quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A verdade da mentira: as narrativas mediáticas sobre o Afeganistão

Vinte anos depois do 11 de Setembro, a humilhação americana prova que uma invasão militar e uma guerra para impor o “nosso modo de vida” acabou a fortalecer os fundamentalistas. Que a Administração americana tenha sido apanhada de surpresa é um atestado de ignorância relativamente ao terreno que ocuparam durante 20 anos. Ana Sá Lopes

The vast majority of the money the US spent on that country in the subsequent 20 years was to pay for the bombs they dropped on it. The money spent on building the place up was tiny in comparison. And much of it was lost to corruption. Juan Cole

America’s corporate media are ringing with recriminations over the humiliating U.S. military defeat in Afghanistan. But very little of the criticism goes to the root of the problem, which was the original decision to militarily invade and occupy Afghanistan in the first place. Medea Benjamin and Nicolas J.S. Davies

A retirada americana do Afeganistão em Agosto, depois de 20 anos de ocupação militar, teve cobertura mediática global e foi inicialmente noticiada como uma humilhação para os EUA, com inevitáveis comparações com a retirada desastrosa do Vietnam em 1975 (ver p.ex. aqui ou aqui). Segundo a primeira notícia, “Depois de biliões de dólares e mais de 2 mil mortos entre os soldados norte-americanos, bem como as mortes de dezenas de milhares de civis afegãos, Biden considerou que os Estados Unidos tinham poucas hipóteses de transformar uma nação em grande parte tribal e subdesenvolvida.” O presidente terá afirmado: “A ideia de podermos usar as nossas forças armadas para resolver todos os problemas internos que existem no mundo não está dentro das nossas capacidades”. Depois de décadas em que esse tem sido o pretexto usado pelos EUA para justificar a sua política externa militarista e imperialista, aquela afirmação é no mínimo hipócrita. Biden terá ainda deixado a pergunta: “A questão é a seguinte: está em jogo o interesse vital da América ou o interesse próprio de um dos nossos aliados?”. No editorial de Ana Sá Lopes, a autora apelida de patética a afirmação de ‘missão cumprida’ por parte do secretário de Estado americano, Antony Blinken, lembrando que o presidente afegão fugiu do país um dia após o presidente Biden o ter instado a governá-lo.

Mas muito rapidamente a narrativa mediática mudou o seu foco para a tomada de Kabul pelos Taliban, para as imagens do aparente desespero de milhares de afegãos a tentarem fugir da capital e para a instauração de uma nova cruzada fundamentalista pelas forças que tomaram o poder, em particular contra as mulheres. A campanha de demonização da nova tomada do poder pelos Taliban pelos media foi denunciada por Patrick Martin, num artigo de opinião onde escreve: “all of the tropes employed by the corporate media to ‘sell’ to world public opinion the invasion and occupation of Afghanistan in 2001, no matter how moth-eaten and worn out, are being revived. This serves two purposes: to paper over the war crimes carried out by the US in the past and to prepare public opinion for an intensification of imperialist pressure on the war-ravaged population.”

Esta aparente tentativa de desviar a atenção da incapacidade (ou incompetência) dos militares americanos em cumprirem de facto a sua missão e de branquear a destruição e sofrimento que causaram naquele território com o pretexto da alegada 'Guerra ao Terror', não impediu que vários artigos denunciassem a corrupção interna que deu milhões de dólares dos contribuintes americanos a ganhar ao denominado complexo militar-industrial, que inclui as diversas empresas de armamento e de material militar – ver artigos de Juan Cole, de Chris Hedges e de Medea Benjamin & Nicolas J.S. Davies. Neste último artigo, os autores denunciam também as tentativas de silenciar as vozes que, durante anos, reclamaram a paz e a retirada das tropas americanas do Afeganistão. A hipocrisia dos aliados europeus, que apoiaram activamente a 'Guerra ao Terror', também não passou desapercebida – ver p.ex. aqui ou aqui –, mas o mais chocante foram os anos sucessivos de mentiras do próprio governo americano sobre a ocupação do Afeganistão, ecoadas pelos media dominantes, denunciados p.ex. num artigo recente do jornalista Glenn Greenwald.

As tentativas de abafar ou censurar as opiniões que criticam ou condenam a actuação das sucessivas Administrações norte-americanas tiveram um novo episódio com o anúncio recente da prisão preventiva de um oficial dos fuzileiros navais (U.S. Marine Lt Col Stuart Scheller) por ter publicado vídeos seus no Facebook onde faz afirmações alegadamente danosas para as chefias militares sobre a retirada do Afeganistão – ver p.ex aqui. Esta notícia serve de mote a um vídeo recente do comediante britânico Russell Brand, onde denuncia as reiteradas tentativas dos poderes instalados de silenciar quem os põe em causa, dando também como exemplo o caso de Julian Assange, acossado há anos pelas autoridades norte-americanas, recordando um seu depoimento sobre as verdadeiras motivações da ocupação americana do Afeganistão: alimentar os empreiteiros militares e os senhores da guerra com milhões de dólares do erário público.

domingo, 8 de agosto de 2021

A civilização industrial à beira do colapso

A civilização industrial planetáriaviciada no crescimento económico permanente, encontra-se perante um colapso iminente, tal como foi previsto há quase 50 anos no livro 'The limits to growth' (1972) em que um grupo de investigadores do MIT aplicou um modelo computacional, baseado na teoria de sistemas complexos, para calcular a evolução de parâmetros-chave socio-económicos a partir de diferentes cenários societais. Os alertas para os sinais do colapso têm sido lançados recentemente por diferentes grupos de cientistas - ver p.ex. aqui ou aqui -, mas a acção política limita-se a tentar manter o sistema a funcionar à custa de tecnologias supostamente salvíficas, mas que apenas adiam o inevitável - a necessidade de uma mudança societal e cultural profunda (ver p.ex. aqui ou aqui). 

