quinta-feira, 31 de março de 2022

Resistir ou colaborar?

Imagem respigada daqui

(…) instead of restoring to people their ability to discern the true from the false, to distinguish real news from the fake news, our institutions propose once again to preserve and authoritatively intensify the linguistic alienation shored-up by entertainment and social networks. In the world truly standing on its head, disinformation appears under the guise of information and vice versa, in a “globalisation of the false” that coincides with “the falsification of the globe.” Flavio Luzi

The aim of totalitarian education has never been to instill convictions but to destroy the capacity to form any. Hannah Arendt

Nothing will be the same after this, and it is not intended to be. If we don’t want the future to look like a QR code flickering across a human face forever, we are going to have to do something about it. Paul Kingsnorth

O título deste post foi inspirado num texto do chefe de redacção do jornal francês "La Décroissance" - Vincent Cheynet - com os seus votos para o novo ano 2022 – ver aqui. A sua posição perante algumas das medidas autoritárias e discriminatórias de mitigação da pandemia, implementadas por diversos governos europeus, é assumidamente provocatória e polémica. Começa por invocar as palavras de um amigo seu que alertava para a necessidade dos cidadãos tomarem consciência e se revoltarem contra a ditadura sanitária em curso, com o seu potencial para conduzir a uma era de controlo social radical ao estilo chinês. Cheynet considera que se vive uma distopia marcada pela propaganda, a censura e o fanatismo vacinal, com consequências sociais e psicológicas devastadoras, perante as quais as forças sindicais e os media reagem com complacência ou colaboração. O autor termina dizendo (minha tradução): “Acho que o filósofo Belhaj Kacem Mehdi tem razão quando fala da ‘primeira guerra civil mundial’. Os danos às famílias, amigos, colegas de trabalho, sociedade... serão irreparáveis para muitos. Este é o objetivo pretendido: redireccionar o ressentimento em relação ao poder para os ‘não vacinados’. A violência da sua recriminação como bodes expiatórios é bem elucidativa daquela intenção. Dois anos de narrativa do medo trazem de volta a pior fealdade moral. Querem eliminar socialmente, fisicamente, os refratários que duvidam das benesses do progresso. Os mesmos que alertaram sobre o tipo de experiências, que com forte probabilidade, estarão na origem da Covid. Neste ano de 2022 todos têm um encontro com o seu destino, ou seja, a escolha entre resistir ou colaborar.


 Passados dois anos desde o seu início 'oficial', mais de um ano após ter trazido aqui as minhas inquietações e perplexidades perante os contornos preocupantes da reacção à pandemia de grande parte dos governos mundiais e dos media dominantes, e na sequência de outros posts publicados durante 2021 (ver aqui e aqui), em que destaquei a contestação às narrativas dominantes e a forma como essa contestação tem sido repudiada, diabolizada ou censurada, senti a necessidade de me juntar ao coro crescente de vozes que têm apelado à promoção de debates plurais sobre o tema e que têm denunciado as autênticas campanhas de difamação com o intuito de reduzir qualquer questionamento das medidas de mitigação adoptadas (incluindo as campanhas de vacinação em massa e os certificados ou passaportes vacinais), quer em Portugal, quer em muitos outros países, a devaneios de 'negacionistas', 'conspiracionistas' ou sociopatas. 
 Preocupante é também o facto das posições face à pandemia terem servido de pretexto para criar ainda mais divisões na sociedade. Tudo isto configura um retrocesso civilizacional sem precedentes na medida em que aceitámos que o poder político e o poder mediático ditassem as regras da vida quotidiana, utilizando as velhas estratégias do medo (da doença e da morte) e da propaganda. Rejeito pois o rótulo de 'conspiracionista' ou 'negacionista' e recuso-me a colaborar na instauração de regimes iatrocráticos e tecnocráticos – com as designações falaciosas de 'nova normalidade' ou de 'Great Reset'. Felizmente, existem muitos outros que me acompanham neste exercício de resistência. Destacarei no final deste post alguns escritos de autores (oriundos de diversas áreas de conhecimento e de igualmente diversos sectores do espectro político) que têm partilhado as suas reflexões críticas (já o tinha feito anteriormente neste outro post), assim como tomadas de posição colectivas, que mostram claramente que não se trata de uma minoria de renegados, desvairados ou desviantes.


 Um dos aspectos que mais me perturbou nas tomadas de posição perante a narrativa dominante foi a sua politização e balcanização. Por um lado, deparei-me com a miopia de largos sectores da 'esquerda' ou 'progressistas' que, querendo enfatizar o seu repúdio pelas decisões de políticos de 'direita' (como Trump ou Bolsonaro), passaram, bizarramente, a confiar na benevolência, não só de diversos governantes (independentemente da sua 'cor política' ou do nível de conluio com as elites económicas e financeiras), mas também na das grandes corporações farmacêuticas e de diversos multimilionários, que alcançaram nestes dois anos da pandemia lucros recorde (ver p.ex. aqui ou aqui). Em vez de se manterem fiéis ao slogan "follow the money", passaram a pregar o mantra "follow the science" (desconstruído p.ex. aqui ou aqui). Aqueles mesmos sectores apoiaram as medidas mais restritivas e autoritárias que foram impostas, sem reconhecer o seu carácter atentatório dos mais básicos valores de pluralismo e debate democráticos, nem a concomitante imposição de uma agenda tecnocrática e autoritária que veio reforçar a concentração de riqueza e de poder pelas elites transnacionais! (ver p.ex. texto de Addison Reeves citado no final) Tudo isto com o apoio massivo dos media dominantes (muitos deles detidos por grandes corporações multisectoriais) que lançaram autênticas campanhas de manipulação e de propaganda sobre os cidadãos, exarcebadas pelo sensacionalismo e pelo recurso ao discurso do medo, e auxiliados por uma nova forma de Inquisição denominada 'fact-checking', onde 'a Ciência' tomou o lugar da religião com o intuito de desacreditar qualquer voz dissonante. Quanto aos (poucos) projectos editoriais que contestam a narrativa hegemónica, mas sem um alinhamento ideológico conservador, recomendo: Casa das Aranhas e Informação Incorrecta (em português), Kairos (em francês) e Left Lockdown Sceptics (em inglês).

 Por outro lado, é igualmente perturbante e preocupante que a contestação mais visível às medidas sanitárias tenha vindo de sectores conservadores, neoliberais ou até de extrema-direita, que enfatizam as restrições das liberdades individuais e criticam os efeitos negativos nos pequenos negócios (argumentos normalmente usados pela esquerda!), mas defendem um regresso a uma alegada 'normalidade' e uma reabertura da economia, sem pôr em causa o sistema económico dominante, socialmente injusto e ambientalmente insustentável. Mais perverso ainda parece-me o facto dessas pessoas usarem o argumento da defesa das liberdades individuais na contestação das medidas governamentais ou das autoridades de saúde, sabendo que não o usariam se a coerção fosse de natureza económica ou social, independentemente de ter origem em entidades privadas ou autoridades governamentais.


