segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

A alucinação colectiva da IA (1)

© Collins Dictionary
Notas prévias: este artigo foi escrito por pessoas e só recorri a uma ferramenta de IA para a sua elaboração (Google Translate), mas sempre sujeito à minha revisão posterior; o post foi dividido em duas partes para facilitar a leitura – a 2ª parte está aqui.

(…) hallucinate seems fitting for a time in history in which new technologies can feel like the stuff of dreams or fiction—especially when they produce fictions of their own. Editorial do Cambridge Dictionary sobre a ‘Palavra do Ano 2023’

“AI” is best understood as a political and social ideology rather than as a basket of algorithms. (…) the AI way of thinking can distract from the responsibility of humans. Jaron Lanier e Glen Weyl (daqui)

A Inteligência Artificial (IA) é um dos ‘hypes’ do momento e foi eleita palavra do ano pelo dicionário inglês Collins (ver aqui). Na sequência do encantamento público e mediático das últimas décadas pelas tecnologias digitais e pela chamada 4ª Revolução Industrial (ver p.ex. aqui ou aqui), a IA surge agora envolta num misto de fascínio e de preocupação, em particular devido às façanhas, mas também aos desvarios, de uma das aplicações mais populares da chamada IA generativa – os ‘chatbots’, como o ChatGPT. Essa é aliás a principal razão para a escolha dos editores do Collins: a rapidez estonteante da evolução da capacidade de reprodução da linguagem humana pelas novas ferramentas de IA e a explosão de discussões, escrutínio e especulação que têm gerado (ver aqui). As promessas de inovação, de ‘disrupção’ ou de bem-estar que a 4ª Revolução Industrial, a IA ou o ChatGPT alegadamente trarão ao mundo têm vindo a ser empoladas por personalidades mediáticas como Bill Gates (ver aqui) ou Klaus Schwab (ver aqui), mas são também apregoadas entusiasticamente ad nauseam pela generalidade dos media. Os editores do dicionário online ‘Dictionary.com’, que elegeu um outro termo relacionado com IA – ‘hallucinate’ (alucinar) – como palavra do ano (ver adiante), defendem que “A IA mudará para sempre a forma como trabalhamos, aprendemos, criamos, interagimos com a (des)informação e pensamos sobre nós próprios”. 

Notícias sobre as mais variadas aplicações da IA e os seus alegados benefícios ou limitações, surgem quase diariamente; seguem-se alguns exemplos dessas aplicações em diferentes sectores: biodiversidade (aqui), gastronomia (aqui ou aqui), imobiliário (aqui), artes (aqui), media/jornalismo (aqui ou aqui), religião (aqui ou aqui). Não admira pois que as expectativas sobre as capacidades e façanhas da IA sejam tão elevadas – como afirma ironicamente a jornalista e escritora canadiana Naomi Klein num artigo de opinião ("As máquinas de IA não estão a 'alucinar'. Os seus criadores, sim") em que desconstrói as principais promessas falaciosas das grandes corporações tecnológicas: “A IA generativa acabará com a pobreza, dizem eles. Vai curar todas as doenças. Vai resolver as alterações climáticas. Isso tornará o nosso trabalho mais significativo e emocionante. Irá desencadear vidas de lazer e contemplação, ajudando-nos a recuperar a humanidade que perdemos para a mecanização do capitalismo tardio. Vai acabar com a solidão. Isso tornará os nossos governos racionais e responsivos.”


No entanto, os mesmos media que anunciam cada nova façanha da IA (muitas vezes acriticamente), têm vindo também a alertar (ou a fomentar alarmismo…) para os riscos existenciais para a humanidade – numa actualização da ameaça mais antiga de que computadores ou robots super-inteligentes e potentes iriam exterminar os seus criadores humanos (ver p.ex. aqui). Isto aconteceu nomeadamente após diversos apelos ou avisos durante o ano de 2023 onde académicos, especialistas ou empresários envolvidos no desenvolvimento de sistemas de IA expressaram as suas inquietações – ver aqui, aqui ou aqui. A primeira declaração, do ‘Center for AI Safety’, subscrita por nomes sonantes das empresas de Silicon Valley (BigTech), mas também por académicos de áreas diversas, consiste numa única frase: “Mitigar o risco existencial de extinção proveniente da IA deve ser uma prioridade global, juntamente com outros riscos à escala da sociedade, como pandemias e guerra nuclear.” A segunda é uma carta aberta do ‘Future of Life Institute’, subscrita também por muitos nomes sonantes das BigTech, apelando a uma moratória no desenvolvimento da IA. A juntar ao tom dramático e abrangência dos riscos apontados naquelas declarações, alguns dos perigos ou impactos negativos que têm vindo a ser identificados prendem-se com questões mais específicas como o trabalho (aqui ou aqui), a literacia digital (aqui), o plágio/autoria (aqui), a proteção de privacidade (aqui) ou a desigualdade económica (aqui), tendo desencadeado múltiplos apelos de regulação das empresas que desenvolvem sistemas de IA e de adopção de princípios éticos (ver p.ex. as declarações mencionadas acima ou o artigo de N. Klein já citado). No entanto, os aspectos considerados mais graves pelos especialistas e que têm causado maior consternação e acesas polémicas na opinião pública são: a IA irá tornar-se autónoma e destruirá os seus criadores (p.ex. por considerá-los supérfluos); a IA tornar-se-á mais inteligente do que os seus criadores e/ou irá tornar-se auto-consciente; a IA vai substituir o trabalho humano e vai provocar desemprego em massa – ver p.ex. artigos de Jeremy Lent (aqui), Richard Heinberg (aqui) ou Émile P. Torres (aqui), que serão citados adiante. Há quem considere estes perigos reais e esteja muito assustado (incluindo muitos especialistas da área), mas há também quem os considere uma sobrestimação grosseira da capacidade dos sistemas de IA. Talvez possamos dormir mais descansados sabendo que os especialistas da área estão atentos e até fundaram ‘think-tanks’ e parcerias para lidar com os riscos existenciais das novas tecnologias digitais, como os já referidos ‘Center for AI Safety’ e ‘Future of Life Institute’ ou ainda a ‘Partnership on AI to Benefit People and Society’. Ou talvez não!...


Irei aqui cobrir algumas das reflexões críticas que tenho vindo a respigar, versando diversas das ameaças ou riscos igualmente sérios mas menos falados da IA, como sejam as evidentes limitações das suas capacidades, os seus impactos ambientais (consumo de energia e recursos) e sociais (aumento das desigualdades) negativos, o uso abusivo de dados e de propriedade intelectual, ou a exacerbação do poder corporativo.