O modelo usado pelos investigadores do MIT foi agora testado com os dados empíricos dos últimos anos e as suas previsões menos optimistas - criticadas na altura como catastrofistas - estavam (infelizmente) correctas, como os decrescentistas vêm aliás alertando há vários anos (ver p.ex. aqui ou aqui). O novo estudo foi realizado em 2020 por Gaya Herrington (directora de 'Sustainability and Dynamic System Analysis' da multinacional KPMG nos EUA) e foi agora noticiado pela revista Vice num artigo do jornalista Nafeez Ahmed (Jul 2021): ver aqui.

Excertos: A remarkable new study by a director at one of the largest accounting firms in the world has found that a famous, decades-old warning from MIT about the risk of industrial civilization collapsing appears to be accurate based on new empirical data. As the world looks forward to a rebound in economic growth following the devastation wrought by the pandemic, the research raises urgent questions about the risks of attempting to simply return to the pre-pandemic ‘normal.’ (…)  The study represents the first time a top analyst working within a mainstream global corporate entity has taken the ‘limits to growth’ model seriously.

Segundo a autora daquele estudo mais recente ainda há esperança de evitar os cenários mais catastróficos - mas a janela de oportunidade está prestes a fechar-se e as escolhas políticas dos últimos anos estão muito longe de nos conduzir a uma verdadeira sustentabilidade.

(The Course of Empire - Destruction, Thomas Cole, 1836)


sábado, 7 de agosto de 2021

A pandemia como pretexto para impor um apartheid sanitário


(cartoon de Brian Wang, respigado daqui)
Aviso prévio: este é um post sem 'paninhos quentes' ou 'papas na língua'.

A pandemia está a ser usada como pretexto para diabolizar ou ostracizar os 'impuros' e 'egoistas' não-vacinados pelo (pretenso) moralismo de um novo fascismo sanitário, imposto através dos chamados 'passaportes sanitários' ou 'certificados de vacinação' - ver p.ex. aqui ou aqui. Trata-se de um mecanismo reconhecido pela psicologia e usado recorrentemente por sistemas hegemónicos ou totalitários que é brilhantemente desmascarado em mais um lúcido exercício de pensamento crítico do autor norte-americano Charles Eisenstein'Mob morality and the unvaxxed' (Ago 2021) -, cuja leitura recomendo e do qual seleccionei alguns excertos:

(…) defying left-right categorization is a promising new scapegoat class, the heretics of our time: the anti-vaxxers. As a readily identifiable subpopulation, they are ideal candidates for scapegoating. It matters little whether any of these pose a real threat to society. As with the subjects of criminal justice, their guilt is irrelevant to the project of restoring order through blood sacrifice (or expulsion from the community by incarceration or, in more tepid but possibly prefigurative form, through “canceling”). All that is necessary is that the dehumanized class arouse the blind indignation and rage necessary to incite a paroxysm of unifying violence. More relevant to current times, this primal mob energy can be harnessed toward fascistic political ends. Totalitarians right and left invoke it directly when they speak of purges, ethnic cleansing, racial purity, and traitors in our midst. Sacrificial subjects carry an association of pollution or contagion; their removal thus cleanses society.

(…) To prepare someone for removal as the repository of all that is evil, it helps to heap upon them every imaginable calumny. Thus we hear in mainstream publications that anti-vaxxers not only are killing people, but are raging narcissists, white supremacists, vile, spreaders of Russian disinformation, and tantamount to domestic terrorists. These accusations are amplified by cherry-picking a few examples, choosing hysterical-looking photos of anti-vaxxers, and showcasing their most dubious arguments.

(…) The mechanisms that generate the illusion of unanimity operate within science, medicine, and journalism as well as among the general public. Some conform enthusiastically to the orthodoxy; others complain in whispers to sympathetic colleagues. Those who voice dissent publicly become radioactive. The consequences of their apostasy (excommunication from funding, ridicule in the media, shunning by colleagues who must “distance themselves,” etc.) serve to silence other potential dissidents, who prudently keep their views to themselves.

(…) Many if not most people get the vaccine in an altruistic civic spirit, not because they personally fear getting Covid, but because they believe they are contributing to herd immunity and protecting others. By extension, those who refuse the vaccine are shirking their civic duty; hence the epithets “filth” and “assholes.” They become the identifiable representatives of social decay, ready for surgical removal from the body politic like cancer cells all conveniently located in the same tumor.

(…) The fear operating in the ostracism of the unvaxxed is mostly not fear of disease, though disease may be its proxy. The main fear, old as humanity, is of a social contagion. It is fear of association with the outcasts, coded as moral indignation.