 É importante reconhecer que o que está acontecer a reboque da pandemia é o corolário e o aprofundamento de processos que já se arrastavam há várias décadas. Trata-se a meu ver de algo que pode ser apelidado de engenharia social baseada na manipulação das fragilidades humanas, sejam elas de natureza psicológica ou social (ver p.ex. texto de Ugo Bardi citado no final). Um autor que escreveu sobre as técnicas e estratégias de propaganda e de manipulação, quer em regimes autoritários, quer em regimes democráticos, foi Aldous Huxley. Mas poderia também invocar o livro ‘Manufacturing consent’ de Edward S. Herman e Noam Chomsky, os escritos de Michel Foucault sobre biopolítica ou o conceito de psicopolítica de Byung-Chul Han. Em ‘Regresso ao admirável mundo novo’ de 1958, Huxley escreveu “No mundo em que vivemos (…) enormes forças impessoais actuam em prol da centralização do poder e de uma sociedade arregimentada. A normalização genética dos indivíduos ainda não é possível mas o Grande Governo e o Grande Capital já possuem, ou irão possuir em breve, todas as técnicas de manipulação da mente descritas em ‘Admirável mundo novo’, juntamente com outras que a minha imaginação não seria capaz de alcançar. (…) os governos do mundo sobrepovoado e excessivamente organizado do futuro tentarão impor a uniformidade social e cultural aos adultos e aos seus filhos. Para atingir esse objectivo farão uso (a menos que sejam impedidos disso) de todas as técnicas de manipulação da mente à sua disposição e não hesitarão em reforçar esses métodos de persuasão não-racional através da coacção económica e de ameaças de violência física.

 O papel instrumental dos media dominantes e das redes sociais na amplificação do discurso do medo (que potencia a susceptibilidade à manipulação), na disseminação das narrativas oficiais e na descredibilização ou censura das posições críticas, deve ser amplamente destacado, pois está a ser usado agora para fabricar consensos sobre o conflito na Ucrânia – de ambos os lados da barricada ideológica (tema de um próximo ‘post’). No entanto, as estratégias de manipulação de massas e de fabricação de consensos (e consentimento) tornaram-se quase omnipresentes, em particular por via da publicidade e do ‘marketing’ (comercial ou político), que recorrem ao conhecimento advindo das ciências cognitivas e das ciências sociais, sem grandes pruridos éticos. Qualquer que sejam as estratégias empregues, elas só resultam se houver conformismo, aceitação tácita ou obediência da parte das pessoas (ver sugestões de vídeos no final do ‘post’). Por isso, Huxley no livro já citado realça o papel da educação para a liberdade, da autonomia e do exercício do espírito crítico, como formas de resistência às práticas de manipulação e de desumanização orquestradas pelas elites do poder político e económico. Que tenhamos pois a lucidez, a sensatez e a coragem para atravessar os tempos sombrios que se adivinham. E que o possamos fazer apoiando-nos mutuamente. Prossigamos, pois, lado-a-lado.


Artigos e ‘posts’ sobre a pandemia

EN/FR

- Paul Kingsnorth, The vaccine moment (Nov 2021):

(…) Covid-19 is a nasty illness which should be taken seriously, especially by those who are especially vulnerable to it. But it is nowhere near dangerous enough - if anything could be - to justify the creation of a global police state. As for the vaccines - well, let's just acknowledge that vaccination has become a subject which it is virtually impossible to discuss with any calmness or clarity, at least in public. As with almost every other big issue in the West today, opinion is divided along tribal lines and filtered through the foetid swamp of anti-social media, to emerge monstrous and dripping into the light. (…) Covid is a revelation. It has lain bare splits in the social fabric that were always there but could be ignored in better times. It has revealed the compliance of the legacy media and the power of Silicon Valley to curate and control the public conversation. It has confirmed the sly dishonesty of political leaders, and their ultimate obeisance to corporate power. It has shown up ‘The Science’ for the compromised ideology it is. Most of all, it has revealed the authoritarian streak that lies beneath so many people, and which always emerges in fearful times. In the last month alone I have watched media commentators calling for censorship of their political opponents, philosophy professors justifying mass internment, and human rights lobby groups remaining silent about ‘vaccine passports.’ I have watched much of the political left transition openly into the authoritarian movement it probably always was, and countless ‘liberals’ campaigning against liberty. As freedom after freedom has been taken away, I have watched intellectual after intellectual justify it all. I have been reminded of what I always knew: cleverness has no relationship to wisdom.

Continuação deste ‘post’: Part 2, Part 3

- Daniel Hadas, The Covid Bullshit (Mar 2022):

(…) It may then seem flippant to speak of the Covid measures as a manifestation of bureaucratic bullshit. Every human society has deep urges towards cruelty and self-destruction, and those of our own have been at play in the Covid response. Still, I believe that the terrain over which this dark river has flowed has, inevitably, been that of our habitual landscape of process-driven, bureaucratic faux-rationality. The Bullshit is the medium, not the message, but, as ever, the two are inseparable. (…) compliance with even the most absurd of the rules has largely been high. This is no surprise: we had all long ago been trained to comply with bullshit, however we perceived it, because not doing so would be discourteous, awkward, inconsiderate, would in short break the rules of our passive-aggressive social contract. (…) The Covid Bullshit has not just brought us the maddening annoyances of Zoom meetings, passenger locator forms and nasal swabs. It has ushered in poverty, isolation and social division, death and despair. That these consequences were brought about by soft, well-meaning power makes them no less grave. Rather, the true lesson is just how dangerous soft, well-meaning power can be.

- Connor Kelly, Collaboration or resistance (Jul 2021):

(…) What we are dealing with is a psychological defence mechanism, both personal and social, operating on a massive scale, and being expertly weaponised by the state. Again, it is ridiculously difficult to recognise this in oneself (it’s a self defence mechanism!). It becomes even more difficult when it is socially widespread. No one wants to think of themselves as being caught up in a mass hysteria. No one wants to think of themselves as having been fooled. No one wants to deviate so dramatically from approved opinion and be branded as a lunatic. No one wants to think of themselves as being devoted to their self image… (…) The quest to stand out from the ever-enlarging crowd results, paradoxically, in mass flattening, mass imitation, maximum conformism within a proliferation of ideological tribes.

- Ugo Bardi, The rise and fall of Scientism (Dez 2021):

(…) Lay people are asked to express their acceptance of the new religion by participating in a liturgy that involves jabs, face masks, social distancing, hand sanitizing, and more. The new liturgy seems to have been remarkably successful: the faithful are genuinely convinced that they are doing what they do as a service to others. It is the magic of "horizontal" empathy. People like to help others, it is a built-in behavior of the human psyche that has been hijacked by the creators of the new religion. Scientism, as it is now, is a remarkable success of social engineering.

- Laurent Mucchielli, L’ideologie de la vaccination intégrale n’est ni de la science ni de la médecine (Out 2021):

