e ser prudentes" - sem alarmes desnecessários, nem entrar em pânico.
Tenho plena consciência da gravidade da situação - tudo mudou durante a semana passada, depois de várias leituras e de contactos com médicos. Mas VAMOS COM CALMA.
Sei que está tudo a acontecer muito depressa. No entanto, vamos precisar de tempo, de muita prudência e sangue frio para atravessar esta crise, que tomou uma dimensão dificilmente imaginável, mas que NÃO É O FIM DO MUNDO!
O pânico e o alarmismo, ampliados pelos media e que têm circulado também nas redes sociais, não levam a nada de bom e é preciso ter muito cuidado com aquilo que nos enviam e com o que reenviamos. Portanto, verificar sempre as fontes e não espalhar boatos!
O medo é um sentimento natural perante o desconhecido, mas deve ser refreado pois sabemos muito bem que é mau conselheiro! E, não sejamos ingénuos, há quem o queira usar para fins pouco recomendáveis... Podem sempre ler os artigos que citei no post anterior.
O 'distanciamento social' é muito importante nesta fase de contenção e pode fazer toda a diferença para não termos de passar para a fase de mitigação (como em Itália e Espanha). Estão em causa os serviços de saúde e quem lá trabalha - e, é óbvio, as pessoas de risco, quem têm de ser protegidas. Mas a maioria das pessoas que apanhar o vírus vai ter uma mera gripe e recupera! Os números estão aí e são claros (ver p.ex. links no final).
Tudo isto não quer dizer que tenhamos de ficar isolados. Precisamos de nos ajudar uns aos outros, providenciando os bens essencias e recorrendo às pessoas de menor risco. Além disso temos as tecnologias para nos informarmos e para podermos comunicar.


Mais umas coisas a ter em conta:

Primeiro: é conveniente relembrar que este vírus não é mortal - a sua taxa de letalidade é baixa 2-4%; só é mais elevada para os grupos de risco: idosos e imunodeprimidos (ver links no final); portanto, se alguém, de fora daqueles grupos, ficar infectado poderá desenvolver sintomas gripais, mas muito provavelmente NÃO VAI MORRER! As previsões apontam para que este vírus venha a perdurar e portanto irá infectar muita gente - que assim adquirirá imunidade. Há quem compare com a rubéola que é benigna nas crianças e jovens, mas pode ser perigosa para os adultos e idosos. A diferença é que o virus da rubéola já circula há vários anos e já existe muita imunidade na comunidade e portanto há pouca transmissão. Este é 'novo', não existe imunidade na comunidade e pode haver muita transmissão se não houver contenção na fase inicial. Esta não será certamente a última epidemia viral. Mais virão. E não é defeito (da natureza), é feitio! Os vírus (e outros micróbios) já cá andavam há muito tempo antes de nós chegarmos - e vão continuar. Devemos é estar melhor preparados para a próxima e não dependermos de economias globalizadas, mas extremamente frágeis e insustentáveis (ver post anterior)!

Segundo: o facto de muita gente poder - e dever - ficar em casa só é possível se algumas pessoas ficarem em risco de exposição nos seus postos de trabalho - o tele-trabalho não é para todos*! Em primeiro lugar, os profissionais de saúde, claro! Devemos-lhes todos a nossa gratidão. MAS NÃO SÃO OS ÚNICOS! Todas as pessoas que trabalham em serviços públicos ou privados essenciais, os empregados dos supermercados, os produtores e distribuidores de alimentos, os farmaceuticos, os bombeiros, os membros das forças policiais e muitas outras pessoas que não tiveram opção de ficar em casa, como os trabalhadores da construção civil nas inúmeras obras que decorrem por todo o lado, SÃO TAMBÉM OS NOSSO HERÓIS!!! Era bom que todos se lembrassem disso, porque deles também depende o nosso bem-estar.
Desafio os facebookianos a proporem cadeias de gratidão para todas essas pessoas. Eu agradeci ontem aos empregados do meu supermercado local por estarem ali - e muitos deles claramente queriam estar em casa com os seus familiares!
* Ver este artigo sobre a vizinha Espanha.

Terceiro: convido ainda a que nos recordemos (a maioria de nós) do nosso privilégio - não temos guerra, não temos privações graves, temos tecto, temos comida, não houve corrida desenfreada aos supermercados, nem desacatos - e seria bom que se mantivesse assim.