(…) The science on the issue [of vaccine safety and efficacy] is so clouded by financial incentives and systemic bias that it is impossible to rely on it to light a way through the murk. The system of research and public health suppresses generic medicines and nutritional therapies that have been demonstrated to greatly reduce Covid symptoms and mortality, leaving vaccines as the only choice. It also fails to adequately investigate numerous plausible mechanisms for serious long-term harm. Of course, plausible does not mean certain: at this point no one knows, or indeed can know, what the long-term effects will be. My point, however, is not that the anti-vaxxers are right and being unjustly persecuted. It is that their persecution enacts a pattern that has little to do with whether they are right or wrong, innocent or guilty. The unreliability of the science underscores that point, and suggests that we take a hard look at the deadly social impulses that the science cloaks.

(…) The foregoing analysis is not meant to invalidate other explanations for Covid conformity: the influence of Big Pharma on research, the media, and government; reigning medical paradigms that see health as a matter of winning a war on germs; a general social climate of fear, obsession with safety, the phobia and denial of death; and, perhaps most importantly, the long disempowerment of individuals to manage their own health.

(…) Whether the totalitarian program is premeditated or opportunistic, deliberate or emergent, the question remains: How does a small elite move the great mass of humanity? They do it by aggravating and exploiting deep psycho-social patterns such as the Girardian [ref.ª às teses do filósofo René Girard sobre o sacrifício social de ‘bodes expiatórios’]. Fascists have always done that. We normally attribute pogroms and genocide to racist ideology, the classic example being antisemitic fascism. From the Girardian perspective it is more the other way around. The ideology is secondary: a creation and a tool of impending violent unanimity. It creates its necessary conditions. The same might be said of slavery. It was not that Europeans thought Africans were inferior and so thus enslaved them. It was that thinking them inferior was required in order to enslave them.

(…) The us of fascism requires a them. The civic-minded moral majority participates willingly, assured that it is for the greater good. Something must be done. The doubters go along too, for their own safety. No wonder today’s authoritarian institutions know, as if instinctively, to whip up hysteria toward the newly minted class of deplorables, the anti-vaxxers and unvaccinated. (…) The campaign against the unvaccinated, garbed in the white lab coat of Science, munitioned with biased data, and waving the pennant of altruism, channels a brutal, ancient impulse.

(…) I don’t want to reduce our current acceleration toward techno-totalitarianism and a biosecurity state by just one psycho-social explanation, however deep. Yet it is important to recognize the Girardian pattern, so we know what we are dealing with, so that we can creatively expand our resistance beyond futile debate over the issues – and most importantly, so we can identify its operation within ourselves. Any movement that leverages contempt in its rhetoric fits the Girardian impulse. Elements of scapegoating such as dehumanization, rumor-mongering, stereotyping, punishment-as-justice, and mob mentality are alive within dissident communities as they are in the mainstream. Any who ride those powers to victory will create a new tyranny no better than the previous.

Aproveito para declarar que não me vacinei e não tenciono vacinar-me, apesar de toda a chantagem mediática, social e psicológica à minha volta. Tal como o autor do artigo que partilhei, não sou 'anti-vaxxer' e reconheço a validade e utilidade de diversas vacinas. No entanto, considero que a natureza desta doença não justifica a campanha de vacinação planetária e recuso-me a ceder ao clima de terror e à propaganda que estão a ser lançados sobre as pessoas a reboque desta pandemia - ofuscando outras abordagens à sua mitigação, censurando qualquer posição não conforme à narrativa oficial e causando danos psicológicos e sociais tremendos e potencialmente irreversívies. Oponho-me igualmente à imposição de passaportes ou certificados para aceder a serviços, equipamentos ou eventos. Nalguns países onde foram instituídas este tipo de restrições, como a França ou a Itália, têm ocorrido protestos contra aquelas medidas discriminatórias - ver p.ex. aqui ou aqui


P.S. Vale também a pena ler os dois posts anteriores da mesma série (inspirada no pensamento do filósofo René Girard):
P.P.S. Um outro artigo de análise que também defende que os não-vacinados são os 'bodes expiatórios' da narrativa dominante do fascismo sanitário foi escrito por Connor Kelly em Julho (como segmento final de um artigo mais longo em três partes) - excerto:
(...) The unvaccinated are the ‘natural’ scapegoat for this crisis for both the state, and for large sections of the public. Not because they represent physical danger, nor because they are ‘variant factories’ but because they didn’t get with the programme. (The dehumanisation has already begun with such terminology as variant factories!) The truth is that there are millions of unvaccinated people who are healthy, normal people... The existence of healthy unvaccinated people is an affront to the new regime – an impermissible transgression. Their existence, and their defiant posture seems to make a mockery of all that people have suffered through. They remind us that the madness of the last year and a half was based on so many lies, on manufactured fear, on psychological abuse. If society is populated with healthy, normal unvaccinated people then the public might begin to question what the last year and a half was all for. And that would mean deeply questioning themselves, their narratives, their own desires and the nature of the society they inhabit – a traumatic event.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Revolução agrária 4.0 – devastação ambiental e social em curso