(…) Au bout de quelques temps, j’ai identifié ce que j’appelle « la doxa du Covid », une narration globale de la pandémie dont je conteste globalement le bien-fondé. Cette histoire, qui nous est racontée depuis le début, consiste en quatre affirmations centrales : 1) un virus horrible se répand partout sur la planète et nous risquons tous de mourir, 2) on ne sait pas comment l’arrêter ni comment soigner les gens qui l’attrapent, 3) la seule chose à faire est, sur le modèle chinois, de confiner la totalité de la population et de réduire au maximum les contacts entre les êtres humains, et 4) nous ne pourrons « retrouver une vie normale » que quand nous disposerons d’un vaccin. Le vaccin est donc présenté comme le sauveur de l’humanité depuis le début. Et il est évidemment interdit de critiquer le sauveur de l’humanité. Voilà toute l’affaire. (…) Finalement, dans toute cette histoire, personne ne m’a jamais dit en substance « vous soulevez un problème grave, cela mérite une discussion sérieuse que nous proposons d’organiser ainsi ». En réalité, il n’y a aucun débat, il n’y a que des anathèmes que les gens se jettent à la figure. Que cela soit la règle sur les réseaux sociaux est compréhensible à défaut d’être acceptable. Mais que cela devienne la règle générale dans la vie intellectuelle constitue une grave régression. (…) On voit aujourd’hui que les géants du numérique et autres GAFAM sont avant tout des industries hautement lucratives, qui travaillent main dans la main avec les gouvernements et avec les principaux médias − qu’ils financent en partie −, et qui, au final, fabriquent une sorte de pensée unique à coups d’algorithmes sélectionnant les contenus et en « modérant » tous ceux proposés en ligne par les citoyens, c’est-à-dire en pratiquant une censure massive de tout ce qui contrevient au discours officiel de leurs partenaires institutionnels. (…) Si nous étions dans une démarche rationnelle de type scientifique et médicale, la vaccination ARN/ADN devrait être réservée aux personnes qui 1) en ont vraiment besoin, c’est-à-dire qui ont de réels risques de faire des formes graves de Covid si elles sont contaminées, 2) après un examen approfondi de leur état de santé général par leur médecin traitant, afin d’évaluer la balance bénéfice/risque au cas par cas, 3) avec leur consentement libre et éclairé − question d’éthique médicale et de démocratie générale qui ne devrait même pas se discuter. C’est tout le contraire de cette vaccination industrielle de masse, pratiquée de façon quasiment aveugle sur toute la population, rendue obligatoire par un chantage à la discrimination − si tu ne te vaccines pas, tu ne pourras plus travailler, tu ne pourras plus aller voir un spectacle ou manger au restaurant, tes enfants ne pourront plus aller à l’école, etc. −, doublé d’un chantage politique − si tu ne te vaccines pas, tu es suspect d’avoir des sympathies pour le complotisme et/ou l’extrême droite − et d’une imposture morale − si tu ne te vaccines pas, tu menaces tes concitoyens. C’est ce que j’appelle l’idéologie de la vaccination intégrale et je considère, en effet, que ce n’est ni de la science ni de la médecine.

- Ole Skambraks, I cannot do it anymore (Out 2021):

(…) Instead of an open exchange of opinions, a “scientific consensus” was proclaimed, that must be defended. Anyone who doubts this and demands a multidimensional perspective on the pandemic, will reap indignation and scorn. The same pattern is at work in the newsrooms. (…) The result of one and a half years of Covid-19 is an unparalleled division in society. Public service broadcasting has played a major role in this. It is increasingly failing in its responsibility to build bridges between the camps and to promote exchangeVersão PT

- John P.A. Ioannidis, How the pandemic is changing the norms of science (Set 2021): Excertos PT: 1ª parte2ª parte

(…) Decisions pronounced in the name of science have become arbitrators of life, death, and fundamental freedoms. Everything that mattered was affected by science, by scientists interpreting science, and by those who impose measures based on their interpretations of science in the context of political warfare. (…) The dominant narrative became that “we are at war.” When at war, everyone has to follow orders. If a platoon is ordered to go right and some soldiers explore maneuvering to the left, they are shot as deserters. Scientific skepticism had to be shot, no questions asked. The orders were clear. (…) But “we are at war” led to a step beyond: This is a dirty war, one without dignity. Opponents were threatened, abused, and bullied by cancel culture campaigns in social media, hit stories in mainstream media, and bestsellers written by zealots. Statements were distorted, turned into straw men, and ridiculed. Wikipedia pages were vandalized. Reputations were systematically devastated and destroyed. Many brilliant scientists were abused and received threats during the pandemic, intended to make them and their families miserable. (…) There was absolutely no conspiracy or preplanning behind this hypercharged evolution. Simply, in times of crisis, the powerful thrive and the weak become more disadvantaged. Amid pandemic confusion, the powerful and the conflicted became more powerful and more conflicted, while millions of disadvantaged people have died and billions suffered. I worry that science and its norms have shared the fate of the disadvantaged. It is a pity, because science can still help everyone. Science remains the best thing that can happen to humans, provided it can be both tolerant and tolerated.

- Fabio Vighi, Tyranny by Health Emergency, or the Dystopian Implosion of Contemporary Capitalism (Nov 2021):

Today’s financially driven economy is fuelled by global emergencies, whose primary role is to shield the system from its increasingly destructive practices. Lockdowns and related restrictions are the latest model of social engineering. Their immediate purpose is to allow Central Banks to carry out their astronomical money-printing programmes, which inflate the financial sector while also – as we are witnessing at present – causing inflation as soon as any cash is leaked into the real economy by commercial banks. COVID-19 is, essentially, a cover-up for systematic debt-leveraged monetary expansion. In capitalist terms, there is no alternative to this cynical exercise – at least until the authoritarian paradigm shift currently underway is normalised. Before it is too late, then, we must stop believing that vaccine mandates, lockdowns, and other forms of mass regimentation are health related. Rather, the ‘pandemic’ continues to work as the ideological front to a mode of social reproduction that has no way of perpetuating itself other than by imposing its despotic reshaping as necessary and even desirable. (…) The “pandemic” was unleashed as an accelerator of capitalist predatory violence aimed at the preservation of the financial sector and attendant hierarchies of power. It has thrown into sharp relief how, after a long series of ineffective neo-liberal or neo-Keynesian endeavours to resurrect our moribund mode of production, the extrema ratio of global emergencies (followed by lockdowns and a plan for monetary control via digital transition) is now regarded as the only viable way forward.

- Addison Reeves, The pandemic response as contemporary imperialism (Ago 2021):

The almost uniform support for totalitarian lock-down measures and mandates from those on the left has been shocking to see and has resulted in a feeling of political homelessness for those whose leftist values are what lead them to view the response to the pandemic with a sharp critical eye. This article shows that the reason why so many on the left have abandoned the values of freedom of speech and movement, bodily autonomy, and economic justice is because those people belong to the ideology of progressivism, which exists outside the left-right dichotomy. Progressivism is an ideology that champions limitless growth, unbridled use of technology and the control of nature over any intrinsic sense of worth or fulfillment.

- Panagiotis Sotiris, To Defend Public Health, We Need More Than Lockdowns (Mai 2021):

(…) There is also a future cost in lives from the lockdown restrictions, even though there will be no daily bulletins about them. Here, I refer not only to deferred medical screenings and surgical interventions but also reduced school learning and of course economic depression, unemployment, social precariousness and insecurity, and the psychological and social burden of confinement and isolation. In the end these will also cost lives. Finally, this erosion of sociality, and of course the extensive use of authoritarian measures that have also been used against forms of protest and political intervention is not something that we can accept. There is the danger of the normalization of a very authoritarian state of exception(…) lockdown strategy operates according to the “black box” logic of the market that we find in neoliberal economics. The hope is that by reducing transmission in general we also reduce the risk for the vulnerable and the susceptible. But this is not what has happened. In a certain way, lockdowns are a “do nothing” approach to the pandemic, in the sense that by simply suspending activities and reducing mobility this will hopefully reduce mortality. (…)  In contrast, a more focused approach to protecting the vulnerable and the susceptible offers a real chance of lowering mortality. This approach would require a profound reorganization of social life, both through state intervention and self-organization… (…) Most tendencies on the Left have accepted that the lockdown strategy actually represents “the science” on the pandemic and accuse those that criticize it of having an anti-scientific position. But the entire science of lockdowns is not founded on some incontestable scientific facts. From the infamous apocalyptic scenarios that were projected in the Imperial College models, to the way the idea of social distancing was elaborated in the preparedness plans for a potential influenza pandemic in the 2000s, to the way social conditions have been underestimated, it is obvious that we are not dealing with “neutral” scientific theories and facts. What is missing here is something that used to be one of the main traits of the radical left, namely, an insistence that science and technology are not neutral. It is as if an entire tradition of critical approaches to science and technology has been forgotten. (…) We have to acknowledge that there is a huge gap between a Left that has confidence in science and fights against all forms of irrationalism and one that subscribes to the logic that policy should be simply dictated by unelected specialists. A pandemic is, in the last instance, a social and political condition and there is a class aspect to the different responses, which are not neutral. This is especially important when the measures dictated or proposed by unelected specialists include the authoritarian suspension of basic democratic rights.