Quarto: mostrar simpatia pelas famílias dos mortos é um legítimo sinal de respeito; mas isso é válido não só para quem morrer da Covid-19, como o é também para as dezenas de mortos de outras doenças infecciosas em Portugal (incluindo a gripe). Relativizemos portanto, sem desumanizar.

Finalmente: aqueles que não estão em risco podem sair à rua para apanhar ar e dar um passeio, com as devidas precauções - não vos irá cair um vírus na cabeça. O mundo continua a girar e a Primavera está à porta. É aproveitar antes que declarem quarentena forçada.


Nenhum de nós sabe como vai ser o dia de amanhã. Mas também era assim ontem e anteontem. Vamos confiar no bom senso, no discernimento e, sim, na coragem e altruismo de muitos. Disso depende um amanhã risonho para todos.

Seguem alguns links para sites informativos (para consultar com moderação):
SNS: https://www.sns24.gov.pt/alerta/novo-coronavirus/
DGS: https://covid19.min-saude.pt/
Lusa: https://www.lusa.pt/covid19

Prossigamos pois esta viagem em águas turbulentas e incógnitas: com confiança, coragem e esperança. Que o lado luminoso da globalização nos guie nesta jornada.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Pode uma pandemia mudar o mundo?

Quando espreitei o mundo através da minha janela esta manhã, reparei que parecia o mesmo de ontem. Mas, na verdade, já não era o mesmo. E ainda mais diferente me pareceu daquele que me lembro da semana passada. Desde então, o tempo parece que ficou comprimido e que tudo está a acontecer a uma velocidade vertiginosa. Mas sei que é uma questão de percepção. Na verdade, sabemos que a realidade é algo que vamos construindo, individual- e colectivamente, e que, por isso, está em constante mudança. Em cada momento, vamos tendo acesso e consciência das diferentes camadas dessa realidade que é o mundo para além de nós e no qual nos inserimos. E assim o vamos moldando - e ele a nós. Umas vezes parece-nos estável e quase imutável, outras parece arrastar-nos num turbilhão. E é precisamente neste último registo que sinto que nos encontrarmos neste momento.


Atravessamos um território e um tempo desconhecidos de uma pandemia global que parece saída de um filme de Hollywood ou de um livro de ficção científica. Na verdade, instalou-se no ‘mundo real’ e acabou por dominar a ordem do dia mediática (o que já estava a acontecer há umas semanas), passando agora também a ditar mudanças consideráveis na vida quotidiana de todos. Estive hoje (2ªf, 16 de Março) em Belém, no Chiado e na Baixa a meio da tarde e parecia ter regressado à Lisboa de um fim-de-semana de Agosto de há pelo menos uns quinze anos atrás (fotos neste post). As medidas extraordinárias decretadas pelo governo na semana passada entraram em vigor para museus e monumentos e as indicações de ‘distanciamento social’ estão a ser acatadas por muitos lisboetas (fotos neste post). E a situação parece justificá-lo, atendendo ao que sabemos ter acontecido em Itália e ao que se está a passar na vizinha Espanha. Devemos encarar este momento com serenidade, sensatez e coragem, evitando a todo o custo o pânico e o medo, que sabemos bem serem maus conselheiros. Mas temos de manter doses equivalentes de atenção e de vigilância para não perdermos o discernimento (ver post seguinte).

Passo a invocar algumas leituras recentes para nos servirem de guias de reflexão e de inspiração nestas águas turbulentas.

O primeiro é um artigo de Marc Fisher para o Washington Post que nos fala sobre a linha ténue que separa a prudência do pânico. Nele o autor defende que uma certa dose de medo pode ser construtiva e mesmo necessária para conseguirmos mudar aquilo que nos impede de resolver um problema que ameaça a nossa própria sobrevivência, sendo igualmente necessária confiança não só entre as pessoas, como também nas decisões colectivas e institucionais. Este raciocínio é válido para a actual pandemia, mas - digo eu - é igualmente válido para a crise ecológica e climática que vai continuar a ameaçar-nos mesmo depois de superarmos a crise da Covid-19.
Excertos: (…) Fear by itself doesn’t necessarily lead to panic. Fear can bring out the best in people. (…) “Panic is bad, but some degree of anxiety is good and adaptive,” [Eric Toner, physician at Johns Hopkins University] said. “It’s normal to be anxious if that drives people to do constructive things. The vast majority of people who get this illness will be just fine. But that small percentage who do poorly is a big number, and it’s good for people to understand that while this may not be a risk to me personally, it is to the society in which I live.” (…) The line between healthy adaptation to an emergency and counterproductive panic has much to do with two of the most powerful forces in any human existence: denial and survival. Often, psychologists say, the two instincts work hand in hand to steer people away from danger. People need a strong sense of denial to cope with the risks involved in daily life. (…) To continue with daily life in the face of a deadly pandemic, you must accept a certain degree of risk or else you cannot obtain food and care for your family. (…) One of many paradoxes the world faces in a time of dangerous uncertainty is the idea that time both heals and provides false comfort
.