O tema da agricultura intensiva surgiu recentemente no radar mediático por via da situação grave que se vive no Sudoeste Alentejano. No entanto, a questão não se limita àquela região e já tem um historial de mais de uma década. Uma reportagem recente (Abr 2021) no canal público de TV, pouco antes do burburinho sobre Odemira, veio pôr o dedo na ferida: A Invasão da Agricultura Insustentável (Linha da Frente, RTP). A peça, da autoria do jornalista Luís Henrique Pereira, mostra exemplos de norte a sul do país - da Cova da Beira ao Algarve, passando inevitavelmente pelo olival (super)intensivo do Baixo Alentejo e as estufas do Sudoeste Alentejano - e dá voz a ambientalistas e movimentos locais que contestam os projectos de agricultura industrial e intensiva que estão a alterar de forma drástica e acelerada a paisagem. Entre os efeitos nefastos da agricultura intensiva, são destacados: a perda de qualidade e erosão dos solos, a perda de biodiversidade, a poluição química dos aquíferos e rios, os perigos para a saúde pública do uso de pesticidas, a desertificação, a escassez de água, além dos impactos nas populações locais e a exploração da mão-de-obra imigrante. Surpreendentemente, a reportagem da RTP dá menos destaque às posições dos produtores e do Governo que, sem surpresa, invocam os aumentos de produtividade e de rendimento daquele tipo de práticas agrícolas, defendendo a sua sustentabilidade. Claro que houve quem não gostasse e acusasse a reportagem de sensacionalismo e de se furtar ao contraditório (p.ex. aqui), motivando mesmo o envio pela CAP de um protesto formal à direcção da RTP (aqui). O recente 'caso Odemira' veio mostrar quem tinha afinal razão.

A expressão que usei no título deste post foi respigada de um artigo de 2019 que descreve a transformação radical na cultura do olival no Baixo Alentejo alimentada pela água do Alqueva e que tenta dar uma visão equilibrada do tema, ouvindo os diferentes agentes envolvidos: governo, autarquia, produtores, académicos e ambientalistas. Embora nunca seja explicado o uso do ‘4.0’ no título, presume-se que terá havido três revoluções agrícolas anteriores (de carácter tecnológico) e há um claro pendor no artigo para as vantagens económicas de curto prazo do modelo agro-industrial, com destaque para a citação de um grande produtor da região que pergunta “Querem ver plantação moderna?”, respondendo: “Venham a Portugal e ao Alentejo” e prometendo: “A revolução não terminou e vai continuar”. Um artigo mais recente no Boletim da Ordem dos Advogados faz uma análise mais serena e apresenta uma lista extensa dos impactos ambientais e sociais nefastos dos regadios intensivos e superintensivos, a médio e longo prazo, propondo a sua limitação e o recurso à ‘agricultura de precisão’ e à agroecologia.

Os sinais de alerta sobre as consequências nefastas da agricultura industrial já vêm desde os anos 60 e 70 do século passado, no rescaldo da chamada ‘revolução verde’ do pós-guerra (ver p.ex. aqui ou aqui), mas a consciencialização e contestação surgiram agora de novo em Portugal perante o crescimento explosivo do olival e amendoal intensivos e superintensivos, em especial no Baixo Alentejo. Os alertas e a contestação têm vindo principalmente de alguns académicos nacionais (p.ex. aqui ou aqui), de ambientalistas (p.ex. aqui), de alguns partidos políticos (p.ex. aqui), mas também de movimentos sociais ou locais, como os movimentos Alentejo Vivo e Juntos pelo Sudoeste ou o colectivo Chão Nosso Alentejo. Destaco ainda um post escrito num tom pessoal e emocional por alguém que analisou e auscultou de perto a realidade daquele território, apelidando-a de ‘genocídio’ e de ‘extermínio do povo alentejano’. No entanto, as vozes críticas não se limitam ao território nacional e um relatório do Tribunal de Contas Europeu de 2018 (referido na reportagem da RTP) alertava para o perigo de desertificação agravado pela agricultura intensiva, criticando as políticas incoerentes e desajustadas para o país, em particular a insistência no regadio num país onde a água vai ser cada vez mais escassa.

O olival (e amendoal) intensivo foi também tema de uma Grande Reportagem emitida pela SIC (Alentejo, Azeite e Água) no mesmo mês do programa da RTP referido no início (é possível assistir à 1ª parte aqui). Aqui são ouvidas as vozes de um leque mais alargado de agentes locais e nacionais, mas também dos habitantes. Um artigo de opinião de um agricultor e silvicultor local em reacção a este programa faz um leitura crítica da palavra sustentabilidade, alertando para as suas diferentes dimensões (económica, social e ambiental), e defende uma abordagem mais equilibrada com recurso a boas práticas agrícolas. Deixo uma citação deste artigo: “Como silvicultor e agricultor, tenho a perfeita consciência do difícil que é, por vezes, colocar todas as variáveis na balança. Temos uma exploração de romãzeiras em regime intensivo e, cada ano que passa, tentamos melhorar as nossas práticas agrícolas. Fizemos a requalificação de linhas de água permanentes e temporárias, instalação de sebes biológicas e zonas de descontinuidade, entre outras medidas. Este tipo de práticas faz cada vez mais sentido e, ao contrário de todas as expectativas, nos últimos três anos deixámos de utilizar inseticidas, simplesmente porque permitimos que todo o ecossistema funcionasse. Na natureza é preciso tempo e paciência, algo que o ser humano tem uma certa dificuldade em compreender.

Termino, invocando as reflexões dos meus últimos posts, assim como a deste outro que escrevi para o blogue do projecto Guarda Rios, com um apelo à sensibilidade de todos os que partilham de uma (est)ética ecológica da atenção e do cuidado no sentido de contribuírem, da forma que puderem, para que possamos recuperar uma sustentabilidade sistémica e duradoura, e para que não prevaleçam as visões daqueles que preferem os benefícios económicos imediatos (que na verdade só chegam a alguns privilegiados) e que defendem a transfiguração paisagística da outrora aridez da ‘planície dourada’ para os actuais 'mantos verdes', mas que, no médio e longo prazo, transformará o Alentejo num deserto infernal.