- Elizabeth Renieris, What’s at stake with vaccine passports (Out 2021):

(…) rather than thinking about vaccine passports as temporary, isolated, public health-related measures, we should view them as just one example of how the pandemic is accelerating the rollout of digital identity infrastructure and consider the broader implications for society, particularly as commercial and economic incentives predominate. (…) If 9/11 ushered in an era of mass surveillance, the pandemic has the potential to introduce the “ID turn” or the age of ubiquitous identification and the end of anonymity. Such a shift would, in turn, threaten the notion of “public” life, which requires the ability to be one of many in the crowd. In this way, what may appear to be temporary public health-related measures could risk embedding permanent digital identity infrastructure without our full consideration of the consequences.

- Georges Ugeux, On a utilisé le canon pour tuer une mouche - et on n’a même pas réussi à tuer la mouche (Fev 2021):

(…) Le problème n°1 dans le monde politique d’aujourd’hui, c’est une absence d’empathie et de compréhension des conséquences de leurs décisions. (…) [Sa cause:] C’est l’avènement de la toute-puissance médicale. Elle a permis au gouvernement de justifier ce qu’il faisait – et ce qu’il faisait, c’est ce que les médecins lui disaient. S’il y a une chose que je conseillerais aux gouvernement aujourd’hui, c’est de remplacer la moitié des médecins dans tous les comités, et de les remplacer par des psychologues, des sociologues et des philosophes. Parce que le corps médical a une profonde défiance par rapport à tout ce qui touche à la santé mentale. (…) [Sur le discours de la peur] On délivre aux gens un discours totalement anxiogène et négativiste, disant uniquement que les choses seront pires demain, et comme ce virus est un problème sérieux, les gens ne voient plus les faits. (…) Cette espèce de copie conforme du modèle chinois, qui existe encore aujourd’hui, et l’absence de remise en question de l’aspect autoritaire de ce fonctionnement est évidemment une menace pour la démocratie. (…) Les médias se sont complètement alignés sur la communication gouvernementale et celle des médecins. Et ensuite, ils en ont rajouté une couche en dramatisant.

PT

- Rui V. Pereira, Vem aí o neo-medievalismo (Dez 2021):

(…) Resumamos então o nosso quadro clínico: – uma elite mediática e política que fala em nome de todo um povo, sem dele ter recebido mandato; – uma elite mediática que distorce e mal-interpreta os dados estatísticos, nomeadamente os dados relativos à pandemia (seja por iliteracia, seja por má-fé – não nos compete fazer julgamentos de intenção, mas apenas constatar os seus efeitos objectivos), transformando a luz em trevas; – uma elite mediática e política que chuta para fora as culpas dos seus próprios disparates ou das forças da Natureza; noutros tempos, chamava-se a isto «castigo divino»; – o reerguer de muros e outros entraves à circulação das pessoas, como na Idade Média, imputando culpas às populações e pondo-as umas contra as outras; – a mistificação das causas e processos dos fenómenos naturais; – o silenciamento ou punição (por meio de perda de emprego e outros direitos) das vozes divergentes da corrente hegemónica; – etc. Este quadro clínico aponta para uma infecção ditatorial em curso. Qual o desfecho e qual a estirpe, ainda estamos para saber. Mas os sinais estão lá e são claros.

- Vítor Belanciano, Iliteracia científica e mediática (Set 2021):

(…) A ciência, como os media, tem potencialidades e limites. Hoje é evidente que a crise pandémica está numa nova fase graças à ciência, mas também ficou patente que a resolução de problemas de saúde pública é tanto mais eficaz quanto se faz com múltiplos saberes, alguns até não científicos, porque nenhuma forma de conhecimento, por si só, capta as inúmeras experiências da realidade. Se alguma conclusão pode ser tirada hoje, é a de que a pandemia é um fenómeno social total, que não pode ser entendido, nem enfrentado, com base num único tipo de sabedoria. (…) Neste cenário, não espanta que muitos tendam a converter modelos, hipóteses, cenários ou pareceres de cientistas em verdades. Da mesma forma que se banalizou a expressão “negacionistas”, colocando-se no mesmo saco quem produz teorias da conspiração, grupos extremistas que manobram politicamente a situação, quem nega sem sustentação o conhecimento científico, mas também quem expõe dúvidas razoáveis. (…) Um dos problemas de algum jornalismo foi ter-se convencido (e, nesse movimento, persuadido muita gente) de que era neutral ou sinónimo de verdade. Criou uma expectativa para si próprio, e para o público, impossível de cumprir, que se virou contra ele mesmo…

- António Ferreira, Exigir prestação de contas (Ago 2021):

Quando um Estado viola direitos elementares dos cidadãos é obrigado a provar que, ao fazê-lo, está a protegê-los contra um perigo iminente e concreto – digamos, a pandemia de Covid-19. E é obrigado a provar que as medidas adotadas, que conduziram a essa violação, são efetivamente eficazes na proteção dos mesmos cidadãos. Essa prova nunca nos foi apresentada. Foi substituída por mera propaganda. (…) não se trata, apenas, de exigir a assunção de responsabilidade política, cujas consequências são, neste país, irrelevantes. Não! Trata-se de empreender as ações necessárias para avaliar de modo totalmente independente os reais efeitos (não os propagandeados) e consequências das medidas adotadas, quer no que concerne à evolução da pandemia propriamente dita, quer no que toca aos resultados sociais, económicos, na saúde e na privação dos mais elementares direitos de cidadania e, se for caso disso, acionar as instituições apropriadas para a responsabilização dos seus autores.

Tomadas de posição colectivas

- França: Carta aberta de apelo ao exercício do espírito crítico (Ago 2021): https://qg.media/2021/08/30/tribune-a-t-on-encore-le-droit-dexercer-son-esprit-critique-en-france/

- Canadá: Carta aberta aos não-vacinados (Ago 2021): https://www.apar.tv/societe/lettre-ouverte-aux-non-vaccines/  https://ocla.ca/wp-content/uploads/2021/08/2021-08-02-A-Letter-to-the-Unvaccinated.pdf

- Rome Declaration and Physicians Declaration II – Global Covid Summit (International Alliance of Physicians and Medical Scientists, Oct 2021): https://doctorsandscientistsdeclaration.org/

- Espanha: Manifiesto por una salida razonable a la crisis de la Covid (Nov 2021): https://salidarazonablecovid.es/ Tradução PT

- Portugal: Reconquistar o direito a viver – carta aberta de médicos portugueses sobre medidas sanitárias (Jul 2021): https://www.publico.pt/2021/07/16/opiniao/opiniao/reconquistar-direito-viver-1970426

Vídeos sobre propaganda, manipulação de massas e papel dos media

Genéricos:

- ‘J’accepte’ (TerPacific, 2007): https://www.dailymotion.com/video/x1zg25 (versão orig. FR); ‘post’ meu com tradução do texto: https://transicaodisrupcao2021.blogs.sapo.pt/6693.html