Começo com a referência a um outro termo - ‘alucinar’ -, eleito igualmente como palavra do ano, desta feita pelo (respeitável) dicionário Cambridge (ver aqui ou aqui), assim como pelo Dictionary.com (ver aqui). Na sua acepção habitual, alucinação refere-se a um distúrbio do foro psicológico ou a uma experiência mística ou psicadélica, que leva uma pessoa a ver ou ouvir algo que não existe na realidade, mas, no contexto da IA, designa uma anomalia nos resultados produzidos pelas ferramentas de IA generativa (os ‘chatbots’, mas também os geradores de imagem, como o Dall-E) que originam textos ou imagens falsos, completamente inventados ou bizarramente distorcidos, mas muitas vezes verosímeis - ver p.ex. aqui ou aqui. O editorial do dicionário Cambridge sobre a sua escolha de palavra do ano adverte: “Os modelos de linguagem [‘large language models’-LLMs] são tão confiáveis quanto as informações com as quais os seus algoritmos aprendem. A experiência humana é indiscutivelmente mais importante do que nunca para criar informações confiáveis e atualizadas com as quais os LLMs possam ser treinados”. Uma das críticas ao uso do termo alucinação no contexto da IA é a de que antropomorfiza uma máquina atribuindo-lhe qualidades humanas; a outra é a de que eufemiza ou trivializa um erro dos algoritmos informáticos – como defendem Naomi Klein (aqui) ou Benj Edwards em artigo para o site Ars Technica (ver também artigo do site da Universidade de Cambridge já citado). Edwards alega que o recurso ao termo alucinar “antropomorfiza os modelos de IA (sugerindo que eles têm características semelhantes às humanas) ou confere-lhes agência (sugerindo que podem fazer as suas próprias escolhas) em situações em que isso não deveria estar implícito. Os criadores de LLMs comerciais também podem usar alucinações como pretexto para culpar o modelo de IA por resultados erróneos, em vez de assumirem a responsabilidade pelos próprios resultados.” Edwards prefere o uso do termo ‘confabulação’ para descrever as disfuncionalidades dos modelos de IA que criam histórias fantasiosas como se fossem verdadeiras: “(…) embora igualmente imperfeita, é uma metáfora melhor do que alucinação. Na psicologia humana, uma confabulação ocorre quando a memória de alguém apresenta uma lacuna e o cérebro preenche-a de forma convincente, sem a intenção de enganar os outros. O ChatGPT não funciona como o cérebro humano, mas o termo confabulação serve como uma metáfora melhor porque há um princípio criativo de preenchimento de lacunas em ação…”.


Diversos autores têm vindo a desconstruir a mitificação e as promessas fantasiosas da IA (que Naomi Klein apelida de verdadeiras alucinações), chamando a atenção para os custos e as ameaças bem reais que a IA representa. Segue-se uma lista de autores e fontes que irei citar: Jaron Lanier (aqui e aqui), Miguel Nicolelis (aqui e aqui), Naomi Klein (tradução PT aqui; original aqui), Leif Weatherby (aqui), Jeremy Lent (aqui), Richard Heinberg (aqui), Émile P. Torres (aqui), James Bridle (aqui) e ainda o documentário ’The cost of AI’ do canal público holandês VPRO. Recomendo ainda a publicação ‘Amazing AI’ de Mary Louise Malig, disponível através do site Systemic Alternatives, onde a autora descreve alguns aspectos técnicos dos sistemas de IA no seu actual estado de desenvolvimento, para depois desconstruir alguns mitos mais comuns e revelar os seus impactos mais preocupantes, assim como mostrar possíveis vias de mitigação.

(continua)



segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

A verdadeira e potencialmente devastadora Doença X

“(…) embora o termo Doença X represente uma futura emergência sanitária desconhecida, tornou-se também um catalisador para uma visão particular da resposta sanitária dominada pelo poder empresarial, tecnológico e estatal.” Kevin Bardosh

“Creio que estamos empenhados em cometer suicídio: suicídio intelectual, suicídio moral e suicídio físico. Se há algo tão importante como impedir-nos de envenenar os nossos mares e destruir as nossas florestas, é impedir-nos de envenenar as nossas mentes e destruir as nossas almas.” Iain McGilchrist

Na última semana e graças em parte a um painel promovido pelo fórum anual do WEF (World Economic Forum) em Davos dedicado ao tema (ver aqui ou aqui), a Doença X voltou a atrair a atenção dos media – e, inevitavelmente, das redes sociais e plataformas digitais. Aquele nome foi cunhado pela OMS em 2017 ou 2018 (conforme as fontes) para designar uma eventual doença futura provocada por um vírus novo de elevada transmissibilidade e letalidade (existe uma lista de candidatos que vão do Ébola ao Zika, mas não está excluída a hipótese de um vírus criado laboratorialmente), capaz de desencadear uma grande epidemia ou uma pandemia (ver aqui ou aqui). Há quem defenda que a Covid foi na verdade a primeira Doença X, enquanto outros dizem que foi apenas um ‘ensaio geral’. A notícia desencadeou reacções muito diversas e acalorados debates devido, por um lado, às mensagens mais alarmistas sobre a iminência e perigosidade da doença e, por outro, às alegadas tentativas das autoridades sanitárias e políticas globais de tirarem partido desta eventual ameaça para impor medidas restritivas e autoritárias aos seus cidadãos, a cobro de estarem apenas a garantir uma maior eficácia na mitigação de uma futura emergência sanitária (ver p.ex. aqui ou aqui). Claro que estas últimas foram imediatamente rotuladas de 'teorias de conspiração' da (extrema) direita (ver p.ex. aqui). Apesar da grande preocupação com a desinformação (um dos riscos globais mais graves para 2024, segundo o próprio WEF – ver aqui) reiterada pelo director da OMS naquela sessão em Davos (ver p.ex. aqui), a mensagem transmitida pela própria OMS de que a Doença X pode causar 20 vezes mais mortes do que a Covid parece-me claramente alarmista e infundada, dado que se desconhece a identidade do seu agente por tratar-se de uma doença alegadamente desconhecida (pormenor que o Bartoon do Público não deixou passar - aqui).


O Fórum de Davos deste ano teve como lema ‘Reconstruir a confiança’ (ver aqui ou aqui); mas será que as elites políticas e corporativas que se juntam naquela estância alpina conseguem transmitir essa confiança ou estão ali de facto para promover a sua agenda não-democrática e para conferir a si próprias a pretensão de estarem a contribuir para resolver os reais problemas do mundo? Creio que a resposta é evidente e já tinha escrito anteriormente (aqui) sobre o facto das cimeiras de Davos (e o próprio WEF) serem meros instrumentos de ostentação e de auto-satisfação dos ‘donos dito tudo’, contando com a submissão acrítica dos media internacionais dominantes, onde as elites que as frequentam zelam pelos seus próprios interesses – e não estou sozinho na minha asserção (ver p.ex. aqui ou aqui)*.


Em relação à sessão sobre a Doença X em Davos, assim como aos exercícios de preparação para a mitigação de futuras pandemias, como o ‘Catastrophic Contagion’ de 2022, as alegações de boas intenções e de benevolência por parte dos seus promotores são pouco convincentes. A principal razão para a desconfiança instalada resulta, quanto a mim, do facto de muitas recriminações ou dúvidas legítimas em relação à resposta à pandemia da Covid não terem sido sequer abordadas naqueles eventos, nomeadamente questões como a origem do vírus, a imposição de confinamentos e certificados ou passaportes sanitários, a falta de transparência e de honestidade nas escolha das medidas de mitigação, a censura e demonização de todos os que questionaram as narrativas oficiais, etc. Uma outra questão crucial que não é devidamente discutida prende-se com a necessidade de regulamentação ou eventual interdição de investigação laboratorial de ganho-de-função em vírus patogénicos de potencial pandémico, que é quase sempre justificada como via necessária para a prevenção ou mitigação de futuras pandemias (ver p.ex. aqui ou aqui). Por outro lado, as conclusões quanto às estratégias a adoptar são demasiado vagas ou tendem a privilegiar abordagens centralizadoras, como o chamado ‘Tratado Pandémico’ promovido pela OMS, que tem gerado muitas reservas e resistências (ver aqui ou aqui).


