sexta-feira, 29 de março de 2019

Mudança climática: relatório do IPCC apela à acção política imediata mas não toca na 'vaca sagrada' do crescimento económico

[Post publicado no G+ a 8 Out 2018]

O IPCC (painel intergovernamental criado pela ONU e OMS para avaliar os dados científicos sobre o clima global) acaba de publicar o seu último relatório, cujas principais mensagens foram noticiadas pelos grandes 'media', nacionais e internacionais:
https://www.publico.pt/2018/10/08/ciencia/noticia/o-planeta-precisa-de-mudancas-sem-precedentes-para-nao-aquecer-mais-de-15-graus-celsius-1846510
https://expresso.sapo.pt/sociedade/2018-10-08-E-se-as-temperaturas-subirem-mais-de-15--ONU-diz-que-sera-dificil-viver-no-planeta
https://www.theguardian.com/environment/2018/oct/08/global-warming-must-not-exceed-15c-warns-landmark-un-report
https://www.dw.com/en/ipcc-15-c-degree-report-points-to-high-stakes-of-climate-inaction/a-45791882

O relatório defende que a possibilidade de impedir o aumento da temperatura média global acima de 1,5ºC (indispensável para que o clima mundial não se torne incompatível com a vida humana e de muitos outros seres vivos, e com a saúde dos ecossistemas) depende criticamente de acções políticas imediatas e eficazes para limitar as emissões de CO2 (principal gás responsável pelo efeito de estufa) - ver gráfico no final deste post. As diversas notícias parecem no entanto ignorar a publicação recente do artigo conhecido por 'Hothouse Earth paper' (que alguns dos mesmos órgãos de informação noticiaram...), cujo primeiro autor esteve recentemente no Porto para uma palestra e foi entrevistado pelo jornal Público, e que traça cenários bem mais dramáticos* do que aquele que surge agora no relatório do IPCC:
https://www.theguardian.com/environment/2018/aug/06/domino-effect-of-climate-events-could-push-earth-into-a-hothouse-state
https://www.publico.pt/2018/09/29/ciencia/entrevista/a-maneira-como-vivemos-esta-a-avassalar-a-natureza-1845213
(*devido à interacção de factores que foram considerados pelos autores deste estudo, mas que não são tidos em conta nas análises do IPCC)

A publicação deste novo relatório prende-se seguramente com a agenda diplomática internacional do curto prazo - reunião dos ministros do ambiente da UE esta semana e a COP24 a decorrer na Polónia no início de Dezembro.
Embora o relatório alerte para as consequências dramáticas da inacção política, parece desvalorizar a ineficácia ou insuficiência das medidas já tomadas, ou da sua quase inexistência em muitos casos (basta pensar na posição do governo federal do país com a maior pegada ecológica do mundo...).
Em relação às medidas a tomar, o relatório defende que será necessária uma transição rápida e profunda nos sectores da energia, uso do solo, urbanismo e infra-estruturas (incluindo transportes e edifícios), assim como nos sistemas industriais e alimentares, que terá de ser inusitada em termos de escala. As principais medidas propostas referem-se à transição energética (para fontes renováveis), à mitigação das emissões (e o financiamento de uma gama alargada de estratégias) e à gestão dos usos do solo.
A necessidade de alterar o modelo económico global ou os modos de vida das populações privilegiadas não é sequer mencionada (ou é abordada de forma indirecta e subtil), embora seja consensual entre muitos pensadores, movimentos e organizações que se têm debruçado sobre estes temas - refiro apenas o Papa Francisco na encíclica 'Laudato Si' ou o movimento do Decrescimento, sobre os quais escrevi anteriormente - aqui e aqui.

A associação ambientalista Zero lançou um comunicado sobre o relatório onde descreve e subscreve as suas principais conclusões. Embora refira a dada altura que "Também serão necessárias mudanças profundas de estilo de vida, incluindo a alteração para uma dieta mais saudável e equilibrada e usar modos de transporte mais limpos (...) e ir além da dependência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para novas políticas económicas que criam bem-estar para todos, respeitando os limites do planeta", a Zero parece 'dar uma no cravo e outra na ferradura' ao afirmar, por um lado, que "As alterações climáticas poderão (...) ameaçar o turismo, (...) causar prejuízos à indústria, produção de energia e infraestruturas de transportes, limitar o crescimento económico..." , e ao concluir, por outro lado, que "o investimento na ação climática constitui uma grande oportunidade para a economia europeia e para os seus cidadãos [sendo] possível modernizar o sistema de transportes e produção de energia, melhorar a independência energética, despoluir o ar, melhorar o uso do solo, criar empregos e tornar as cidades mais limpas, mais seguras e mais sustentáveis", como se o consumo crescente de recursos para implementar a transição sugerida não fosse uma ameaça ainda maior à prosperidade e ao bem-estar de todos!... Isto para não falar da ausência gritante de reflexão sobre quem iriam ser os beneficiários das medidas propostas.



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