Os outros artigos são de autores portugueses e surgiram nas últimas semanas no jornal Público. Vitor Belanciano (O vírus que faz parar para pensar)(pdf) e José Gil (O medo)(pdf) referem-se ambos à incerteza da situação que vivemos e às ameaças sociais que derivam do medo gerado por essa mesma incerteza, invocando também as oportunidades que se abrem para questionar o nosso modelo de sociedade e o nosso modo de vida.
Excertos:
VB: (…) O novo vírus tem provocado mortes, pânico, paranóias racistas e manifestações de nacionalismo, mostrando que quanto mais ligado o mundo está, maiores as hipóteses de um desastre local resultar em pavor global, sem que as respostas consigam ser igualmente universais. (…) Se nos últimos anos já havia propensão para muros, segregações, desigualdades crescentes, estados de emergência que se tornam permanentes e crises económicas seguidas de pedidos de sacrifício e medidas de austeridade que penalizam os do costume, dir-se-ia que o cenário actual parece propício a impulsionar ainda mais essa realidade. (…) Numa época em que a sustentabilidade do planeta está na ordem do dia, somos agora impelidos a consumir menos, a trabalhar de forma diferente, a viajar o mínimo. Essa desaceleração terá efeitos económicos imponderáveis, mas tudo indica ambientalmente positivas — será desta que ensaiaremos novos modelos de crescimento que não ponham em causa o equilíbrio do planeta? (…) Numa sociedade baseada na produtividade e no consumo, de um momento para o outro somos obrigados a valorizar um tempo existencial cujo valor perdemos de vista, se daí não resultar proveito financeiro. (…) O vírus tirou-nos a proximidade, o toque, o abraço. Tudo gestos que às vezes não valorizamos, porque os damos por garantidos. Ninguém sabe o que irá acontecer. Tanto podemos regressar à selvajaria, como esta ser a hora da responsabilidade partilhada, de um destino escrito por todos, porque dependemos uns dos outros.
JG: O que vem aí, ninguém sabe. Adivinha-se, teme-se que seja devastador. (…) Será um desastre planetário e regional, colectivo e individual, já presente e ainda futuro, conhecido e familiar, mas sempre longínquo e estrangeiro, destinado aos outros mas cada vez mais perto. (…) Constatamos agora que a sociedade, as instituições e as leis que criámos para nos protegerem, e nos assegurarem uma vida justa, falharam redondamente. Não construímos uma vida viável para a espécie humana. (…) O coronavírus, pondo em perigo qualquer um, independentemente da sua riqueza ou estatuto, torna todos iguais – não perante a morte, mas perante o direito à vida, à saúde e à justiça. Não se trata, como já ouvimos dizer, de pôr em causa a nossa civilização, mas as suas formações de poder e, com elas, o desenvolvimento de laços sociais cada vez menos aceitáveis. Esta terrível experiência que estamos a viver constitui apenas uma antecipação, e um aviso, do que nos espera com as alterações climáticas. (…) Reduzir-se-á então o nosso contributo a obedecer passivamente ao auto-isolamento anti-social? (…) Que podemos e devemos fazer, nós que nos fechamos em casa, e que não queremos que o auto-isolamento se torne apenas uma defesa egoísta da família, numa atitude que reforça, afinal, o corte com a comunidade? (…) A relação com os outros e a comunidade sofre um abalo profundo. O laço social, que, mais do que na inveja e no amor-de-si, se enraíza no “amor” ao outro (como afecto gregário da espécie), encontra-se comprometido, ameaçando romper-se. (…) Um fenómeno inédito está a surgir: a pandemia transforma a percepção que se tinha da globalização. Sabíamos que ela existia, conhecíamos os seus efeitos (financeiros, climáticos, turísticos), mas só raros tinham dela uma experiência vivida. Graças ao coronavírus, e pelas piores razões, o homem comum tem agora, ao longo do seu tempo quotidiano, a experiência da globalização. Deixou de ser abstracta, tornou-se uma globalização existencial. Vivemos todos, simultaneamente, o mesmo tempo do mundo.