No entanto, e ao contrário do grande alarido e discussões acesas em volta dos perigos da próxima pandemia e da ‘agenda globalista’, o meu diagnóstico é diferente. A verdadeira Doença X é a meu ver realmente uma pandemia, mas memética (disseminada através de memes) e não viral. Esta pandemia memética, que já está instalada globalmente há vários anos, sendo disseminada pelos media dominantes globais, tem como principais sintomas: uma ansiedade generalizada em relação ao futuro, uma balcanização fraturante da opinião pública mundial em torno de temas muito variados - geopolítica, políticas nacionais, alterações climáticas, questões de género, a pandemia, etc. – e uma anestesia, desempoderamento e despolitização de muitos cidadãos. Mais profundamente, creio que os sintomas desta verdadeira Doença X são na realidade o corolário de uma forma perniciosa de ver e de estar no mundo: uma psicose colectiva, cultural e espiritual, caracterizada pela ganância, insaciabilidade, egocentrismo, negação, ausência de empatia e arrogância. As suas raízes estendem-se ao expansionismo europeu iniciado no séc. XVI, que se caracterizou pela dominação, expropriação e dizimação de povos e territórios, e aquela forma de estar no mundo pode ser descrita invocando o conceito nativo-americano de ‘wetiko’/‘windigo’ – escrevi sobre o tema aqui. Lamentavelmente, as controvérsias em volta da mítica Doença X e da preparação (ou falta dela) para uma próxima pandemia acabam por ofuscar a pandemia memética já em curso - uma crise existencial bem mais grave e mais profunda que não estamos sequer a discutir no espaço público.


* As declarações de Jan Aart Scholte (professor da Univ. de Leiden) sobre o fórum de Davos citadas no artigo da Al Jazeera são bem elucidativas: “One could have posed matters in a more challenging manner: for example, in terms of building peace rather than achieving security; debating the concept of growth rather than taking its desirability for granted; looking beyond climate policy to larger debates about the ecological viability of the prevailing world order. (…) The WEF and other multi-stakeholder endeavours have democratic deficits when the people that they affect do not have adequate opportunities to participate in and control their processes. It is an exclusive invitation-only club, and meaningful participation is mainly limited to the world’s more powerful governments, corporations, and civil society actors. Moreover, when excluded people disagree with or feel harmed by WEF activities, they generally lack adequate channels to be heard and pursue redress.” 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Questionar a hegemonia do conhecimento científico

A ciência, diz-se agora, é a religião do nosso tempo. Enquanto dantes esperávamos que os sacerdotes nos elucidassem sobre a natureza do cosmos e da existência humana, agora viramo-nos para homens, e por vezes mulheres, de batas brancas.” John Dupré (filósofo da ciência)

Seria possível descrever tudo cientificamente, mas não faria sentido. Seria uma descrição sem significado - como tentar descrever uma sinfonia de Beethoven como variações de pressão sonora.” Albert Einstein

Nota prévia: este post foi escrito na sequência de uma palestra que dei na Biblioteca de Alcântara a 22 de Novembro, no âmbito do ciclo Horizontes da Ciência; é possível aceder ao vídeo da palestra nesta ligação.

O desenvolvimento do ramo do conhecimento humano sobre o mundo que ficou conhecido como Ciência* teve o seu momento fundador na Europa entre os séculos XVI e XVIII num processo que foi apelidado de Revolução Científica e que culminou no Iluminismo europeu. Esse processo coincidiu, por sua vez, com o começo do período designado por Modernidade, que se estende até aos dias de hoje. Algumas das personalidades associadas à génese da chamada 'ciência moderna' incluem o astrónomo florentino Galileo Galilei, o estadista e filósofo inglês Francis Bacon, o filósofo francês René Descartes e o polímata inglês Isaac Newton. A Revolução Científica traduziu-se não só numa amplificação da capacidade de entendimento do mundo natural e no abandono de certos dogmas religiosos, mas também na construção de uma visão sobre o mundo com profundos reflexos nas dimensões cultural, social e política das sociedades europeias. É importante realçar que esse momento de viragem da civilização ocidental e da sua (nossa) visão de mundo aconteceu em paralelo com a expansão colonial europeia e com a chamada Revolução Industrial. Essa visão de mundo, que se tornou então dominante e para a qual também contribuiu o Cristianismo, pode ser descrita através de termos (conceitos) como racionalismo, materialismo, cartesianismo, mecanicismo, reducionismo (estes cinco termos estão fortemente correlacionados e são por vezes usados indistintamente), antropocentrismo (ou excepcionalismo humano) e utilitarismo (aflorei estes dois conceitos num post anterior ). Estes desenvolvimentos culminaram com o positivismo do século XIX e mantêm-se ainda hoje no chamado cientismo (ver adiante). Aqueles aspectos da visão de mundo dominante, aliados à expansão do modelo socioeconómico capitalista/produtivista durante o século XX, têm-se revelado problemáticas por estarem a conduzir a humanidade a um conjunto de crises (ambiental, social, económica, cultural), que representam riscos existenciais dificilmente superáveis (como tenho defendido em vários escritos neste blogue). O papel da Revolução Científica e das posteriores crises internas da Ciência na evolução da visão de mundo ocidental e na crise ambiental global foi analisado extensivamente por Miguel Almeida no seu livro de 2006 “Um planeta ameaçado – a ciência perante o colapso da biosfera”. Recomendo ainda o visionamento do filme ‘Mindwalk’ (1990) do realizador Bernt Capra, que questiona a visão ocidental do mundo baseada no mecanicismo cartesiano e à qual contrapõe a visão holística da teoria de sistemas complexos, e sobre o qual escrevi este post em 2012.


Não obstante e como referi num post anterior, o conhecimento científico tem desempenhado um papel central no desenvolvimento das sociedades humanas modernas e os avanços nos diferentes ramos da Ciência proporcionaram não só notáveis aumentos do bem-estar e da prosperidade em largas camadas da população, como também feitos tecnológicos extraordinários, e ainda uma quantidade inaudita de conhecimentos sobre os seres humanos, os outros seres vivos, o planeta e o universo. Os sucessos da Ciência como empreendimento humano e fonte de conhecimento, assim como as suas capacidades de previsão e de controlo, enaltecidos pelos positivistas, conferiram-lhe uma aura de objectividade, de veracidade e de infalibilidade que a colocaram numa posição de hegemonia relativamente a outras vias de conhecimento, como as humanidades (e em particular, a filosofia), as artes ou a teologia - ver p.ex. o livro de Miguel Almeida citado acima e o ensaio de Boaventura Sousa Santos citado abaixo.

No entanto, vários têm sido os autores (historiadores, sociólogos, filósofos, etc.) que, desde meados do século XIX, mas em particular a partir da primeira metade do século XX, vêm questionando esse papel hegemónico do conhecimento científico e o seu equacionamento ao Progresso, alertando para os perigos do seu poder desmedido e da húbris que lhe está muitas vezes associada – nessa lista incluem-se Max Weber, Herbert Marcuse, Martin Heidegger, Bertrand Russell, Hannah Arendt ou Lewis Mumford, entre outros. Muitos daqueles pensadores defenderam também que a prática científica apresenta diversos constrangimentos, vieses e limitações, e que o conhecimento adquirido por esta via revela apenas uma parte da realidade e que, por isso mesmo, conduz a uma visão parcial e redutora do mundo. Uma das questões fulcrais, que tinha sido colocada já no século XVIII pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau (citada aqui) e que foi retomada no Grande Debate Nobel de 1991 (citada no texto de Henry W. Kendall incluído nesta colectânea), é a de indagar se o conhecimento científico acumulado se traduziu em sabedoria e verdadeiro progresso, ou seja, se trouxe de facto melhorias significativas do bem-estar e da prosperidade da generalidade da humanidade, assim como para as futuras gerações. O sociólogo Boaventura Sousa Santos fez uma análise crítica do paradigma da ciência moderna e da sua hegemonia duradoura no seu ensaio de 1987 'Um discurso sobre as ciências' (cuja leitura recomendo).