- ‘You’ve felt it your entire life’ (Elina St-Onge; Collective Evolution, 2012): https://youtu.be/pXVwAnUjpIk

- ‘We want your soul’, Adam Freeland (2003; video 2012): https://youtu.be/C09lJQ4Blks

- Vídeos do projecto ‘Academy of Ideas’ sobre propaganda, psicose de massas e papel dos ‘mass media’ (2021): https://youtu.be/09maaUaRT4M; https://youtu.be/fdzW-S8MwbI; https://youtu.be/JeliRVZ4V00; https://youtu.be/6VfJ0BJvt7Y; https://youtu.be/5okSlrbgELA

‘Posts’ com textos dos vídeos: https://academyofideas.com/2021/02/mass-psychosis-greatest-threat-to-humanity/  https://academyofideas.com/2021/04/manufacturing-of-a-mass-psychosis-can-sanity-return-to-an-insane-world/  https://academyofideas.com/2021/09/how-to-escape-from-a-sick-society/  https://academyofideas.com/2021/09/the-big-lie-how-to-enslave-the-world/  https://academyofideas.com/2021/11/mainstream-media-a-threat-to-freedom-and-sanity/

Sobre a cobertura mediática da pandemia:

- ‘Ceci n’est pas un complot’, Bernard Crutzen (2021): https://linktr.ee/CNPC_2020

- Vídeos do comediante britânico Russell Brand (canal YT) – p. ex.: https://youtu.be/iO53vfhuqAA

- Série de conversas ‘The pandemic is a prism’ (2021) – p.ex. conversa com Paul Kingsnorth e Charles Eisenstein: https://youtu.be/okO4H_Y6704 

sábado, 11 de dezembro de 2021

Sobrevivência do (mais) belo

The sight of a feather in a peacock's tail, whenever I gaze at it, makes me sick!Charles Darwin, carta para Asa Gray (1860)
On the whole, birds appear to be the most aesthetic of all animals, excepting of course man, and they have nearly the same taste for the beautiful as we have.Charles Darwin, The Descent of Man (1871)
Only when Darwin’s aesthetic view of evolution is restored to the biological and cultural mainstream will we have a science capable of explaining the diversity of beauty in nature.Richard O. Prum, The evolution of beauty (2017)
I believe our understanding of nature increases if we spend more time wondering about all this useless beauty.David Rothenberg, Survival of the beautiful (2011)

O título deste post é uma tentativa de integrar duas traduções possíveis para o título do livro ‘Survival of the beautiful’ (2011) do músico e filósofo norte-americano David Rothenberg (ver p.ex. aqui ou aqui). Por sua vez, o título escolhido por Rothenberg é uma referência à frase ‘Survival of the fittest’ (sobrevivência do mais apto) que é frequentemente usada para descrever o processo de selecção natural, proposto originalmente por Charles Darwin e Alfred Wallace no séc. XIX para explicar a evolução biológica (formação de novas espécies). Segundo essa proposta, as características que são mantidas nas diferentes espécies ao longo da evolução são aquelas que resultam numa vantagem adaptativa, garantindo o sucesso reprodutivo e a sobrevivência das populações em que essas características surgem (ler p.ex. aqui). No entanto, Rothenberg, assim como outros investigadores, incluindo alguns biólogos, apesar de concordar que a selecção natural é um dos motores da evolução, considera que não é o único. Aliás o próprio Darwin propôs um segundo processo, que designou por selecção sexual, para explicar o aparecimento de certas características que não têm uma vantagem adaptativa aparente, como a variedade de cantos ou de cores e formas das plumagens, das aves que exibem dimorfismo sexual (ler p.ex. aqui).

    No seu livro ‘The descent of man’ Darwin escreve: “(…)nos insectos, anfíbios e aves, em que os machos durante a época de acasalamento produzem incessantemente notas musicais ou meros sons rítmicos, devemos acreditar que as fêmeas são capazes de apreciá-las e, portanto, de ficar excitadas ou encantadas; de outro modo, os esforços incessantes dos machos e as estruturas complexas, muitas vezes possuídas exclusivamente por eles, seriam inúteis.” Este processo pressupõe uma capacidade inata de reconhecer estruturas ou sons complexos nos animais não humanos, além de uma capacidade de apreciação estética por um dos géneros, em geral as fêmeas. No mesmo livro, Darwin escreve: “Coragem, combatividade, perseverança, força e tamanho do corpo, armas de todos os tipos, órgãos musicais, tanto vocais quanto instrumentais, cores brilhantes e apêndices ornamentais, foram indirectamente ganhos por um ou outro sexo, através do exercício de escolha, a influência do amor e do ciúme, e a apreciação do belo…”. Numa entrevista sobre o seu livro, Rothenberg afirma: “Temos tendência a pensar que a evolução significa a sobrevivência do mais apto, mas isso é apenas uma parte da história. Charles Darwin comentou que a cauda do pavão ‘o deixava indisposto’, porque ele não conseguia explicar a sua existência apenas com base na selecção natural. Ele teve que conceber o processo de selecção sexual, que postula que algumas características sobrevivem apenas porque um dos sexos as escolhe no parceiro, apenas porque gosta delas. É assim que temos a sobrevivência do curioso, do belo, do extremo, do bizarro e do aparentemente inútil na natureza.”

    Um dos exemplos que Rothenberg refere é o dos pássaros-jardineiro (‘bowerbirds’) que constroem elaborados caramanchões (‘bowers’) com ramos, folhagem, flores, bagas, cogumelos ou outros objectos que recolhem na floresta para cortejar as fêmeas (ler p.ex. aqui). Sobre estas sublimes estruturas, Rothenberg escreve: “E se os pássaros-jardineiro atraíssem, acasalassem e procriassem para a propagação dos caramanchões, não dos descendentes? Veja-se o processo como um exemplo de seleção estética... [Aquelas] não são estruturas para se viver, mas sim para as fêmeas admirarem. São feitas para serem uma coisa – belas.” (ver vídeos numa das 'playlists' que criei - 'link' no final do 'post')

    Esta linha de pensamento já era patente num livro anterior de Rothenberg – ‘Why birds sing’ (2005) – onde ele sugere que o canto das aves tem um papel não utilitário, para além daqueles que lhes são atribuídos pela generalidade dos biólogos – atrair parceiros, repelir potenciais competidores ou demarcar o seu território –, e que não é dissemelhante da função da música para os seres humanos: dar prazer aos que a executam ou a quem a ouve (ver p.ex. aqui ou aqui, ou excertos de programa da BBC baseado no livro: aqui e aqui). Escreve a autor: “Por que cantam as aves? Pelas mesmas razões que nós o fazemos - porque podemos. Porque gostamos de habitar o puro reino do som. Mas também porque somos impelidos a cantar - é o modo como fomos engendrados para explorar as formas puras do som. Celebramos essa capacidade nas nossas principais tarefas, que nos definem a nós mesmos, defendendo o nosso território, convocando aqueles que amamos. Mas a forma é algo mais do que mera função.” As suas teses são rejeitadas por muitos biólogos (ver p.ex. aqui ou aqui), mas outros têm dedicado atenção ao assunto e concluem que existe não só qualidade musical no canto das aves, mas também capacidade criativa nalgumas espécies (ver p.ex. aqui ou aqui). Um outro músico que partilha das teses de Rothenberg é David Byrne, que no seu livro ‘How music works’ (2012) afirma: “O carácter adaptativo da criatividade não se limita a músicos e compositores (ou a artistas de outras áreas). Ele estende-se ao mundo natural também. David Attenborough e outros afirmaram que os cantos das aves evoluíram para se adequar ao ambiente. (…) a evolução e adaptação musical é um fenómeno interespecífico. E presumivelmente, como dizem alguns, as aves gostam de cantar, mesmo que, tal como nós, mudem as suas melodias com o passar do tempo. O prazer de fazer música prevalecerá, independentemente do contexto e da forma que emerge que lhe confira uma melhor adaptação.”