O medo é também o tema de um artigo de Natália Faria (O vírus do medo já contagiou as democracias)(pdf) que cita diversos académicos nacionais sobre as ameaças para a democracia que podem resultar da forma como sucessivos governos têm respondido à actual pandemia.
Um dos autores citados no artigo anterior é o historiador Manuel Loff que escreveu, por sua vez, dois artigos de opinião (Peste I e Peste II)(pdfs aqui e aqui) onde invoca o célebro livro de Albert Camus para defender que a cultura do medo, que tem sido usada repetidamente por governantes mundiais nas últimas décadas para enfrentar diversas crises, está a conduzir a perigosas derivas securitárias.
Excerto: Na milésima crise, na enésima emergência a que este século assiste, vivemos entre um número crescente de concidadãos que se habituou a viver de medo em medo - do terrorismo da Al-Qaeda ao do ISIS, dos mísseis nortecoreanos aos refugiados que tentam atravessar o Mediterrâneo, da gripe das aves à covid-19... Como escreve Giorgio Agamben, "uma vez mais manifesta-se a tendência crescente a usar o estado de exceção como paradigma normal de governo", a resolução de um problema de saúde pública, como nos casos da China ou da Itália, com "uma verdadeira militarização" (…). A batalha do medo está perdida. Que não se perca a da razão.



Poderá então esta pandemia salvar o mundo? Cabe-nos a nós construir a resposta a essa pergunta. Como disse sabiamente o escritor Mia Couto: “O mundo só pode ser salvo se for outro, se esse outro mundo nascer em nós e nos fizer nascer nele.” E como diz José Gil no artigo que citei acima: “Comunicar com os outros e com a comunidade é furar a bolha, alargar os limites do espaço e do tempo, tomar consciência de que o nosso mundo se estende muito para além dos quartos a que estamos confinados.

No meio de tanta incerteza, tenhamos a sensatez e a coragem de sermos generosos com os outros e connosco próprios – teremos pela frente momentos que vão testar a nossa resiliência emocional e psicológica. Não sabemos o que vai acontecer e não temos um guião para este ‘filme’, mas é certo que já passámos por outras provações bem mais graves e conseguimos sair delas, mesmo que tenham deixado marcas. Prossigamos então lado a lado – porque estamos todos juntos nesta viagem.

Nota: as fotos que ilustram este post foram respigadas por mim na última semana.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Coronavírus e catástrofe ecológica: duas crises, a mesma causa profunda