Nota: à excepção da foto de abertura, todas as restantes foram obtidas por mim durante uma residência do projecto Guarda Rios na região do Alqueva (Aldeia da Luz) em Outubro de 2020.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Ervas daninhas e plantas ruderais – amor à segunda vista

Na sequência do post anterior, debruço-me mais uma vez sobre a nossa percepção do mundo-mais-do-que-humano onde estamos inseridos, em particular sobre uma das suas componentes mais diversa e omnipresente: as plantas. Se o nosso contacto e conhecimento das outras espécies animais se tem vindo a perder, nomeadamente para os habitantes dos meios urbanos, o afastamento e desconhecimento em relação às plantas tende a ser ainda maior – apesar de quase toda gente apreciar um passeio num jardim ou num bosque – e é agravado pelo reduzido destaque que lhes é dado nos media e nas escolas. Aquele desconhecimento, ou mesmo desinteresse, têm vindo a ser reconhecidos e até já lhes foi dada uma designação: ‘plant blindness’, que se pode traduzir por cegueira botânica ou indiferença às plantas – ver p.ex. aqui ou aqui. Esta situação tem diversas causas, que vão desde um instinto inato em dar mais atenção aos animais por serem organismos vivos com os quais temos maior afinidade ou a desconsiderarmos as plantas por serem hierarquicamente inferiores (zoocentrismo), até a factores culturais, como a falta de contacto e conhecimento directo das plantas ou a prevalência de ideias distorcidas sobre a sua utilidade (ver p.ex. aqui). As consequências são igualmente diversas, incluindo a incapacidade de reconhecer as diferentes espécies vegetais ou de as reduzir a categorias genéricas como ‘arvoredo’, ‘mato’ ou ‘erva’; mas também a negligência mais profunda que está na base da perda de biodiversidade e da destruição de ecossistemas, em particular, a desflorestação (ver p.ex. aqui).

Embora muitas pessoas reconheçam a importância das plantas pela sua utilidade para os próprios seres humanos - como fonte de alimento, de fibras ou de fármacos, pelo seu contributo para a depuração do ar ou da água e para a criação de solos férteis, e, mais recentemente, por serem um importante veículo de sequestração de CO2 -, alguns grupos vegetais são desconsiderados ou mesmo eliminados activamente por serem vistos como prejudiciais. Em particular, as espécies invasoras (com boas razões) ou as chamadas ‘ervas daninhas’ (nem tanto). No caso destas últimas, há uma vez mais uma distorção em relação à sua relevância, pois é bem sabido que as plantas espontâneas, que surgem quer nos campos, quer nas cidades, têm papéis muito importantes na regeneração dos solos e na criação de condições adequadas para outras plantas, ou como alimento para animais, em particular, os insectos. Algumas espontâneas são até comestíveis e outras têm propriedades medicinais (ver p.ex. aqui) – dou aqui apenas um exemplo, cujo nome vulgar faz juz às suas propriedades: amor-de-hortelão.
Faço notar que existem aliás diversas iniciativas para preservar ou até incentivar as plantas espontâneas, quer a nível nacional (ver p.ex. aqui ou aqui), quer internacional (p.ex. aqui). Lamentavelmente, há muitas autarquias que não aderem a estas boas práticas e continuam a dizimar as plantas dos passeios, dos baldios ou das bermas, usando roçadoras ou herbicidas. Em compensação, surgiram nos últimos anos iniciativas de botânicos ou de cidadãos entusiastas que se dedicam a identificar e assinalar nos pavimentos de vilas e cidades aquelas plantas, num movimento que se tornou viral nalgumas localidades europeias, tomando diversas designações: Sauvages de ma rue’, ‘More than weeds’, ‘Rebel botanists’ – ver aqui, aqui, aqui ou aqui.

Há um grupo particular de plantas espontâneas que surgem em ambientes urbanos ou antropizados (modificados por acção humana), cuja designação revela mais uma vez o desprezo a que são votadas – as plantas ruderais. Estas plantas são comuns, por exemplo, em terrenos abandonados designados por baldios - uma outra palavra cuja conotação negativa impede leituras mais positivas desses territórios (ver p.ex. aqul). Um dos vídeos do projecto ‘Segredos da natureza’ – um ‘microsite’ criado para a Culturgest pela historiadora portuguesa Teresa Castro – é dedicado às plantas ruderais (ver aqui). Talvez o seu visionamento faça algumas pessoas mudar de opinião sobre estas plantas pioneiras. Basta aliás um olhar mais atento e uma sensibilidade mais apurada para encontrá-las pelas ruas da cidade e quiçá tomar-lhes o gosto e apreciar o seu encanto singelo e o seu valor intrínseco (ver p.ex. aqui ou aqui).

As imagens deste post foram respigadas durantes as deambulações e os pousios na zona oriental de Lisboa com @s fiador@s do c.e.m-centro em movimento, entre Abril e Junho de 2020 - práticas documentadas aqui.

terça-feira, 25 de maio de 2021

O que faz um ser sensível é a sensibilidade

No passado dia 22 Maio celebrou-se o Dia Internacional da Biodiversidade, uma data que nos apela a reflectir sobre a nossa relação com o mundo-mais-do-que-humano. Essa relação está claramente em crise dado o afastamento crescente entre nós (populações predominantemente urbanas) e os restantes seres vivos, promovido por uma visão eminentemente antropocêntrica, utilitarista e imediatista do mundo que nos levou a explorar, dominar e destruir os ecossistemas - dos quais fazemos parte e dos quais dependemos (ver p.ex. aqui ou aqui). Para reverter esse processo será necessário estimular um melhor conhecimento do mundo não humano, que está geralmente mais próximo do que imaginamos e sem o qual não será possível desenvolver um desejo de cuidar, defender ou regenerar – ou seja, amar – todo esse universo de outros seres cuja existência é tão vital, legítima e sagrada quanto a nossa.