Após o desfecho da 2ª Guerra Mundial e com a progressiva constatação das implicações do conhecimento científico nas esferas social e política, aquelas reflexões estenderam-se aos próprios cientistas que foram expressando publicamente as suas preocupações com as questões da responsabilidade ética e social da Ciência e dos cientistas, bem como com a do seu envolvimento político. Entre as vozes mais audíveis, onde se incluem vários prémios Nobel, destacam-se as dos físicos Albert Einstein, Robert Oppenheimer, Joseph Rotblat e Henry W. Kendall, as dos químicos Linus Pauling e John Polanyi, ou as dos biólogos/bioquímicos Salvador Luria, Jacques Monod e Sydney Bremmer. É possível encontrar alguns dos seus escritos numa edição de autor da historiadora da ciência Palmira Fontes da Costa, que traduziu e compilou textos destes cientistas – ver aqui. As reflexões de Einstein podem ser lidas na colectânea ‘Como vejo a ciência, a religião e o mundo’ (2005).


Por seu lado, a hegemonia do conhecimento científico durante o século XX, amplificada por políticos e media, tem conduzido a uma subalternização ou desvalorização das outras áreas de conhecimento, não só na opinião pública e no discurso político, como mesmo dentro das universidades e instituições científicas. O extremar desta sobrevalorização da Ciência foi apelidado de Cientismo (ou cientifismo; “Scientism” em inglês), termo que foi introduzido com uma conotação negativa, mas que tem sido abraçado por vários cientistas e filósofos que lhe conferem uma acepção positiva – ver p.ex. aqui ou aqui. Esta posição tem sido adoptada também por cientistas e divulgadores de ciência que se auto-intitulam de cépticos (ver p.ex. aqui), muitos deles com um enfoque na denúncia das chamadas ‘pseudociências’. Outros têm focado as suas preocupações nos perigos da iliteracia científica e na descredibilização da Ciência e das instituições científicas na opinião pública. Essas preocupações são legítimas e relevantes, em particular quando se verifica que economistas e políticos não levam em conta o conhecimento científico disponível nas suas tomadas de decisão sobre assuntos de grande impacto social, como por exemplo na mitigação da crise ambiental (escrevi sobre isso aqui). No entanto, o cientismo pode converter-se facilmente em fundamentalismo e autoritarismo quando menospreza ou rejeita outras vias de conhecimento, e quando pretende ignorar os vieses culturais, sociais, económicos ou políticos da prática científica (ver p.ex. aqui).


Aquela atitude tem sido perfilhada em Portugal pelo físico Carlos Fiolhais e pelo comunicador de ciência David Marçal, nas suas diversas investidas mediáticas (jornais, rádios e TV), em particular após o lançamento do livro escrito por ambos ‘A ciência e os seus inimigos’ (Gradiva, 2017). Leonor Nazaré escreveu então um incisivo artigo de opinião no jornal Público, onde critica a postura dogmática daqueles autores em relação à supremacia da Ciência como via de conhecimento. A forma clara e sucinta como apresenta a sua argumentação constitui a força principal do artigo, denunciando a visão simplista de Fiolhais e Marçal, que colocam no mesmo ‘saco’ da pseudo-ciência as medicinas alternativas, as críticas aos OGM, a homeopatia ou a astrologia. Escrevi anteriormente este post onde procurei desconstruir a atribuição do rótulo de anti-ciência ou de negacionismo aos que se opõem aos OGM. O texto de Leonor Nazaré terá sido muito provavelmente menosprezado pelos visados pois é escrito por uma académica das artes e humanidades - o que acontece também com muitas outras reflexões de filósofos e pensadores das ciências sociais e humanas que têm criticado a atitude fundamentalista do cientismo e a hegemonia da tecnociência.


O caso de Fiolhais e Marçal não é diferente de muitos outros que, no seu papel de evangelistas de uma Ciência que alega ter retirado a humanidade da ignorância, acabam por menosprezar ou vilipendiar outras formas de conhecimento, cuja validade e utilidade devem ser encaradas com sensatez e serenidade, além de escamotearem o facto de o conhecimento acarretar consigo uma enorme responsabilidade: a de ser transformado em sabedoria de vida e em bem-estar colectivo. Atendendo à gravidade e extensão da confluência de crises que estamos a viver, cujos sintomas são em boa parte consequência das conquistas tecnológicas alicerçadas nas ciências, é evidente que a húbris de muitos cientistas é claramente infundada e descabida. No post que anuncia o livro citado acima, Marçal afirma que “A ciência precisa da liberdade de pensamento que é marca das democracias”. Ora é essa mesma liberdade de pensamento que parece estar ausente da narrativa dos próprios autores, incapazes de um olhar crítico sobre a prática científica. Como escreveu Manuela Soares num comentário ao livro, os autores não se questionam “sobre a ciência vendida ao negócio, sobre a ciência que precisa de ser sustentada pelo lucro, sobre a ciência que não investiga onde não convém investigar, sobre a ciência que só investiga onde já há luz e que por isso só encontra o que quer encontrar”. Tudo isto torna dificilmente defensáveis as visões da Ciência como ‘neutra’, ‘independente’, ‘desinteressada’ ou ‘despreocupada’. O professor e cientista português Jorge Calado enumera e analisa no seu livro “Os limites da Ciência” (2014) algumas das limitações, fragilidades e vieses da prática científica.


Um outro autor lusófono que tem uma postura crítica em relação à hegemonia do conhecimento científico e à húbris que lhe está muitas vezes associada é o moçambicano Mia Couto (escritor e biólogo), nomeadamente nos seus perspicazes e bem-humorados ensaios incluídos na colectânea Pensatempos (2005), dos quais transcrevo os seguintes excertos: “Generalizou-se a ideia de que estamos perto do fim da doença, de que estamos perto da eternidade. Esse anunciar do paraíso só pode ser alimentado pelo pecado da soberba. Nós podemos estar a ser convertidos nos sacerdotes de uma espécie de Igreja universal do Reino da Ciência” (de 'Os setes pecados de uma ciência pura'). “Em nome da ciência se esqueceram outras sabedorias, outras aproximações. A ciência se foi convertendo em algo muito pouco científico, uma acomodada ‘certificação’ daquilo que se pensa ser ‘realidade’. Perdeu-se inquietação, arrojo, e, sobretudo, perdeu-se a disponibilidade para experimentar outras vias de conhecimento” (de 'Por um mundo escutador'). “Há quem acredite que a ciência é um instrumento para governarmos o mundo. Mas eu prefiro ver no conhecimento científico um meio para alcançarmos não domínios mas harmonias. Criarmos linguagens de partilha com os outros, incluindo os seres que acreditamos não terem linguagem. (…) Conhecermos não para sermos donos. Mas para sermos mais companheiros das criaturas vivas e não vivas com quem partilhamos este universo” (de 'Uma palavra de conselho e um conselho sem palavras').