A pandemia da COVID-19, para além de ter desencadeado uma reacção mundial sem precedentes (com muita insensatez e histerismo à mistura!), acabou por expor as interdependências e fragilidades do actual sistema económico globalizado - e nem sequer estamos perante um vírus particularmente agressivo. Como afirma Matt Mellen num artigo recente na revista ecologista britânica online 'Ecohustler', "O coronavírus é simultaneamente um sintoma duma economia globalizada insustentável e um alerta importante de que as coisas precisam mudar. As medidas excepcionais de curto prazo para conter o vírus acabaram por ter também um impacto positivo nos ecossistemas globais devastados. A crise pode ser uma oportunidade e a adoção sustentada de algumas dessas medidas poderia ajudar a evitar os piores cenários climáticos e a manter as condições planetárias às quais a humanidade está adaptada." O autor vai mais longe e afirma que: "A melhor maneira de prevenir pandemias e evitar a escala de sofrimento humano a que estamos assistir no mundo devido ao coronavírus não é o auto-isolamento, a lavagem das mãos ou as máscaras faciais, mas o repúdio dos nossos sistemas económicos, alimentares e de transporte moribundos, e a sua substituição por estruturas que coloquem a natureza e o planeta em primeiro lugar. Um mundo onde a agricultura industrial e o comércio de animais selvagens são proibidos. Onde o crescimento económico não é perseguido a todo custo, onde a nossa capacidade de nos alimentarmos quotidianamente está nas nossas próprias mãos, e não nas de corporações multinacionais poluentes." Para quem conhece as propostas do Decrescimento, esta argumentação será certamente familiar!
Os impactos ambientais positivos da crise da COVID-19 têm aliás sido enfatizados noutros media internacionais - ver p. ex. aqui ou aqui. O artigo da DW (versão PT aqui) começa por afirmar que o coronavírus provovou uma queda nas emissões de CO2 mais rápida do que anos de negociações climáticas, com base em dados de um estudo da Universidade de Helsínquia. O artigo cita Amy Jaffe, directora do programa sobre segurança energética e alterações climáticas do think-tank norte-americano 'Council for Foreign Relations', que afirma que o vírus está a incitarnos a que mudemos os nossos hábitos de formas que poderão contribuir para uma proteção climática de mais longo prazo: trabalhar de casa, videoconferências, jornadas semanais mais curtas ou horários de escritório alternados para reduzir o tráfego e relocalização das actividades económicas. Este mesmo artigo, bem como o do The Guardian (que dá ênfase às quebras no tráfego aéreo), alertam no entanto para a pressão do governo chinês no sentido da retoma rápida da produção para evitar uma recessão económica, tal como sucedeu após a crise de 2008, o que neutralizaria os actuais impactos ambientais positivos. O artigo da DW cita ainda Jon Erickson, especialista em doenças infecciosas e mudança climática na Universidade de Vermont, que defende uma contração controlada da atividade económica a fim de proteger o clima, semelhante à preconizada pelos decrescentistas. Erickson sugere que "Se lidarmos com o clima como uma verdadeira emergência – como estamos a tratar esta pandemia – precisamos de ter um nível semelhante de coordenação internacional, a começar pela rápida redução dos investimentos em combustíveis fósseis".
O paralelismo entre a actual crise de saúde pública e a crise climática é também evocado por David Comerford, especialista em ciências comportamentais na Universidade de Stirling (Escócia), num artigo no 'The Conversation' (versão PT aqui). Nele destaca as principais diferenças nas respostas às duas emergências, tentando explicar essas mesmas diferenças. Conclui assim: "Uma lição final que a resposta ao coronavírus nos ensina é que as pessoas ainda conseguem trabalhar juntas para fazer o que está certo. Precisamos de esperança, de confiar uns nos outros, para combater a crise climática. Talvez, contraintuitivamente, o coronavírus nos dê uma ajuda para isto."
Também o filósofo esloveno Slavoj Zizek adopta, num artigo de opinião recente, uma visão (subversivamente) optimista sobre o impacto do novo coronavirus no eventual declínio do sistema capitalista e numa possível reinvenção do comunismo. Escreve Zizek: "talvez, outro vírus muito mais benéfico também se espalhe e, se tivermos sorte, irá nos infectar: o vírus do pensar numa sociedade alternativa, uma sociedade para além dos Estados-nação, uma sociedade que se actualiza nas formas de solidariedade e cooperação global." Mas convida também a "refletir sobre o triste facto de precisarmos de uma catástrofe para nos permitirmos repensar as características básicas da sociedade na qual vivemos", não deixando de notar "a enorme ironia do facto: aquilo que nos uniu e nos levou à solidariedade global expressa-se, no nível da vida quotidiana, em orientações severas para evitar o contacto com os outros, e até de nos isolarmos." Zizek sublinha o impacto da pandemia em diversos sectores da economia mundial e nos 'mercados', que poderia tornar mais evidente "a necessidade urgente de uma reorganização da economia global, que deixe de ficar à mercê dos mecanismos de mercado".
Finalmente, o historiador Harold James num artigo para o 'Project Syndicate', reflecte também sobre os impactos da actual pandemia, não só nas actividades económicas e na especulação financeira, mas também nos comportamentos e decisões políticas, sugerindo que esta crise poderá originar um declínio da globalização económica: "we should not be surprised if the crisis leads to far-reaching, historically significant global change. (...) it is entirely possible that COVID-19 will precipitate the 'waning of globalization'."
A minha própria posição em relação aos eventuais efeitos benéficos da actual pandemia viral é cautelosa pois existe um lado mais perverso e sinistro desta crise que tem a ver com a resposta hiper-reactiva dos governos e instâncias internacionais, que me parece desproporcionada e pouco sensata, para além do descabido alarmismo mediático e das reacções submissas, insensatas ou pouco críticas de muito cidadãos. Tentarei desenvolver este raciocínio num outro post.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Crescer até rebentar!?