    Um biólogo que tem investigado e defendido o carácter subjectivo e arbitrário da apreciação estética em animais não humanos proposto por Darwin é o zoólogo norte-americano Richard O. Prum, em particular no seu livro ‘The evolution of beauty’ (2017). Prum sustenta que, contrariamente à maioria dos biólogos evolucionistas contemporâneos que atribuem à seleção natural a origem das formas e estruturas biológicas, fenómenos como a selecção sexual resultam de processos arbitrários que envolvem a avaliação cognitiva e neuronal de sinais sensoriais, conduzindo a soluções menos adaptativas e mais diversas (e belas), processo que ele apelida de evolução estética. Para além dos atributos que definem o dimorfismo sexual nas aves, Prum dá o exemplo da marcada diferença de diversidade nas estruturas das raízes das plantas quando comparada com a das flores (ver aqui): no primeiro caso (raízes), a forma é determinada principalmente por mecanismos de natureza adaptativa, que conduziram a soluções menos diversas mas optimizadas para a função (absorção de nutrientes); já no segundo caso (flores), embora existam características comuns derivadas da função (reprodução), a diversidade de formas é também determinada por um processo de coevolução entre a planta e a espécie polinizadora (insecto ou outro animal) que interagem cognitivamente. Prum afirma que: “a evolução estética é uma propriedade emergente que resulta duma escolha baseada na avaliação sensorial e cognitiva de sinais (visuais, sonoros), e atinge a sua maior complexidade através da coevolução desse sinal e da sua avaliação.”

    Dois outros autores que reflectiram igualmente sobre as origens da forma e da beleza, propondo hipóteses mais ousadas (e também menos consensuais) foram Gregory Bateson e Brian Goodwin. Mas como este post já vai longo, deixo essas propostas para uma segunda incursão ao tema. Por agora gostaria de salientar que existe uma tendência dominante na biologia, mas também na sociedade em geral, que atribui o sucesso evolutivo às soluções utilitárias ou economicistas. Essa visão de matriz racional, materialista e mecanicista parece-me claramente redutora por excluir as dimensões subjectivas e qualitativas facilmente experienciáveis (e portanto incontornáveis) da natureza das coisas e dos seres vivos em particular. Estas dimensões estão na base do conceito de estética ecológica desenvolvido por Bateson (ver p.ex. aqui ou aqui). Os exemplos que citei ilustram bem o contraste e confronto entre formas distintas de ver-conhecer o mundo, que acabam por reflectir-se necessariamente no modo de agir sobre ele. A visão dominante resulta em grande medida, a meu ver, de uma noção de excepcionalismo humano preponderante na cultura ocidental e que se manifesta de forma evidente, não só no pensamento biológico, como também no paradigma socioeconómico dominante. Este último foi não só influenciado pelo racionalismo cartesiano e o mecanicismo newtoniano, como resulta de uma visão utilitarista e produtivista do mundo que despreza valores subjectivos como a colaboração, a empatia ou a criatividade (não-utilitária/não-mercantil).

    A sensibilidade e apreciação estética são excelentes exemplos de capacidades que transcendem e precedem os seres humanos, oferecendo-nos uma visão de um mundo-além-do-humano pleno de qualidades, de intersubjectividades e de reciprocidades. A beleza inútil de que fala Rothenberg é afinal uma qualidade emergente de demorados processos naturais de interacção e co-evolução, acessível e apreciável pelos seres vivos sensíveis e que é fonte de encantamento, de alegria e de prazer.

    Deixo para fechar duas citações. A primeira é de Ferris Jabr, num artigo sobre as origens da beleza animal (que cita o trabalho de Richard Prum): “O que apelidamos de beleza não é simplesmente uma única coisa, nem totalmente intencional nem totalmente aleatória, nem apenas uma propriedade nem um sentimento. A beleza é um diálogo entre o que percebe e o que é percebido. A beleza é a resposta do mundo à audácia de uma flor. É a maneira como uma abelha se lança sobre as pétalas de um ranúnculo; é o cuidado com que um pássaro-jardineiro seleciona uma flor de hibisco; é o impulso de recriar nenúfares usando óleo sobre tela; é o impulso de colocar rosas sobre um túmulo.”

    A segunda é do livro já citado de David Byrne: “Parece que a criatividade, seja o canto das aves, a pintura ou a composição musical, é tão adaptativa quanto qualquer outra coisa. O génio – o emergir de um trabalho verdadeiramente notável e memorável – parece surgir quando uma coisa é perfeitamente adequada ao seu contexto. Quando algo funciona, parece-nos não apenas ser uma adaptação inteligente, mas também ressoa emocionalmente. Quando a coisa certa está no lugar certo, isso toca-nos de alguma forma.”

Nota: como ilustração adicional deste post criei duas listas de reprodução com vídeos do Youtube (com o título 'Survival of the beautiful'), uma com exemplos de atributos visuais em aves (aqui) e a outra com exemplos de atributos sonoros (aqui); recomendo ainda o visionamento duma montagem de imagens de seres marinhos (nomeadamente cefalópodes e cnidários) com música do compositor estónio Arvo Pärt (aqui).

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Bem vindos ao Metaverso – alienação 3.0

O metaverso chegou e até o Facebook já mudou de nome (mas não de ramo de negócio) para se adaptar à nova realidade... virtual (ler aqui ou aqui). Será um mundo de avatares e de aparências, pronto a consumir e a gastar dinheiro... virtual? O Second Life (ainda se lembram?) foi um mero ensaio que surgiu talvez antes do tempo, mas terá servido para treinar alguns dos aspirantes a avatares dos novos mundos virtuais. Na versão portuguesa da entrada da Wikipedia sobre metaverso pode ler-se:Acreditando que o metaverso é o futuro da internet e tecnologia, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, mudou em 2021 o nome de sua empresa para Meta Platforms Inc., ou Meta. Ele diz que a empresa irá abranger tudo o que eles acreditam, focando na construção do metaverso.Acreditar é claramente uma palavra-chave (que já fazia parte do glossário do ‘empreendedorês’). A Microsoft também não podia ficar de fora desta promissora e ‘disruptiva’ inovação tecnológica e já lançou uma parceria com a Accenture para criar escritórios virtuais – projecto Nth Floor.

No vídeo de apresentação do ‘facelift’ do FB (que alguns apelidam de manobra publicitária, por surgir convenientemente numa altura em que o nome da corporação andava nas bocas do mundo por razões menos positivas), o seu CEO surge, ele próprio com um aspecto sinistro de avatar (com um sorriso e gestos forçados de ciborgue misantrópico), a louvar as fascinantes possibilidades do admirável mundo novo virtual. Uma agência de promoção turística islandesa (Inspired by Iceland) não deixou escapar a oportunidade de parodiar aquele vídeo, lançando a sua própria versão recheada de humor escandinavo – ver aqui.