Com o intuito de re-activar aquela relação, apelando aos sentidos e à sensibilidade, orientei uma caminhada sensorial no Parque Florestal de Monsanto focada na escuta-olhar atento e demorado, nas sensações do corpo e nos sentidos além da visão, mas estimulando também o intelecto, numa fusão integrativa de cabeça, coração e sentidos (que, como bem sabemos, nunca estão separados). O percurso foi pontuado pela leitura de excertos de poemas ou textos de Alberto Caeiro, Manuel Zimbro e Mia Couto, aos quais junto mais dois – um de David Abram e outro de Rachel Carson – reunidos neste post.


Alberto Caeiro – O Guardador de Rebanhos
 
Poema IX
 
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
 
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
 
Poema II
 
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
 
Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
 
Poema XLVII
 
Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.

 
Manuel Zimbro – História secreta da aviação
 
O que faz um ser sensível é a sensibilidade
só a sensibilidade pode cuidar e responder adequadamente à vida, à ordem,
ao mundo,
a coisas tão importantes como por exemplo a natureza,
isso que é inteligência sem causa, em equilíbrio…
(…)
a sensibilidade é doutra dimensão
é ela, o hífen, que liga as mãos-cérebro-coração no nascente acto de fazer,
ou de não-fazer.
vemos a sua presença e também vemos a sua ausência no que o homem deixa feito,
esteja ou não concluído.
aqui, para tentar vê-la na sua mais elevada expressão – no equilíbrio –
ligá-la-emos ao acto de voar.
 
(…)
quem considera olha atentamente e quem olha atentamente vê,
não de uma maneira especial, ou desta ou daquela maneira, vê simplesmente
sem pensar – que já viu, que está a ver ou que irá ver – vê em silêncio…
(…) onde o olhar que nada foca, nada fixa, nada concentra
resplandece em todas as direcções, como a luz do sol.
quando o pensamento está calado e no seu lugar adequado, não há separação entre o que
considera e o que é considerado,
vê-se a partir do vazio o vazio.
só há a visão que flui.
tal é a natureza da consideração que constantemente põe à prova e faz escoar a extraordinária energia contida naquilo que estrutura as nossas visões do mundo.
só a consideração modera as fixações.
considerar não é pois das palavras.
 
(…)
se o homem se desloca na água - nada - porque não se deslocará no ar?
por ser mais anfíbio que aéreo?
mesmo se a água está fria, ele despe-se para nadar,
porque teria, para voar, de vestir qualquer coisa, que o iria tornar ainda mais pesado?
sem imitar os peixes, é-lhe possível usar as mãos como barbatanas,
porque será que ainda não chegou a compreender o pleno uso das mãos?
ou será que por estar tão carregado de lastro (sempre com o cérebro ocupadíssimo…) já não tem mãos a medir?
O que de resto lhe propicia ‘voos’ cada vez mais requintados,
à medida que se lhe vai adormentando a sensibilidade, que é muito mais leve que o ar.
 
(…)
como para o ser humano descolar as duas solas do solo é uma coisa e
deslocá-las
enquanto as mantém descoladas outra,
passamos a distinguir os dois conceitos, voar e levantar voo…
(…) para as descolar,
tarefa relativamente arriscada,
torna-se necessário esvaziar o espírito
despir a mente de todas as espécies de roupagens, sejam atraentes ou não.
como se tratasse de despir a roupa para se lançar à água, que, uma vez encharcada,
é lastro que faz afogar.
para haver elevação tem de haver essa nudez, é ela a mente nua que
assinala a necessária
leveza - despi-la, é esse o risco.
 
(…)
para se deslocar no ar,
a operação é em si menos complicada e mais corriqueira, mas torna-se mais
complexa dado que,
tanto o sentido (horizontal) como o impulso (exterior) só são possíveis
graças à sustentação de um movimento colectivo,
da comunidade onde se insere o que se elevou.
ou seja, o homem nunca poderá voar pelos seus próprios meios, precisará sempre da
sustentação do seu semelhante.
se precisou dele para aprender a andar, para aprender a falar, etc., porque não precisaria dela
para se deslocar no ar, ainda por cima sendo mais pesado que ele?
depois de singularmente se ter elevado, voar é um trabalho de conjunto que necessita do
apoio do mundo, isento de fricções e atritos dada a fluidez do meio.
só graças à confiança mútua, ao equilíbrio, à harmonia e à conivência de toda
a colectividade,
ele poderá procurar-se a necessária energia para se mover no espaço sem apoio material.
 
(…)
foi-nos ensinado a andar, a falar, a escrever...
e, ensinaram-nos a pensar.
(…) aprendemos tudo isso, mas não foi em conjunto, foi com esforço, com imenso desperdício de energia, (…) o que aprendemos não foi, nem é, livre nem fácil,
se fosse,
se fosse de facto em conjunto, a energia, a compreensão teriam uma
amplitude tal que com pouco esforço, ou seja, imensa beleza
já teria havido espaço para até nos terem ensinado a voar.
mas as prioridades desta sociedade são de outra ordem…


Mia Couto – Os sete pecados de uma ciência pura
 
(…) Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.
 