A mensagem é repetida à exaustão, todos os dias e a toda a hora. A economia tem de crescer, os negócios têm de crescer, o comércio tem de crescer. Tudo tem de crescer. Se não, é a recessão, o desemprego, o colapso social. É uma narrativa tantas vezes repetida que muitos a aceitam como legítima e inquestionável. O crescimento é aliás o mantra da grande maioria dos políticos, governantes e... economistas. E se alguém põe tal 'verdade' em causa, é acusado de radical ou subversivo. Acontece que à luz dos conhecimentos científicos actuais sobre biologia e termodinâmica, o crescimento permanente da economia, que depende do consumo de matérias primas não renováveis e de energia, não é possível num planeta de recursos finitos e onde a conversão energética é um processo irreversível que conduz a perdas inevitáveis. Já escrevi anteriormente sobre o assunto (p.ex. aqui ou aqui) e recomendo esta curta animação que relembra que na natureza nenhum ser vivo cresce para sempre:
'The impossible hamster' (1 min)
O défice epistemológico dos economistas dominantes (adeptos da chamada economia neoclássica e em particular da sua corrente neoliberal) em relação à biologia e à ecologia é realçado pelo geneticista (e activista ambiental) canadiano David Suzuki nestes curtos vídeos onde defende que a economia convencional não é uma ciência mas sim uma ideologia (e uma forma de demência!) e onde mostra as consequências do crescimento exponencial:
'Conventional economics is a form of brain damage' (2 min)
'On exponential growth' (3 min)
A insustentabilidade e irresponsabilidade deste paradigma económico têm vindo a ser denunciadas há vários anos, em particular pelos defensores do Decrescimentosobre o qual tenho escrito por diversas vezes (p.ex. aqui ou aqui). Vem isto a propósito do lançamento recente do website da Rede para o Decrescimento, da qual sou membro, e onde é possível encontrar informação sobre este movimento internacional que contesta o modelo sócio-económico hegemónico baseado no crescimento permanente da produção e consumo de bens e serviços e na sua mercadorização globalizada. Vão sendo ali também colocadas informações sobre as actividades da Rede, bem como sobre eventos de interesse para a comunidade decrescentista. Convido pois a que façam visitas regulares.

Deixo para finalizar um excerto de um dos textos publicados naquele site:
"Só se compreende a proeminência e a urgência que damos à palavra «decrescimento» se se perceber que uma parte significativa das sociedades humanas percorre hoje um caminho de crescimento sem escalas ou regulações que permitam adequá-lo ao meio ambiente, sem decisão política sobre as transformações que ele transporta consigo e sem um sentido de justiça e dignidade humana que o modele. Transformado em único valor das sociedades modernas, o crescimento tornou-se uma dinâmica vazia de propósito, uma vez que tudo o mais passou a ser-lhe sacrificado. Esta dinâmica passou a justificar tudo e o seu contrário: mesmo no momento em que nos confrontamos com os limites do planeta, o crescimento é ainda convocado para justificar dinâmicas e tecnologias que supostamente nos permitiriam arrepiar caminho e sair da senda do crescimento infinito, que o consenso geral parece agora considerar suicida."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A miragem da felicidade: ter vs. ser

Cruzei-me recentemente com este artigo do pensador britânico Sam Wren-Lewis no website do (estimulante e desafiante) projecto 'Dark Mountain'(*) e apeteceu-me partilhá-lo aqui:
https://dark-mountain.net/the-happiness-problem/
O título do artigo ('The happiness problem') é também o de um seu livro recente e website. Nele o autor discorre sobre o conceito moderno de felicidade e as suas raízes históricas (no Ocidente), estabelecendo o paralelismo com as visões materialistas e mecanicistas do mundo que resultaram do Iluminismo Europeu e da Revolução Industrial. Wren-Lewis problematiza o conceito moderno de felicidade, associado às noções de posse (ter) e de domínio/controlo sobre o mundo, as coisas e os outros, comparando-o com o paradigma de controlo social e tecnológico cujas consequências ambientais e sociais nefastas se tornam cada vez mais evidentes. Sugere como alternativas uma maior abertura para as diferentes dimensões da realidade (corpo, interligações, comunidade, humanidade, natureza) e uma mudança de comportamento com ênfase no ser, na curiosidade e nas relações, mas lidando igualmente com as vulnerabilidades e inseguranças.
Seguem-se alguns excertos:
"For the past 250 years, we have lived in a society that sees reality in terms of objects and resources, goals and plans, achievements and progress; and less in terms of relationships and subjects, exploration and play, learning and understanding. (…) [After the Industrial Revolution]  Happiness was no longer something that required good fortune. Many individuals could now pursue happiness by satisfying their desires and achieving their goals… [Wren-Lewis apresenta uma lista das coisas que (alegadamente) precisamos de ter para sermos felizes] (…) The more we focus on the things we think will make us happy, the less we focus on the other things in life that matter. By focusing on the perfect job, we miss out on other meaningful forms of work (and leisure and rest). In trying to find ‘the one’, we blind ourselves to perfectly good, intimate and trusting relationships with others. In our desire to feel good most of the time, we fail to learn from our negative thoughts and feelings. (…)  When we blind ourselves to what really matters, our pursuit of happiness and social progress has the potential to cause great harm. Our efforts to try and control ourselves, others and the natural environment have not just failed to make us happy – climate change, environmental degradation, increasing economic inequalities and mental health crises are not signs of a happy society – in fact, they are responsible for many of the major social and ecological problems we face today.   (…)  When we open ourselves up to reality, these five things – bodies, relationships, community, humanity and nature – shine with intensity. This may be beautiful for a while, or it might be unbearable. At some point, we will want to shut ourselves off from reality again – create some new goals and plans that will, at least for the time being, make things more manageable. Reality is difficult. Seeing it clearly requires facing up to our limits, our vulnerability and insecurity."