O metaverso integra-se no processo mais alargado da chamada ‘transição digital’, fortemente intensificado com a crise pandémica. Trata-se de mais uma patranha da BigTech para aumentar o seu volume de negócio e o seu poder, promovendo o ‘outsourcing’ de uma aspiração humana que durante séculos era praticada por cada pessoa através da sua própria imaginação, de meditação ou de oração. Mas as consequências mais alarmantes, para além do poder acrescido de controlo e manipulação entregue a grandes corporações, são o aprofundamento da desconexão entre os seres humanos e o mundo natural, bem como a erosão das nossas capacidades de resistir à alienação e de criar as nossas próprias realidades (ler p.ex. aqui ou aquiou ver este vídeo).

Num cândido artigo de opinião no site da SIC-N o autor escreve: “Quando pensamos nas controvérsias que envolvem hoje o Facebook, ficamos apreensivos com a ideia de que o interesse económico dos seus acionistas nem sempre estará alinhado com a utilização de todo este poder a favor do bem. Mas vamos acreditar que seremos capazes de aproveitar tudo o que esta nova internet irá potenciar e limitar os seus eventuais efeitos negativos.” Acreditar, uma vez mais. Na benevolência dum gigante da BigTech? É como acreditar no Pai Natal – ou até em Deus…

Curiosamente (ou talvez não) soube-se este ano que o mesmo FB se propõe fortalecer e alargar as parcerias com diversas igrejas, em particular com várias congregações evangélicas nos EUA (ler p.ex. aqui). Num artigo de opinião no ‘The NY Times’ (é possível ler o artigo na íntegra aqui), a sua autora escreve: “(…) after the coronavirus pandemic pushed religious groups to explore new ways to operate, Facebook sees even greater strategic opportunity to draw highly engaged users onto its platform. The company aims to become the virtual home for religious community, and wants churches, mosques, synagogues and others to embed their religious life into its platform, from hosting worship services and socializing more casually to soliciting money. (…)  The partnerships reveal how Big Tech and religion are converging far beyond simply moving services to the internet. Facebook is shaping the future of religious experience itself, as it has done for political and social life.Trata-se portanto de juntar duas abordagens à evangelização, de natureza diferente, mas alegadamente complementares e com potencial de se fortalecerem mutuamente. Num aparente deslize registado pela jornalista, um pastor de Atlanta justificou a sua parceria com o FB como tendo o objectivo de: “directly impact and help churches navigate and reach the consumer better.” “Consumer isn’t the right word,” he said, correcting himself. “Reach the parishioner better.”

A palavra metaverso foi alegadamente cunhada em 1992 pelo escritor de ficção científica Neal Stephenson na sua novela ciberpunk ‘Snow Crash’. O autor do artigo do ‘The Conversation’ citado acima alerta: “Stephenson’s original vision of the metaverse was very exciting, but also full of possibilities for both online and real world harms, from addiction, to criminality, to the erosion of democratic institutions. Interestingly, Stephenson’s metaverse was mostly owned by big corporations, with governments relegated to being largely insignificant paper-shuffling outposts. Given the current tensions between big tech and governments around the world over privacy, freedom of speech and online harms, we should seriously consider what kind of metaverse we want to create, and who gets to create, own and regulate it.

Vamos querer embarcar em mais esta sedutora aventura tecnológica acreditando na alegada benevolência das grandes corporações que a querem providenciar e vender?


Nota final: usei no título a expressão ‘alienação 3.0’ para enfatizar que já tínhamos experimentado vagas anteriores de outras formas de alienação, que vão desde as formas de escapismo mais convencionais – recorrendo p.ex. a álcool, drogas ou outros estupefacientes (1.0) -, até às ferramentas mais sofisticadas introduzidas no século XX por via de diversas tecnologias – mass media, marketing e tecnologias digitais de 1ª geração (2.0).

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Resistir à sexta-feira negra

Aproxima-se mais uma ‘Black Friday’ (BF) alimentada pela habitual propaganda agressiva e pelo vício do consumismo, que nem a pandemia atenuou - ver p. ex. meu post de 2019. Esse post inclui o link para um video que explica a origem da BF, assim como os seus impactos ambientais e sociais, propondo formas de lhe resistir. Este ano, o mesmo autor do vídeo anterior, fez um outro sobre o decrescimento como caminho alternativo para superar o consumismo - do qual depende o actual sistema capitalista, que apregoa o 'crescimento verde' como alegada solução para a sua própria insustentabilidade.


O sobreconsumo, no caso da moda ('fast fashion'), gera toneladas de roupa rejeitada - incluindo roupa usada que foi doada! - e que se acumula em países do sul global (África, Ásia e América do Sul) – ver p.ex. este vídeo. No deserto do Atacama há agora autênticos montes de roupa que não é reciclada - ver notícias recentes com imagens impressionantes aqui ou aqui, ou ainda este vídeo.


Como escrevi no post de 2019, a escolha também é nossa já que podemos sempre dizer não e aderir ao ‘Dia Mundial sem Compras’ ou ‘Buy Nothing Day’. O site Adbusters propõs este ano uma nova campanha - #TrueCost - para incluir os custos ambientais nos preços dos produtos comerciais, reorientando assim o consumo e gerando fundos que poderão depois ser redistribuídos de forma justa e democrática.

sábado, 9 de outubro de 2021

Cadeia global de abastecimento de mercadorias: o elo mais fraco?

Much like we saw in the securitisation-driven mortgage market in 2008, what was once a world of overabundance could quickly turn to one of intense scarcity.Peter Atwater

“(…) the current [global supply chain] model has proven to be problematic and risk intense. Shorter supply chains will benefit the rejuvenation of local economies as they will have greater resilience and flexibility, and reduced environmental footprint.Sarah Schiffling

Foram recentemente noticiadas nalguns órgãos de informação, embora de forma discreta, as faltas de combustíveis e de alguns alimentos no Reino Unido, que já motivaram pedidos de apoio logístico ao Exército por parte do governo britânico – ver p.ex. aqui ou aqui. Segundo os comentadores citados nestas notícias, o problema deve-se à falta de trabalhadores no sector de transportes, agravada pelo Brexit e pela pandemia, mas também a picos de procura, intensificados pelo pânico induzido pelas próprias notícias. Claro que a situação já serviu de arma de arremesso político, com vários países europeus a acusarem o Reino Unido de estar a pagar o preço da sua saída da UE – ver p.ex. aqui. No entanto, esta situação não está circunscrita ao Reino Unido e acontece também noutras partes do mundo, onde se verificou a acumulação de mercadorias e de navios porta-contentores nos grandes terminais portuários da China e dos EUA, originando escassez quer de produtos em supermercados, quer de componentes electrónicos para automóveis, p.ex. nos EUA – ver aqui ou aqui. Neste último artigo do Financial Times, o autor defende que os problemas na cadeia de abastecimento global se devem aos modelos de gestão ‘just-in-time’ que foram adoptados para baixar custos (e maximizar os lucros), mas que tornaram o sistema demasiado frágil, traçando um paralelo com o papel do recurso à securitização (‘securitisation’) na crise financeira de 2008.

Noutras análises recentes o problema é atribuído às limitações na mobilidade dos trabalhadores do transporte marítimo e terrestre internacional devidas à pandemia – ver p.ex. aqui ou aqui. Várias organizações internacionais ligadas aos transportes alertaram os dirigentes mundiais para esta situação e o secretário-geral da Federação Internacional dos Trabalhadores dos Transportes (IFT), citado neste último artigo, afirmou: “The global supply chain is very fragile and depends as much on a seafarer [from the Philippines] as it does on a truck driver to deliver goods. The time has come for heads of government to respond to these workers’ needs.Trata-se portanto de um problema de logística que expõe as fragilidades do sistema capitalista global, como enfatizou António Guerreiro num artigo de opinião recente. O autor defende que a instabilidade na rede de distribuição global se deve a inovações tecnológicas e estratégias do sistema capitalista focado na maximização do lucro, tornando-a susceptível ao decrescimento demográfico e à falta de mão-de-obra provocada pelas actuais restrições à mobilidade dos trabalhadores. A fragilidade daquela rede já tinha sido evidenciada este ano quando um dos maiores navios porta-contentores do mundo (o Ever Given) encalhou e bloqueou o Canal do Suez durante quase uma semana, tendo então provocado alguns sobressaltos na cadeia de abastecimento global – ver p.ex. aqui ou aqui. Torna-se pois cada vez mais evidente a falácia da desmaterialização da economia prometida pelo capitalismo digital!