Finalmente, parece-me muito relevante a ligação que Leonor Nazaré estabeleceu entre o reducionismo tecnocientífico e as narrativas trans-humanistas, como o faz também o filósofo Rob Riemen no seu livro 'O regresso da princesa Europa' (2016), onde escreve a propósito da inevitabilidade do progresso tecnológico: “A civilização é precisamente a capacidade humana de dizer ‘não’ e, parece-me, também podemos dizer ‘não’ à clonagem e àquela horrenda máquina-humana sob a forma do homem singular [anunciado pelos trans-humanistas]. Ainda me parece incrível que os tecno-evangelistas se gabem de estar a dar à humanidade um género de ‘progresso’ eterno e no entanto, assim que as questões éticas surgem, caiam no mais completo determinismo e fatalismo." Aquela visão transpareceu também muito claramente na série documental “2077 - 10 segundos para futuro”, produzida pela RTP que a exibiu em 2018 – ver aqui –, e sobre a qual escrevi uma análise crítica no nº5 da revista Flauta de Luz. Termino com um excerto desse meu texto: “Quando se põem em causa as narrativas dos utopistas da tecnociência é comum ouvirem-se acusações de fundamentalismo tecno-pessimista, catastrofista, eco-conservador ou neo-luddita, que ao impedir a liberdade e o progresso da ciência conduziria a um retrocesso civilizacional e à estagnação social. É também usual ouvir invocar que a mudança e o risco são os motores da evolução (…). Nada se pode interpor ao ímpeto imparável do progresso! Mas não se trata de defender uma posição castradora e limitadora da liberdade e curiosidade dos cientistas, nem tão pouco de pôr em causa as virtudes da ciência como forma de conhecimento e de deslumbramento. Trata-se, isso sim, de questionar a recusa obstinada, mas de potenciais consequências desastrosas para a civilização humana, em gerir as consequências éticas e sociais das criações da ciência e da tecnologia, procurando zelar não só pelo bem-estar de todos os membros da sociedade, presentes e vindouros, como também pela sustentabilidade dos diferentes ecossistemas dos quais dependemos. Essa responsabilidade deve ser assumida e transformada numa prática política democrática de gestão dos comuns baseada no cuidado e na prudência.”

* Nota: A palavra Ciência pode ser entendida como o corpo de conhecimento sobre o mundo resultante da prática científica, mas refere-se muitas vezes também ao conjunto de ferramentas utilizadas pelas diferentes áreas científicas para adquirir conhecimento, apelidado mais comummente de método científico. Aqui usá-la-ei no sentido de via de conhecimento, estando implícito que abrange um conjunto de áreas e de práticas científicas que deviam ser mais apropriadamente designadas pelo plural, ciências.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Respigos de Verão (2) - especulação imobiliária, lucros dos bancos, turistificação e activismo ambiental

L'été, les glaneuses (1853) J.F. Millet
Esta é a segunda leva dos Respigos de Verão (estação que se prolongou até à data da publicação deste post!). Podem conferir a primeira aqui. Os temas são desta vez mais variados – especulação imobiliária, lucros dos bancos, turistificação e demonização do activismo ambiental –, tendo por base notícias e artigos que fui respigando nos últimos meses. Faço ainda um destaque a um ensaio sobre o território da Arrábida e a sua relação com o pensamento animista, numa reflexão sobre o ambiente e a sustentabilidade da vida.


O tema da habitação e do imobiliário, em particular na cidade de Lisboa, tem andado no radar dos media e da opinião pública há vários meses e culminou com diversas manifestações no final de Setembro. O aspecto que me interessa neste tema é a relação com ‘os mercados’ e a especulação imobiliária. Era evidente, pelo menos desde 2022 (com ‘o fim da pandemia’), que a bolha imobiliária estava a inchar a olhos vistos – tanto em Portugal como noutros países europeus – e havia quem apostasse que iria rebentar em breve – ver p.ex. aqui ou aqui. Quem procura casa para arrendar em Lisboa, quem já teve de sair da cidade por não conseguir pagar as rendas ou quem tem empréstimos e começa a fazer contas à vida com a subida constante dos juros, sentiu na pele os efeitos de um mercado especulativo em rédea solta (ver p.ex. aqui). O governo português, tarde e a más horas, quis remediar a situação com o pacote ‘Mais Habitação’. As críticas choveram de todos os lados, em particular dos partidos da oposição, e ‘os mercados’ (neste caso, os especuladores imobiliários), quais frágeis donzelas, ficaram nervosos – ver p.ex. aqui. Vale a pena destacar alguns trechos desta ‘notícia’ para se perceber os disparates que se escrevem e dizem: “Imobiliário está a cair há um ano e teme novo choque com o Mais Habitação (…) Os operadores do sector imobiliário foram rápidos a reagir à apresentação do Mais Habitação, logo em Fevereiro, com avisos sobre o abalo que a confiança dos investidores iria sofrer. [minha ‘tradução’: o ‘sector’ temia afinal a perda dos seus lucros chorudos] Hoje, garantem que esse impacto já se sente e que os investidores estão mesmo «mais nervosos e desconfiados».” No mesmo artigo, diagnostica-se o problema: “A diminuição do rendimento das famílias por via da inflação, o aumento dos juros, a subida dos custos de construção e o desequilíbrio entre oferta e procura já pesam sobre o mercado há vários meses; mas constata-se (com um tom de bizarra admiração) que: “enquanto o número de vendas está a cair de forma acentuada desde o ano passado, os preços não dão tréguas e continuam a aumentar sem sinais de que venham a interromper as subidas em breve, embora cresçam a um ritmo menos acelerado do que aquele que se verificou no passado recente.” Só faltou mencionar quem beneficia afinal com esta situação: os fundos imobiliários e investidores, os mediadores (imobiliárias) e, é claro, os bancos. A ameaça dos incumprimentos nos créditos à habitação voltou a pairar, mas as reacções e medidas tomadas são no mínimo desconexas: por um lado, o Banco de Portugal reduziu a taxa de stress aplicada aos empréstimos à habitação para facilitar o crédito (ver aqui) e os bancos dão incentivos (‘borlas’, segundo este artigo) para angariar novos empréstimos na compra de habitação; por outro lado, teme-se o aumento do endividamento e os incumprimentos (ver aqui) e, pelo sim, pelo não, os bancos resolveram quintuplicar(!) as suas reservas para cobrir imparidades e prevenir o risco de incumprimentos no pagamento dos créditos (ver aqui). Parece que a bolha é mesmo para estoirar - mais uma vez!... E não é só por cá, noutros países europeus, os sinais de alarme também soaram (ver p.ex. aqui) e as mensagens de que não há motivo para preocupação (p.ex. aqui) surgem ao mesmo tempo que alguns governos se preparam para intervir (ver p.ex. aqui). Em Lisboa, foi agora aprovada a Carta Municipal da Habitação, apesar das críticas do BE – ver aqui.