David Abram – Ecologia em profundidade (‘Depth ecology’)
 
(…) Ao contrário da altura de uma montanha, e da largura ou amplitude de um vale, a profundidade de uma paisagem depende inteiramente de onde nos encontramos dentro dessa paisagem. E à medida que avançamos, corporalmente, dentro dessa paisagem, a profundidade da paisagem muda à nossa volta. Em rigor, um espaço tem profundidade apenas se nos situarmos algures dentro desse espaço. (...) na verdade, apenas experimentamos o mundo real a partir da nossa perspectiva corpórea, com as duas pernas firmemente inseridas no coração das coisas. Uma vez que estamos inteiramente dentro deste mundo terreno, a natureza pode revelar-nos certos aspectos de si própria, apenas se esconder outros aspectos; nós nunca apreendemos um qualquer fenómeno terreno na sua totalidade nem de uma só vez.


Rachel Carson – Maravilhar-se (‘The sense of wonder’)
 
(…) O mundo da criança é cheio de frescura, de novidade, de beleza, povoado de maravilhas e entusiasmo. É uma pena que, para a maioria de nós, essa visão de olhar límpido, esse verdadeiro instinto que inclina ao belo e inspira temor e respeito, se esbata e mesmo se perca antes de chegarmos à idade adulta. Se eu tivesse alguma influência sobre a fada boa que se julga presidir ao batismo de todas as crianças, pediria que o seu presente para qualquer criança que viesse ao mundo fosse uma capacidade de maravilhamento tão indestrutível que duraria toda a vida, como antídoto infalível contra o aborrecimento e o desencanto da idade adulta, as preocupações estéreis com as coisas artificiais, o alheamento que nos afasta das fontes da nossa força.
Para que uma criança mantenha vivo o seu sentido inato do que é maravilhoso sem que lhe tenha sido dado tal presente pelas fadas, ela necessita da companhia de pelo menos um adulto com quem possa partilhá-lo, redescobrindo com ele a alegria, o entusiasmo e o mistério do mundo em que vivemos.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Escolas de economia e gestão: reformar ou demolir?

Ilustração de Michael Kirkham
O título deste
post foi inspirado num artigo do professor de gestão britânico Martin Parker (autor do livro ‘Shut Down the Business School: What’s Wrong with Management Education’), publicado em 2018 no The Guardian, onde propõe um destino radical para as escolas de economia e gestão – encerramento ou demolição: ‘Why we should bulldoze the business school’ (uma outra versão do mesmo artigo está disponível aqui). O autor defende que o ensino nas escolas de gestão foi dominado nas últimas décadas por uma visão de mundo e um modelo económico (capitalista, neoliberal e mercantil) apregoados como hegemónicos e que se converteram em profecias autocumpridas (‘self-fulfilling prophecies’). Para além do currículo explícito, que apresenta o sistema dominante como incontornável e onde as visões alternativas e questões como a sustentabilidade ou a justiça social são meramente acessórias, aquelas escolas professam um currículo oculto na forma como aqueles conteúdos são transmitidos, validando os comportamentos competitivos e gananciosos como os mais adequados para prosperar e aplicar no ‘mundo real’. Parker sugere ainda que apesar de haver alguma crítica interna aos conteúdos e modelos de ensino por parte por exemplo de cientistas sociais, essa crítica é minoritária e acaba por ficar nas prateleiras ou a preencher os currículos dos seus autores, não se reflectindo em mudanças práticas das próprias instituições.
Seguem-se alguns excertos (mas recomendo a leitura do artigo completo):
(…) in the business school, both the explicit and hidden curricula sing the same song. The things taught and the way that they are taught generally mean that the virtues of capitalist market managerialism are told and sold as if there were no other ways of seeing the world. If we educate our graduates in the inevitability of tooth-and-claw capitalism, it is hardly surprising that we end up with justifications for massive salary payments to people who take huge risks with other people’s money. If we teach that there is nothing else below the bottom line, then ideas about sustainability, diversity, responsibility and so on become mere decoration. The message that management research and teaching often provides is that capitalism is inevitable, and that the financial and legal techniques for running capitalism are a form of science. This combination of ideology and technocracy is what has made the business school into such an effective, and dangerous, institution.
(…) The problem is that business ethics and corporate social responsibility are subjects used as window dressing in the marketing of the business school, and as a fig leaf to cover the conscience of B-school deans – as if talking about ethics and responsibility were the same as doing something about it. They almost never systematically address the simple idea that since current social and economic relations produce the problems that ethics and corporate social responsibility courses treat as subjects to be studied, it is those social and economic relations that need to be changed.
(…) The easiest summary of all of the above, and one that would inform most people’s understandings of what goes on in the B-school, is that they are places that teach people how to get money out of the pockets of ordinary people and keep it for themselves. In some senses, that’s a description of capitalism, but there is also a sense here that business schools actually teach that “greed is good”.
(…) Having an MBA might not make a student greedy, impatient or unethical, but both the B-school’s explicit and hidden curriculums do teach lessons. Not that these lessons are acknowledged when something goes wrong, because then the business school usually denies all responsibility. That’s a tricky position, though, because, as a 2009 Economist editorial put it, “You cannot claim that your mission is to ‘educate the leaders who make a difference to the world’ and then wash your hands of your alumni when the difference they make is malign”.
(…) Most business schools exist as parts of universities, and universities are generally understood as institutions with responsibilities to the societies they serve. Why then do we assume that degree courses in business should only teach one form of organization – capitalism – as if that were the only way in which human life could be arranged? The sort of world that is being produced by the market managerialism that the business school sells is not a pleasant one. It’s a sort of utopia for the wealthy and powerful, a group that the students are encouraged to imagine themselves joining, but such privilege is bought at a very high cost, resulting in environmental catastrophe, resource wars and forced migration, inequality within and between countries, the encouragement of hyper-consumption as well as persistently anti-democratic practices at work.