Recomendo ainda um post do mesmo autor onde ele questiona o nexo contemporâneo entre a felicidade e a agenda do bem-estar pessoal, que é promovida em conferências, oficinas e eventos corporativos, mas cujas motivações principais se prendem de facto com os custos das disfunções psicológicas e com a optimização da produtividade. Excerto: "Instead of having a list of things in our head that we think will make us happy, we can be open to all the things outside of our list. Instead of certainty, urgency and blame, we can cultivate attitudes of humility, curiosity and compassion."


Aproveito para partilhar um notável poema inédito da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen (respigado daqui), que me foi dado a conhecer recentemente (por uma amiga decrescentista) e que condensa e recapitula algumas das ideias propostas pelo autor britânico, além de se aproximar claramente das visões decrescentistas de frugalidade e simplicidade:

"Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa.
Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal.
Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre.
O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser.
Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro.
Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo.
Chegou o tempo da nova aliança com a vida."

* Para saber mais sobre o projecto 'Dark Mountain' ler por exemplo o seu manifesto fundador: https://dark-mountain.net/about/manifesto/

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Reciclar não chega, é preciso reduzir!

Esta é uma das mensagens dos defensores do decrescimento, que propõem não só desafiar a primazia do PIB como principal prioridade política, mas também a redução da produção e consumo para níveis sustentáveis, contraindo o sistema económico para dar mais espaço aos ecossistemas e à cooperação, garantindo uma redistribuição justa de rendimentos e recursos. Um estudo recente apresentado pelo 'think-tank' internacional 'Circle Economy' no WEF em Davos fornece alguns números globais que falam por si:
https://www.theguardian.com/environment/2020/jan/22/worlds-consumption-of-materials-hits-record-100bn-tonnes-a-year
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/reutilizacao-de-recursos-em-declinio-economia-mundial-e-apenas-86-circular-536007
Das mais de 100 mil milhões de toneladas de recursos (minerais, combustíveis fósseis, metais e biomassa) usados todos os anos em processos produtivos (dados referentes a 2017), 15% são convertidas em emissões de CO2 e outros GEE, 33% são tratadas como resíduos (aterros e depósitos de resíduos), 25% são descartadas para o ambiente (incluindo plástico lançado nos oceanos) e apenas menos de 9% são efectivamente recicladas. Enquanto a quantidade de recursos extraídos mundialmente aumentou 9% de 2015 para 2017, a taxa de reutilização aumentou apenas 3%. Segundo o CEO da 'Circle Economy': "Arriscamos-nos a um desastre global se continuarmos a tratar os recursos do planeta como se fossem ilimitados." O relatório inclui propostas de medidas concretas baseadas no conceito de economia circular.


No entanto, apesar de toda a retórica da desmaterialização da economia, do 'consumo verde' e da implementação de ferramentas de gestão que promovem a economia circular (ver p.ex. aqui), é evidente que o modelo económico actual alicerçado no crescimento não vai conseguir atingir as metas da sustentabilidade. Teremos mesmo de decrescer (economias ricas e privilegiadas) para vivermos melhor e garantirmos um futuro digno para todos. Este será o tema de um encontro no próximo dia 8 Fev em Montemor-o-Novo, promovido pela Rede para o Decrescimento em parceria com duas iniciativas locais: a Cooperativa Integral Minga e a Rede de Cidadania de Montemor - ver aqui.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Incêndios na Austrália: a banalidade do apocalipse

"O presente da Austrália é o futuro do mundo." (Ariane Byler)
"A verdade chegou sob a forma de calor, fumo e fogo. Mesmo assim, algumas pessoas escolheram ignorá-la." (Brigid Delaney)
"O facto mais inquietante das imagens dos incêndios não é a sugestão dum eventual fim do mundo, mas um aviso de como o mundo irá continuar." (Mark O'Connell)