Não há dúvida de que os bancos são um dos beneficiários desta situação, com os seus lucros a aumentarem - num momento de crise inflacionária –, com umas ‘ajudinhas’ do Banco Central Europeu, que tem vindo a subir as taxas de juro de referência (alegadamente, para conter a inflação). E quem fez as contas foi o próprio Banco de Portugal – ver p.ex. aqui ou aqui. Segundo o primeiro artigo: “Lucros dos bancos em Portugal dispararam 50% no ano passado, para 2,97 mil milhões de euros. Foi o melhor resultado desde a crise financeira global de 2007, de acordo com os cálculos do Banco de Portugal. Este resultado foi alcançado graças ao aumento da margem financeira… (…) Em 2022, os resultados aceleraram devido à subida das taxas de juro do Banco Central Europeu (BCE), que possibilitou aos bancos aumentarem a margem financeira em 1,38 mil milhões de euros para 7,5 mil milhões, o valor mais elevado desde 2011.” Essa situação foi confirmada em Julho com a divulgação dos resultados dos diferentes bancos portugueses, que originou uma catadupa de notícias publicadas em dias consecutivos: ver aqui, aqui, aqui e aqui. A esquerda estrebuchou, denunciando, com razão, a imoralidade e a injustiça – ver aqui e aqui. Neste último artigo de opinião do dirigente do BE João Soeiro, o autor escreve: “Desde janeiro do ano passado, a prestação da casa já subiu mais de 70%. A banca, que recebeu dos contribuintes mais de 26 mil milhões de euros entre 2012 e 2020, já lucrou dois mil milhões a mais nos últimos meses. É escandaloso e imoral. (…) Num semestre, a banca já ganhou mais do que todas as receitas que teve há um ano. Ao mesmo tempo que mantém baixas remunerações nos depósitos, beneficia enormemente com a subida das taxas de juros nos créditos, à boleia das decisões do Banco Central Europeu. O disparo da Euribor atinge diretamente 1,4 milhões de famílias com empréstimos com taxa variável (mais de 90%).” No entanto, a reivindicação mais veemente do BE continua a ser uma subida dos salários e dos impostos aos ricos – pode parecer justo, mas a mudança estrutural necessária deveria ser muito mais profunda e arrojada (e, quanto a mim, não se deve limitar a “derrotar o capitalismo”). Por seu lado, os partidos do Centrão (PS e PSD), não se deixaram comover por aqueles números e nem se atrevem a ‘hostilizar’ os bancos. As críticas à política do BCE vieram também de sectores mais moderados, apelidando-a de ‘leviandade social’ – ver p.ex. aqui ou aqui. No primeiro artigo de opinião, João Rodrigues dos Santos escreve: “A receita [do BCE] para salvar a Zona Euro assenta na política monetária e na subida das taxas de juro. Com juros mais altos, os bancos elevam os seus lucros. Na prática, os cidadãos com créditos à habitação contraídos pagam mais por cada euro recebido por empréstimo. O dinheiro nos cofres da banca aumenta. (…) há muito tempo que o limite da política monetária contracionista foi ultrapassado. Num ano, as prestações mensais sobem centenas de euros. É um ataque cruel às famílias, que as despedaça.” Neste mesmo artigo, o autor estende a sua crítica a empresas de outros sectores, em particular as energéticas: “Há uma harmonia conjuntural à escala global que contribui para o período excecional que Bancos e energéticas estão a atravessar. O processo não é complexo. Compreende-se com relativa facilidade. Primeiro, a conduta disruptiva e errática de um proeminente decisor mundial alarma os mercados. Estes últimos dão-se bem com a agitação. Por isso, não enjeitam a boleia. Num segundo momento, o ambiente de ansiedade generalizada e de muita incerteza cria o enquadramento perfeito para práticas especulatórias de preços. (…) Tudo se conjuga de forma harmoniosa para que as empresas produtoras e distribuidoras de energia acumulem lucros estratosféricos. (…) Mesmo que a origem das atuais dificuldades estivesse relacionada com variáveis estritamente económicas, continuaria a ser sempre moralmente obrigatório estabelecer um limite para o sofrimento humano. E tudo isto a ocorrer num quadro de aumento muito significativo dos lucros da banca. Um dos pensamentos mais elementares em economia consiste em reconhecer que os recursos disponíveis são sempre os mesmos e que apenas vão mudando de mãos. Para alguns terem mais, outros terão de ter menos, necessariamente. Energéticas e bancos aumentam agora os seus lucros de forma desmedida. Ao invés, as famílias veem os seus parcos recursos trucidados.” A isto devia chamar-se oportunismo predatório!

Bartoon (Público, 30 Julho 2023)

Os lucros excessivos das grandes corporações multinacionais foram revelados num novo relatório da Oxfam e Action Aid, publicado em Julho, onde foram divulgados os lucros recorde em 2021 e 2022 de mais de 700 grandes empresas internacionais (energia, alimentação, financeiras e farmacêuticas) e que defende a aplicação duma taxa de imposto de 50 a 90% sobre lucros excessivos (‘windfall tax’). Numa notícia no site do BE pode ler-se: “Mais de um quinto destes lucros «caídos do céu» (windfall profits), cerca de 219 mil milhões de euros por ano, foi parar às contas das 45 empresas do setor energético que figuram na lista da Forbes das duas mil maiores empresas. O aumento dos lucros da energia fez aparecer 96 bilionários no setor, com uma fortuna conjunta de quase 400 mil milhões de euros, mais 46 mil milhões do que em abril do ano passado. No setor alimentar e de bebidas, calcula-se que 18 empresas tenham faturado um lucro excessivo de quase 13 mil milhões de euros por ano em 2021 e 2022, à boleia do aumento de mais de 14% dos preços dos bens alimentares no ano passado. No setor da distribuição e supermercados, as 42 maiores redes lucraram mais 25 mil milhões por ano do que o que seria devido. A indústria farmacêutica também aproveitou a onda, com as 28 empresas de topo a apresentarem lucros excessivos de mais de 43 mil milhões anuais. (…) Há poucas semanas, um estudo do FMI veio confirmar que os lucros das empresas foram responsáveis por pelo menos metade da inflação registada na União Europeia nos últimos dois anos. A mesma conclusão tinha sido tirada por economistas da Reserva Federal em relação aos EUA em 2021.” Ainda assim algumas empresas do sector energético/petrolífero lamentavam o facto dos lucros de 2023 não estarem a corresponder às suas expectativas, como foi o caso da Shell que não conseguiu lucrar tanto no 2º trimestre de 2023 quanto previa – apenas 4,5 mil milhões de euros, em vez de 5,2! – ver p.ex. aqui. Nesta notícia pode ler-se: “Depois dos resultados históricos registados em 2022, os lucros da Shell caíram 56% no segundo trimestre do ano, à boleia da redução dos preços do petróleo e do gás, obrigando a empresa a desacelerar seu programa de recompra de acções. (…) Os resultados do segundo trimestre comparam ao lucro trimestral recorde de 11,5 mil milhões de dólares (10,4 mil milhões de euros) no ano anterior e de 9,65 mil milhões (8,7 mil milhões de euros) no primeiro trimestre de 2023. (…) Estes resultados foram divulgados num momento em que, segundo a Reuters, milhões de famílias britânicas lutam para pagar as contas de energia e depois de o regulador Ofgem ter alertado as empresas para evitarem pagamentos excessivos aos seus accionistas.” Imoralidade? Injustiça? “Who cares”?...