Poderá então estar iminente um colapso da cadeia de abastecimento global de mercadorias? Há quem pense que sim, como o autor do blog ‘The economic collapse’ (Michael Snyder), que escreveu vários ‘posts’ recentes sobre este assunto – ver p.ex. aqui ou aqui. Mas será só uma questão de escassez de mão-de-obra ou de má gestão do transporte global de mercadorias? Ou será que já estamos a ver os sinais daquilo que alertavam há quase 50 anos os cientistas do MIT que escreveram o ‘best-seller’ ‘The Limits to Growth’? Como referi num 'post' anterior, os autores daquele estudo foram na altura acusados de alarmismo por preverem que o sistema económico global, baseado no crescimento permanente da produção e do consumo, entraria numa fase de instabilidade ou de colapso algures no séc. XXI, se não ocorresse uma mudança de paradigma económico. Os decrescentistas também já vêm alertando há vários anos para as disfuncionalidades da rede do comércio internacional, defendendo a redução de escala e a relocalização da produção para reduzir as redes de transporte de mercadorias e estimular as economias locais, tornando-as assim mais resilientes e diminuindo os impactos ambientais. A insustentabilidade ecológica e social do sistema económico e produtivo global é aliás a crítica central dos defensores do decrescimento, que preconizam uma mudança sistémica radical para evitar o colapso societal ou minimizar os seus danos. Algo que os poderes instalados querem evitar a todo o custo. Como afirma António Guerreiro: “Decrescimento, seja ele em que domínio for, é o que o capitalismo global não consegue incorporar.

P.S. Descobri mais recentemente (Dez 2021) um post do autor britânico Paul Kignsnorth que partilha a minha tese de que as actuais quebras na cadeia de abastecimento global são sintomas do colapso do sistema económico previstos pelos autores de 'The limits to growth', evocando um conto de E.M. Forster intitulado 'The Machine Stops' escrito em 1909.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A verdade da mentira: as narrativas mediáticas sobre o Afeganistão

Vinte anos depois do 11 de Setembro, a humilhação americana prova que uma invasão militar e uma guerra para impor o “nosso modo de vida” acabou a fortalecer os fundamentalistas. Que a Administração americana tenha sido apanhada de surpresa é um atestado de ignorância relativamente ao terreno que ocuparam durante 20 anos. Ana Sá Lopes

The vast majority of the money the US spent on that country in the subsequent 20 years was to pay for the bombs they dropped on it. The money spent on building the place up was tiny in comparison. And much of it was lost to corruption. Juan Cole

America’s corporate media are ringing with recriminations over the humiliating U.S. military defeat in Afghanistan. But very little of the criticism goes to the root of the problem, which was the original decision to militarily invade and occupy Afghanistan in the first place. Medea Benjamin and Nicolas J.S. Davies

A retirada americana do Afeganistão em Agosto, depois de 20 anos de ocupação militar, teve cobertura mediática global e foi inicialmente noticiada como uma humilhação para os EUA, com inevitáveis comparações com a retirada desastrosa do Vietnam em 1975 (ver p.ex. aqui ou aqui). Segundo a primeira notícia, “Depois de biliões de dólares e mais de 2 mil mortos entre os soldados norte-americanos, bem como as mortes de dezenas de milhares de civis afegãos, Biden considerou que os Estados Unidos tinham poucas hipóteses de transformar uma nação em grande parte tribal e subdesenvolvida.” O presidente terá afirmado: “A ideia de podermos usar as nossas forças armadas para resolver todos os problemas internos que existem no mundo não está dentro das nossas capacidades”. Depois de décadas em que esse tem sido o pretexto usado pelos EUA para justificar a sua política externa militarista e imperialista, aquela afirmação é no mínimo hipócrita. Biden terá ainda deixado a pergunta: “A questão é a seguinte: está em jogo o interesse vital da América ou o interesse próprio de um dos nossos aliados?”. No editorial de Ana Sá Lopes, a autora apelida de patética a afirmação de ‘missão cumprida’ por parte do secretário de Estado americano, Antony Blinken, lembrando que o presidente afegão fugiu do país um dia após o presidente Biden o ter instado a governá-lo.

Mas muito rapidamente a narrativa mediática mudou o seu foco para a tomada de Kabul pelos Taliban, para as imagens do aparente desespero de milhares de afegãos a tentarem fugir da capital e para a instauração de uma nova cruzada fundamentalista pelas forças que tomaram o poder, em particular contra as mulheres. A campanha de demonização da nova tomada do poder pelos Taliban pelos media foi denunciada por Patrick Martin, num artigo de opinião onde escreve: “all of the tropes employed by the corporate media to ‘sell’ to world public opinion the invasion and occupation of Afghanistan in 2001, no matter how moth-eaten and worn out, are being revived. This serves two purposes: to paper over the war crimes carried out by the US in the past and to prepare public opinion for an intensification of imperialist pressure on the war-ravaged population.”

Esta aparente tentativa de desviar a atenção da incapacidade (ou incompetência) dos militares americanos em cumprirem de facto a sua missão e de branquear a destruição e sofrimento que causaram naquele território com o pretexto da alegada 'Guerra ao Terror', não impediu que vários artigos denunciassem a corrupção interna que deu milhões de dólares dos contribuintes americanos a ganhar ao denominado complexo militar-industrial, que inclui as diversas empresas de armamento e de material militar – ver artigos de Juan Cole, de Chris Hedges e de Medea Benjamin & Nicolas J.S. Davies. Neste último artigo, os autores denunciam também as tentativas de silenciar as vozes que, durante anos, reclamaram a paz e a retirada das tropas americanas do Afeganistão. A hipocrisia dos aliados europeus, que apoiaram activamente a 'Guerra ao Terror', também não passou desapercebida – ver p.ex. aqui ou aqui –, mas o mais chocante foram os anos sucessivos de mentiras do próprio governo americano sobre a ocupação do Afeganistão, ecoadas pelos media dominantes, denunciados p.ex. num artigo recente do jornalista Glenn Greenwald.

As tentativas de abafar ou censurar as opiniões que criticam ou condenam a actuação das sucessivas Administrações norte-americanas tiveram um novo episódio com o anúncio recente da prisão preventiva de um oficial dos fuzileiros navais (U.S. Marine Lt Col Stuart Scheller) por ter publicado vídeos seus no Facebook onde faz afirmações alegadamente danosas para as chefias militares sobre a retirada do Afeganistão – ver p.ex aqui. Esta notícia serve de mote a um vídeo recente do comediante britânico Russell Brand, onde denuncia as reiteradas tentativas dos poderes instalados de silenciar quem os põe em causa, dando também como exemplo o caso de Julian Assange, acossado há anos pelas autoridades norte-americanas, recordando um seu depoimento sobre as verdadeiras motivações da ocupação americana do Afeganistão: alimentar os empreiteiros militares e os senhores da guerra com milhões de dólares do erário público.