(imagem respigada da edição online do 'The Guardian')
Inauguro os escritos no novo ano 2020 com um tema incontornável para quem acompanhou as notícias internacionais nas últimas semanas - os devastadores incêndios florestais na Austrália, que se arrastam desde Setembro de 2019 e já queimaram mais de 18 milhões de hectares em todo o país. Estou a escrever um post mais longo sobre a dimensão e implicações deste flagelo, que vieram corroborar a tese do historiador norte-americano Stephen Pyne que apelidou a era actual, dominada pela acção dos seres humanos, como o Piroceno. Aqui ocupo-me do seu impacto mediático e psicológico.
O título deste post foi respigado de um artigo de Eric Byler para o 'The Intercept', onde o autor faz um relato em primeira mão dos incêndios no sudeste australiano. Naquele artigo Byler descreve as atribulações da sua família durante a passagem de ano 2019-2020 numa estância de veraneio na 'Saphire Coast' em 'New South Wales'. Aquilo que seriam umas férias pacatas à beira-mar transformaram-se numa experiência de sobrevivência perante a ameaça dos fogos à segurança da sua própria família, onde o fumo domina a narrativa dos acontecimentos. Num vídeo que acompanha o artigo, o 'espectáculo' das chamas dos incêndios cruza-se com o dos fogos de artíficio em Sydney no ecran de TV na noite de fim-de-ano.
Num outro artigo de Dezembro de 2019 no 'The Guardian', a jornalista Brigid Delaney relata a sua experiência de dissonância cognitiva durante um evento social de prova de vinhos numa baía de Sydney sufocada pelo fumo dos incêndios. A autora faz um balanço de 2019 que descreve como o ano em que a 'bomba da verdade' sobre a catástrofe climática e ambiental foi lançada sobre a humanidade, gerando um pavor tal que levou muitas pessoas a ignorarem os sintomas ou a entrarem em negação. Delaney evoca o escritor Scott Fitzgerald que foi exímio na descrição das festas decadentes que pressagiam os colapsos societais.
Num terceiro artigo mais recente do mesmo jornal britânico, Mark O'Connell descreve como os relatos e reportagens sobre os incêndios são um sinal inequívoco de que já passámos do tempo das ameaças mais ou menos longinquas ou abstractas sobre a crise climática para uma catástrofe em curso, onde as previsões científicas se converteram em percepções quotidianas. No entanto, o autor alerta para o efeito entorpecedor da avalanche noticiosa que ameaça esvaziar as nossas imaginações morais e impossibilitar o nosso empenho na procura urgente de soluções para uma situação de apocalipse iminente. Já aqui referi anteriormente o perigo da normalização ou banalização da catástrofe, que o líder indígena Ailton Krenak apelidou de 'ecologia do desastre'.

Deixo para fechar uma ligação para uma curta animação  - "Tomorrow's on fire" - do australiano Darcy Prendergast que ilustra a leitura (por uma criança de 8 anos) de um poema seu*, onde tenta transmitir os sentimentos suscitados pelas consequências devastadoras dos incêndios e pelas reacções dos políticos do seu país (ver p.ex. aqui). As penúltimas estrofes exortam à acção e à esperança, que residem claramente na tomada de consciência e na mobilização dos cidadãos, pois os supostos governantes e líderes mundiais respondem a interesses que não são os da maioria dos restantes seres humanos (e não humanos), nem os da manutenção e celebração da vida (ver p.ex. aqui). Como escrevi em 2018: onde há vida, há esperança!

Texto original:
I’m angered, incensed, enraged and fed up.
With you lazy, ignorant fossil fool chumps

You’ve sold out our nation, and served up division
Whilst it’s grief stricken people, scream at deaf politicians

On our future you wager, without heed nor concern
Just misinformation, while our backyards burn

And it’s not just the humans— our animals fry
While you coal hearted arsonists, continue to thrive.

You elected officials hold aloft lumps of coal,
With the pride of an Olympian, who’s just won gold

From up high on ye’ podium, you silence dissenters
What we’ve come to expect, from you bald one percenters

You should be disgraced, and thrown headfirst from office.
Do not pass go, do not stock mining coffers.

Instead you drive narratives, of left vs right,
Whilst you all fear, what the middle just might.

So rally together, love strong and rage stronger
So that life on this planet, can last some time longer.

Tomorrow’s on fire, and the sky it bleeds crimson.
So it’s about time, we made our tax dollars listen.