Quanto ao tema da turistificação, referi-me aos impactos da crise climática na procura turística na 1ª parte deste post e tinha já reflectido amplamente sobre o turismo de massa e os seus impactos num post que escrevi em 2017. Desde então, o fenómeno tem-se intensificado, apesar do abrandamento que se observou durante os dois primeiros anos da pandemia – ver p.ex. os seguintes documentários curtos: Crowded Out: The Story of Overtourism (Responsible Travel, 2018) e Overtourism plagues Europe (ARTE, 2023). Muitas das notícias publicadas este Verão sobre a evolução recente do turismo em Portugal, anunciaram em tom optimista e eufórico os recordes nas receitas e nos números de turistas – ver p.ex. aqui, aqui ou aqui. No entanto, os efeitos nefastos da enchente turística são evidentes, não só nas duas grandes cidades (Lisboa e Porto), como também p.ex. nas ilhas da Madeira e Açores – ver aqui e aqui. Para além dos impactos ambientais, têm vindo a ser discutidos mais regularmente os impactos sociais e económicos negativos da ‘monocultura’ turística - como no artigo sobre a Madeira citado atrás ou neste outro que mostra como os imigrantes que trabalham no sector são triturados pela máquina que alimentam. Numa conversa com três economistas publicada no site da Renascença (aqui), foi questionado o papel do turismo como ‘motor da economia’ ou ‘bóia de salvação’. Transcrevo alguns excertos: “Cerca de 22,3 milhões de turistas (não-residentes) pisaram solo nacional no ano passado, número que contrasta com os 14 milhões de 2012. Em cerca de uma década, a contribuição do setor do turismo para o PIB nacional passou de pouco significativa – 3,4% em 2013 – para um elemento central: uma fatia de 12,2% do PIB em 2022. (...) Na opinião de Vera Gouveia Barros, economista e autora do livro ‘Turismo em Portugal’ (ed. FFMS), o turismo tem alguns desafios próprios: «horários de trabalho exigentes», «sazonalidade» e «instabilidade de vínculos laborais». O maior, em todo o caso, está nos salários. «O setor não está bem», frisa. Que é como quem diz: paga mal. (…) segundo a ‘Agenda Profissões do Turismo: 2023-2026’, apresentada pelo Governo em abril deste ano, a remuneração média nos setores do alojamento, restauração e similares é 34% inferior à remuneração média do total da economia. Em média, os trabalhadores do turismo ganham 938 euros brutos por mês e apenas 60% tem contrato permanente. (…) diz o economista Alexandre Abreu. «Neste momento, Portugal está com turismo a mais. Nomeadamente, face às práticas de regulação do setor, que permitem o tipo de efeitos nocivos que são conhecidos sobre o setor da habitação ou disponibilidade hídrica.» Para o economista, «o alastramento praticamente desregrado do Alojamento Local é um dos fatores que contribui para o aumento fortíssimo dos preços da habitação que praticamente duplicou na última década.» Nos últimos dez anos, os preços das casas aumentaram quase 75%, de acordo com o INE.” Ainda assim, há um tom de lamúria quando se noticia o ‘abrandamento do crescimento’ das receitas – ver p.ex. aqui: “Os dados do INE revelam ainda que, entre janeiro e julho deste ano, os proveitos totais ascendem a mais de 3,2 mil milhões de euros, superando o total de proveitos gerados em 2020 e 2021 em conjunto e quase dois terços dos proveitos registados em todo o ano de 2022. No entanto, desde fevereiro que os proveitos têm apresentado um abrandamento da taxa de crescimento homóloga, passando de 97,2% em janeiro deste ano para apenas 10,6% em julho. Esta desaceleração é acompanhada pela subida dos preços das estadias, que atingiram valores recorde.”

Bartoon (Público, 11 Setembro 2023)

Finalmente, regresso ao tema da crise ambiental e climática (abordado na 1ª parte deste post, bem como em vários outros anteriores – ver aqui) para destacar um tópico preocupante que tem dominado uma parte do debate público: as sucessivas (e crescentes) acusações de ecoterrorismo e de radicalismo de que têm sido alvo várias iniciativas activistas de diferentes movimentos ambientalistas europeus (e também em Portugal). Note-se que tinha já aflorado o assunto este ano no post dos Respigos de Março. Um artigo de fundo da Euronews e da Reuters faz um relato exaustivo das recentes invectivas, possivelmente coordenadas, das autoridades da Alemanha, França e Reino Unido, contra diversas organizações e colectivos ambientalistas que promoveram iniciativas de acção directa nesses países em 2022 e 2023. Transcrevo alguns excertos: “Os bloqueios de estradas nas principais autoestradas britânicas provocaram o caos no trânsito, os protestos em instalações petrolíferas na Alemanha interromperam o abastecimento e, em França, milhares de ativistas e a polícia entraram em confronto por causa da utilização da água, deixando dezenas de feridos. (…) Determinados a impedir que estes protestos se reforcem ainda mais, os estados alemães e as autoridades nacionais francesas estão a invocar poderes legais frequentemente utilizados contra o crime organizado e os grupos extremistas para colocar escutas telefónicas e seguir os ativistas, segundo a Reuters, com base em conversas com quatro procuradores, a polícia de ambos os países e mais de uma dúzia de manifestantes. (…) As autoridades estatais na Alemanha estão a utilizar a detenção preventiva para impedir as pessoas de protestar, incluindo a detenção de pelo menos uma pessoa durante 30 dias sem acusação. Esta medida é permitida pela lei da Baviera, segundo os procuradores consultados pela Reuters. Os legisladores aprovaram novas leis de vigilância e detenção em França, em julho, e no Reino Unido, em maio. A Grã-Bretanha está a tornar ilegal trancar-se ou colar-se a uma propriedade. França utilizou uma unidade antiterrorismo para interrogar alguns ativistas do clima, confirmou a polícia à Reuters. Os governos britânico e da Alemanha afirmaram que a resposta aos protestos tinha por objetivo evitar ações criminosas prejudiciais. O Governo francês não quis comentar, mas já afirmou anteriormente que o Estado deve ser capaz de combater aquilo a que chama «radicalização».” Um dos movimentos destacado nesta notícia é 'Les Soulèvements de la Terre' (SLT, a que me referi no meu post de Março citado acima), que o governo francês pretendeu ilegalizar com acusações de ecoterrorismo, após uma sucessão de tentativas de demonização daquele colectivo ambientalista por parte do poder político e dos media em França – ver aqui ou aqui. Felizmente, gerou-se um coro de indignação e um movimento de solidariedade para com o SLT entre intelectuais, artistas e activistas franceses, que culminou com um apelo internacional contra a sua dissolução lançado em Julho – ver aqui ou aqui. O SLT recorreu da sentença e o Conselho de Estado suspendeu a dissolução em Agosto – ver aqui. Por cá, não se ouviu falar desta situação nos media nacionais dominantes (nem mesmo no jornal Público, que tem dedicado tanta atenção à crise climática, como destaquei no post anterior), que aparentam ter-se tornado aliados dos poderes instalados que preferem o conformismo. 