Outros autores partilham da visão de Parker (p.ex.
Kean Birch da York University), mas as suas críticas às instituições universitárias estendem-se também ao ensino de economia. Dou apenas como exemplo um manifesto publicado em 2017 onde são apresentadas 33 teses que põem em causa a ideologia económica dominante (neoclássica e neoliberal) com propostas para uma visão pluralista da economia na sociedade e no ensino. Os seus promotores (Rethinking Economics e New Weather Institute) defendem uma reforma do sistema actual que fomente o pensamento crítico e a reflexão sobre as diferentes visões económicas que existem, em pé de igualdade com a ideologia e prática hegemónicas – sugiro a leitura do comentário de Margarida Chagas Lopes a este manifesto no blog Areia dos Dias.


NOVA-SBE: um caso paradigmático nacional


O artigo de Martin Parker começa com uma referência ao facto dos edifícios das escolas de gestão serem muitas vezes os mais modernos (ou os mais ostensivos!) num campus universitário, o que, segundo o autor, resultaria da capacidade de captar financiamentos em consonância com a sua missão de ensinar a lucrar no mundo dos negócios. Um bom exemplo recente no nosso país foi o ‘upgrade’ da faculdade de economia e gestão da Universidade Nova de Lisboa (mais conhecida pela designação baseada na sigla derivada do inglês, como manda o marketing), que se transferiu do velho edifício de Campolide para as novas instalações inauguradas com pompa e circunstância em 2018 (ver aqui ou aqui). A construção de um campus de estilo 'californiano' foi muito contestada e mediatizada pelo seu impacto e custo faraónico (ver aqui ou aqui). Um dos grandes atractivos da Nova SBE (e que lhe valeu a colagem à Califórnia) é a sua localização junto à praia de Carcavelos (com túnel directo e informação sobre a altura das ondas no seu website), como é destacado em notícias publicadas na altura no jornal Público – ver aqui ou aqui. Este mesmo jornal destacou ainda os impactos naquela zona, nomeadamente em termos do mercado imobiliário, que também foram alvo de contestação (ver aqui). Neste caso, a adesão ao paradigma económico dominante nunca foi camuflada, como se pode ler num artigo de Setembro de 2018 que faz uma análise crítica do modelo neoliberal da Nova SBE e da polémica campanha de angariação de fundos. De facto, embora pertencendo a uma universidade pública, a sua construção foi co-financiada por instituições ou empreendedores da ‘congregação global’ (ver aqui ou aqui).
Tratando-se de mais um templo da ‘igreja universal do economismo’, destinado a formar novos acólitos, não é de estranhar que, para além de um claustro (sic), tenha vários espaços aos quais foram atribuídos os nomes dos seus principais mecenas, como a ‘Biblioteca Teresa e Alexandre Soares dos Santos’, o ‘Santander Hall’ ou o ‘Jerónimo Martins Grand Auditorium’. Para completar o quadro, está em vista uma parceria com a ‘Singularity University’ (ver aqui), consumando a conjugação do culto ao neoliberalismo e ao trans-humanismo num só local! Como se pode ler num dos artigos citados acima, esta academia de formação das futuras elites do admirável mundo novo corporativo pode não ser Fátima, mas já fez milagres para o mercado imobiliário da região!
Mas como ‘no melhor pano cai a nódoa’, um relatório de uma comissão independente à NOVA-SBE, divulgado este ano (2021), revelou diversas situações de conflitos de interesses dos seus docentes em relação a instituições financeiras com as quais mantinham diferentes tipos de ligações (ver aqui). A notícia citada dá como exemplo o seu próprio director, Daniel Traça, que era administrador do Santander, onde auferiu 143 mil euros por essas funções durante o ano de 2019 que acumulou com o seu salário como docente, sendo aquele banco uma das empresas que financiou a construção do campus de Carcavelos. Para não pintar uma imagem demasiado negra daquela instituição, destaco a divulgação recente do relatório “Portugal: Balanço Social 2020” elaborado por Susana Peralta, Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves, membros do ‘Economics for Policy Knowledge Center’ da Nova SBE, que traça um retrato socioeconómico das famílias portuguesas, revelando as situações de pobreza e exclusão social no país, e, em particular, alguns dos impactos sociais nefastos das medidas de mitigação da pandemia da Covid-19 (ver aqui e aqui). Uma das autoras deste estudo, Susana Peralta, que escreve artigos semanais de opinião para o Público, alguns dos quais críticos para com empresas privadas que são mecenas da Nova SBE, como o Novo Banco ou a EDP, esteve na origem de um parecer interno do Concelho de Catedráticos que aconselhava os seus docentes a não assinarem artigos de opinião com o nome da faculdade (noticiado no artigo do Público citado acima).