Num artigo de opinião, António Guerreiro denunciou o recurso crescente à palavra ‘ecoterrorista’ para rotular não só os activistas climáticos mais radicais, como também os intelectuais que se solidarizam com as suas acções. Transcrevo alguns excertos: “O antropólogo francês Philippe Descola, um dos representantes mais prestigiados da sua disciplina, a nível internacional, professor emérito do Collège de France [esteve em Maio na Culturgest, onde proferiu uma conferência], foi recentemente incluído pelo governo francês numa lista de suspeitos e indesejáveis cúmplices dos «ecoterroristas», por ter apoiado publicamente o movimento chamado Les Soulèvements de la Terre, que já conta com mais de cem mil signatários. A figura do “ecoterrorista” está em fase adiantada de construção pelo poder político (que já conseguiu introduzi-la no léxico da nossa época), com a colaboração de sectores importantes da opinião publicada nos media. (…) As máquinas predatórias de energia, dos recursos naturais e do espaço público, ao serviço de prazeres gratuitos, essas, nem por sombras se considera que elas relevam de um sistema, de uma maneira terrorista de habitar o planeta. Negá-lo, reivindicar os prazeres mesquinhos e privados como se não houvesse uma catástrofe ecológica em curso, é ser cúmplice de um crime de massa. Mas para esses actos não se aplica a noção de terrorismo nem sequer de delinquência.” Guerreiro denuncia o carácter destrutivo das alegadas ‘soluções verdes’ para os problemas da transição energética e da falta de água, citando os exemplos nacionais dos projectos de mineração do lítio no Norte do país e da dessalinização da água do mar no Algarve: “A água dessalinizada (tal como a extracção do lítio em Trás-os-Montes) seria uma boa coisa se não servisse para alimentar os delírios da tecnoengenharia e preservar o sistema de predação necrófila, ou seja, para ampliar tudo aquilo que provocou o estado de catástrofe...” E conclui: “Colocar o foco, como está a acontecer, nas alterações climáticas e investir tudo nos meios para prosseguir os mesmos fins, os de uma máquina exterminadora – isso sim, é obstinação terrorista.” As acusações de (eco)terrorismo ressurgiram novamente em Portugal na sequência de diversas acções directas recentes de activistas climáticos – ver p.ex. aqui ou aqui. Neste outro artigo de opinião, Manuel Soares (Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses) afirma de forma demagógica e despudorada: “Ainda que possa soar exagerado, se virmos bem, há semelhanças perturbadoras entre as acções radicais dos grupos de activistas climáticos e os atentados das organizações terroristas. Em ambos os casos, trata-se de grupos organizados de pessoas unidas por uma ideologia comum, que planeiam e executam acções subversivas ilegais, em nome de um bem maior que eles próprios definem, para, sob violência e coacção, forçar mudanças políticas e sociais, fora dos mecanismos da democracia e do civismo. Claro que não é a mesma coisa uma miúda partir a montra de um edifício público, à martelada, pela calada da manhã, para aparecer a dizer umas coisas nas televisões; ou um bombista suicida fazer-se explodir à hora de ponta para rebentar com o prédio e matar pessoas. Mas o princípio é exactamente o mesmo: as minhas razões, indiscutíveis e superiores às tuas, dão-me o direito de te coagir violentamente a pensares e fazeres o que eu digo que está certo.” Mas mais adiante parece desdizer-se: “Como disse o Papa Francisco há dias, as acções dos grupos radicais do activismo climático são a resposta a um vazio da sociedade inteira, que não exerce uma sã pressão sobre os governos.” Esta afirmação refere-se a uma passagem da exortação apostólica ‘Laudate Deum’, dedicada à crise climática e publicada na 1ª semana de Outubro – ver p.ex. aqui. Apesar de algumas posições mais extremadas, têm também surgido manifestações de solidariedade na opinião pública e da parte de diversos colectivos – ver p.ex. aqui ou aqui. Num programa da série Em Nome da Lei, a Renascença convidou activistas ambientais e duas juristas para comentar as recentes acções directas, a partir da pergunta: “Se o protesto não tiver nenhuma dimensão ou consequência, serve para alguma coisa?” – ver aqui. As respostas foram, como seria de esperar, diversas, mas apenas uma das juristas defendeu a razoabilidade e legitimidade daquelas acções. Transcrevo excertos da notícia sobre a conversa: “A professora de Direito Penal Inês Ferreira Leite defende que para resolver as alterações climáticas são precisas mudanças radicais da sociedade, e que não é imaginável que isso possa acontecer de uma forma passiva. (…) conclui fazendo um apelo. «Nós falhámos. E não é vergonha nenhuma admitir isso, com humildade. Eu já vivi a minha vida quase toda», lembra. «Com sorte terei mais 25 anos de vida. Fiz tudo o que queria. Tive uma vida ótima. Fui muito feliz. Mas tenho de assumir que os esforços que eu fiz, e foram muitos, ao longo da minha vida para que as coisas melhorassem, não resultaram. Eu fui sempre razoável. Fui sempre de compromissos. De negociação. Não funcionou. Falhou a democracia de modelo ocidental. Está a falhar o capitalismo. Está a falhar a globalização. Está tudo a falhar. Nós falhámos. E, portanto, em vez de continuarmos a penalizar as gerações mais novas que herdam o fardo pesado que lhes deixamos, nós temos é de ter um bocadinho de humildade e tentar conhecer e perceber melhor as pessoas mais novas. E ver como é que as podemos ajudar.»


Termino com um destaque para um ensaio de M. Lima (Caracóis guardiões e peregrinações interditas, relatos da Arrábida a partir de pequenos encantos e novas ameaças) publicado no Jornal Mapa em Agosto, onde a autora discorre sobre o território da Arrábida - a expansão das pedreiras e da Secil, os caracóis endémicos e as peregrinações à capela de São Luís -, entrecruzando as suas observações com o pensamento de John Halstead, Michael Hadfield, Donna Haraway e Davi Kopenawa. É uma bela reflexão que recomendo e da qual transcrevo alguns excertos: “Viver dentro do Parque Natural da Arrábida renovou a minha sensação de reverência por este ecossistema. Sinto-o como um espaço sagrado, réstia de algo puro e equilibrado que deve ser mantido – contra todas as ofensivas. Isso leva-me a dedicar um pouco mais do meu tempo ao estudo dessas duas entidades, «Fauna» e «Flora», cruzando-as com leituras sobre mitos e tradições populares. Fico sob o efeito de uma espécie de encantamento com os novos detalhes que descubro a ler ou a passear. E, para cada novo encanto, descubro também a presença de uma ameaça de extinção, pairando como uma maldição. (…) John Halstead consegue resumir as interrogações principais que surgem quando não queremos escapar ao nosso entrelaçamento mútuo. Pássaros e cobras. Caracóis e espíritos. Cientistas e turistas. Humanos e não humanos. Mortos e vivos. Nós humanos temos de fazer mais do que só observar. Temos a capacidade de proteger e tomar por sagrado este entrelaçamento [‘entaglement’], a teia da vida, de modo a evitar uma grande catástrofe. (…) Estarei a sentir que os caracóis são espelhos vivos (ou já inanimados, como os ecos que encontrei) de espíritos ancestrais? Ficou aberta a possibilidade de ler os relatos de Kopenawa de um modo diferente e de entender que estes pequenos seres antigos são veículos de compreensão para um animismo comprometido; e que também podem ser os guardiões da justiça climática multiespécie, que defenda os direitos de moluscos, pessoas e espíritos, como propõe Donna Haraway. (…) As várias peregrinações e festividades da zona, muitas delas remanescentes de tradições pagãs, encontram na propriedade privada [Herdade da Comenda] um impedimento à sua realização – templos, caminhos e parques que antes eram de todas, estão agora fechados e condenados ao turismo, à agricultura intensiva ou ao abandono. (…) A pequena peregrinação a S. Luís confronta-nos com o conjunto de ameaças que já sabíamos pairar sobre a região, mas mostra-nos ainda uma outra: o afastamento das populações locais dos seus espaços naturais ajuda a insensibilizar para o esventramento. Longe da vista, longe do coração. Se por um lado não nos permitem ver o cancro a crescer, por outro, ao vedar o acesso aos espaços de lazer, desligam-nos da Natureza e dos seus ritmos…. Sobram os lazeres artificiais, os ritmos acelerados, o cimento e o alcatrão. Dificulta-se a sobrevivência dos círios e das procissões que, segundo o que eu própria estou a experienciar, podem ser momentos de reflexão sobre a interdependência de tudo e espaços simbólicos de ritualização da vida, ou seja, alívios contra as dores de viver num mundo encantado e amaldiçoado. Sonhos de travar o grande desenvolvimento em nome de espíritos, caracóis e procissões. É assim tão absurdo querer tapar os gigantes buracos das cimenteiras para salvar frágeis caracóis? Impedir que os espaços comuns possam ser privatizados porque queremos peregrinar até eles e «pedir» pelas espécies em vias de extinção?